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2. KURAMSAL TEMELLER

2.8 Fen ve Teknoloji Öğretim Programının Ölçme ve Değerlendirme Boyutu

A obra A origem das espécies foi publicada em 24 de novembro de 1859, em Londres. Foi a nona obra publicada por Darwin, de um total de 17. “Era um volume com aparência muito comum, encadernado num tecido vermelho robusto, tinha 502 páginas e o preço – um tanto caro – de 14 xelins” (BROWNE, 2008, p. 119). Os 1250 exemplares da tiragem inicial se esgotaram no dia do lançamento. No mesmo dia, já ciente do sucesso das vendas e da urgente necessidade de uma segunda edição, Darwin escreve uma carta ao amigo Thomas Huxley, que ficaria conhecido como bulldog de Darwin, evidenciando sua preocupação com o pouco tempo para a realização das correções à segunda edição. Ele escreve: “fui hoje informado por Murray de que ele vendeu a Edição inteira de meu livro no primeiro dia, e ele quer outra imediatamente, o que me deixa atrapalhado, pois mal posso fazer alguma correção” (DARWIN, 24 de novembro de 1859, apud BURKHARDT, 2009, p.276). Cerca de 48 dias após esta data, a segunda edição já estava disponível ao público. No total foram 6 as edições publicadas com Darwin ainda vivo, sendo a última publicada em 1972. Alterações foram realizadas em todas as edições, mas na 5ª e, particularmente, na 6ª foram mais significativas (MAYR, 1998; BROWNE, 2008).

Logo após a publicação, a obra não circulou apenas no meio científico da época. Isso pode ser evidenciado em um ensaio sobre a obra, escrito por Huxley, em 1860, apenas um ano após a publicação original de A origem das espécies, no qual ele diz: “transbordando os limites estreitos dos círculos puramente científicos, a ‘questão das espécies’ divide com a Itália e com os Voluntários a atenção da sociedade em geral. Todos leram o livro do sr. Darwin ou, pelo menos, deram sua opinião a respeito de seus méritos ou deméritos” (HUXLEY, 2006, p. 21). A boa receptividade da obra também aconteceu porque o acesso a ela foi facilitado por Darwin, que cuidou pessoalmente para que algumas pessoas a recebessem. Assim, além dos 12 exemplares gratuitos que recebeu como autor, ele encomendou cerca de 80 livros à editora, solicitando o envio para pessoas específicas. Duas semanas foram necessárias para que Darwin redigisse pessoalmente “muitas cartas, cada uma ajustada com delicadeza ao destinatário e objetivando desarmar de antemão o pior das críticas previstas” (BROWNE, 2008, p. 122).

Darwin enviou livros para importantes e influentes estudiosos ao redor do mundo, conhecidos dele ou não, e para as grandes instituições de história natural da Europa, da América

do Norte e de todo o império Britânico18. Na verdade, ele enviara um exemplar de seu livro para todas as pessoas que considerava importantes (BROWNE, 2008). Ele compreendia que a recepção da obra envolveria

um processo social, dependendo, no início, da força de seus argumentos e depois, progressivamente, entrelaçando as redes de avaliação e aprovação que permeavam a Londres literária e sua própria influência sobre elas. O que ele não sabia então era o modo como o livro se espalharia do público de elite ao qual ele pretendia principalmente se dirigir, na Grã-Bretanha e no exterior, para partes cada vez mais diversas do público leitor. Suas palavras se disseminaram por meio de periódicos, jornais, palestras públicas, tratados controversos e revistas de livre pensamento ao mesmo tempo em que grandes mudanças culturais se tornavam manifestas – mudanças no status da ciência, na crença religiosa, no impacto da publicação, na educação e na mobilidade social (BROWNE, 2008, p. 120).

Essa rápida disseminação acarretou, também, transformações na vida de Darwin. Como argumenta Browne (2008, p. 120), “é claro que ele esperava controvérsia, embora, mesmo em seus momentos mais sombrios, não tivesse nem começado a imaginar as convulsões de opinião pública, elogio e detração que se seguiram”. A controvérsia que viria, de certa forma, ficou evidente na primeira resenha, que saiu antes da publicação do livro. Argumentava-se sobre as implicações da ideia de Darwin, concluindo-se que o livro era considerado perigoso de se ler, devendo permanecer em mãos seguras, as dos teólogos (BROWNE, 2008). Huxley, ainda em seu ensaio de 1860, nós dá uma ideia de como a obra foi recebida por diferentes grupos, à época:

os religiosos, leigos ou eclesiásticos condenam-no com uma zombaria moderada que parece até caridosa; os fanáticos condenam-no com invectiva ignorante; conservadores o consideram um livro decididamente perigoso, e até pessoas cultas citam autores antiquados para mostrar que seu autor não é melhor do que um homem macaco; enquanto os pensadores filosóficos o saúdam como um verdadeiro canhão Whitworth no arsenal do liberalismo; e todos os competentes naturalistas e fisiologistas, independentemente das opiniões quanto ao derradeiro destino das doutrinas apresentadas, reconhecem que a obra é uma sólida contribuição ao conhecimento e inaugura uma nova época da História Natural (HUXLEY, 2006, p. 21).

