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Saber se o Estado é ou não obrigado a denunciar a lide do agente público que ocasionou o dano já foi muito discutido porque o artigo 70, inciso III do Código de processo Civil
determina que seja feita a denunciação à lide àquele que estiver obrigado, pela lei ou pelo contrato, a indenizar, em ação regressiva, o prejuízo do que perder a demanda.
Na reparação do dano ao contribuinte, o responsável é o Estado e, no caso de ser procedente a ação, Este tem a obrigação constitucional de cobrar regressivamente do servidor público, motivo pelo qual, Diógenes Gasparini242 sustenta a aplicabilidade do artigo.
O ponto não é pacífico entre os doutrinadores, tanto que alguns243 defendem que não pode ser aplicado o artigo 70, inciso III do Código Processual Civil porque: a responsabilidade estatal é tratada em dispositivo próprio (artigo 37, §6º da Constituição); os fundamentos do pedido são diversos, onde a responsabilidade do agente é subjetiva e do Estado é objetiva; e pelo fato que a Constituição permitiu ao cidadão ser ressarcido do dano independente de provar a culpa ou dolo do agente, não sendo coerente o lesado aguardar o conflito entre Estado e se agente, fundado na teoria da culpa.
Maria Sylvia Di Pietro possui um terceiro posicionamento, adotando o pensamento de Yussef Cahali, entende que dependendo do caso, pode ou não ser aplicado o referido artigo, resumindo da seguinte forma:
1. quando se trata de ação fundada na culpa anônima do serviço ou apenas na responsabilidade objetiva decorrente do risco, a denunciação não cabe, porque o denunciante estaria incluindo novo fundamento na ação: a culpa ou dolo do funcionário, não arguida pelo autor; 2. quando se trata de ação fundada na responsabilidade objetiva do Estado, mas com arguição de culpa de agente público, a denunciação da lide é cabível como também possível o litisconsórcio facultativo (com citação da pessoa jurídica e de seu agente) ou a propositura da ação diretamente contra o agente público.244
Em estudo sobre a matéria, Carvalho Filho acrescenta que a teoria da facultatividade da denunciação à lide é o que vem prevalecendo nos tribunais brasileiros ressaltando que esta é o intuito da lei n.º 8.112/90, bem como teve como escopo o mesmo propósito do Código de Defesa do Consumidor.
Aliás, o intuito de proteção ao hipossuficiente em relações jurídicas de caráter indenizatório foi o mesmo adotado pelo Código de Defesa do Consumidor, que, na relação de regresso, exige processo indenizatório autônomo, vedando expressamente a denunciação à lide. Nas hipóteses em que o comerciante é solidariamente responsável com o fabricante, construtor, produtor ou importador, o consumidor
242 GASPARINI, Diógenes. Direito administrativo, 2006, p. 612.
243 Os defensores desta corrente são: Hely Lopes Meirelles, (MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro, 2000, p. 562); Celso Antônio Bandeira de Mello (MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo, 2012.p. 466); Lucia Valle Figueiredo (FIGUEIREDO, Lucia Valle. Curso de direito administrativo. 3. ed. São Paulo: revista dos tribunais, 1996, p. 181); Weida Zancaner (ZANCANER, Weida. Da responsabilidade extracontratual da administração pública, p. 62) e Vicente Greco Filho (GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro. 13. ed. São Paulo: saraiva. v. I, 1998, p. 146).
pode demandar qualquer deles e, para não ser prejudicado, a lei impõe que aquele que pagar a indenização deve exercer seu direito de regresso contra o outro responsável em ação diversa da ajuizada originariamente pelo consumidor.245
Diante das controvérsias que o referido tema nos traz, Odete Medauar elabora uma comparação didática das posições favoráveis e contrárias à denunciação da lide que merecem menção.
