TFRS 15 Müşteri Sözleşmelerinden Hasılat
30. FİNANSAL ARAÇLAR Finansal Yatırımlar
Hannah Arendt (2005), baseada na interpretação que faz dos filósofos gregos, divide a vida activa humana em três categorias: labor, trabalho e ação80.
Labor, que nos termos modernos se confunde com trabalho, significa, sobretudo, aquilo que era necessário à sobrevivência, relacionado à condição biológica do homem e à manutenção do ciclo de vida. Atividades do dia a dia eram relegadas aos escravos, como cozinhar e limpar a casa, normalmente atividades dentro do âmbito familiar.
Já o trabalho81 está relacionado ao homem e o manuseio da matéria.
Executado principalmente pelos artesãos na época grega, o trabalho era a atividade de fazer objetos que passariam a fazer parte do mundo. Trabalho é transformar a matéria da natureza em coisas com durabilidade para o uso humano. “O trabalho produz um mundo artificial de coisas” (ARENDT, 2005, p.15).
Assim, enquanto o labor era executado para o consumo cotidiano, o trabalho fazia-se para a utilidade e duração.
A terceira atividade é a ação. “É a única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação de coisas ou matéria, corresponde à condição humana da pluralidade” (ARENDT, 2005, p.15). Desta forma a ação faz-se no estar entre homens. Ela é essencialmente da ordem da experiência e difere do trabalho, pois este último tem um fim determinado, enquanto a ação tem apenas um começo cujo fim é sempre uma consequência imprevisível. A ação é então própria do ser político e a condição de sermos todos seres que diferem uns dos outros. Interessante perceber que ao pensarmos a produção coletiva como uma atividade política, movemos a atuação artística do campo do trabalho para o da ação.
80 O itálico coloca-se nestes termos na medida em que estamos pensando-os de acordo com os
significados de Hannah Arendt (2005).
81 Nesta pesquisa, a definição de trabalho a partir dos termos de Hannah Arendt é importante pois faz
um claro contraponto ao conceito de ação e neste caminho nos ajuda a entender o que é política e espaço público. Sabemos que outras definições mais atuais divergem desta, como o conceito de trabalho imaterial dos filósofos italianos Antônio Negri e Maurizio Lazzarato.
Hannah Arendt embasa essa percepção:
A “Obra”, neste caso, não é produto do trabalho, mas só existe na pura efetividade da ação. Esta realização especificamente humana nada tem a ver com a categoria de meios e fins; a “obra” do homem: não é um fim, porque os meios de realizá-la – as virtudes ou
aretai – não são qualidades que podem ou não ser realizadas, mas são,
por si mesmas, “realidades”. Em outras palavras, o meio de alcançar um fim já seria o fim; e este fim, por sua vez, não pode ser considerado como meio em outro contexto, pois nada há de mais elevado a atingir que essa própria efetivação (ARENDT, 2005, p. 219).
Por isso podemos afirmar que os projetos coletivos de artistas diferem da prática artística moderna baseada na produção de objetos, pois nestes primeiros percebemos trocas intersubjetivas entre os artistas e o público ao invés do investimento na expertise técnica cujo foco seria um objeto acabado.
Hélio Oiticica, é um dos artistas que estreiam esse pensamento. Abaixo ele afirma:
Não se trata mais de impor um acervo de ideias e estruturas acabadas ao espectador, mas de procurar, pela descentralização da arte, do campo intelectual racional para o da proposição criativa vivencial; dar ao homem, ao indivíduo de hoje, a possibilidade de “experimentar a criação”, de descobrir pela participação de diversas ordens, algo que para ele possua significado (Oiticica, 1966).
“Experimentar”, “vivenciar”, são palavras que mudam nosso entendimento sobre o objeto artístico. Este deixa de ser algo acabado, projetado e planejado, ou seja, fruto do trabalho, e passa a ser ação, aquela que só tem começo e cujo resultado não pode ser previsto. Ao entrar no âmbito da ação, a arte passa a ter como principal questão o outro, o mundo no qual está, pois é esta exterioridade que é afetada com a ação artística e vice-versa. Arte é endereçamento, pedido de partilha a/com outro. Ela o chama, ainda que o ignore, ainda que ele não responde, ainda que esse outro, esse povo, talvez não exista. Ela solicita o julgamento, o olhar e a palavra, a recompensa de seu dom (FLÓRIDO, 2014, p.41). Na citação acima, a pesquisadora Marisa Flórido nos lembra que a arte é pedido de partilha com o outro. Ela invade, coexiste e reorganiza mutuamente. Importante percebemos o friso na palavra mútuo, pois é da ordem da amizade, é reciproco.
Sintonizados com essas questões, entendendo o próprio fazer artístico como processo de descoberta, podemos citar o exemplo do Projeto Areal (2000), de Maria Helena Bernardes e André Severo. De acordo com eles, não se pode pensar previamente em um produto final, pois este é consequência de um processo no qual eles decidem estar. A proposta da dupla é o apoio e parceria com artistas nos quais a arte acontece sem mediação “resgatando ao primeiro plano a experiência direta entre arte, artista e público” (AREAL, 2009 82). Desta
maneira, é a experiência do processo artístico a verdadeira obra de arte, aquela que acontece sem mediação. Viagens, relações descobertas durante o processo de derivas dos artistas são projetos artísticos do grupo Areal, destas experiências resultam fotografias, livros (intitulados de documentos Areal), mas na verdade, esse “resultado” é o que menos importa. Para o Areal, o processo vivenciado é que deve ser explorado pelos participantes.
De forma similar, percebemos a atuação da Transição Listrada e outros coletivos, nos quais a valorização das trocas, dos encontros, sem a preocupação com um resultado final é constante.
Vemos no grupo Transição Listrada uma consciência de que “não havia objetivo claro”; em outros termos, que havia um “não profissionalismo” (informação verbal83), o que mostra a disposição dos integrantes em iniciar e
descobrir juntos os caminhos aos quais podem ser levados. A atividade artística era encarada no âmbito da ação: do atuar e interferir. Os espaços propostos e as intervenções urbanas do grupo interrompiam a ordem vigente, dando lugar a outras formas de pensar, e, por abrir essa brecha para vozes até então não ouvidas, pode ser entendido também como uma atuação política na cidade.