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1. MEVLÂNÂ’YA GÖRE FELSEFE VE FELSEFECĐ

1.1.3. Filozof ve Felsefeci

A trajetória do cooperativismo no Brasil, a partir da década de 1990, apresentou modelos distintos de empreendimentos, divergentes quanto à origem, porte, objetivos e gestão, dentre os quais os modelos do cooperativismo tradicional e do cooperativismo popular, objetos de estudo desta Tese de Doutorado. Segundo metodologia da OCB, em 2010 no Brasil as cooperativas atuam nos seguintes ramos: a) Agropecuário: composto por cooperativas de produtores rurais ou agropastoris e de pesca, caracterizam-se pelos serviços prestados aos associados, como recebimento da produção, assistência técnica e/ou comercialização da produção conjunta, armazenamento e industrialização; b) Consumo: cooperativas voltadas para a compra em comum de artigos de consumo para seus associados; c) Crédito: cooperativas destinadas a gerir a poupança e financiar necessidades ou empreendimentos de seus cooperados. d) Educacional: cooperativas de profissionais em educação, de alunos, de pais de alunos, de empreendedores educacionais e de atividades afins; e) Especial: cooperativas de pessoas que precisam ser tuteladas (menor de idade ou relativamente incapaz). A atividade econômica mais comum neste ramo é a produção artesanal de peças de madeira, roupas ou artes plásticas; f) Habitacional: cooperativas destinadas à construção, manutenção e administração de conjuntos habitacionais para seu quadro social; g) Infraestrutura: atende direta e prioritariamente o próprio quadro social com serviços de infraestrutura; h) Mineral: cooperativas com a finalidade de pesquisar, extrair, lavrar, industrializar, comercializar, importar e exportar produtos minerais; i)

Produção: por cooperativas dedicadas à produção de um ou mais tipos de bens e produtos, quando detenham os meios de produção; j) Saúde: cooperativas que promovem serviços de saúde humana; k) Trabalho: cooperativas constituídas por categorias profissionais e trabalhadores autônomos cujo objetivo é proporcionar fontes de ocupação e renda estáveis aos seus associados, através da prestação de serviços a terceiros. Não raro, as cooperativas de trabalho constituem uma fraude quando são utilizadas para camuflar a precarização do trabalho e subtrair direitos trabalhistas; l) Transporte: cooperativas que atuam no transporte de cargas e/ou passageiros; m) Turismo e lazer: cooperativas prestadoras de serviços turísticos, artísticos, de entretenimento, de esportes e de hotelaria. Na tabela 1 abaixo, pode-se visualizar os números dos ramos de atividade das cooperativas atuantes no Brasil em 2010:

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Fonte: OCB, 2010

Tabela 1: O cooperativismo por ramo de atividade no Brasil em 2010

Dentro do histórico do cooperativismo brasileiro, o modelo do cooperativismo tradicional tem sua trajetória ligada ao cooperativismo elitista que vigorou no Brasil e se identifica claramente com a gestão das empresas de capital congêneres, tendo representatividade institucional nas organizações estaduais vinculadas em âmbito nacional à OCB14.

Segundo a OCB (2010), em duas décadas - de 1990 a 2010 - observou-se um aumento expressivo no número de empreendimentos cooperativos registrados e atuantes. Em 1990 havia 3340 cooperativas registradas junto à OCB com aproximadamente 2,8 milhões de associados e em 2010 havia 6652 cooperativas, contando com 9.016.527 associados e empregando 298.182 funcionários. Com a expansão do número de cooperativas em atividade houve um crescimento no número de associados, como pode ser visualizado na Figura 1 abaixo.

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Fonte: OCB, 2010

Figura 1: Evolução do quadro de associados a cooperativas (1990-2010)

O aumento no número de associados às cooperativas, na série de 2003 a 2010 observado na Figura 1, se deu em um contexto de redução da taxa de desemprego no Brasil e expansão do emprego formal, como pode ser visualizado nas figuras 2 e 3 abaixo, ou seja, mesmo diante de um quadro de queda do desemprego com elevação do saldo de emprego formal, houve crescimento das cooperativas em número de sócios, contrariando o preceito liberal de que o aumento do emprego formal somado à redução do desemprego resultaria em um esvaziamento das cooperativas em virtude da opção dos atores pela estabilidade do emprego formal (BARBOSA, 2005).

Fonte: IBGE, 2012.

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Fonte: IBGE, 2012.

