2. FİDE YETİŞTİRİCİLİĞİ
2.4 Fide Yetiştirme Sistemleri
Para Fisch295, o primeiro passo de Peirce em direção ao realismo se dá nos ensaios da
série cognitiva, que foram publicados entre 1868 e 1869 pelo The Journal of Speculative
Philosophy. Estes ensaios são os famosos textos anti-cartesianos:
1. (1868) “Questions Concerning Certain Faculties Claimed for Man”- CP 5.213-63, 2. (1868) “Some Consequences of Four Incapacities - CP 5.264-317 e,
3. (1869) “Gounds of Validity of the Laws of Logic: Further Consequences of Four Incapacities” - CP 5.318-57
Para Hookway,296 estes textos constituem um único argumento unificado, em que nos
dois primeiros Peirce discute mente e realidade, de forma a permitir, no terceiro ensaio, a explicação da validade do raciocínio dedutivo e da inferência ampliativa. Além disso, só através de um enfoque não psicológico para a lógica, com o exame das formas de pensamento é que se torna possível explicar a validade da indução e como a inferência sintética é capaz de “redução da variedade à unidade” (CP 5.276 de 1868).
Sob outro ponto de vista, quanto ao pensamento discursivo, pode-se considerar que estes três ensaios discutem questões bastante interligadas: o primeiro trata do nosso poder de intuição, o segundo contém críticas ao cartesianismo e o terceiro poderia ser visto como uma refutação às “acusações” de Mill ao silogismo.297
295 M. Fisch (1986), Peirce, Semeiotic and Pragmatism, Bloomington: Indiana University Press. p.187. 296 C. Hookway (1992), Peirce, London and New York: Routledge & Kegan, p. 15.
297 Para R. Smyth (1985), “Peirce‟s Examination of Mill‟s Philosophy” Transactions of the Charles S. Peirce Society, Spring, vol. XXI.n.2, p. 157,
em “Questions Concerning...” ao contestar a doutrina da intuição que está na base do empiricismo de Mill, Peirce é capaz de demonstrar que, assumindo que o poder fundamental da mente é o poder do raciocínio crítico a partir de dados públicos, podemos explicar algumas coisas que Mill considerava inexplicáveis. Mill assumia que o poder fundamental é o poder de julgar o que está diretamente diante da mente, mas o que está diretamente diante da mente é só as idéias individuais da própria mente. Esta combinação de nominalismo e sensacionalismo era parte da herança vinda de Locke, contra a qual Peirce nos oferece os argumentos em “Questions Concerning...”. Ainda segundo Smyth “Questions Concerning” e “Some Consequences...” podem ser lidos como diretamente dirigidos às afirmações de Mill sobre nossos poderes cognitivos, isto é, no primeiro artigo Peirce refuta as reivindicações de que tenhamos qualquer poder de cognição imediata e no segundo ele explora as conseqüências assumindo que todos nossos poderes cognitivos podem ser reduzidos ao poder do raciocínio válido. É interessante observar também que Peirce inicia “Questions Concerning...” com uma citação extraída da obra de Hamilton que também é citada por Mill. Para Mill nossas cognições imediatas são limitadas aos conteúdos particulares de nossas próprias mentes. Ainda segundo R. Smyth (1997), Reading
Peirce Reading, London, Boulder, New York, Oxford: Rowman & Littlefield Publishers, Inc, p. 4, Peirce e Mill concordam sobre o significado do
termo intuição, mas discordam quanto a admitirmos ou não a intuição ou nas palavras de Mill “pois a consciência, neste sentido mais amplo, não é, como tão freqüentemente observei, nada mais que outra palavra para o “conhecimento intuitivo”, e, quaisquer outras coisas que
Para Smyth,298 os textos da cognição podem ser vistos como “uma entrada tardia num
debate que estava em curso”, no qual Mill era um dos principais participantes, debate este que tinha de um lado, entre outros, os Mill (pai e filho) e Alexander Bain, e que poderiam ser classificados como integrantes do “empirismo britânico clássico ou ortodoxo” e, de outro lado, Sir William Hamilton, Victor Cousin, Henry Mansel, que poderiam ser chamados integrantes da “filosofia do senso comum kantiana ou crítica”. Ainda segundo Smyth, estes textos mostram alguns pontos de concordância entre Mill e Peirce, mas a “lógica da ciência dava a Peirce uma vantagem relativa sobre o empirismo clássico, ao responder a algumas questões sobre a capacidade cognitiva humana”.
