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FİNANSAL ARAÇLARDAN KAYNAKLANAN RİSKLERİN NİTELİĞİ VE DÜZEYİ (Devamı)

AMAÇLI GAYRİMENKULLER

26. FİNANSAL ARAÇLARDAN KAYNAKLANAN RİSKLERİN NİTELİĞİ VE DÜZEYİ (Devamı)

Tem se observado, nos últimos anos, um debate acerca da centralidade da família nas políticas públicas, a exemplo da Política Nacional de Assistência Social (BRASIL, 2004b), que tem como um dos seus eixos estruturantes a matricialidade sociofamiliar.

A centralidade da família é garantida à medida que a Assistência Social, com base em indicadores das necessidades familiares, desenvolva uma política de cunho universalista, que para além da transferência de renda em patamares aceitáveis se desenvolva, prioritariamente, em redes de proteção social que suportem as tarefas cotidianas de cuidado, e que valorizem a convivência familiar e comunitária (BRASIL, 2004b, p. 15).

Para Osterne (2007), reconhecer a importância dos efeitos da convivência e que a família continua sendo, para o bem ou mal, o espaço privilegiado de mediação entre o indivíduo e a sociedade passa a ser fundamental, ao se adotar a família como realidade estratégica na operacionalização das políticas públicas interessadas em fortalecer a cidadania.

Uma incursão aos documentos produzidos e divulgados pelo MDS permite observar que o órgão pensa sua prática tendo como foco a família, entendendo-a em seus variados arranjos. Assim, define que “família é o núcleo básico de afetividade, acolhida, convívio, autonomia, sustentabilidade e referência no processo de desenvolvimento e reconhecimento do cidadão” (MDS, 2006a, p. 27).

Tal definição denota uma concepção idealizada e naturalizada acerca da família, uma vez que representa apenas um de seus lados, o da harmonia, e oculta os demais, encobre o seu oposto, em que há também o conflito e até mesmo a violência (CARLOTO; MARIANO, 2008). É com essa concepção de família, informada por uma abordagem de cooperação e harmonia, que se verifica o direcionamento dado pelo MDS às “diretrizes metodológicas do trabalho com famílias e com indivíduos”, visando orientações para o funcionamento do SUAS e dos CRAS. Para exemplificar tal colocação destaca-se a orientação do Ministério para “realizar trabalho com grupos de famílias ou seus representantes” (MDS, 2006a, p. 30).

No entanto, ao discorrer sobre família,tem-se como figura central a mulher, uma vez que o lugar desta na sociedade, dada a influência das concepções vinculadas à maternidade, está diretamente relacionada às atividades de cuidado familiar e doméstico. No

Programa Bolsa Família, as mulheres são consideradas o público preferencial para serem as representantes legais, ou seja, para o recebimento do benefício em nome da família.

Contudo, apesar de se verificar a adoção de uma concepção mais aberta e ampliada de família, ainda são mantidas as mesmas expectativas sobre o papel da família e suas responsabilidades enquanto grupo/arranjo de proteção e cuidados dos indivíduos, principalmente o papel da mulher/mãe como principal elemento provocador de mudanças, e tendo papel ativo para configuração de “boa família” (CARLOTO; MARIANO, 2008). Tal fato é percebido e denotado pelas mulheres participantes, quando demonstraram a responsabilidade atribuída a elas enquanto titulares dos PTR. Conforme apontou uma das entrevistadas:

[...]mas é um Programa, pelo menos o Programa que eu peguei, que dá visão de autonomia para a s mulheres, de reativar a autoestima, de saber que a gente, com ele, pode sair até da questão da violência doméstica, porque pa ra mim, o Programa serviu e serve até hoje como ga rantia de que eu posso sobreviver (Beneficiária do PBF -Maria).

A partir de seus papéis na esfera doméstica ou da reprodução, a mulher tem sido a interlocutora principal, tanto como titular do benefício quanto no cumprimento das condicionalidades. Desta forma, aponta-se a importância da centralidade nas mulheres para eficácia de programas de transferência de renda no campo da Assistência Social.

