Os grupos de resistência falharam na denúncia ao modelo de desenvolvimento presente em estados como Minas Gerais e Bahia e as suas consequências para o Rio São Francisco. A ênfase sobre o modelo imposto no Semiárido pelos governos nos últimos anos, e que serão aprofundados com o PTARSF, não foi replicada para os casos já existentes no Alto e no Médio São Francisco, ou não teve a mesma dimensão. Embora denunciando que o PTARSF serviria para irrigar a fruticultura para exportação no Semiárido, os campos de eucaliptos de Minas Gerais e os grandes campos de irrigação dos estados da Bahia e de Sergipe, por exemplo, não ganharam a mesma amplitude de denúncia por parte dos grupos opositores quando dos embates entre defensores e opositores do projeto. Por isso mesmo, os defensores do PTARSF sempre repetiam que, se Minas Gerais e Bahia podiam utilizar a água do Velho Chico para seu desenvolvimento, por que não o poderiam fazer os estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará? É provável que alguns opositores estivessem mais interessados em detratar o governo do Presidente Lula do que opor-se ao PTARSF, já que muitos políticos aproveitaram-se da repercussão da greve de fome de Dom Cappio para só então posicionarem-se contra o projeto.213 Em alguns debates, é possível que se tenha passado a ideia por parte de alguns grupos de que se fazia uma oposição a um projeto do Governo Lula e não ao modelo de desenvolvimento que o PTARSF representa, já que muitos opositores insistiam em depreciar este ex-mandatário da república. Isto pode ter
213 João Alves Filho, um político adversário do Partido dos Trabalhadores no estado de Sergipe e que já foi governador daquele estado por três vezes, Ministro do Interior do Presidente José Sarney e atualmente prefeito de Aracaju, organizou o livro Toda a verdade sobre a transposição do Rio São Francisco (2008), no qual afirma de modo exagerado que a forma como o governo estava conduzindo o processo de realização do PTARSF ameaçava “[...] degenerar na mais grave crise federativa ocorrida no Brasil nos últimos 90 anos, desde a Guerra do Contestado.” (ALVES FILHO, 2008, p. 14).
prejudicado em algum momento o apoio de setores contrários ao PTARSF, porém integrantes ou simpatizantes do referido governo.
Também houve uma falha dos grupos opositores em divulgar que não eram contra a transposição das águas do Rio São Francisco, desde que esta fosse direcionada estritamente para a dessedentação de seres humanos e animais, como recomenda o Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco – CBHRSF. O discurso contrário estava centrado no fato de que o PTARSF direciona 70% das águas para projetos de irrigação e carcinicultura. Claro que isto foi mencionado, mas perdeu-se no emaranhado discursivo em um país que se encontrava cada vez mais dividido partidariamente já naquele momento.
Embora não com a mesma pujança de anos anteriores, a resistência ao PTARSF continua no Semiárido. Fica cada vez mais evidente que os grupos opositores a este projeto tinham razão quanto a sua viabilidade, como pode perceber-se com o aumento dos custos e do atraso da obra.
Um dos resultados da resistência é que estudos começam a tratar do assunto sobre vários recortes nas universidades brasileiras e, embora algumas redes não mais existam, a exemplo da Frente Paraibana, seus frutos são colhidos com a permanência deste interesse pelo PTARSF.
Tais redes foram bem-sucedidas em divulgar para a sociedade brasileira que os projetos de convivência com os ecossistemas do Semiárido vêm apresentando resultados muito satisfatórios no campo socioambiental e econômico, mas não estão recebendo a devida atenção dos governos.
Por fim, as redes de resistência criadas inclusive por aqueles que seriam supostamente beneficiados com o PTARSF, também foram bem-sucedidas ao levantar dúvidas, denunciar a manipulação de dados por parte do governo, questionar o montante gasto e a viabilidade de mais uma grande obra para o NE e, principalmente, mostrar alternativas viáveis para o Semiárido. Mais importante que tudo, elas levantaram propostas e alternativas para a questão hídrica nordestina, tentaram desfazer a imagem de uma região sem água e informaram a população brasileira sobre a emergente Indústria da Água no Brasil.
5. CONCLUSÃO
Como o mito do Prometeu que foi condenado a ter o seu fígado devorado por um abutre a cada noite, assim parece ser o NE vítima do planejamento para o seu “desenvolvimento”. A promessa de desenvolvimento regenera o fígado-esperança dos seus moradores para que logo descubram que as grandes obras apenas servem de alimento para a concentração da água e da terra. A esperança inicial logo é desfeita. O abutre travestido de promessa-desenvolvimento está sempre pronto a devorar as riquezas naturais sem piedade depois de realizar uma grande obra “salvadora”, e aos poucos vai mostrando a sua face ao espalhar vítimas por onde passa.
A fome, a sede e a seca foram e ainda são as palavras curingas para justificar todos os grandes projetos para o Nordeste. As suas causas nunca foram solucionadas, embora mitigadas em várias áreas da região. Nas últimas décadas foi acrescentada a palavra desenvolvimento como um mantra que se canta antes do anúncio das grandes obras, como aconteceu no passado com as palavras referidas no início deste parágrafo.
