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A proposta dos jogos espontâneo-criativos incorporou vários estudos sobre o jogo (FROEBEL,1881; LEIF, BRUNELLE, 1978; WINNICOT, 1975; SLADE, 1978; ABERASTURY, 1972; LEBOVICI, DIATKINE, 1985, entre outros), com destaque para a obra Homo ludens, de HUIZINGA (1971).

As idéias precursoras sobre o jogo na educação do homem são atribuídas a FROEBEL (1881, p. 5-30). Considerado místico e extremamente simbólico, criou um método coerente e criativo para jardins-de-infância, no qual enfatiza o exercício da liberdade, espontaneidade, criatividade e do autoconhecimento. Apesar da rigidez metodológica, natural para a época, indica o valor não só dos resultados mas também dos processos e a busca de vários pontos de vista em uma mesma situação.

HUIZINGA (1971, p. 1-8), em sua obra Homo ludens, define o jogo como função social e o estuda desde as épocas primitivas arcaicas até meados do século XX. Compreende o jogo como função da vida. Segundo o autor, o ritual nasceu do jogo sagrado: a poesia, música e dança eram puro jogo. O conhecimento e a filosofia encontraram expressão em palavras e formas derivadas de jogos religiosos. Considera que o jogo está presente na construção da linguagem – o homem, na criação da fala e da linguagem, começou brincando de designar, de criar metáforas. Sabe-se que, em toda expressão abstrata, oculta-se uma metáfora e toda metáfora é um jogo.

HUIZINGA (1971, p. 7) busca estudar o jogo como o fazem os próprios jogadores, em sua significação primária, ou seja, busca entender o valor das imagens que o jogo trabalha, assim como a ação dessas imagens no próprio jogo, visando compreendê-lo como fator cultural da vida.

Integrando o conceito de jogo ao conceito de cultura, HUIZINGA (1971, p. 1) define o jogo como fator distinto e fundamental, presente em tudo o que acontece no mundo, pois é no jogo e pelo jogo que a civilização cresce e se desenvolve. O autor (1971, p. 236) cita o livro dos Provérbios, no qual a Sabedoria Divina diz que, antes de toda criação, ela brincava diante da face de Deus para diverti-lo, e que, no mundo

de seu reino terrestre, ela encontrava seu divertimento na companhia das crianças humanas. HUIZINGA (1971, p. 12) afirma o jogo como uma necessidade tanto para o indivíduo quanto para a sociedade, devido ao sentido que encerra, à sua significação, a seu valor expressivo, às suas associações espirituais e sociais, ou seja, como função cultural.

Sobre o jogo como atividade sagrada, HUIZINGA (1971, p. 12) observa: existe a presença extremamente ativa de um certo fator lúdico em todos os processos culturais, como criador de muitas formas fundamentais da vida social. O jogo auxiliava os povos primitivos a compreenderem o funcionamento e ordem da natureza, auxiliava-os a organizar sua vida e criar suas instituições. Informa HUIZINGA (1971, p. 19) que, na época das grandes festas, o grupo social celebra os acontecimentos principais da vida, da natureza levando a efeito representações sagradas que representavam a mudança das estações, o surgimento e o declínio dos astros, o crescimento e amadurecimento das colheitas, a vida e a morte dos homens e animais. Em um passado remoto, os homens primeiro tomaram consciência dos fenômenos da vida vegetal e animal e depois das idéias de tempo e espaço, dos meses e estações, do percurso do Sol e da Lua. Em cerimônias sagradas recriavam essas representações, com a idéia de que contribuíam para a preservação da ordem cósmica, expressando emoção e arrebatamento frente ao ritmo da vida. Assim, HUIZINGA (1971, p. 20) observa que, através do jogo, o homem toma consciência de estar integrado numa ordem cósmica. Esta é a sua expressão primeira, mais alta e mais sagrada. Como atividade sagrada, o jogo contribui para a prosperidade do grupo social e para o desenvolvimento cultural. Esse jogo litúrgico (1971, p. 19) deu origem à ordem da própria comunidade e às instituições políticas primitivas.