Ainda perdura em nosso meio a compreensão de que a família é o lócus de atuação da mulher e o mercado de trabalho o lócus de atuação do homem – mesmo sabendo que homens e mulheres estão presentes em ambos os espaços – essa concepção é incorporada pelas intervenções estatais. Logo, as chamadas políticas de família dirigem-se preferencialmente às mulheres (CARLOTO; MARIANO, 2008, p.153- 168).

No caso específico do PBF, nota-se que a maioria dos beneficiários é de mulheres. Conforme demonstra pesquisa divulgada pelo MDS41 e realizada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher da UNB (NEPEM/UNB), o qual aponta três impactos na condição social das mulheres titulares do benefício do PBF, quais sejam: aumento do poder de compra, com estímulo à economia local, já que o dinheiro utilizado circula no município; afirmação da autoridade e de mais autonomia feminina no espaço doméstico, uma vez que deixa de

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Mulheres mudam suas histórias de vida com o “Bolsa Família”. Secretaria de Políticas para as Mulheres. Divulgado em 01/10/2013. Disponível em: http://www.spm.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2013/10/01-10- mulheres-mudam-suas-historias-de-vida-com-o-bolsa-familia. Acesso em: 15 out. 2013.

depender exclusivamente do marido; e a percepção da própria mulher de ser uma cidadã brasileira. Ainda segundo este estudo, das 13,8 milhões de famílias que recebem o benefício do PBF hoje, 92,37% dos titulares são mulheres. Devido à presença marcante das mulheres no acompanhamento das contrapartidas, a pesquisa concluiu que, em relação à redução das desigualdades entre homens emulheres, o maior acerto do “Bolsa Família” é transferir a renda preferencialmente ao público feminino. É altamente legítima e fortalece a condição social de quem, por orientação cultural e subjetividade individual, está posicionada da maneira mais adequada para zelar pelas novas gerações.

É de conhecimento da população brasileira, que o pagamento do benefício do PBF é feito preferencialmente às mulheres, conforme dispõe o artigo 23 do Decreto 5.209, de 17 de setembro de 2004, que o regulamenta e declara, “O titular do cartão de recebimento do benefício é preferencialmente a mulher ou, na sua ausência ou impedimento, outro responsável pela unidade familiar”.

Portanto, há direcionamento para o público feminino quanto à responsabilidade pelo recebimento do benefício, algo que, se não for neutro do ponto de vista das relações de gênero, tende a favorecê-las, especialmente no que diz respeito às relações de poder no interior do ambiente doméstico. É razoável considerar que, ainda que não seja suficiente para alterar completamente as desigualdades nas relações de gênero fortemente consolidadas, receber as transferências e controlar sua utilização pode ter efeitos na distribuição de autoridade familiar, possibilitando à mulher maior poder de barganha e maior capacidade de fazer escolhas e decisões locativas (MEDEIROS; BRITTO; SOARES, 2007).

Diante dessas questões, percebe-se a importância dada às mulheres mediante a função materna, historicamente construída, que as concebe como membros corresponsáveis pelo enfrentamento da pobreza, a partir do cuidado com a família, em especial com os filhos.

Todavia, há que se averiguar até que ponto privilegia-se nesses programas, “a singularidade feminina”, como forma de valorizar o papel feminino tradicionalmente destinado à mulher, na esfera produtiva e na maternidade, ou se esse reconhecimento passa pela necessária compreensão de seu lugar social como cidadã, e não somente como representante de um grupo doméstico. Essa é uma discussão presente no contexto atual das políticas sociais e que demanda espaço específico de discussão, a qual não está contemplada com maior profundidade nesse texto, mas que constitui assunto de grande relevância para temáticas e aprofundamentos futuros.

O trabalho segue adiante com a abordagem das categorias pobreza e cidadania, consideradas essenciais neste trabalho, pois estão diretamente implicadas com objeto de estudo em análise.

Benzer Belgeler