Figura 3. Evolução do saldo do emprego formal no Brasil em números absolutos (2002-2011)

Este aumento do número de associados se deu de forma dinâmica, acompanhado pela redefinição do quadro societário em muitas cooperativas, especialmente ao longo da década de 1990, com certa equidade entre a saída de cooperados com pequeno volume de produção repassada à cooperativa e a entrada de sócios com volume de produção transacionada que permitisse aferição de resultado econômico satisfatório. No tocante à dimensão das cooperativas, algumas agregam milhares de associados, abrangendo macro-regiões e atuando em diversos Estados, participando intensamente da dinâmica da economia regional.

A adequação das cooperativas tradicionais ao afastamento do Estado e à globalização financeira e econômica da década de 1990, que afetou sobremaneira o setor agrícola brasileiro, resultou na aproximação de sua gestão aos postulados da racionalidade econômica e da concorrência de mercado. Se no período de 1930 a 1988 as cooperativas tradicionais foram um instrumento estratégico do Estado para o desenvolvimento do capitalismo no campo (FLEURY, M.T.L. 1980; DUARTE, 1986), a partir da década de 1990 observa-se a sedimentação das cooperativas tradicionais como empresas de mercado, prevalecendo em seu interior a lógica da eficiência, com fins de permanência de suas atividades objetivando o resultado econômico para seus sócios, tomando como secundários e mesmo ultrapassados os ideais pretéritos de cooperação, solidariedade e mudança social.

A reformulação das diretrizes de gestão das cooperativas tradicionais toca diretamente a orientação de suas atividades produtivas, comerciais e financeiras e tem como ponto de partida a readequação de seu quadro social. Essa readequação postula uma nova composição societária, buscando agregar produtores com um perfil agressivo em relação aos requisitos

39 para a concorrência em âmbito nacional e internacional, aproximando as cooperativas de uma orientação de mercado (market oriented), baseadas em índices de produtividade e lucratividade, no lugar de ser orientada para os sócios (producer oriented), com sua simples reprodução. Sob a orientação para o mercado, a existência de sócios que demandam serviços da cooperativa e operam abaixo de um índice de produtividade satisfatório se torna inviável, pois dificulta a permanência da cooperativa em ambientes altamente competitivos. A incidência deste perfil de associado é tomada como um dos motivos da bancarrota de algumas cooperativas tradicionais no Brasil, como a Cooperativa Agrícola de Cotia, que já foi a maior do país (BIALOSKORSKY NETO, 1998). A configuração ideal do quadro social das cooperativas tradicionais se daria com a seleção de sócios que produzam com eficiência, com certo nível de cultura administrativa, capazes de injetar capital no empreendimento para alavancar as atividades da cooperativa, associados com perfil de empreendedores, capazes de, em conjunto, aumentarem a participação da cooperativa no mercado.

As cooperativas tradicionais também partiriam para a concentração de capital, aproximando-se de outros empreendimentos, cooperativos ou não, mediante processo de fusão. Para Panzutti (1996, p.66) o processo de concentração via incorporação e fusão se justifica em face da pouca capacidade concorrencial das cooperativas incorporadas:

Esta dinâmica econômica condiz com a expansão do capitalismo em geral e em particular com o capitalismo no campo, pois a concentração e centralização do capital são processos econômicos importantes, daí o capital se concentrar nas mãos de empresas mais fortes em detrimento daquelas que não conseguem vencer a concorrência.

O expediente de fusão das cooperativas vai ao encontro da lógica das empresas participantes do complexo agroindustrial produtor de commodities. Em 2010, segundo ranking da Revista Exame (2010), dentre as 100 maiores empresas no Brasil em termos de faturamento15, duas são grandes cooperativas tradicionais do ramo do agronegócio, o que reforça o postulado de autores como Bialoskorsky Neto (1999), Zilberstajn (2005) e Panzutti (1996), para quem as cooperativas, para se manterem ativas e mesmo alcançarem o crescimento de suas atividades, devem se adaptar à dinâmica do complexo industrial no qual estão inseridas, aplicando um eficiente modelo de governança, elevando suas receitas, selecionando sócios segundo critérios de produtividade e minimizando seus custos ao longo

15 Em julho de 2010 a cooperativa Cooperçucar, sediada em São Paulo-SP, era a 50ª maior empresa do país, com ativos na ordem de U$ 2,7 bilhões e a cooperativa COAMO, sediada em Campo Mourão-PR, era a 81ª maior empresa, com ativos na ordem de U$ 1,8 bilhão.

