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Fi’l-i Şenî’ ve Haneye Tecavüz

2. LİTERATÜR ÖZETİ

3.1. Fi’l-i Şenî’ ve Haneye Tecavüz

A fim de delinearmos os contornos que a noção de sustentabilidade assume na discussão contemporânea sobre o patrimônio cultural, optamos por considerá-la a partir da perspectiva do planejamento urbano. Isso porque é na cidade que se expressam mais explicitamente os dilemas e as potencialidades relativos à ampliação da noção de patrimônio. Basta lembrarmos a Carta de Washington para constatarmos que é no âmbito do debate sobre a cidade que desponta a temática da responsabilidade da preservação patrimonial para com o desenvolvimento local, tanto a nível político, quanto econômico e social.

Conforme já mencionamos, a discussão internacional relativa à conservação de sítios urbanos limitava-se, em princípios do século XX, a considerações sobre a morfologia das cidades, a qual expressava atributos de ordem histórica e artística. O seguinte comentário sobre o tombamento nacional de Ouro Preto, em 1933, ilustra essa postura:

(...) a identificação da cidade como monumento nacional não é nada mais que a extensão do princípio do monumento singular estendido a um complexo que, pela qualidade e pela somatória dos edifícios simples, adquire o valor de monumento global. (LOMBARDI, 1992:81)

Com a ampliação da noção de patrimônio cultural, a cidade passou a requisitar abordagens mais complexas, que levem em consideração os seus mecanismos de reprodução social. É neste quadro que desponta a noção, já mencionada no primeiro capítulo, de patrimônio ambiental urbano.

Em tal contexto, as recomendações internacionais relativas à preservação patrimonial também alteraram seu enfoque: elas passaram a enfatizar a responsabilidade social do patrimônio no desenvolvimento local sustentável. É sobre essa relação, estabelecida entre as políticas de conservação urbana e a noção de

sustentabilidade, que propomos nos deter neste item da dissertação.

Convém, inicialmente, apontarmos que esta noção é, em si, um conceito um tanto quanto impreciso, apesar de intensamente utilizado na contemporaneidade. Sua atual imprecisão, contudo, não deriva da deturpação de um sentido original,

previamente definido. Diversos autores comentam que sustentabilidade é, em si, uma noção vaga, uma orientação de caráter geral que deve ser adaptada a contextos específicos.

Nesse sentido, é bem ilustrativa a definição de desenvolvimento sustentável oferecida pela World Commission on Environment and Development, no Relatório

Brundtland de 1987. A amplitude da noção está bem expressa na seguinte passagem:

o desenvolvimento sustentável é aquele que “ (...) satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades” (WCED, 1987). Uma maior precisão para essa definição exigiria que explicitássemos, por exemplo, quais seriam tais necessidades.

Percebemos, assim, que a noção de sustentabilidade só adquire contornos definidos, capazes de orientar práticas de intervenção sobre a realidade, ao se relacionar a sujeitos e a objetos específicos: “o que” será sustentável? “para quem”? “para quê”?

Esse quadro insere os sentidos conferidos à sustentabilidade num jogo de disputa de interesses. Nota-se que os contornos da mesma são continuamente recriados e, nesse contexto, diversas matrizes discursivas tentam se impor com vistas a oferecer uma delimitação mais definitiva ao conceito123.

Na esfera do planejamento urbano, por exemplo, seria possível delimitar três perspectivas principais relativas ao desenvolvimento sustentável (ASCELARD, 1999). Numa vertente manifestaria-se a “Representação Tecno-material das Cidades”. Nesta linha, que se apóia em modelos de racionalidade energética, leva-se em consideração o metabolismo urbano, a partir de uma ótica de desempenho econômico. Assim, a cidade sustentável seria aquela que, para uma determinada oferta de serviços, minimiza o consumo de recursos naturais, otimizando os fluxos e ampliando a conservação de estoques.

Uma outra vertente aborda a cidade como “Espaço de Legitimação das Políticas Urbanas”. Esta proposta consideraria os condicionantes políticos que orientam a produção do ambiente urbano. A cidade sustentável seria aquela que conseguisse reproduzir as condições de legitimação de suas políticas urbanas. Tal

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O pesquisador Henri Ascelard elenca as seguintes balizas em que se apoiaria a noção de sustentabilidade aplicada ao contexto urbano: as noções de eficiência, de escala, de equidade, de auto-suficiência e de ética. Em linhas gerais, a matriz da eficiência se voltaria ao combate do desperdício material gerado pelo desenvolvimento; a matriz da escala defenderia um limite ao crescimento econômico, considerando sua pressão sobre o meio ambiente; a matriz da

equidade articularia princípios de justiça social e de ecologia; a matriz da auto-suficiência

defenderia a independência de economias locais dos fluxos do mercado mundial; a matriz da

ética inseriria a apropriação social do mundo material num debate sobre os valores do bem e

legitimidade se ampara, por um lado, no seu potencial de eqüidade social e, por outro, na noção de eficiência vinculada freqüentemente à adesão à racionalidade econômica.