Apesar de se autodenominar idealista (CP 5.264 de 1868) e realista escolástico (CP 5.312 de 1868)299, Peirce aponta claramente os pontos em que diverge destas teorias, deixando
explícito nestes textos principalmente sua posição contrária ao nominalismo e subjetivismo de Descartes. Também se deve considerar que as críticas de Peirce não se dirigem exclusivamente à filosofia cartesiana, mas também aos empiristas ingleses, que Peirce considerava herdeiros de Descartes300e nominalistas e o “espírito do cartesianismo” significava
o espírito do nominalismo (CP 5.264 e 5.310 de 1868), alguns trechos desses textos também podem ser vistos como respostas a Hume, Locke, Berkeley e Mill.301
possamos conhecer dessa maneira, certamente não conhecemos por intuição que tipo de conhecimento é intuitivo” (Ham: 257). Para K-O Apel (1981), op. cit., p.23, nestes textos os nominalistas britânicos são submetidos à crítica porque exibem um conceito sensacionalista-intuicionista do conhecimento que iguala as condições físicas da cognição (dados dos sentidos) ou mesmo as condições físicas e fisiológicas dos dados do sentido (afecção causal dos sentidos pelas coisas externas eles mesmos) com a própria cognição.
298 R. Smyth (1997), Reading Peirce Reading, London, Boulder, New York, Oxford: Rowman & Littlefield Publishers Inc., p. 1.
299 Com relação ao realismo escolástico de Peirce, F. Michael (1968), “Two forms of scholastic realism in Peirce‟s Philosophy”, in Transactions of
The Charles S.Peirce Society, Summer, vol XXIV, n.3, pp.317-348, distingue duas formas fundamentalmente diferentes de realismo, a primeira
muito próxima do nominalismo, concordando com Fisch e a segunda reconhecidamente de inspiração escolástica, aceita por comentadores como J. Boler (1983), “Peirce, Ockham and Scholastic Realism”, in The Relevance of Charles Peirce, ed. by Eugene Freeman, La Salle Illinois: The Monist Library of Philosophy, pp.93-106 e P. Skagestad (1981), The Road Of Inquiry-Charles Peirce's Pragmatic Realism. Ainda segundo Michael, o realismo inicial de Peirce parece estar comprometido com o nominalismo e difere do realismo maduro, com respeito a realidade dos universais fora da cognição, e o realismo que Peirce desenvolve após 1883 estaria relacionado com a visão da realidade dos universais fora da mente.
300 Tanto o método de Descartes como o de Peirce são racionais, diferindo, no entanto quanto às suas estruturas lógicas. No cartesianismo, a
formulação dos conceitos é feita através de processos mentais a priori, enquanto que para Peirce, a formulação dos conceitos se dá através das inferências hipotéticas que são confirmadas pela experiência. Para Peirce, o espírito do cartesianismo poderia ser resumidamente enunciado como segue: 1. “O cartesianismo ensina que a filosofia deve começar com a dúvida universal, ao passo que o escolasticismo nunca questionou os princípios fundamentais. 2. Ensina que a comprovação final da certeza encontra-se na consciência individual, ao passo que o escolasticismo se baseou no testemunho dos doutos e da Igreja Católica. 3. A argumentação multiforme da Idade Média é substituída por uma linha singular de inferência que freqüentemente depende de premissas imperceptíveis. 4. O escolasticismo tinha seus mistérios de fé, mas empreendeu uma explicação de todas as coisas criadas. Todavia, há muitos fatos que o cartesianismo não apenas não explica como também torna absolutamente inexplicáveis, a menos que dizer que “Deus os fez assim” há de ser considerado como explicação." (CP 5.264 de 1868)
301 R. Smyth (1997), Reading Peirce Reading, London, Boulder, New York, Oxford: Rowman & Littlefield Publishers, Inc, p.4, argumenta que a
versão de Mill para o fenomenalismo era particularmente vulnerável dada à fraqueza de suas fundações da lógica da ciência, principalmente devido ao caráter psicológico de sua lógica, o que não acontecia com Peirce, para quem nossas questões sobre poderes cognitivos são irrelevantes para a lógica.
Nos dois primeiros textos da série “Questions Concerning Certain Faculties Claimed for Man” (CP 5.213-63 de 1868), “Some Consequences of Four Incapacities” (CP 5.264-317 de 1868)302, Peirce desenvolve sua relação triádica de signo, que servirá de base para a teoria do
conhecimento303: pensamento é um processo ininterrupto, em uma relação de três elementos:
signo, pensamento, objeto, ou pensamento precedente, ao qual o signo se segue e pensamento subseqüente.
