Em 2005, o Partido dos Trabalhadores completou 25 anos. As edições 61 (fev/mar) e 62 (ab/mai) de Teoria e Debate trazem um balanço sobre as conquistas ocorridas ao longo
deste período, bem como o papel que a legenda deve desempenhar nos próximos anos. Dirigentes partidários e integrantes da equipe do governo Lula reativaram a aura romântica que contaminava intelectuais, sindicalistas e representantes de movimentos sociais, no fim da década de 1970 e início dos anos 1980, quando falavam sobre o ineditismo em torno da criação do PT.
Os autores escalados para discutir o assunto – Marco Aurélio Garcia (assessor especial da Presidência da República e membro do Diretório Nacional do PT), José Genoino (presidente nacional do partido), Raul Pont (membro do Diretório Nacional), Valter Pomar (membro do Diretório Nacional) e Tilden Santiago (embaixador do Brasil em Cuba) – reafirmaram a identidade do PT com o socialismo, destacaram seu “caráter estratégico”, “democrático” e “plural”, que o colocou na vanguarda dos partidos de esquerda do mundo.
José Genoíno afirma:
O PT foi uma superação da esquerda tradicional porque combinou a luta social com a luta institucional (...) evoluiu em relação ao modelo tradicional da esquerda porque as definições partidárias nunca foram [definidas] a partir de uma resolução única (...) foi um processo que, durante certo tempo, chamamos de consensos progressivos na experiência petista (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 62, 2005, p. 4-5).
Na opinião de Raul Pont:
Provamos ser possível construir um partido de massas que se reafirmava em seus congressos como socialista, com direito de organização de tendências e com respeito à diversidade de opinião (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 62, 2005, p. 8).
Todavia, a história mostra que o PT não conseguiu equilibrar a disputa eleitoral com a atuação nos movimentos sociais e na relação com as bases. Ao colocar as eleições em primeiro plano, o partido abriu mão de princípios e valores e se adaptou ao ambiente. Isto já era sabido e percebido desde os anos 2000. É importante ressaltar que o ponto de equilíbrio é um desafio para qualquer organização, independente da filiação ideológica.
O princípio do respeito à diversidade de opinião também só funciona em termos. Isto ficou especialmente claro durante o processo que culminou com a expulsão da senadora Heloisa Helena e dos deputados Luciana Genro, João Batista (Babá) e João Fontes. Eles se rebelaram contra ações do governo e decisões do partido, sob a alegação de que PT e governo
petista é que haviam mudado de posição. O caso, aliás, apesar da ampla repercussão na mídia convencional, não foi discutido em Teoria e Debate.
Os textos selecionados nestas duas edições focaram a mutação do PT. O debate iniciou na edição 61, com Marco Aurélio Garcia, do Campo Majoritário. Para analisar a mudança, ele recorre à gênese e diz que o PT faz parte da terceira geração de partidos de esquerda no continente. A primeira tinha como referencial a Revolução Russa de 1917 e a evolução posterior da União Soviética e do Partido Comunista da União Soviética. A segunda, da esquerda revolucionária, correspondia ao advento da Revolução Cubana. Na terceira geração, não há um paradigma revolucionário nem um reformista. O PT, portanto, desde a formação, situava-se como esquerda social sem referência político-ideológica precisa.
Sua evolução ocorreu num momento de declínio do comunismo e da social- democracia, de ascensão do neoconservadorismo e da globalização. Em 1982, o partido ainda tinha uma postura eminentemente ideológica. Disputou a eleição sob o embalo do slogan “Vota no 3 que o resto é burguês” e elegeu oito deputados no país. O ano seguinte marcou o inicio de uma rearticulação interna que levou o PT a optar entre ser um partido político ou uma “frente” de organização. Ganhou a primeira alternativa.
A economia é apontada como a variável mais importante no processo de transformação do partido. Marco Aurélio Garcia argumenta que o PT não acompanhou nem refletiu como deveria as mudanças da economia e da sociedade, apesar das atualizações ocorridas no interior do partido em 1994, 1998 e em 2001.