HUIZINGA (1971, p. 234) parte das características positivas e universalmente reconhecidas do jogo em seu sentido imediato e cotidiano. Aponta (1971, p. 21) que o jogo infantil possui a qualidade lúdica em sua própria essência e na forma mais pura dessa qualidade. Continuando, o autor lembra: Todo jogo tendo por base o jogo das crianças pequenas é sagrado e sério.

Sabendo que é brincadeira e é sério, os adultos também podem jogar dentro da seriedade – como os artistas se expressam e, com emoção sagrada e

entusiasmo, jogam (tocam, representam, dançam) –, se elevando a um mundo superior sem perder a consciência da qualidade lúdica de sua ação.

A principal característica do jogo é a liberdade, o fato de ser livre, de ser ele próprio liberdade. As crianças e animais brincam porque gostam de brincar.

Por sua natureza, o jogo propicia qualidades como ritmo, harmonia, beleza, vivacidade e graça nas suas formas mais primitivas e é nele que o corpo humano mostra toda a sua beleza.

Outras características, segundo HUIZINGA (1971, p. 12-17), são: a alegria, a possibilidade de divertimento, uma categoria primária da vida que pode ser identificada desde o nível animal. Joga-se como a criança pequena – pelo prazer de jogar, sem uma finalidade material ou necessidades biológicas; o jogo provoca arrebatamento, entusiasmo, encantamento, enlevo, êxtase, ação de maravilhar-se. Esse estado de arrebatamento, nas crianças e adultos, promove a capacidade criadora.

A existência de uma limitação de tempo e espaço – ocupa um lugar e tem determinada duração – diferencia-o da vida cotidiana. Essa limitação se processa de maneira material ou imaginária, deliberada ou espontânea. Nesse espaço-tempo, impera uma ordem, já que o jogo possui regras.

Possui também um caminho e um sentido próprios. Enquanto acontece, tudo é movimento, mudança, alternância, sucessão, associação, separação.

As palavras que HUIZINGA (1971, p. 13) utiliza para designar os elementos do jogo são: tensão, equilíbrio, compensação, contraste, variação, solução, união e desunião. O jogo, igualmente, possui as duas das mais nobres qualidades que a humanidade é capaz de ver nas coisas: ritmo e harmonia.

A qualidade de tensão (1971, p. 14) desempenha papel importante – significa incerteza na pretensão de o jogador ganhar com seu esforço alguma coisa com valor ético. Põe à prova qualidades de força, tenacidade, habilidade, coragem e capacidades espirituais no procedimento de seguir as regras.

HUIZINGA (1971, p. 15) ressalta que o jogo oportuniza a união entre as pessoas: as comunidades de jogadores tendem a tornar-se permanentes. A sensação de estar separadamente juntos numa situação excepcional, de partilhar

algo importante, afastando-se do resto do mundo, recusando as normas habituais, conserva sua magia para além da duração do jogo. Além disso, nos jogos somos diferentes e fazemos coisas diferentes – a supressão temporária do mundo habitual é inteiramente manifesta no mundo infantil e nos grandes jogos rituais dos povos primitivos. Nessa qualidade do jogo, HUIZINGA (1971, p. 13) indica a característica de se fixar imediatamente como fenômeno cultural. Mesmo depois de o jogo ter chegado ao fim, ele permanece como uma criação nova no espírito, um tesouro a ser conservado pela memória. É transmitido e torna-se tradição. Pode ser repetido a qualquer momento, quer seja um jogo infantil ou um jogo de xadrez, ou em períodos determinados, como um mistério. Uma de suas qualidades fundamentais reside na capacidade de repetição (1971, p. 16), que faz parte de sua estrutura interna.

Quanto às noções de bem e de mal, o autor (1971, p. 236) situa o jogo fora do domínio da moral: ele não é, em si mesmo, nem bom, nem mau.

Prosseguindo, HUIZINGA (1971, p. 12) diz que o jogo ornamenta, traz satisfação e amplia a vida. Na sua qualidade de distensão, torna-se uma parte integrante da vida em geral.