18 Um exemplar de A origem das espécies chegou ao Brasil poucos anos após ser lançado. O naturalista e botânico alemão Fritz Müller recebeu, em Blumenau, Santa Catarina, um exemplar da edição alemã enviado por Max Schultze, professor de zoologia na Alemanha. Müller, provavelmente recebeu a obra não muito tempo depois da publicação da primeira edição na Inglaterra, visto que, em outubro de 1961 já menciona acerca de suas impressões sobre a leitura em carta enviada a seus pais. Apenas 3 anos depois, em 1964, Müller publicava, na Alemanha, um livro intitulado Für Darwin (Pró-Darwin), objetivando auxiliar na divulgação das ideias darwinistas. Darwin teve acesso ao livro de Müller e providenciou uma tradução da obra para a língua inglesa publicada sob o título Facts and arguments for Darwin. Presume-se que logo após Darwin ter acesso a obra de Müller os dois passaram a se corresponder por um período que durou cerca de 20 anos, entre 1865 e 1882. A correspondência entre os dois findou pouco tempo antes da morte de Darwin, em 1882, na Inglaterra (TOMIO, 2012).

Alguns historiadores da ciência descrevem as reações religiosas à publicação de A

origem das espécies. Brooke (2003) relata ser difícil traçar uma ordem para essas reações

devido à diversidade de respostas que variaram até mesmo no interior de um mesmo grupo religioso. Como exemplo, ele cita o famoso e anedótico episódio ocorrido em uma reunião da

British Association for the Advancement of Science, em 1860, em Oxford. Na reunião, se

mostrando fortemente contrário à evolução darwinista, o Bispo de Oxford, o anglicano Samuel Wilbeforce, perguntou a Thomas Huxley se a sua ascendência simiesca provinha por parte de seu avô ou de sua da avó. No mesmo dia, o anglicano Frederick Temple, que se tornaria o futuro Arcebispo de Canterbury, e também presenciara a discussão na British Association, se pronunciaria favoravelmente à evolução em um sermão realizado na mesma Oxford.

Roberts (2014) também relata diferentes reações entre os religiosos. Alguns19 se mostraram favoráveis, buscando acomodar suas crenças às ideias darwinistas. Dentre eles o autor destaca o católico britânico John Henry Newman (1819-1875), o clérigo anglicano Charles Kingsley (1819-1875) e o protestante reformado Asa Gray (1810-1888), este último considerado o grande disseminador do pensamento darwinista nos Estados Unidos, à época. Outros religiosos, num primeiro momento, se mostraram contrários afirmando que as ideias de Darwin desafiavam o entendimento da história natural como resultado de um propósito divino. Entretanto, pouco tempo depois, devido à grande aceitação do pensamento darwinista entre os historiadores naturais, muitos mudaram de ideia. Segundo Brooke (2003), cerca de 50 anos após a publicação de A origem das espécies, entre 25% e 50 % dos clérigos haviam absorvido grande parte das ideias darwinistas.

Dentre os religiosos que se mantiveram fortemente contrários a Darwin, estavam aqueles que alegavam que suas ideias eram um ataque à teologia natural e às sagradas escrituras. Predominavam neste grupo os apologistas cristãos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, que entendiam ser a disseminação das ideias darwinistas parte de um plano que objetivava eliminar Deus das explicações sobre o mundo natural em favor de explicações materialistas, no intuito de conferir somente a este tipo de explicação o status de conhecimento científico. Os católicos atacavam, principalmente, as credenciais científicas darwinistas. Seus argumentos se baseavam em críticas utilizadas pelos historiadores naturais quando grande parte deles ainda rejeitava as ideias de Darwin. Os protestantes, por sua vez, faziam uso de qualquer tipo de argumento, que

19 Datam da mesma época da publicação de A origem das espécies, os chamados estudos bíblicos, iniciados na Alemanha e disseminados para o restante da Europa, que visavam analisar o Antigo e Novo Testamento como documentos históricos. Seus resultados evidenciaram as incongruências das Sagradas Escrituras. Também por isso, as ideias de Darwin encontram eco em alguns setores eclesiásticos. O sacerdote anglicano Frederick Temple, que se envolveu no episódio Wilbeforce/Huxley fazia parte desse movimento (AVELAR, 2007).

evidenciasse o caráter falacioso do pensamento da Darwin (ROBERTS, 2014). Numbers (2006) relata a ocorrência de uma mudança de argumentação entre os ministros protestantes após a adesão dos historiadores naturais a Darwin. Segundo ele,muitos quealegavam a inconsistência científica da hipótese darwinista, passaram a defender a sua incompatibilidade com os dogmas cristãos.

