2. İKİNCİ BÖLÜM
2.1.3. OLAĞANÜSTÜ ŞEYLERE ODAKLANMA – HARİKULADELİK
2.1.3.2. Feyyaz Kayacan’da Harikulade
A um mascarado
Rasga essa máscara ótima de seda
E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos... É noite, e, à noite, a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda!
Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos, Hás de engolir, igual a um porco, os restos Duma comida horrivelmente azeda!
A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo...
E tu mesmo, após a árdua e atra refrega, Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo!
Formalmente, temos:
Ras/ga e/ssa/ más/ca/ra ó/ti/ma/ de/ se/da (A) E a/ti/ra-a à ar/ca an/ces/tral/ dos/ pa/limp/ses/tos... (B) É/ noi/te, e, à/ noi/te, a es/cân/da/los/ e in/ces/tos (B) É/ na/tu/ral/ que o ins/tin/to hu/ma/no a/ce/da! (A)
Sem/ que/ te a/rran/quem/ da/ gar/gan/ta/ que/da (A) A in/ter/jei/ção/ da/na/da/ dos/ pro/tes/tos, (B) Hás/ de en/go/lir/, i/gual/ a um/ por/co, os/ res/tos (B) Du/ma/ co/mi/da ho/rri/vel/men/te a/ze/da! (A)
A/ su/ce/ssão/ de heb/dô/ma/das/ me/do/nhas (C) Re/du/zi/rá/ os/ mun/dos/ que/ tu/ so/nhas (C) Ao/ mi/cro/cos/mos/ do o/vo/ pri/mi/ti/vo... (D)
E/ tu/ mes/mo, a/pós/ a ár/dua e a/tra/ re/fre/ga, (A) Te/rás/ so/men/te u/ma/ von/ta/de/ ce/ga (A) E u/ma/ ten/dên/cia obs/cu/ra/ de/ ser/ vi/vo! (D)
Este poema muda o ritmo apenas em dois versos. No segundo verso do primeiro e do segundo tercetos temos a ocorrência de decassílabos sáficos. Todo o restante do poema é composto de decassílabos heróicos. Assim, teríamos em relação ao tipo de ritmo utilizado nos versos do poema: heróico/ heróico/ heróico/ heróico// heróico/ heróico/ heróico/ heróico// heróico/sáfico/heróico // heróico/ sáfico/ heróico.
A ordem direta das frases é: Rasga essa máscara ótima de seda e atira-a à arca ancestral dos palimpsestos... / É noite, e, à noite é natural que o instinto humano aceda a escândalos e incestos // sem que te arranquem da garganta queda a interjeição danada dos protestos. / Hás de engolir, igual a um porco, os restos duma comida horrivelmente azeda!// (Hás de engolir) a sucessão de hebdômadas medonhas reduzirá os mundos que tu sonhas ao microcosmos do ovo primitivo...// E tu mesmo, após a árdua e atra refrega, terás somente uma vontade cega e uma tendência obscura de ser vivo!
No caso deste poema, não há inversões que influenciem radicalmente a duplicidade de interpretação do texto, o que passa um certo conservadorismo ou um certo ar de exacerbado parnasianismo. Sendo assim, podemos pensar o texto enquanto reflexão sobre a literatura anterior, ou seja, há, por extensão, uma discussão estética e metalingüística no poema que ocorre em uma construção legitimamente grotesca.
“A um mascarado” talvez seja o texto que tenha uma relação mais íntima com a teoria bakhtiniana dentre todos os poemas que foram analisados aqui. Não há propriamente uma atmosfera fantástica como em “Vozes de um túmulo” e “O caixão fantástico”; não há um boneco de marionete, ou uma musa decadente como em “O lupanar” e “Depois da orgia”.
O título do poema já sugere algo dissimulado, ambivalente. O conceito da máscara que esconde algo por trás de si é muito difundido no Ocidente. Com isso, a voz do poema exige de seu interlocutor uma ação que force essa máscara utilizada a retornar ao passado e abandonar aquilo que camufla a alma humana, ou seja, a máscara deve ser
retirada. A obrigatoriedade é sintomática pelo fato do poeta utilizar os dois primeiros verbos no imperativo.
Um detalhe interessante é a escolha da palavra “palimpsesto” — o papiro raspado em que o texto antigo dá lugar a um novo. A idéia de novidade do texto seria justamente a aceitação da natural condição humana — ser instintivo — mas a novidade acontece e se sobrepõe ao passado (conservadorismo ou um outro mundo?), ou seja, o próprio poema de Augusto dos Anjos, com um certo conservadorismo formal parnasiano é uma reflexão cônscia da condição evolutiva da poesia. Esta ganha uma vida que é refletida enquanto sobreposição instintiva e/ ou pensada de sua poética.
