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Ao estudo da sintaxe são dedicadas duzentas e setenta e cinco páginas. “Não estamos mais sobre a influência da gramática geral e filosófica e de Sánchez (1587) para quem a sintaxis est finis grammaticae” (Fávero & Molina op. cit: 116).

A sintaxe é definida como “ a teoria das funções57 que as palavras exercem na

enunciação dos pensamentos aí entre elas ocorrem”( p. 222) . Na gramática, o capítulo de sintaxe é todo organizado a partir das funções que os termos exercem na proposição, por esse motivo a obra não apresenta a tradicional divisão formal da sintaxe em sintaxe de regência, sintaxe de concordância, sintaxe de construção.

Segundo Grivet, as palavras podem exercer sete diferentes funções: fato, sujeito, complemento direto, complemento indireto, predicado, aposição e ligação.

Quadro21. Funções sintáticas das palavras na proposição

Funções sintáticas das palavras na proposição

Fato Enunciado por um verbo

Sujeito Enunciado por um substantivo ou pronome

e, acidentalmente, por verbo no infinitivo. Complemento Direto Enunciado por um substantivo ou pronome

e, separadamente por um verbo no infinitivo.

Complemento Indireto Enunciado, explicitamente, por um substantivo ou pronome, um infinitivo e locução adverbial, implicitamente por um advérbio.

57 Segundo Grivet , “ Porquanto só A FUNÇÃO é permanente, universal, absoluta em Gramática; tudo o

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Predicado Enunciado, essencialmente, por um

adjetivo ou um particípio variável, acidentalmente, por um substantivo, um pronome ou particípio.

Aposição Enunciado, essencialmente, por um

adjetivo, um adjetivo ou um particípio variável, acidentalmente, por um substantivo, um pronome ou verbo no infinitivo.

Ligação Enunciada , isoladamente, por uma

conjunção ou locução conjuntiva, contrastamente , por todo pronome adjetivo ou advérbio implicando ostensiva ou disfarçadamente.

O fato representado pelo verbo tem a função de emitir um juízo expresso pelo pensamento. No que concerne ao sujeito, a gramática apresenta a tradicional divisão entre sujeito simples e composto. Para Grivet, não são só os substantivos, pronomes e verbos no infinitivo que podem exercer a função de sujeito, mas qualquer palavra substantivada58 pode exercer essa função. Uma consequência desse processo de substantivação é o fato de que “uma palavra substantivada pode vir não só a formar um sujeito, mas pode ainda formar cada um dos outros termos em que o substantivo compete exercer uma função”. (p.347)

Os complementos são divididos em diretos e indiretos. Complemento direto “ é o termo que abrange a palavra ou conjunto de palavras inteirando o sentido de um verbo sem intervenção de preposição(... )” (p. 361). O complemento indireto que exige uma preposição para completar o sentido do verbo. As espécies de palavras que exercem a função de complementos indiretos são os substantivos, pronomes, verbos no infinitivo e advérbios. O fato de , por exemplo, os advérbios exercerem a função de complemento indireto revela que o autor concebia o complemento indireto de um modo muito diferente do que concebemos hoje. Fávero & Molina (op. cit.:118) destacam que

(...) este termo não é entendido por Grivet como complemento de um verbo transitivo indireto como hoje fazemos, diferentemente, o autor compreende como tal também o termo que completa um nome (o que designamos hoje de complemento nominal) ou dá uma circunstância ao verbo (o que hoje designamos de adjunto adnominal .

58 Conforme Grivet, Toda e qualquer palavra pode vir a ser tomada em sentido substantival caso em que,

para denunciar a sua transmigração para essa classe, ela costuma amparar-se de um artigo ou de um adjetivo determinado. (p.347)

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O predicado é a palavra ou conjunto de palavras que mediante um verbo de estado “declara uma qualificação ou situação do sujeito”. As principais características dos predicados e ligar-se imediatamente a um verbo de estado e semanticamente referir-se a ao sujeito da proposição.