40 de toda a cadeia de suprimentos, aplicando um modelo de gestão idêntico ao das empresas de capital.

Em paralelo às mudanças no panorama da gestão das cooperativas tradicionais, desde meados da década de 1980 observou-se no Brasil o surgimento de empreendimentos econômicos ligados a movimentos sociais baseados na livre adesão, no trabalho associado e na autogestão, indicando a junção de duas noções historicamente antagônicas: economia e solidariedade, fomentando a construção teórica de uma Economia Solidária (FRANÇA FILHO, 2002). Estes empreendimentos se compunham inicialmente como uma tímida reação dos trabalhadores ao desemprego e precarização do trabalho que assolou a classe trabalhadora durante a década de 1990 (POCHMAN, 1996). Entretanto, com o desenvolvimento de suas atividades, tais empreendimentos, já denominados de solidários16 e muitos deles constituídos

legalmente como cooperativas populares, se mostraram capazes de gerar trabalho e renda com perspectivas de perenidade (GAIGER, 2006).

Segundo Oliveira (2003), as cooperativas populares são organizações autogestionárias de grupos populares, onde a propriedade dos meios de produção é coletiva, integrando três dimensões: econômica, social e política. Nas cooperativas populares pode haver divisão de tarefas, sem no entanto haver divisão entre o trabalho manual e o intelectual, primando pela equidade entre os sócios baseada no trabalho, pois cada trabalhador associado possui uma quota parte do empreendimento e tem direito a um voto. As cooperativas populares buscam se orientar por uma lógica diferenciada em relação às empresas de capital e às cooperativas tradicionais, fazendo com que os trabalhadores associados sejam os proprietários dos meios de produção, aplicando a democracia interna no processo decisório nos âmbitos da produção e do trabalho, com reflexo na determinação dos itens a serem produzidos, em que quantidade, se para o auto-consumo, para um mercado solidário ou para o mercado tradicional, buscando ratificar a sua autonomia. Eid et. al. (1998) e Eid (2004; 2010) ressaltam que um importante referencial da ação conjunta de trabalhadores associados pode ser encontrado na formação de cooperativas populares por trabalhadores inseridos na luta pela reforma agrária. Para os autores, os coletivos de trabalhadores organizados em associações e cooperativas populares, ao formarem cadeias produtivas de caráter solidário, mantendo assim seus vínculo com movimentos sociais de resistência, fazem uso de uma ferramenta eficaz no desenvolvimento das suas atividades em direção à autogestão.

16 Os Empreendimentos solidários também são denominados Empreendimentos Econômicos Solidários – ES- ou Empreendimentos de Economia Solidária.

41 Um dos maiores desafios das cooperativas populares é a viabilização de uma rede consistente de inter-cooperação que amplie a escala de produção e a agregação de valor dentro de cadeias produtivas solidárias, fortalecendo os vínculos entre seus membros e reduzindo a dependência para com as empresas de capital (EID et. al, 2010), contribuindo para que a Economia Solidária como um todo se apresente como uma forma social de produção não apenas intersticial, periférica ao capitalismo ou atuando junto a setores em que o capital sequer tem interesse em atuar17(GAIGER, 2006). Para Singer (2002, p.216) “[...] A

economia solidária teria que gerar sua própria dinâmica em vez de depender das contradições do modo dominante de produção para lhe abrir caminho”.

Em 2003 foi criada a Secretaria Nacional de Economia Solidária - SENAES, vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego - MTE, responsável por fomentar as experiências de Economia Solidária e acompanhar seu desenvolvimento. De acordo com a SENAES, em 2007, ano do lançamento do primeiro e único atlas sobre os empreendimentos de economia solidária, havia 20.087 empreendimentos econômicos solidários em atividade no Brasil, contando com 1.634.375 associados. Segundo a metodologia da Secretaria

[...] a Economia Solidária é compreendida como o conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito – organizadas e realizadas solidariamente por trabalhadores e trabalhadoras sob a forma coletiva e autogestionária. Nesse conjunto de atividades e formas de organização destacam-se quatro importantes características: cooperação, autogestão, viabilidade econômica e solidariedade (SECRETARIA NACIONAL DE ECONOMIA SOLIDÁRIA, 2007, p.11).