Para Peirce, a presentidade (ou imediaticidade ou instantaneidade) não tem valor intelectual, e assim sendo, os conteúdos da consciência não são conhecidos em si mesmos, mas apenas através da ação mental. Se todo pensamento é signo, segue-se que todo pensamento deve se endereçar a outro, deve determinar outro, porque esta é a tendência do signo (CP 5.253 de 1868). Portanto, não é verdade que deve haver “uma primeira cognição”304
(CP 5.262 de 1868) e no presente imediato não há pensamento ou, tudo aquilo sobre o que se reflete tem um passado (CP 5.253 de 1868).
Pensamento requer temporalidade, e Peirce rejeita a possibilidade de fundamentar o conhecimento em reflexões teóricas da consciência individual sem qualquer relação com o mundo externo, é o fato externo que determina a cadeia de cognições (CP 5.251 de 1868). Daí decorre que não há conhecimento sem interpretação, visto que todo conhecimento é condicionado pelos fatores anteriores a ele no processo de cognição e só se revela no momento em que é interpretado num conhecimento subsequente305. Peirce também propõe
302 Todas as citações referentes a estes dois textos foram extraídas da tradução em português C.S.Peirce (1990), Semiótica, São Paulo:
Perspectiva.
303 Deve-se ressaltar o caráter revolucionário da concepção peirceana de conhecimento e da cognição pelo simples fato de que é uma teoria
sígnica do conhecimento que rompe com a dualidade sujeito objeto. A posição de Mill, contrária a de Peirce, nos permite aceitar certas proposições sem Ter tentado qualquer experimento ou raciocínio deliberado através de signos para provar se realmente são fatos.
304 Para K. Parker (1998), The Continuity of Peirce’s Thought, Nashville and London: Vanderbilt University Press, p.17, o começo de uma cognição
só é inteligível dentro de um processo contínuo, porque se não há primeira cognição, não há objeto da primeira cognição, para isso Peirce se apóia no princípio da continuidade, um contínuo é infinitamente divisível. Assim, um pensamento seria um contínuo no qual as cognições seriam suas menores partes, e portanto um a série infinita de cognições pode ocorrer antes da primeira cognição consciente.
305 A este respeito, ver K-O Apel (1981), Charles S.Peirce - From Pragmatism to Pragmaticism. Amherst: University of Massachusetts Press,
English translation by John Michael Krois p.37. Existe consenso entre os comentadores de Peirce que estes textos, embora da juventude, e cujos conceitos vão sendo amadurecidos, já deixam evidentes alguns pontos muito importantes na obra de Peirce: o falibilismo, o pragmatismo, sua teoria da percepção, o conceito de signo triádico. Para resolver a questão do conhecimento, Peirce tem que abandonar o ideal de universalidade e necessidade de Kant, substituindo o “eu transcendental“ por um processo inferencial, sendo a representação sígnica a única forma de fornecer unidade às impressões dos sentidos. A consciência “eu penso” é substituída pelo processo sígnico, a cognição consiste num processo inferencial cujo fundamento repousa na tríade sígnica. Daí o artigo “Questions Concerning...” tomar a forma de um manifesto anti-cartesiano. O processo cognitivo é um processo que tem na concepção triádica de signo o seu fundamento e modo de ser e, o problema do conhecimento imediato cartesiano, teria como conseqüência uma visão errônea da realidade. Ao mostrar que a autoconsciência é inferencial, Peirce toma a ignorância e o erro como características desse processo (CP 5.233). O erro surge da possibilidade de que o “eu” é falível. Os fatos externos são importantes para que o pensamento seja conhecido (CP 5.325), é a experiência com os objetos do mundo exterior que determina nossos juízos e cognições (CP 5.249), o fato externo determina a cadeia de cognições. No entanto, na época em que escreveu “Questions Concerning...”, Peirce ainda não dispunha de uma posição ontológica permitindo mostrar a exterioridade do objeto. Tampouco contava com a teoria da realidade, que ele vai começar a expor no próximo texto “Some Consequences...” Por enquanto, no texto “Questions Concerning...”, sua preocupação está no entendimento da cognição. Assim, com sua visão do processo de conhecimento, numa
“uma comunidade de filósofos” (CP 5.264 de 1868) se opondo à consciência individual de Descartes (CP 5.265 de 1868).