O instinto traz o incesto como manifestação comum nesse mundo novo (“É noite” — e, como diz a expressão popular, “à noite, todos os gatos são pardos”), portanto, em uma noite em que o pensamento e/ ou instinto criativo aflora, tudo é possível. Podemos identificar traços da literatura carnavalizada no momento em que a inversão de qualquer ordem social é permitida — o parâmetro é o da hiperbolização absoluta de qualquer manifestação.
Por outro lado, é perceptível que o texto enquanto reflexão metalingüística se faz influenciado pelo passado, mas subverte-o, modifica-o, destrói e reconstrói uma nova poesia — a máscara que imperativamente deve ser retirada é a da poesia parnasiana, aquela que formalmente se conservou em Augusto dos Anjos, como vimos na análise formal acima, mas se modificou no que diz respeito ao conteúdo. A exclamação no final da primeira estrofe é um indício desta constatação (“É natural que o instinto humano aceda!”). Aderir aos incestos e aos escândalos é grotesco em uma análise fisiopsicológica e em uma análise metalingüística. É a colagem fragmentária que tanto caracteriza a poesia moderna.
Na segunda estrofe, percebemos a presença de duas outras estratégias grotescas: a utilização de expressões que remetem aos orifícios corporais, afinal, a garganta, através da boca (“interjeição danada dos protestos”), é um dos pontos de contato do universo interior com o exterior — uma relação cosmológica universal; e, além disso, a imagem da “interjeição” por sair e que deverá ser engolida como uma comida azeda (o que entra no discurso de louvor-injúria bakhtiniano).
Numa perspectiva metalingüística, as expressões utilizadas preconizam o pensamento antropofágico — a garganta tem seu protesto arrancado e, simultaneamente, o poeta come os restos de uma cultura azeda, ultrapassada. A dinâmica do ir-e-vir no
trecho atordoa o leitor que já carrega uma dúvida crucial para a completa compreensão do texto: a quem a voz-poemática se refere?
Inversamente à situação exposta no poema, lembremos o que já sublinhara-nos Bakhtin: quando o ator gagueja em pleno palco, Arlequim lhe dá uma cabeçada no estômago para que a palavra saia. Aqui, a palavra será engolida como a lavagem que é oferecida aos porcos — é a relação cosmológica entre o corpo e o universo que está presente. Se a análise partir para a metalinguagem, percebemos que a influência não agrada à voz-poemática. Parece-nos, neste momento, pertinente dizer que há uma certa “angústia da influência” — o que foi escrito até então é lavagem – negação do passado, sabendo que é influenciado por este.
A partir daí, temos uma espécie de eterno retorno do mesmo ciclo. Os fatos acontecerão, segundo o eu-lírico, de maneira sucessiva. A repetição fará com que o mundo volte ao “microcosmo do ovo primitivo”. Se o ovo é o símbolo da gênese do mundo, através do instinto humano podemos regressar ao seu início. Talvez o retrocesso ocorra para que haja o renascimento do mundo. O que fica evidente é que a vontade de viver se tornará latente após uma luta penosa.
A inversão mais insistentemente defendida por nós é a que atinge tudo. Uma palavra que atravessa a boca, que mergulha pela garganta, volta à origem, ao ovo primitivo; esta entra e sai numa dinâmica enlouquecedora em “hebdômadas medonhas”. O termo hebdômada é, segundo o dicionário Houaiss, um espaço de sete dias, semanas ou anos. O número sete representa a perfeição, a totalidade da ordem moral, espiritual, do tempo e do espaço — o ciclo concluído com uma renovação positiva.
Assim, a grotesca comparação entre o mascarado e o porco que come lavagens representa o final de um ciclo, a conclusão de algo, através da imagem posterior da sucessividade. A partir daí, o universo se resume ao ovo primitivo — o verbo volta ao presente — há um reequilíbrio do ser mascarado, de sua reflexão metalingüística, do universo. Esta nova ordem surge de maneira que o outro — um “eu mesmo” —, a quem a voz-poemática se refere, luta pela sobrevivência no mundo das vontades schopenhaueriano, o ovo primitivo, com o que Nietzsche chama de “Vontade de Potência”. É interessante notar que o poema constrói o retorno da palavra, do próprio ser-homem, do ser poemático e do universo — tudo de volta ao único “ovo primitivo” uma espécie de caos universal.