Ainda segundo a SENAES, os empreendimentos solidários compreendem organizações com as seguintes características: 1) formação coletiva - organizações supra familiares, singulares e complexas, tais como: associações, cooperativas, empresas autogestionárias, grupos de produção, clubes de trocas, redes e centrais etc, em que os sócios são trabalhadores dos meios urbano e rural que exercem coletivamente a gestão das atividades e a alocação de recursos; 2) atuação permanente, contemplando empreendimentos que estão em funcionamento e aqueles que estão em processo de implantação; 3) com diversos graus de formalização, prevalecendo a existência real sobre o registro legal; 4) realizam atividades econômicas de produção de bens, de prestação de serviços, de fundos de crédito, de comercialização e de consumo

17 Vale aqui ressaltar que Gaiger (2006) se refere à Economia Solidária enquanto uma forma social de produção e não enquanto um modo de produção.

42 solidário. A Figura 4 permite a visualização das entidades e tipos de organizações ligadas direta ou indiretamente à Economia Solidária:

Fonte: SENAES, 2007

Figura 4: entidades ligadas às práticas da Economia Solidária

O que se pode inferir da figura acima é que a SENAES é abrangente em classificar empreendimentos com diferentes origens, representatividade e modalidade de atuação como pertencentes à Economia Solidária, o que pode dar margem a uniformizar movimentos sociais e organizações que pouco se assemelham e que apenas integram uma Economia Solidária ligada a uma política governamental.

A atuação da SENAES e das demais entidades de apoio e incentivo aos empreendimentos geridos por trabalhadores associados18, sejam empresas recuperadas, coletivos de trabalhadores, cooperativas populares, etc, dão o respaldo técnico e institucional para que estes empreendimentos não tenham sua existência abreviada, vinculada aos momentos de crise do emprego no modo de produção capitalista. Tal leitura de fato é feita pelo pensamento liberal, que reflete a respeito do caráter transitório e funcional das iniciativas

18 Dentre estas entidades podem ser citadas a Associação Nacional dos trabalhadores e Empresas de Autogestão e Participação Acionária (ANTEAG) e as Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs).

43 dos trabalhadores associados, que se uniriam com outros trabalhadores apenas como forma de enfrentar o desemprego decorrente de crises cíclicas do modo de produção capitalista, contribuindo para arrefecer as tensões sociais nos momentos críticos. Passada a crise, aos empreendimentos de trabalhadores associados se abririam apenas dois cenários possíveis: 1) o empreendimento cresce e se ajusta à mesma lógica da empresa capitalista, subordinando a racionalidade social à racionalidade técnica, via adoção sistemática dos postulados da competição globalizada, impondo deformações crescentes aos seus princípios, podendo mesmo atuar enquanto cooperativa tradicional; 2) o empreendimento se mantém fiel aos princípios solidários e torna-se inviável no plano econômico-financeiro ao abrir mão da adoção de ferramentas de gestão competitivas, esvaziando-se, mas já tendo cumprido sua função social, sendo que os trabalhadores associados retornariam para o mercado de trabalho como força de trabalho assalariada das empresas de capital.

Entretanto, contrariando a tese liberal, o fenômeno do crescimento com desemprego observado ao longo da década de 1990 impediu o retorno dos trabalhadores desempregados para o mercado formal de trabalho. Assim, o número de postos de trabalho oferecidos foi insuficiente para conduzir os trabalhadores cooperados de volta para o emprego formal. “Dessa forma, o movimento cooperativista ressurgiu mais articulado e em torno de redes de cooperação, empreendimentos integrantes da Economia Solidária, cujas relações internas diferem das relações de trabalho capitalistas” (VAZOLLER, 2004, p.90).

Para Dal Ri e Vieitez (2008) o trabalho associado é a base de sustentação dos empreendimentos solidários e das cooperativas populares. No caso das cooperativas populares, os trabalhadores se associam voluntariamente, constituindo um estoque coletivo de trabalho para formação de uma sociedade cooperativa, em que o trabalho é o principal, quando não único, recurso de que dispõem. Nesses empreendimentos, o trabalho adquire um caráter transformador, permitindo aos trabalhadores produzirem de forma solidária e auferirem renda, usufruída e reinvestida em benefício do grupo. As relações construídas entre as pessoas adquirem maior relevância e os valores igualitários e democráticos são privilegiados em detrimento dos critérios de racionalidade capitalista, podendo levar trabalhadores associados de cooperativas populares a declinarem do emprego formal acenado pelas empresas de capital.

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Benzer Belgeler