Ao examinar o processo cognitivo, Peirce enfatiza que sua generalidade se estende ad
infinitum, portanto não há primeira cognição. Por outro lado, sendo impossível saber
intuitivamente que uma dada cognição não é determinada por uma anterior, o único modo de sabê-lo é através de inferência hipotética a partir dos fatos observados (CP 5.260 de 1868).
Assim, supor algo inexplicável como originário só pode ser feito através do raciocínio em signos, mas a única justificativa para uma inferência a partir de signos é que a conclusão explique o fato. (CP 5.261 de 1868) Portanto, supor que o fato seja absolutamente inexplicável é não explicá-lo e, por conseguinte, esta suposição nunca é permitida.
Segundo Apel306 o principal problema que Peirce tinha a resolver no primeiro ensaio
consistia em mostrar como se pode conciliar a idéia de que toda cognição é mediada por inferências sem fim baseadas em cognições prévias com a idéia de começar cada cognição no tempo pela afecção (affection) dos objetos individuais do conhecimento empírico, pois uma coisa individual é um evento natural no tempo e espaço, está subsumido à Segundidade. Como tal não pode nunca explicar a cognição que é mediação, e, portanto, Terceiridade, que não pode ser reduzida a um evento individual.
É possível dizer que no primeiro ensaio, um dos caminhos que já apontam para o realismo seria esta questão da generalidade do signo, pois uma das características do realismo estaria na indeterminação do produto da cognição, pois o nominalismo dá mais importância ao singular existente, determinado.
Neste contexto do realismo inicial de Peirce, em “Questions Concerning Certain Faculties Claimed for Man”, Peirce faz as seguintes considerações sobre a indução:
A essência da Estética Transcendental de Kant está contida em dois princípios. Primeiro, que as proposições universais e necessárias não são dadas na experiência. Segundo, que os fatos universais e necessários são determinados pelas condições da experiência em geral [...] Nesse sentido, pode-se admitir que as proposições universais e necessárias não sejam dadas na experiência. Mas, nesse caso, tampouco não são dadas na experiência quaisquer condições indutivas que se
visão realista, baseada na estrutura sígnica da cognição, Peirce rompe com a visão tradicional nominalista e cartesiana, ao propor a equivalência “cognição=signo=realidade”, Peirce propõe uma visão realista, se afastando do nominalismo.
306 K-O Apel (1981), Charles S. Peirce - From Pragmatism to Pragmaticism. Amherst: University of Massachusetts Press, English translation by
poderia extrair da experiência. De fato, constitui função peculiar da indução produzir proposições universais e necessárias. [...] Mas quanto ao segundo princípio de Kant, o de que a verdade das proposições universais e necessárias depende das condições da experiência geral, ele é, nada mais, nada menos, que o princípio da Indução307
Ainda na mesma passagem, Peirce explica a indução usando com exemplo uma ida a um parque de diversões, onde tira doze pacotes de um saco de surpresas. Ao abri-los descobre que cada um contém uma bola vermelha. Este é um fato universal que depende, portanto, das condições da experiência, mas qual é a condição da experiência? Consiste apenas em que as bolas sejam o conteúdo dos pacotes tirados do saco. Inferimos neste caso, conforme o princípio de Kant, que aquilo que for retirado do saco conterá uma bola vermelha,
isto é indução. (CP 5.223Fn P2 de 1868). Existe, pois, um terceiro princípio, que é
“proposições absolutamente universais devem ser analíticas”. Tudo aquilo que for “absolutamente universal está privado de todo conteúdo ou determinação, pois toda determinação existe através da negação”. O problema, portanto, não é como podem ser sintéticas as proposições universais, mas sim “como é que as proposições universais aparentemente sintéticas podem ser desenvolvidas pelo pensamento apenas a partir do puramente indeterminado” (CP 5.223 FnP2 de 1868 ). Ou ainda nas palavras de Peirce, “ao argumento das proposições universais e hipotéticas a resposta é que embora a verdade delas não possa ser conhecida com certeza absoluta, ela pode ser conhecida em termos prováveis por indução” (CP 5.258 de 1868).
No segundo texto da série cognitiva “Some Consequences of Four Incapacities”, Peirce apresenta sua teoria da cognição. Neste ensaio também Peirce declara sua preferência pelo realismo de Scotus (CP 5.312 de 1868) e introduz a noção de comunidade308 e de opinião
última (CP 5.264 de 1868). Das críticas feitas ao espírito cartesiano, que foram apresentadas no texto anterior, resultam quatro incapacidades:
307 CP 5.223 FnP2 de 1868. Traduzido em C.S.Peirce (1990), Semiótica, São Paulo: Ed. Perspectiva .Os negritos são nossos.