Em 2002, ao perceber o que encontraria no Palácio do Planalto, Lula assinou Carta ao Povo Brasileiro, assumindo compromissos de governo que introduziam temas publicamente ausentes nas preocupações partidárias. Mas o documento, na avaliação de Marco Aurélio Garcia, não deveria ser lido como um “calmante aos mercados” e sim como advertência, especialmente aos eleitores tradicionais, sobre as dificuldades que o partido enfrentaria no exercício do poder. O assessor do presidente considera que falta compreensão por parte da esquerda sobre a condução da política econômica do país.
Ter evitado a catástrofe econômica pode parecer pouco. Não o é. O inconformismo de parte da base tradicional de esquerda decorre da subestimação do trabalho realizado pelo governo, mas também da incapacidade deste (e do PT) de explicitar e debater suas opções (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 61, 2005, p. 48).
Vale lembrar que, na Carta, Lula reconhecia que o atual modelo havia se esgotado, comprometia-se com um projeto alternativo de crescimento e proclamava: “O povo brasileiro quer mudar pra valer. Recusa qualquer forma de continuísmo, seja ele assumido ou mascarado. Quer trilhar o caminho da redução de nossa vulnerabilidade externa pelo esforço conjugado de exportar mais e de criar um amplo mercado interno de consumo de massas”28. Em certa medida, houve um continuísmo administrativo.
A economia mundial é dinâmica. O cenário de 1989, 1994 ou 2002 não é nem poderia ser igual a qualquer outro. A evolução tem que ser acompanhada especialmente pelos que têm planos ou projetos político-administrativo para o país. O texto do Marco Aurélio Garcia leva a crer que o PT não acompanhou o dinamismo de um mundo que gira e que, por este motivo, o partido e o governo se adaptaram ao ambiente. Optaram pela institucionalidade em vez da propor uma ruptura ao modelo posto, como desejavam parte dos petistas e simpatizantes.
Apesar da mudança não ter se limitado à questão econômica, o texto do assessor da Presidência não destaca as contradições políticas que se revelaram ao longo dos anos nem discute as alianças e os conchavos políticos feitos pelo PT e pelo governo Lula. Este foi um dos espaços que se desenhou a crise política de 2005.
Entre petistas e simpatizantes já havia uma clara insatisfação em relação às alianças firmadas mesmo antes da formação da chapa Lula-José Alencar (PL), em 2002, ou depois, com a “troca” de apoio com adversários políticos históricos, como Antonio Carlos Magalhães, José Sarney, Anthony Garotinho. No momento em que Lula assume o governo e amplia sua base de sustentação no Congresso Nacional, o mal-estar dentro do PT e entre os simpatizantes ficou ainda mais evidente.
O contraponto ao Campo Majoritário aparece na “voz” da esquerda petista. Raul Pont observa que o PT não passou incólume em 25 anos. Neste período, vem sendo desafiado pela cooptação e tentado a se envolver na teia de um Estado capitalista que gostaria de transformar. Cresceu por meio de vitórias eleitorais, mas não conseguiu consolidar projetos que durem para além de um mandato. Com Lula na presidência, o partido teria percebido que há uma enorme distância entre gerar expectativas e governar de forma a atender essas expectativas. Adotou uma política de alianças que o levou a abdicar dos programas e projetos sociais dos quais era símbolo.
28 O texto está disponível na íntegra no endereço eletrônico:
Para Pomar, (2008) o PT ficou sem combustível teórico e programático, precisa de uma síntese política que o oriente e de uma estratégia para o médio e longo prazo. Deve recuperar o socialismo como objetivo real, reafirmar-se como instrumento de disputa hegemônica e de luta pelo poder, preservar a autonomia frente ao governo e apontar caminhos para um novo tipo de governabilidade. Se não mudar, restarão ao partido apenas duas alternativas: ou se mantém no governo como administrador do status quo ou os beneficiários do status quo afastam o PT do governo, pondo fim ao que seria apenas um hiato bizarro de nossa história republicana.