Notamos ainda que a escolhas dos verbos no texto ocorre de maneira conveniente. Primeiro, verbos no imperativo, depois aparecem o presente, o infinitivo, o
futuro, o presente, o futuro do presente e o infinitivo. O verbo no imperativo indica uma ordem à segunda pessoa; depois, o presente com verbos que indicam estado e um verbo no subjuntivo (aceda), ou seja, uma dúvida ainda paira na realização ou não da ação. Na segunda estrofe, temos a ocorrência de dois verbos no presente e um no infinitivo que indica certa passividade e uma generalização. Nos dois tercetos, temos um verbo no futuro, o retorno ao presente, então surge o futuro do presente — todos verbos de ação — e o último verbo do poema é indicador de estado e impessoal, portanto a passividade retorna ao cerne da construção poética — a própria seleção verbal demonstra o ciclo de retorno ao ovo primitivo.
Em outros textos, Augusto dos Anjos costuma acometer-nos também com certo ar de imutabilidade posterior à ação. Parece que há sempre um conflito a ser resolvido e que, com a (não)resolução deste, as situações, apesar de diferentes, são as mesmas em todas as circunstâncias — como se o universo voltasse à gênese de sua criação.
Seu texto possui um realismo tão verossímil e cruel que chega a parecer extraordinário, e neste aspecto, se distancia da teoria bakhtiniana, mas vincula-se à teoria de W. Kayser e outros teóricos do grotesco — a realidade se torna absurda em um determinado momento pelo simples fato de ser analisada de maneira minuciosa —, ou seja, uma pequena manifestação no universo pode transformar o eu mesmo em outro.
O retorno à origem se mostra, em outra perspectiva, uma regressão, afinal o caos dos gregos era ilimitado e indefinido o que representa um flagelo. Esta realidade cruel e devastadora, doentia e nefasta, faz com que o leitor se sinta preso em uma outra realidade — a criação parece prestes a ocorrer.
A questão da máscara no poema analisado é fundamental para compreender esta interpretação: a voz-poemática se refere a um interlocutor próximo (segunda pessoa), mas com o decorrer do poema o leitor começa a identificar o eu-lírico no outro. Se a intersecção sugerida não ocorre claramente, quando o ovo primitivo traga todo o universo a conclusão não pode ser diferente. O ser deixa de existir?
Oras, o corpo é sugerido como resistência nos versos finais (“Terás [...] uma vontade cega e uma tendência obscura de ser vivo”). O corpo enquanto palavra, na análise metalingüística, resiste/ persiste da mesma maneira que o corpo humano. Outra característica identificada no poema é a de que o corpo humano é sempre matéria criadora, como diria Bakhtin, destinada a vencer o cosmos, ou seja, a matéria comumente assume caráter heróico.
Não há heroísmo maior do que se implodir na tentativa de construir um novo universo. A sugestão de uma atitude tão séria não pode ser grotesca. Todavia, a construção da nova realidade é feita pelo eu-poemático a partir de uma “tendência obscura” que se refere à máscara. De maneira superficial, abordamos a máscara por representar o reverso da realidade nua, miserável e sofrida do dia-a-dia. A máscara, simbolicamente falando, tem um significado muito pertinente à nossa análise. Vejamos:
As máscaras preenchem uma função social: as cerimônias mascaradas são cosmogonias representadas que regeneram o tempo e o espaço: elas tentam, por esse meio, subtrair o homem e todos os valores dos quais ele é depositário da degradação que atinge todas as coisas no tempo e no espaço. Mas são também verdadeiros espetáculos catárticos, no curso dos quais o homem toma consciência de seu lugar dentro do universo, vê a sua vida e a sua morte inscritas em um drama coletivo que lhes dá sentido.89
Conforme salienta o texto, a máscara serve para demonstrar a contraditoriedade do mundo, em “A um mascarado” a contraposição existe, mas ela se realiza em um paradoxo grotesco: a máscara é a negação do passado (mentiroso), porém, ela representa o presente (verdade) que se manifesta apenas através de uma máscara, ou seja, não tem autenticidade. O presente e o passado estão interligados pelo impuro disfarce que o grotesco lhes fornece.
A purificação ocorre somente quando se tira a máscara, abandonando-a definitivamente no passado. O tempo é ilimitado e a máscara é retirada cíclica e eternamente, como se estivesse fora da medida do tempo, na entrada do universo carnavalizado, ou em um outro universo possivelmente carnavalizado — no universo interior que cada um carrega dentro de si. Há uma espécie de princípio de renovação que é eterno.
As características apontadas acima remetem ao decadentismo. A procura por sensações estéticas refinadas eleva a experiência poética a um plano metafísico em que as reflexões chegam a um ponto tal que a única saída é manter-se vivo, algo que os decadentistas respeitariam pelo simples fato de ser uma experiência última, limítrofe. Porém, sem a presença de um universalismo grotesco, deformador do corpo com sua máscara e a atmosfera criada por esta, não seria possível vivenciar o prazer estético de
contemplar a beleza de uma luta pela existência de si mesmo ou de qualquer outro ser ou coisa.