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4. BULGULAR VE TARTIġMA

4.4 Fermantasyon Denemeleri

As abordagens que o Lula realiza nas suas narrativas sobre temas diversos, categorizadas por mim como territórios imagéticos menores, mostram-se como olhares contraditórios. Especialmente quando transpasso as narrativas cordiais e aquelas que fazem referência ao espírito público, não foi possível encontrar conformidade de propósito por conta da própria maneira com a qual Lula enunciava suas realizações e/ou promessas. Entretanto, pouco a pouco o contra- senso foi se revelando aparente e se organizando com objetivos mais amplos, identificados com aqueles que pertencem a territórios imagéticos.

Estes territórios, é sempre bom relembrar, são caracterizados por constituírem-se de uma pluralidade de interesses complementares e evidenciados através de uma mídia visual qualquer. Nessa direção, as qualidades que foram por mim interpretadas nas narrações do Lula, tais como ironia, amizade, personalismo e espírito público, etc., são sistematizadas para ampliar um leque possível de eleitores. Explico melhor.

Enquanto território imagético menor, as narrativas do Lula só poderiam encontrar confiança em grupos especiais de eleitores, pois esse tipo de fronteiras de interesses tem como aspecto principal ser específico em suas abordagens de proposições. Todavia, na medida em que os relatos do presidente-candidato são direcionados para outras possibilidades de se alcançar confiança do eleitor, complexificando seus olhares, eles podem ser apreciados como complementares.

Em decorrência disto, o tim das dádivas se apresenta como ponto de interseção entre estes dois outros territórios imagéticos

menores: a cordialidade e o espírito público. Isso ocorre porque os propósitos das dádivas nas narrações do Lula são essencialmente de constituir uma parte de um processo de “prestações totais” mais amplas denominada de eleições. As realizações ou as promessas enquanto dons narrativos do postulante, não fazem diferença entre o que estar sendo dito de maneira cordial e o que estar sendo relatado com traço de espírito público. Os propósitos das ofertas do Lula enquanto representante da coletividade do governo que administra, é tão-somente possibilitar a manutenção ou conquista de novas negociações e trocas com os eleitores.

Sendo os territórios imagéticos menores, portanto, complementares entre si, destaco um pouco mais seu caráter persuasivo. Isso acontece, sobretudo, por conta do traço plástico que entendo ter as narrativas do presidente-candidato. Quando percebo que as abordagens que ele faz ao eleitor-telespectador são plurais e transitam entre a cordialidade e o espírito público, compreendo essa maleabilidade como um instrumento de persuasão simbólica. Enquanto tal, as abordagens narrativas desse ou daquele traço são discretas, talvez imperceptíveis ao eleitor-telespectador desavisado. Elas não deixam claras em seus relatos suas marcas irônicas ou personalistas. Estas, por sua vez, são postas em frases que as anuviam e cheguem até aqueles que as assiste bem próxima do invisível.

Em conseqüência dessas narrativas plásticas e persuasivas, a coletividade que o Lula representa tenta convencer grupos de eleitores distintos a confiar no que o seu representante narra. Conservados os juízos de ser ou não correta, essa estratégia parece ampliar as possibilidades de encontrar identificação num conjunto maior de indivíduos aptos a votar. Talvez tenha sido esta uma das intenções

de se organizar uma contradição aparente entre as abordagens narrativas plásticas.

Meu propósito neste capítulo é realizar apreciações sobre o corpo do Lula enquanto território de matizes culturais e representações de brasilidade. Nesta oportunidade compreendo o corpo do presidente- candidato como um palco de significações extenso, inclusivo e simbolicamente dilatado, que salta as fronteiras próprias das imagens de suas carnes, formas, adereços e vestimentas, e entende como parte integrante de seus limites, os corpos dos apresentantes e os sentidos que eles podem evidenciar.

Entre as possibilidades de interpretações desse corpo- território protagonista, sublinho as expressões que intentam representar as culturas “negras”, “índias” e “brancas” como porções especiais, complementares e conflituosas de uma identificação nacional que se pretende harmônica.

Para desempenhar esta tarefa, segmentei esta parte da pesquisa em três momentos principais: inicialmente analiso o corpo do Lula como um ponto de encontro entre culturas nacionais expresso no seu baralhar com outros corpos. Na seção seguinte, aprecio a mistura entre os corpos dos apresentantes no primeiro turno das eleições, enquanto representações de uma brasilidade solidárias. Por último, quando tem início o segundo turno do pleito eleitoral, percebo a contrapartida conflituosa do caráter harmonioso daquelas identificações culturais.

Acredito ser necessário ressaltar e ao mesmo tempo lembrar nesta ocasião ao leitor, que entendo o conceito de território neste estudo como sendo a propaganda política eleitoral acentuada, dentro da qual relações sociais são organizadas e suas significações e interresses

postos a sortidas interpretações. Entre estas apreciações, o corpo do Lula é visto por mim como um território específico e constituinte daquele palco visual mais amplo, porém, que possui suas linhas divisórias em movimentação permanente. Isso quer dizer que sua fluidez de fronteiras pode sistematizar uma avaliação e confundir propositalmente o corpo- território do postulante com a totalidade da propaganda que protagoniza.

Não obstante esta possibilidade, minhas reflexões aumentam as dimensões territoriais do corpo do presidente-candidato para incluir tão-somente os corpos dos apresentadores de seus programas e os sentidos que eles me apresentaram no tocante a ser, eles, representações de culturas nacionais solidárias e conflituosas ao mesmo tempo. Entendido dessa maneira, o corpo do Lula se mostra um território onde interesses e sentidos variados que cunham uma brasilidade contraditória.