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Esses conflitos não serão resolvidos imediatamente e terão seu impacto na iluminação da verdade, seja na alma humana ou no próprio curso da História. O salto no ser é o instante em que a consciência ilumina-se repentinamente e descobre que a História é uma característica essencial do homem, mas que se mostra não em si mesma ou na criatura – e sim nas sociedades concretas em que seus integrantes se reconhecem como tais. Cria-se um centro luminoso que ilumina uma hierarquia do ser que vai até a sua origem em Deus, desenvolve-se numa sociedade que se vê como a própria história da humanidade e que reconhece que não é uma ilusão a existência da verdade, muito menos o seu surgimento em retrospecto50. Mas existem problemas que devem ser enfrentados, problemas que se transformam em mistérios espirituais quando o investigador tem a coragem de estudá-los. Segundo Eric Voegelin, são os seguintes:
“(I) O salto no ser, quando ocorre, transforma a sucessão de sociedades precedentes no tempo em um passado da humanidade.
(II) O salto no ser, enquanto conquista uma nova verdade sobre a ordem, não ganha toda a verdade, nem estabelece a permanente ordem da humanidade. A luta pela verdade da ordem continua em um novo nível histórico. Ocorrerão repetições do salto no ser que corrigirão o
insight inicial e o alimentarão com novas descobertas; e a ordem da existência humana, mesmo que fique profundamente afetada pela nova verdade, mantém a ordem da pluralidade de sociedades concretas. Com o descobrimento de seu passado, a humanidade não chegou ao fim de sua história, mas se tornou consciente do horizonte aberto de seu futuro.
(III) O salto no ser inicial, o rompimento com a ordem do mito, ocorre numa pluralidade de acontecimentos paralelos, em Israel e na Grécia, na
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LIMA VAZ, Henrique. “Cristianismo e Consciência Histórica II”, in: Ontologia e História. Loyola, 2002, pág. 193-194.
China e na Índia, e em cada acontecimento é seguido por uma série de repetições na história em um novo nível de existência.
(IV) Os paralelos saltos no ser diferem amplamente em relação ao rompimento radical com o mito cosmológico, assim como a compreensão e a penetração do seu avanço em relação à verdade na ordem do ser. Os acontecimentos paralelos não são do mesmo patamar”51.
A experiência de transcendência que dá origem à História como uma nova forma de relacionamento é um fato que põe em marcha uma série insolúvel de choques que mal conseguem ser formulados cientificamente. Isto ocorre porque temos diante de nós uma “concepção extremamente original do tempo e do mundo”52, tanto na forma histórica hebraica como na helênica. Explica o filósofo brasileiro Lima Vaz:
“Para o grego, a representação do espaço é o quadro fundamental dos fenômenos, e a reflexão sobre o tempo visa, de preferência, à analogia com a extensão espacial: distribuição pontual do ‘passado’, ‘presente’ e ‘futuro’, utilização das imagens da linha reta e do círculo. Como sucessão pura, o tempo introduz no ser um princípio de dispersão, de esvaziamento, de declínio: ele é a imagem móvel e imperfeita da imóvel e perfeita eternidade. Para a mentalidade hebraica, ao contrário, a dimensão espacial do mundo é secundária, e o dado primordial é o tempo como articulação dinâmica de ‘eventos’ e, propriamente, como
história. As imagens geométricas da linha e do círculo nos serão de utilidade secundária para exprimir a concepção do tempo, que se serve, de preferência, da forma do ritmo vital. O tempo tem assim uma densidade própria, sua pulsação marca uma emergência de ser, sua marca avança como se desenvolve a unidade de um drama. Nesta concepção do tempo, uma importância decisiva é atribuída ao processo intrínseco pelo o qual o ser se faz. A ‘nascença’, o ‘crescimento’ e, para o homem, a decisão livre e a ação aparecem como estruturas dinâmicas que dão densidade ontológica ao tempo. O pensamento grego, como
logos, permanece inteiramente polarizado pela ‘forma’, a perfeição luminosa e imóvel, enquanto só à prudência, métis, fica reservado orientar-se no mundo inquieto e tenebroso do ‘evento’. Dualismo inadmissível na visão bíblica, para a qual o ‘acontecer’, a trama orgânica dos ‘eventos’, é a essência mesma do ser. O ser grego é
perfeição, e o tempo é a eternidade de um movimento infinitamente
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Idem, págs. 69-70.
52 LIMA VAZ, Henrique. Cristianismo e Consciência Histórica II, in: Ontologia e História. Loyola, 2002,
disperso, sem orientação real. O ser bíblico é invenção, e o tempo é rigorosamente história, crescimento para uma plenitude. A contingência radical do mundo mostra-se, portanto, do ponto de vista bíblico, na forma de uma criação contínua, uma gênese permanente, o devir de uma realidade sempre nova”53.
Ainda assim, existem semelhanças nas estruturas destas formas que permitem uma aproximação e a indicação de uma possível síntese – desde que as diferenciações entre os saltos no ser sejam observadas. Contudo, se aplicarmos o princípio da tensão que modela o real, também se deve tentar descobrir uma constante que se articula nessa dinâmica. Qual seria essa constante? Somente podemos encontrá-la se observarmos os saltos no ser que ocorrem em retrospecto e percebemos que “a ordem cosmológica dos impérios [egípcios e mesopotâmicos] não é apenas colocada em um ponto distante do tempo objetivo, mas se afunda em um passado de falsidade substancial, agora superada pela verdade da existência sob a mediação de Deus”54:
“O Egito se torna o Sheol, o submundo das almas mortas, quando Israel ganha sua vida através da Aliança (Berith); a ordem faraônica se torna a casa das amarras quando Israel ganha sua liberdade no Reino de Deus. E o mesmo acontece no passado através dos poetas e dos filósofos da Grécia. De Hesíodo a Platão, quando o salto no ser desvela a aletheia, a verdade da existência, o velho mito se transforma no pseudos, a falsidade ou mentira, o erro da existência em que os antepassados viveram. (...) Essas depreciações não exaurem a atitude do homem em relação ao passado da humanidade; podem ser equilibradas por louvores ao passado, por expressões de admiração pelos períodos clássicos, pelos reconhecimentos generosos às contribuições das sociedades antigas ao clímax da civilização contemporânea. Entretanto, as depreciações, mais claramente do que os elogios, apontam para o problema real: o de que o passado da humanidade não é um espetáculo para ser louvado ou imputado de uma culpa ao presente que, naquele momento, ainda era o futuro. Pois, apesar do seu desdobramento, a raça humana é constante na história da humanidade, numa ordem que se desenvolve da compactação à diferenciação de seus símbolos. Os estágios visíveis do crescimento da verdade da existência não são provocados por ‘mudanças na natureza do homem’ que romperão a unidade da humanidade e a dissolverão em uma série de espécies diferentes. A
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LIMA VAZ, Henrique. Cristianismo e Consciência Histórica II, in: Ontologia e História. Loyola, 2002, pág. 195-196.
própria idéia de história da humanidade pressupõe esta constante; e a realidade dela é testemunhada além da dúvida pelas experiências do salto no ser, pela experiência da transição do erro para a verdade da existência em que o mesmo homem – que é o ‘homem velho’ de antes e o ‘novo homem’ de depois – sofreu a infusão do Ser divino. Assim, a peça da ordem é sempre encenada não adiante do futuro, mas diante de Deus; a ordem da existência humana é o presente sob Deus mesmo nos momentos em que a consciência deste presente ainda não se desvinculou da compactação do mito cosmológico”55.