A reação dos religiosos que se opuseram às ideias darwinistas, nos Estados Unidos, no período que vai da publicação de A origem das espécies até o final do século XIX, é relatada por Numbers (2006), que faz uso do termo criacionista20 para denominar esses indivíduos. Dentre os cientistas ditos criacionistas, o autor destaca Louis Agassiz (1807-1873), considerado o mais ferrenho opositor a Darwin nos Estados Unidos no período. Agassiz era um geólogo, zoólogo e professor de Harvard que se dedicou ao estudo dos peixes fósseis. Não era um religioso praticante, apesar de pertencer a uma longa família de ministros protestantes. Defendia a criação especial, mas procurava manter suas crenças religiosas afastadas da sua prática científica – quando se tornou professor em Harvard, entretanto, passou a ser mais tolerante com a interação ciência e religião. Não era literalista e propôs uma alternativa à narrativa bíblica, visando acomodar o relato aos conhecimentos geológicos. Suas críticas se relacionavam à cientificidade da hipótese darwinista que, para ele, era “um erro científico, não verdadeira em seus fatos, não científica em seus métodos e perniciosa em suas tendências” (AGASSIZ, 1860, p. 154 apud ROBERTS, 2014, p.114). Para ele, a hipótese não se enquadrava nos critérios de cientificidade da época, principalmente, quanto a sua verificabilidade e ao uso do método indutivo. Nessa época, predominava uma visão de uma ciência centrada no método indutivo, ainda não se compreendia outras formas de ciência, as ciências históricas, por exemplo, como é o caso da ciência evolutiva que não poderia ser “verificada” empiricamente devido à escala temporal envolvida na especiação. Também não se aceitava a estrutura metodológica hipotético-dedutiva21 utilizada por Darwin, considerada de natureza especulativa. É somente em meados do século XIX que o método hipotético-dedutivo passa a ter uma maior aceitação entre os cientistas, graças, também, ao próprio Darwin (BROOKE, 2003). Agassiz estava entre os poucos cientistas da época que não mudaram seu julgamento em relação às ideias de Darwin,

20 Ainda neste capítulo evidenciamos nosso entendimento do termo ‘criacionismo’, descrevendo os seus diferentes tipos.

21 Segundo Brooke (2003, p. 278, apud DARWIN, 1887, p. 78-79). Em correspondência a Asa Gray, datada de 20 de julho de 1856, Darwin descreve o método por ele utilizado. Ele diz: “assumo que as espécies surgem, como as nossas variedades domésticas, com muita extinção; e depois testo esta hipótese, comparando-a com todas as propostas gerais e bem estabelecidas que consigo descobrir – na distribuição geográfica, na história geológica, nas afinidades, etc. E parece-me que supondo que essa hipótese pudesse explicar essas propostas gerais, deveríamos de acordo com a maneira habitual de proceder em todas as ciências, admiti-la até que uma hipótese melhor seja descoberta”.

mantendo-se como um opositor convicto e ferrenho até a sua morte, em 1876, e influenciando outros opositores, cientistas ou não22. Numbers (2006) relata, ainda, a existência de cientistas criacionistas que se opunham a Darwin devido à visão literalista bíblica que possuíam. Um exemplo era o também geólogo e clérigo Edward Hitchcock.

Numbers (2006) e Roberts (2014) entendem haver um período no qual se constata uma maior adesão ao pensamento de Darwin tanto entre historiadores naturais quanto entre eclesiásticos. Segundo os autores, isso acontece, aproximadamente, 15 anos após a publicação de A origem das espécies, progredindo por cerca de uma década. Em relação à adesão pelos historiadores naturais, Roberts (2014) entende que

o fator que se mostrou mais decisivo para a conversão desses cientistas não foi a crença de que Darwin tivera sucesso em prover um mecanismo que poderia, de forma plausível, ser responsável pela transmutação, nem um influxo dramático de dados favoráveis à interpretação evolucionista da história da vida. Na verdade, a principal consideração era meta-empírica: a convicção de que a transmutação era mais consistente com as normas do discurso científico do que o era o ‘dogma das criações especiais’ (ROBERTS, 2014, p. 119).

Mas não foram todas as ideias contidas em A origem das espécies que foram paulatinamente aceitas após a sua publicação. Algumas que enfrentaram forte resistência inicial continuam, atualmente, sendo objeto de debate da biologia evolutiva. Discutir alguns aspectos de como se deu o posterior desenvolvimento das ideias darwinistas será o foco na próxima seção.

Benzer Belgeler