A aposição é toda palavra “que prende-se diretamente pela concordância possível a um substantivo, pronome ou infinitivo para tornar-lhe o sentido mais preciso” (GRIVET:403). As aposições podem ser essenciais ou acidentais. Essenciais são artigos, adjetivos e particípios, as acidentais são os substantivos, pronomes e verbos no infinitivo. A Ligação é “a palavra ou conjunto de palavras que por interposição, torna os termos compostos, as proposições conexas”(id.418). Para o autor, as ligações estabelecem o mesmo tipo de relação quer nas preposições quer entre as orações.

Por fim, o gramatico faz algumas observações sobre os idiotismos presentes na língua portuguesa. Os idiotismos são definidos desse modo:

Idiotismo é toda a locução que embora de sentido claro, porque de uso comum, nega-se entretanto às leis gerais da análise sintática, já porque as palavras que a compõem exorbitam as relações que lhe são próprias, já porque, cotejadas, em sentido genuíno, as mesmas palavras se mostram avessas a formar uma com as outras um conjunto racional. (GRIVET, op.cit..:418)

Diferentemente do que poderíamos esperar pelo caráter normativo e conservador da obra, Grivet não se posiciona contrário aos idiotismos

Apesar de sua excentricidade gramatical, os idiotismos, quando estremes de vulgarismos ou de alusões repulsivas, não são fórmulas reprováveis, muito pelo contrário: discretamente espalhados na dicção temperam-na por assim dizer, de um certo saber pátrio ao qual, com muita propriedade, literatos modernos chamam de vernaculidade.(id:418)

Na sequência, Grivet, faz severas críticas à teoria do verbo substantivo e, portanto, se afasta das orientações da gramática geral e filosófica. A teoria do verbo substantivo surge com a gramática de Port-Royal, mas é creditada erroneamente a Noël e Chapsal:

106 (...) ela [ a teoria do verbo substantivo] veio a dominar soberanamente na gramática portuguesa; e hoje não há, neste assunto, autor que não deixe de lhe fazer a devida continência , embora, nem todos pareçam igualmente convencidos de sua desmarcada eficácia.

A verdade é que, tanto em relação ao francês, como às outra línguas, nunca se imaginou tamanho absurdo, tão qualificada parvoiçada. (...)

Tão maravilhoso achado, só comparável ao descobrimento da

pedra filosofal , não podia vir a predominar na ciência, sem ser caracterizado por um título condigno; daí a aparição, no programa dos estudos de uma Gramática Filosófica59 , assim denominada por se

incumbir de explicar a linguagem que todo mundo entende (GRIVET:op.cit. 227-228)

Segundo Fávero & Molina, “ o alvo de suas críticas ferinas é Sotero dos Reis e sua Grammatica Portugueza , extensamente citado, mas não nomeado” Fávero & Molina, (op. cit :117). Conforme Grivet,

Verbo, diz o mais eminente dentre eles, porque também é o único que, na sinceridade de sua fé, e no ardor de seu proselitismo, não se esquivou ao dever de deduzir de seus princípios as mais longínquas consequências, verbo é a palavra que serve para afirmar a existência

da qualidade na substancia, pessoa ou coisa, e por conseguinte o Nexo ou Cópula que une o atributo ao sujeito da proposição, frase, sentença ou enunciado do juízo.(p. 228)

Ainda conforme Fávero & Molina, Grivet “reforça suas críticas a propósito da análise que Sotero apresenta à página 130 de sua obra, sobre o verbo haver, com sujeito oculto e a significação de existir, afirmando tratar-se de idiotismos da língua”(p.118).

O reparo deste erro vulgaríssimo é na verdade atendível: engana-se porém o autor, quando ao bom falar que recomenda chama idiotismo; porque se Há homens, Havia festas, etc. fosse realmente discordância de número entre sujeito e verbo, nem se deveriam nem se poderiam desculpar; a ilusão está em cuidar-se que o verbo haver significa

existir. Logo que se advirta em que haver é derivado do latim habere , e com o mesma significação de ter , fica manifesto que o, erroneamente chamado sujeito ou agente, não é senão complemento

59 Grivet aponta a existência de outras gramáticas além da filosófica: “ Quanto à outra ou outras

gramáticas, que não tratam de tão pasmosas transmutações, destas ninguém faz caso, e só se sabe que elas existem, porque havendo uma filosófica, força é que haja que não o sejam” (p. 228)