308 Para K. Parker (1998), The Continuity of Peirce’s Thought, Nashville and London: Vanderbilt University Press, p. 15 a concepção peirceana de
comunidade de investigadores representa a síntese de duas idéias, a noção de evolucionismo e a comunidade de escolásticos. Com relação ao evolucionismo, em CP 5.4 Peirce enfatiza que “quase todos concordarão que o bem último repousa, de algum modo no processo evolutivo. Se for assim, ele não está em reações individuais em suas segregações, mas é alguma coisa geral ou contínua”. A noção de evolução fornece um novo paradigma para o pensamento científico do século XIX, e na opinião de Peirce, a teoria evolucionária do desenvolvimento pode ser aplicada tanto às idéias como aos organismos (CP 6.301 de 1891). Com relação à comunidade dos escolásticos, “nada é mais notável em qualquer dos grandes produtos intelectuais daquela época do que a completa ausência de vaidade pessoal por parte do artista ou filósofo” (CP 8.11 de 1871) Ainda segundo Parker, esta concepção de comunidade infinita de investigadores implica três conceitos inter-relacionados: um estado de informação maior do que qualquer estado especificado, uma comunidade mais ampla do que qualquer tamanho específico e uma investigação conduzida num tempo maior do que o especificado.
Não temos poder algum de Introspecção, mas sim, todo conhecimento do mundo interno deriva-se, por raciocínio hipotético, de nosso conhecimento de fatos externos.
Não temos poder algum de Intuição, mas, sim, toda cognição é determinada logicamente por cognições anteriores.
Não temos poder algum de pensar sem signos.
Não temos concepção alguma do absolutamente incognoscível.309
Ao negar a Introspecção e a intuição como formas de conhecimento, Peirce propõe sua teoria da cognição, tendo como fundamento o processo silogístico, atribuindo a toda ação mental três formas de inferência (dedução, indução e hipótese).310 Peirce submete estas
proposições à uma verificação e se propõe a desenvolvê-las até as suas conseqüências, resultando numa análise da ação mental, pela qual podemos reduzir toda ação mental à forma do raciocínio válido (CP 5.267 de 1868). Mas, pergunta Peirce, será que a mente passa de fato por um processo silogístico?311 A resposta para esta questão pode ser entendida na
consideração de que se um homem acredita nas premissas, no sentido de que agirá segundo elas, e dirá que são verdadeiras, sob certas condições favoráveis, também estará pronto a agir conforme a conclusão312 e dirá que é verdadeira, portanto algo acontece dentro do organismo
que é equivalente ao processo silogístico (CP 5.268 de 1868).
Dessa forma, Peirce critica o Cogito de Descartes, isto é, o eu penso como um ponto original e fundamental para se chegar ao conhecimento do mundo, negando que todo conhecimento inferido e derivado necessite ser justificado por uma dedução lógica, a partir de um conjunto de premissas que são elas próprias intuições. Um sujeito individual não pode alimentar a expectativa de que tenha condições de atingir qualquer certeza, como a teoria da intuição nos leva a supor. A certeza, sempre provisória, é uma questão coletiva porque há uma comunidade de pensamento e a continuidade das idéias não pode ser limitada às idéias de um único indivíduo. O eu que aparece é uma fonte de erro e só pode ser explicado pela suposição de que existe um “self” que é falível (CP 5.234 de 1868).
309 CP 5.264 de 1868. Traduzido em C.S.Peirce (1990), Semiótica, São Paulo: Perspectiva, p. 261.
310 Segundo R. Smyth (1985), “Peirce‟s Examination of Mill‟s Philosophy” Transactions of the Charles S. Peirce Society, Spring, vol. XXI.n.2, p.
168, a postulação de Peirce é justamente o inverso de tudo o que Mill afirma, para quem temos um conhecimento especial, que é o conhecimento de nossas próprias idéias, mas que ele confessa incapaz de explicar como se sabe isto. Mas há aqui um ponto comum entre Mill e Peirce: ambos rejeitam a idéia de que o self possa ser conhecido por intuição.
311 Para K-O Apel (1981), Charles S. Peirce - From Pragmatism to Pragmaticism. Amherst: University of Massachusetts Press, English translation
by John Michael Krois, p.33 ff, Peirce reduz toda ação mental ao processo silogístico e a indução substitui a forma nominalista da introspecção.
Peirce também coloca sob análise crítica o conceito kantiano de “coisa em si”; o problema do conhecimento imediato leva à barreira do incognoscível. Então, ao dizer que “não