A discussão em torno do socialismo não é nova e divide o partido desde a sua fundação. O socialismo petista é difuso, não há definição do modelo ideal nem dos caminhos para implantá-lo na sociedade. Talvez, esta indefinição – somada à crise do socialismo real e à teoria de que os partidos políticos se transformam e se adaptam ao ambiente (Panebianco) – tenha colaborado para que governo Lula optasse por um modelo de desenvolvimento econômico sem rupturas e mais próximo do modelo neoliberal.
Assim como ocorre nos meios de comunicação de massa, Teoria e Debate escalou personagens do Campo Majoritário e da esquerda do partido para mostrar as divergências de pensamento em relação à transformação do PT. Ponderou os dois lados da questão e ofereceu ao leitor diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema. Entretanto, a falta de homogeneidade de idéias e pensamentos impede que a publicação tenham um posicionamento claro e forme uma opinião consolidada sobre o assunto.
Relação PT versus governo
Ao longo da história, o Partido dos Trabalhadores construiu uma imagem de ético, moral, transparente, coerente, democrático e plural. Chegou a ser chamado de denuncista, porque usava o parlamento como espaço para fazer denúncias, e assembleísta, dada sua vocação para longas reuniões em que discutia cada nova ação. Enquanto estava na oposição, ocupava uma posição de destaque, mas, no governo federal, “abdicou” (pelo menos parte dos petistas) de uma das suas maiores qualidades: o exercício da crítica.
Em 2003, a direção nacional foi esvaziada. Além do presidente (José Dirceu) e do secretário-geral (Luiz Dulci), migraram para o governo Lula importantes lideranças, entre
elas, Luiz Gushiken, Ricardo Berzoini, Antonio Palocci, Tarso Genro, Olívio Dutra, Benedita da Silva, Marina Silva e Humberto Costa.
Neste novo cenário, o PT não soube equilibrar a ação partidária e a relação com o Executivo. Mostrou que não precisava de um cargo público para “integrar” o governo. Trabalhou pelo alinhamento da bancada, eliminou parte da oposição interna e garantiu à gestão Lula votos para seus projetos. Dentro de um partido que é ideologicamente plural, a opção por uma atuação governista deixou alguns grupos insatisfeitos.
José Genoino admitiu que falta equilíbrio na relação entre partido e governo, sob alegação de que esta é uma tarefa difícil e dialética:
O partido tem que dirigir o governo porque os que estão no governo são petistas, não se licenciam para ser do governo. Nem nós estamos entrando num governo que é nosso. Há acertos e erros, e esse é um dos pontos a se refletir muito nessa grande experiência que é o governo Lula (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 62, 2005, p. 5).
Ele afirma que o PT precisa revisar certas práticas, principalmente dos últimos períodos, e se revigorar. Ao mesmo tempo, defende que é necessário garantir a governabilidade do governo e conviver com relação, que é tensa por sua própria natureza, de forma paciente. A entrevista concedida a Hamilton Pereira mostra que Genoino e o PT ainda não encontraram um meio termo que evite a anulação do partido e, ao mesmo tempo, não atrapalhe a administração Lula.
No que se refere à necessidade de o partido se revigorar e revisar sua práticas, há uma convergência em relação às opiniões da esquerda petista. Chico Alencar, parlamentar, que meses depois trocaria o PT pelo PSOL, avalia que o partido foi reduzido a um departamento do governo, “estatizado e acrítico”. Deixou-se dominar pelo pragmatismo, perdeu sua âncora ideológica e a nitidez de projetos. Tornou-se um espaço onde “prosperam a pilhagem e a desmoralização das instituições públicas e da própria política”. Por conta de casos como o de Waldomiro Diniz, não pode mais bradar o aforismo “quem não deve não teme” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 61, 2005, p. 12-13).
Os textos de Raul Pont e Tilden Santiago têm uma lógica parecida. Pont lamenta que o PT tenha aberto mão da defesa de questões com as quais era identificado, como o antiimperialismo, a soberania nacional, a denúncia da aliança da classe dominante com o capital internacional, a ética e a moral na política e a luta por uma democracia participativa. Defende que estas bandeiras devem ser recuperadas em nome da identidade política. Tilden
Santiago destaca que a reputação do PT como partido ético, transparente e democrático está em jogo. Para recuperá-la, é preciso resgatar princípios, valores e compromissos assumidos ao longo da história e fazer com que a democracia petista contemple todos os filiados e opere sem sufocar as minorias regionais ou de tendências.