107 objetivo ou paciente; é que o agente ou sujeito real se deixou oculto, para conformar com o uso recebido. Assim, há homens completa-se deste modo: O mundo há ( isto é tem ) homens60

. (GRIVET, op.cit. 233)

Após discorrer sobre a colocação das palavras no discurso, o gramático se detém na discussão das figuras de sintaxe que define como desvios da linguagem. A sintaxe “diz- se figurada por se chamarem figuras os diversos desvios que se produzem na enunciação dos pensamentos” (p. 227). As figuras de sintaxe são cinco: Elipse, Pleonasmo, Silepse, Inversão e Exclamação.

Por fim, após o estudo das figuras, o autor volta a discorrer sobre as diversas espécies de palavras, transformando, assim, a sintaxe numa extensão da lexicologia.

A obra de Grivet representa o final de um longo processo que se iniciou com a gramática de Port-Royal e, no Brasil, perdurou até o final do século XIX. Ao mesmo tempo, a gramática incorpora no seu processo de descrição gramatical muitos preceitos das novas correntes de estudo da linguagem. Na leitura que propomos, esse “sincretismo linguístico” não decorre da idiossincrasia de um ou outro autor, mas reflete um momento de transição na produção gramatical brasileira.

60 A mesma opinião já aparece em Moraes Silva: “ Haver é sempre ativo, e nunca significou existir, como

diz Argote, e outros. Tanto é incorreto dizer = Há homens = por existe homem, como supor, que na significação de ter é idiotismo português concordar com sujeitos no plural. Há homens é uma sentença elíptica, com sujeito no singular, isto é, o mundo, a espécie humana tem homens” ( apud Fávero & Molina, op. cit. : 68 )

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Considerações Finais

Em nosso trabalho analisamos duas gramáticas publicadas no final do século XIX; a Grammatica Portugueza Philosophica, de Ernesto Carneiro Ribeiro e a Nova Grammatica Analytica da Língua Portugueza, de Charles Adrien Olivier Grivet. Essas gramáticas filosóficas tardias demostram que, ao contrário do que as propostas de periodização e os trabalhos sobre o período parecem indicar, a produção gramatical brasileira não vive de rupturas bruscas de orientação, muito pelo contrário, nossa produção gramatical experimenta um desenvolvimento contínuo e com a sobreposição de diferentes correntes teóricas. Como demonstramos, a confluência de doutrinas que caracterizam as gramáticas desse período deve-se ao compromisso dos autores em modernizar a reflexão gramatical brasileira.

Após a leitura das obras, podemos concluir que as gramáticas analisadas incorporaram de maneiras diferentes as inovações das novas correntes de estudos da linguagem. A obra de Carneiro Ribeiro apresenta como influência a tradição racionalista francesa. É marcante na gramática referências a autores como Du Marsais, Beauzée e Condilac. Assim, mesmo que a todo momento o autor busque dar um caráter de modernidade a sua obra, concluímos que a gramático incorpora as inovações com os “pés” ainda fincados na tradição anterior.

Já na obra de Grivet, percebemos um maior afastamento em relação às orientações da gramática geral e filosófica. Apesar de textualmente não ter explicitado a linha teórica que norteia o seu processo de descrição gramatical, concluímos que em muitos momentos o gramático se vale das inovações das correntes “científicas”. Cabe destacar que em muitos momentos fica evidente o desacordo do gramatico com os preceitos da gramática filosófica; é o que acontece, por exemplo, com a crítica à teoria do verbo substantivo e à teoria das elípse

O exame do corpus de registro linguístico revelou que as gramáticas apresentam um caráter purista e conservador. Nas obras destacam-se como exemplo de correção e boa linguagem autores dos séculos XVI e XVII.

Por fim, concluímos que as gramáticas refletem o período de transição pelo qual passavam os estudos linguísticos no Brasil. Cada uma das obras analisadas pretende

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renovar a gramática brasileira com as orientações mais modernas do seu tempo, porém, sem romper com a tradição anterior. Sem dúvida, o pensamento oscilante e em alguns momentos contraditório presente nas obras analisadas abriu caminho para a renovação da reflexão gramatical do final do século XIX.

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