Uma região condenada a servir de cenário para grandes obras parece ser o destino do Nordeste neste último século. Todas iriam salvá-lo. Todas iriam desenvolvê-lo. Todas levaram benefícios para uns poucos. Mas como contrapor-se a um modelo que propagandeia ser o único capaz de promover a realização dos anseios de parcela majoritária da sociedade atual no que tange ao consumo e à prosperidade, ao mesmo tempo em que este mesmo modelo mostra sinais inequívocos de falência? Ainda mais quando a propaganda governamental garante levar o recurso água, que tem sido o suposto culpado pelas mazelas de milhões de pessoas, mesmo que hoje se saiba que a realidade hídrica daquela região é muito mais complexa do que nos foi informada no passado.
E assim, depois de sucessivos megaprojetos, chegou-se ao PTARSF. Um sonho que pode virar pesadelo para os sertanejos, pois ele aglutina em seus canais a Indústria da Seca e a Indústria da Água. E quem controla a água, controla tudo que está ao redor. Isso os nordestinos sabem por experiência com os açudes públicos apropriados por grandes proprietários que se tornaram os Senhores da Terra e da Água. A Indústria da Água é uma reforma hídrica às avessas, pois a tornará ainda mais privatizada.
Se antes a reivindicação era por Reforma Agrária, agora parece cada vez mais claro que é preciso também uma Reforma Hídrica. Quem sabe um começo seja realizar uma
auditoria sobre o gasto com os açudes realizados com dinheiro público e apropriados por uns poucos, culminando com a restituição destes reservatórios a quem de direito. Mas é sempre mais lucrativo (não para os cofres públicos) construir grandes obras e assim garantir esperanças a um Prometeu que teima em acreditar que o abutre desistiu do seu destino.
A construção dos canais para a transposição das águas do Rio São Francisco constitui mais uma promessa desse modelo desenvolvimento que já causa grandes problemas no Semiárido com os seus campos de irrigação de fruticultura irrigada. Seriam mais bem gastos os 8 bilhões de Reais orçados para a maior obra hídrica já realizada no Brasil em investimento para a educação e saúde e para reverter os números que deixam o NE tão mal colocado neste quesito? A resposta pode parecer óbvia para alguns, mas não encontra o caminho das gavetas de Brasília.
O Rio São Francisco sobreviverá a tantos e múltiplos usos econômicos como a navegação, indústria, irrigação, abastecimento humano, esgotos, pesca, lazer e energia elétrica, principalmente nos estados de Minas Gerais e Bahia? Deve o seu curso natural ser desviado e suas águas levadas para tão distante? E como responder as necessidades dos solos do Semiárido que já sofrem com a devastação, salinização em algumas áreas? E a ameaça do processo de desertificação por ações antrópicas? O abutre precisa cumprir o seu destino e já se comenta sobre novas transposições para outras áreas geográficas do Semiárido. Quanto tempo mais será capaz de suportar o bioma caatinga? Quanto mais a espiral poderá esticar o seu fio?
Em confronto estão dois modelos que não dialogam pela impossibilidade de complementar-se: um é o da convivência com a região semiárida nordestina, e o outro é o da agricultura industrial de modelo importado. O primeiro busca interpretar os limites e as possibilidades apresentadas pelas características socioambientais do lugar. O segundo tem uma cartilha pronta com o cultivo monocultor mais apropriado a ser produzido para a exportação. O primeiro é visto como atrasado, e o segundo é chamado de agricultura desenvolvida. No meio, um governo que elogia a ambos e, no entanto, vai fazendo uma opção prática pelo segundo.
Um dos grandes benefícios da polêmica sobre o PTARSF foi o de apontar para a lenta morte dos rios brasileiros e, em especial, a do Velho Chico. Veio à tona o fato de que o Brasil não tem uma política pública para a revitalização de seus rios, pois a lei que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos não trouxe no seu aparato legal esta preocupação, posto que seu foco estava na gestão e mercantilização da água. Mesmo com um Projeto de
Revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, lançado em 2001, ainda no governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, somente depois de muita pressão dos movimentos sociais da região são franciscana foram iniciadas as obras de saneamento básico, ainda insuficientes. As questões do desmatamento, da poluição industrial e da grande retirada de água para a irrigação ainda não encontram espaço na agenda governamental.
E quando os movimentos sociais questionam, protestam e repelem o PTARSF, são vistos como atrasados e negadores do direito ao desenvolvimento do povo nordestino. Mesmo denunciando o contrassenso do financiamento de uma grande obra que será destinada à irrigação, às indústrias e à carcinicultura. Mesmo apontando novos caminhos de convivência com os ecossistemas do Semiárido. São até mesmo tachados como aqueles que querem negar “uma caneca de água a quem tem sede”.
Estudar uma grande obra que ainda não terminou (terminará?) foi um grande desafio. Ainda mais por ser a maior obra hídrica já realizada no Brasil. Porém, o nosso trabalho também pretendeu demonstrar como uma imagem do Nordeste refletida em um espelho que irradia uma só representação da realidade, aquela que interessa a certos grupos socioeconômicos que são sempre os mais favorecidos com os megaprojetos, contribuiu e contribui para eternizar a pilhagem das riquezas naturais daquela região.
O PTARSF é a repetição de uma história que já conta com muitos anos: uma terra destinada à produção para a agroexportação. É a espiral sem fim a estender o seu fio mais uma vez. Prometeu conseguirá um dia escapar ao seu destino?