Outro traço fundamental, para HUIZINGA (1971, p. 12): o jogo não é vida corrente, nem vida real; trata-se de uma evasão da vida real para uma esfera temporária de atividade com orientação própria – toda criança sabe que está brincando de alguma coisa, sabe que está apenas fazendo de conta.

HUIZINGA (1971, p. 6) afirma ainda que a existência do jogo não está ligada a determinado grau de civilização ou a certa concepção de universo: O jogo possui uma realidade autônoma, pois a existência do jogo é inegável. Pode-se negar beleza, justiça, verdade, mas não o jogo.

O autor aponta para dois aspectos fundamentais que aparecem no jogo: a luta por alguma coisa e a representação ou luta pela melhor representação de alguma coisa, no sentido de se mostrar, se exibir. No entanto, diz HUIZINGA (1971, p. 17), a representação sagrada das civilizações primitivas é mais que uma simples representação, até mais do que representação simbólica: é uma realização mística. Na dança mágica, no espaço dos cultos indígenas, os quais conservam todos os aspectos do jogo, a identidade e unidade essencial de ambos é muito mais profunda

– o selvagem é um canguru. Continuando, HUIZINGA (1971, p. 17) conta sobre os efeitos do jogo: executado no interior de um espaço circunscrito sob a forma de festa, isto é, dentro de um espírito de alegria e liberdade, os seus efeitos não cessam depois de acabado o jogo: seu esplendor continua sendo projetado sobre o mundo de todos os dias, influência benéfica que garante a segurança, a ordem e a prosperidade de todo o grupo até a próxima época dos rituais sagrados.

Um aspecto importante para esta pesquisa consiste na função do jogo na comunicação. De acordo com HUIZINGA (1971, p. 13), o jogo tem função significante, encerra um sentido; ultrapassando o limite de atividade puramente física ou biológica, existe alguma coisa em jogo que transcende as necessidades imediatas da vida. Assim, para o autor (1971, p. 58), insere-se na busca de reconhecimento e, para ter valor, o reconhecimento precisa ser manifestado. Afirma que um dos mais fortes incentivos para atingir a perfeição, tanto individual quanto social, desde a vida infantil até aos aspectos mais elevados da civilização, é o desejo que cada um sente de ser elogiado e homenageado por suas qualidades. Elogiando o outro, cada um elogia a si próprio, pois quer a satisfação de ter realizado corretamente alguma coisa.

Estudando o jogo e a competição na história, HUIZINGA (1971, p. 74) mostra seu declínio: a formação em vista da vida aristocrática conduz à formação do Estado e para o Estado. A palavra virtude continua significando a capacidade do cidadão para suas tarefas na polis, gradualmente caminhando para a busca da perfeição e levando ao cultivo de aparências. O elemento lúdico, que originalmente foi fator autêntico da formação da cultura, é agora apenas simples exibição sem fundamentos.

HUIZINGA (1971, p. 234) observa que, no final do século XIX, a sistematização dos esportes, das competições e a profissionalização dos atletas vão afastando o jogo do espírito lúdico – não existe espontaneidade, prazer, despreocupação. O jogo esportivo desliga-se do verdadeiro jogo, rompe com o ritual e deixa de ser sagrado. Perde a criatividade e a ligação orgânica com a sociedade, tornando-se estéril: não se joga mais como as crianças.

De certo modo, a civilização sempre será um jogo governado por certas regras, e a verdadeira civilização sempre exigirá a capacidade de brincar. Para ser uma vigorosa força criadora de cultura, é necessário que este elemento lúdico seja puro, que não consista na confusão ou no esquecimento das normas prescritas pela razão, pela humanidade ou pela fé. É preciso que ele não seja uma máscara, servindo para esconder objetivos políticos por trás da ilusão de formas lúdicas autênticas. A propaganda é incompatível com o verdadeiro jogo, que tem seu fim em si mesmo.

Benzer Belgeler