A terceira vertente concebe a cidade como “Espaço da Qualidade de Vida”. Tal vertente se apoiaria num componente não mercantil da vida urbana: a noção de

cidadania. Ela incentivaria as práticas de gestão participativa nas políticas públicas.

Essa defesa da qualidade de vida poderia repercutir em modelos de ascetismo urbano, voltados à solução das questões sanitárias da cidade, ou até de morfologia urbana, relacionando eficiência energética e qualidade de vida. Poderia, também, amparar propostas de preservação do patrimônio urbano. Nesse sentido, os laços de identidade que ligam um cidadão à sua cidade seriam considerados elementos essenciais para a sua boa qualidade de vida, e as cidades sustentáveis seriam aquelas que,

(...) respeitam sua identidade cultural em toda a sua diversidade criada pelo tempo (história), e que desejam assegurar sua continuidade, e por esta razão tentar preservar seu passado, e desenvolver novos caracteres espirituais e materiais para seu ambiente, compatíveis com sua identidade. (STOVEL, 1999:21)

Esta última noção de sustentabilidade, que se refere aos valores identitários das comunidades, aproxima-se da postura defendida pelos documentos internacionais que orientam a preservação patrimonial na contemporaneidade. Nessa perspectiva, o grande desafio assumido pelas propostas de desenvolvimento sustentável seria possibilitar a reprodução contínua dos valores e das práticas culturais locais, apoiando sobre as mesmas as políticas de desenvolvimento econômico e social.

Conforme apontam certos autores, as intervenções sobre o ambiente urbano dedicadas a assumir este desafio deveriam observar as seguintes recomendações básicas124:

a) Buscar conhecer os condicionantes econômicos, sociais, políticos e culturais dos locais em que serão implementadas, a fim de intervir segundo os interesses e necessidades das comunidades;

b) Compatibilizar o cumprimento de exigência básicas da vida contemporânea com o volume de recursos disponíveis, favorecendo a eqüidade segundo o princípio do acesso intra-generacional aos bens, evitando processos de gentrificação;

c) Considerar o princípio do acesso inter-generacional aos recursos disponíveis, prevendo a conservação e a ampliação de tais recursos às

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futuras gerações, numa visão “a longo prazo” que visaria à reprodução dos valores patrimoniais;

d) Prever a integração entre a conservação patrimonial e o planejamento urbano, a fim de que as intervenções contribuam para o desenvolvimento das cidades, não se tornando meras iniciativas estanques e sem repercussões sobre o mesmo;125

e) Considerar o patrimônio como suporte da memória das comunidades envolvidas, implicado em seu desenvolvimento e em sua qualidade de vida, não o abordando como mera estratégia para incentivar a exploração econômica via turismo cultural126.

Tais recomendações assumem um caráter geral, e podem repercutir de formas diversas em diferentes políticas de salvaguarda. Podemos citar, a título de exemplo, uma tendência que vem se firmando na contemporaneidade e que se harmoniza com as mesmas: a reqüalificação de antigos centros urbanos, freqüentemente degradados, através do incremento da função residencial nos mesmos.

O principal interesse despertado por tal iniciativa consiste em seu cunho social: diversas propostas se apóiam na reabilitação de edifícios não obsoletos - cujas tipologias arquitetônicas permitem sua adequada apropriação – com vistas a gerar oferta residencial para famílias de baixa renda127.

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A integração das políticas de salvaguarda patrimonial com o planejamento urbano favorece, ainda, a viabilidade financeira das intervenções. Conforme sublinhou o consultor da UNESCO, Ramón Gutierrez, ao associarmos a preservação do patrimônio às políticas de planejamento, possibilitamos a captação de recursos de outros setores, como o de habitação, o de obras- públicas, o de equipamento escolar, etc. (GUTIERREZ, 1992)

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Esta última recomendação nos remete à postura assumida pela pesquisa desenvolvida no

Getty Conservation Institute, mencionada no item anterior. Como comentamos, essa proposta

do Instituto, bastante interessante em sua perspectiva inclusiva, parece-nos problemática no seguinte aspecto: ela vincula a noção de sustentabilidade à viabilização financeira dos empreendimentos e, nesse sentido, parece perder de vista a visada social.

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Além desse cunho social, a viabilidade econômica desta inter-relação entre recuperação do patrimônio edificado e política de planejamento urbano - neste caso política habitacional – é, segundo o arquiteto Nestor Goulart Reis FILHO (1992) bastante clara. O pesquisador aponta que reciclar um edifício é cerca de 30% mais barato que construir um outro totalmente novo. É nessa linha que Nestor defende a adoção, no contexto brasileiro, da estratégia da reciclagem-

preservação de construções, a qual deve “(...) ser uma bandeira da construção civil e de todo o

setor imobiliário, podendo vir a ser um dos mais importantes campos da economia deste país.” (FILHO, 1992: 168)

Benzer Belgeler