Valter Pomar (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 62, 2005, p.11) considera que o desejo de mudança no interior do partido só não seria percebido por três setores: os que estão satisfeitíssimos com o partido, os que usam o PT como trampolim para decolar a carreira política e os que reputam os descaminhos “traidores” Quem são os traidores? Há traidores no partido, mas assim como faria Lula meses depois, ao se desculpar pelo envolvimento do partido/governo nos escândalos políticos de 2005, Pomar não cita nomes. É possível que esta seja uma limitação editorial sobre até onde pode ir o “fogo amigo”.
Para Cláudio Couto (1994, p.19), é natural a existência de atritos entre as lideranças “no governo” e os militantes que não têm postos de responsabilidade governativa. Estes atritos resultam não apenas do fato de que os integrantes do PT pertencem a diferentes linhas de pensamento ideológicas, mas, especialmente, porque há uma divisão entre ser do governo e ficar fora dele. Quando um partido assume o governo, percebe que precisa deixar de lado certos princípios partidários em nome de uma maior eficácia administrativa imediata.
Foi o que fizeram os representantes do PT na administração federal. Sem pretender julgar a eficiência do governo nem dos projetos encaminhados pelo Executivo ao Congresso Nacional, é possível recordar casos como o da aprovação da reforma da Previdência, que, na gestão anterior, não contava com o apoio do PT no projeto do governo tucano.
De fato, há um tensionamento natural entre os dois e pode até ocorrer uma certa submissão do partido em relação ao governo. Não se espera que o PT atrapalhe a governabilidade, como fez em alguns momentos na gestão de Luiza Erundina, em São Paulo, mas o partido não deve deixar de cobrar, propor e fazer sugestões ao governo Lula. Precisa estabelecer a diferença entre um governo administrado pelo PT e o partido político PT.
Avaliação do Governo Lula
No que diz respeito à avaliação de Lula na Presidência, as opiniões são convergentes entre os integrantes da direção do PT e os membros do partido que ocupam uma função no
Executivo, mas divergentes em relação aos que estão fora do governo. Dois governistas (Luiz Gushiken e Paul Singer) e um representante da esquerda do partido (Chico Alencar) foram escalados por Teoria e Debate para fazer o balanço do período.
Na entrevista concedida a Ricardo de Azevedo, Luiz Gushiken (ministro das Comunicações) falou da herança recebida do governo tucano e comparou a situação do Brasil a um Titanic prestes a fundar: “o Titanic representa aqueles indicadores que já estavam postos no debate público, como o risco país, a inflação em ascensão, o déficit público etc, e que foram controlados pelo governo Lula” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 61, 2005, p. 4).
Do início ao fim da entrevista, o ministro faz elogios ao desempenho do governo e do próprio presidente. Afirma que há uma linha divisória entre a administração de Fernando Henrique Cardoso e a de Lula, principalmente, no que diz respeito à política externa. “Não é pouca coisa o G-20 que o nosso governo conseguiu capitanear, não é pouca coisa essa ação de desbravamento que Lula fez na Ásia, Oriente Médio e na África com um objetivo claro: queremos abrir mercados”. Por conta de ações como estas, “não é à toa que Lula é um líder mundial” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 61, 2005, p.5).
O governo é bem avaliado em várias áreas: inclusão social e econômica, gestão dos problemas sociais, desempenho econômico, relação com o Congresso Nacional – cuja governabilidade institucional teria sido, segundo ele, garantida dentro dos mecanismos próprios da democracia brasileira – e no programa de combate à corrupção. Sobre este último, destaca a articulação de forças-tarefas, mecanismo considerado inédito na Polícia Federal, tanto em quantidade como na forma, medidas que levaram todo mundo a saber que “hoje, não se brinca com esse governo” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 61, 2005, p. 8).