Em sentido contrário à denunciação salientam-se as seguintes justificativas, dentre outras: a) a CF, art. 37, § 6º, responsabiliza o Estado pelo ressarcimento à vítima do dano, com base na prova do nexo causal; aqui se trata de relação de responsabilidade entre poder público e vítima (ou cônjuge e herdeiros), descabida a interferência de outra relação obrigacional; portanto, o art. 70, III, do Código de Processo Civil deixa de prevalecer ante a regra constitucional; b) necessidade de priorizar o direito da vítima, evitando demora no andamento do processo pelo ingresso de mais um sujeito; c) ingerência de um fundamento novo na demanda principal. Esta parece ser a orientação a que mais se inclina a jurisprudência. Em sentido favorável à denunciação existe também uma farta jurisprudência, argumentando-se o seguinte: a) o art. 70, III, do Código de Processo Civil alcança todos os casos de ação regressiva; b) por economia processual e para evitar decisões conflitantes, a responsabilidade do agente pode ser apurada nos autos da ação de reparação de dano; c) recusar a denunciação à lide do agente cerceia um direito da Administração.246
Ao buscarmos amparo nas decisões do STF, encontramos a teoria sustentada por Alexandre Freitas Câmara que defende que o caso deveria ser enquadrado como chamamento ao processo:
A nosso juízo, e assumindo os riscos de uma posição isolada, o fato de o Estado, civilmente responsável, ter direito de regresso em face de seu agente que tenha causado o dano, não exclui a responsabilidade deste perante o lesado, a qual decorre do art. 927 do Código Civil de 2002. Assim sendo, nada impediria que se formasse um litisconsórcio (facultativo, obviamente entre a pessoa jurídica de direito público e seu servidor (o que, aliás, já foi admitido pelo Supremo Tribunal Federal, relator o Ministro Cunha Peixoto, RE 90.071, j. 18.8.1980, v.u., DJU 26.9.1980). Em prevalecendo tal entendimento, há que se reconhecer a solidariedade entre a pessoa jurídica de direito público e seu agente, o que torna inadequada a denunciação da lide, revelando-se cabível, no caso, o chamamento ao processo.247
Tecidos os comentários acima, ressaltamos que o Superior Tribunal de Justiça já pacificou seu entendimento, declarando que a denunciação da lide ao agente do Estado em ação fundada na responsabilidade prevista no art. 37, § 6º, da CF/88 não é obrigatória.
Processual civil e administrativo - responsabilidade civil do estado - denunciação da lide - direito de regresso - art. 70, III, do CPC. 1. A denunciação da lide só é obrigatória em relação ao denunciante que, não denunciando, perderá o direito de regresso, mas não está obrigado o julgador a processá-la, se concluir que a tramitação de duas ações em uma só onerará em demasia uma das partes, ferindo os princípios da economia e da celeridade na prestação jurisdicional. 2. A denunciação da lide ao agente do Estado em ação fundada na responsabilidade prevista no art. 37, § 6º, da CF/88 não é obrigatória, vez que a primeira relação jurídica funda-se na
245 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de direito administrativo, 2012, p. 577.
246 MEDAUAR, Odete. Direito administrativo moderno. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, p. 371. 247 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil. v. I. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2003, p. 200.
culpa objetiva e a segunda na culpa subjetiva, fundamento novo não constante da lide originária. 3. Não perde o Estado o direito de regresso se não denuncia a lide ao seu preposto (precedentes jurisprudenciais). 4. Embargos de divergência rejeitados.248
Como podemos ver, o tema é polêmico e controverso, mas diante da jurisprudência atual e da doutrina majoritária, podemos afirmar que a denunciação da lide prevista no Código Processual Civil não é obrigatória quando se tratar de ação indenizatória baseada na responsabilidade do Estado porque nesta ação, segundo a teoria do risco administrativo, não será analisada a culpa ou dolo do agente, sendo afastada a responsabilidade da Administração Pública apenas se comprovar que houve culpa exclusiva da vítima, de terceiros, caso fortuito ou força maior.
No entanto, o fato da denunciação da lide não ser obrigatória não significa dizer que o contribuinte está impedido de promover ação contra a pessoa física que ocasionou o dano.