A propaganda do governo federal que não aparece na entrevista de Gushiken, faz-se presente no artigo de Paul Singer. Ele imputa ao atual governo a responsabilidade por uma “revolução social” que estaria em processo no Brasil e que está sendo conduzida, a partir da implantação e/ou oxigenação de programas emancipatórios. Cita como exemplos o aumento dos recursos para famílias assentadas, a mudança, para melhor, no modelo dos assentamentos, o aumento da verba disponível para a agricultura familiar, a ampliação da oferta de crédito para a população de baixa renda e a criação de um programa de inclusão bancária.
O economista argumenta que a política monetária do país limitou o gasto social do governo, mas não impediu, embora tenha dificultado, a realização de uma política de assistência social. Admite ser justo criticar os enormes juros que o oligopólio bancário impõe
a produtores e consumidores em geral, mas alerta que convém considerar, também, que “os agricultores de baixa renda, os associados de cooperativa de crédito, os depositantes em contas simplificadas, os assalariados com carteira assinada e os aposentados passam a ter crédito a juros bem menores, graças à política monetária deste governo” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 61, 2005, p.17). O governo Lula estaria, portanto, cumprindo o que prometeu na área social.
O que falta, então, para que todos se rendam ao desempenho do governo petista? Na avaliação de Singer, falta uma comunicação mais efetiva das ações do governo. O economista considera que, dentro da miríade de discussões sobre o que o governo faz ou deixa de fazer, há um buraco negro que impede que as pessoas conheçam, a não ser fragmentariamente, o que está sendo feito a esse respeito. Isto é: o público ignora o conjunto de programas de combate à pobreza e de inclusão social que estão sendo executados, o que impede que eles possam ser apreciados, criticados ou elogiados. Esse seria o lado oculto do governo. Singer afirma estas informações deveriam ser conhecidas para que a opinião pública (sobretudo de esquerda) pudesse julgar o governo federal de forma justa e adequada.
Sem em “voz” e sem força política dentro do PT, a esquerda do partido, ao contrário de Gushiken e Singer, não vê com bons olhos a condução da política econômica, a política de alianças nem o desempenho do governo na questão social. Chico Alencar observa que o governo navega em um “mar de contradições” e está longe de cumprir o que prometeu aos petistas e simpatizantes em 25 nos de história.
Ele observa que quando estava na oposição, o PT gerou expectativas de que iria desconcentrar a renda, dobrar o salário mínimo e dar uma atenção especial às questões agrária, indigenista e ambiental. Questionaria (ou romperia) com o Fundo Monetário Internacional, iria interferir na taxa de juros e manter uma relação transparente e de negociação com os movimentos sociais e reivindicatórios.
Na avaliação do parlamentar, isto não aconteceu. Ao contrário, o governo não apenas renovou os acordos com o FMI como até ampliou o superávit fiscal para além do exigido. Manteve as taxas de juros entre as mais altas do mundo, deixou que a relação com os movimentos reivindicatórios, sobretudo com os funcionários públicos, fosse tensa e nebulosa, e, ainda por cima, optou por uma governabilidade no Congresso Nacional que acabou por aproximar o PT de inimigos históricos.
Parafraseando Leonardo Boff, o deputado reclama que “aquele sobrevivente da tribulação histórica dos humilhados e ofendidos, ao chegar lá, trocou de agenda: as elites nacionais e mundiais conseguiram trazê-lo para a sua lógica, para o modelo neoliberal dominante” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 61, 2005, p.11). Faltou, portanto, coerência entre o que foi prometido pelo PT e o que foi feito pelo governo Lula.
Será que Chico Alencar esperava que Lula fizesse um governo mais próximo de uma gestão revolucionária? Nem mesmo Erundina, que se situava mais à esquerda no partido, conseguiu seguir este caminho. Vale lembrar que, naquele tempo, o PT ainda não tinha se transformado. No poder, o grupo que conduziu Lula à Presidência colocou em prática o que já havia sido manifestado no nível do discurso e ratificado na Carta ao Povo Brasileiro.