6. SONUÇLAR VE TARTIŞMA
6.1 Fen Bilgisi Öğretmenlerinin özel alan yeterlilikleri
Nesse item, gostaria de apresentar alguns aspectos trazidos pelos profissionais em relação aos programas de transferência de renda. É importante ressaltar que, como eles estão situados na ponta das políticas de Assistência Social, eles dispõem de um ângulo privilegiado a partir do qual podem observar de perto o funcionamento dessas propostas de proteção social.
Dentre as situações que serão apresentadas como problemáticas e contraditórias, estão: o caráter de obrigatoriedade de participação nos grupos socioeducativos e do cumprimento das condicionalidades para garantir a participação no programa e o recebimento do benefício; a implicação da prática de fiscalização ou verificação das condições materiais de vida das famílias no vínculo estabelecido entre o psicólogo e a família; o benefício monetário tornar-se a motivação principal ou única das pessoas em ir ao CRAS; as táticas para sua obtenção, como mentir; a não eficiência do benefício na erradicação das situações de pobreza; a suscetibilidade da inserção ou no deferimento de recursos frente aos aspectos subjetivos do técnico, dentre outros.
A primeira questão refere-se às atividades voltadas para a verificação ou fiscalização das condições materiais de vida das famílias motivadas, em grande parte, por conta de denúncias de irregularidades no recebimento dos benefícios por parte das pessoas da própria comunidade. No entanto, atualmente, essas atividades são ocasionais nos CRAS, porque outro órgão assumiu a função. Aline considera que esse aspecto prejudica o vínculo estabelecido com as pessoas atendidas e provoca a confusão sobre o sentido de sua práxis.
[...] Como você vai escutar a pessoa para verificar se realmente era dela...? [...] aí você acaba criando inimizades [...] ela era do meu grupo... aí como é que ficam essas relações?, fica bem confuso. [...] O que é ótimo é que a gente não faz mais. ALINE
Fica uma coisa muito burocrática [...] ficar administrando o bolsa família das pessoas, ficar fiscalizando, às vezes, se ela tá mentindo, uma coisa de... como é que chama? Espião? Detetive... [...] Isso existe, por quê? Porque tem muitas famílias que vem aqui fazer denúncias de outras famílias, muitas que estão fora dos critérios. “Olha, a minha vizinha, ela tem isso, ela tem aquilo e ela recebe tal, tal e tal, por que eu não posso receber?”. [...] Não vou lá visitar. A central de cadastro até faz isso, mas a gente aqui no CRAS não. THAÍS
Pedro conclui que a obrigatoriedade da participação dos beneficiários nas atividades referentes aos PTRs é oposta ao propósito de promoção da autonomia dos mesmos e que muitas pessoas apenas frequentam os grupos socioeducativos porque acham que podem perder o benefício. Para ele, o grupo seria muito mais interessante se a motivação surgisse pela participação na atividade. Por outro lado, considera que sem esse “medo” de perder o benefício, o grupo seria esvaziado. Os grupos iniciam com muitas pessoas e no terceiro encontro, quando descobrem que a frequência não interfere no recebimento, “aí de quarenta, cai para cinco membros; não têm o mínimo interesse” (PEDRO).
Primeiro, que pra fazer um trabalho desses, você precisa estar por livre espontânea vontade, se você está pensando em desenvolvimento. E não é muito bem assim...! [...] Tem pessoas que vêm porque gostam [...] de participar das reuniões, acham que isso é importante e tem pessoas que vêm porque acham que se não vierem, vão perder o benefício. [...] agora as pessoas não estão vindo mais [...] não sei se foi porque mudou nossa orientação [...] não sei se a gente está ficando mais chato (risos) ou se o público que não quer vir porque sabe que não vai perder o benefício. PEDRO
[...] a conversa que eu fiz com eles foi muito responsável por isso [esvaziamento], porque eu falei que o grupo tinha um interesse por ser um grupo, uma atividade pra fazermos juntos, de defesa de direitos, uma coisa bacana pra eles, com temas que eles escolhessem, que era um espaço de construção, mas... que... não era obrigatório... e... não era mentira, mas eu não precisava ter falado isso. Então, muita gente não veio. [colega assistente social] até brigou comigo: “O que você fez? Mandou todo mundo embora?”. PEDRO
Pedro e Aline apontaram a resistência das famílias em relação à participação nos grupos socioeducativos como um desafio que precisa ser compreendido e superado.
Por outro lado, ambos relataram que, sempre depois dos grupos, algumas pessoas demandam a escuta individual. Presenciei esse aspecto em todas as observações que realizei nos grupos socioeducativos. Um aspecto que pode ser compreendido como uma necessidade por um espaço de escuta ou diálogo sobre algumas demandas que talvez pudesse ser proporcionado dentro do próprio grupo.
[...] elas trazem uma demanda muito grande pra gente, depois, individualmente, “Ah, quero falar com você”, porque ou é o cartão do Bolsa Família, ou quer contar alguma coisa que aconteceu, uma parte vai embora, terminou o grupo e vai embora, mas sempre tem um grupo que demanda mais atenção “Ai, quero conversar sobre tal coisa”. Aí ou eu levo pra sala, ou eu marco pra outro dia ou falo que vou fazer visita [...] ALINE
Algumas questões podem ser levantadas a partir da apresentação dessa situação: por que as pessoas não comparecem? Qual o sentido que o grupo faz para essa população? Eles atendem as demandas dos participantes ou as atividades são elaboradas a partir do que os técnicos e a Secretaria consideram importantes para estas pessoas?
Um dos motivos pode ser que a imprevisibilidade presente no dia a dia dessas pessoas e mesmo as condições das quais dispõem para chegar até o CRA impeça sua participação no grupo.
Além disso, conforme já apresentado em Atividades Desenvolvidas pelos psicólogos, na seção referente aos grupos socioeducativos, os temas das reuniões são escolhidos de acordo com o que os psicólogos consideram relevantes para a população a partir do seu contato com as mesmas. Além disso, Pedro menciona não sentir-se preparado para desenvolver as atividades com o grupo, pois sua formação não o preparou para isso, fora a falta de tempo para preparar essas atividades. Tudo isso pode fazer com que o grupo não seja tão interessante em alguns momentos, seja apenas uma obrigação.
Nesse sentido, Aline relatou que há pouco tempo atrás, antes de sua iniciativa por mudar essa formato, a participação das pessoas aos grupos era feita por meio de convocações obrigatórias, o que gerava a insatisfação da maioria das pessoas convocadas.
[...] a gente sempre convocou as famílias de uma forma bastante autoritária!... Assim, pego essa lista, [...] os escolhidos (risos), e a gente fala que eles tem que participar. A gente chamava [...] por telefone, por convocação... por visita, o que você pudesse imaginar [...] sem conhecer a fulana, eram só nomes [...] escolhia dez daquela lista, sem nenhum critério, aleatório mesmo [...] era uma coisa obrigatória, as pessoas ficavam incomodadas, com cara feia, grupo inteiro assim “que saco”, ou então, “por que eu venho e porque que a minha vizinha não vem?”, com toda razão [...] era injusto mesmo, porque que você obriga uma parte e a outra não? Você foi a sorteada, a azarada, no meio daquele monte de nome a ser chamada, só você. E tinha muito esse conflito. ALINE
Sobre esse aspecto, Pedro também considera que o grupo que eles realizavam em 2009, em uma sala de balé, era mais interessante para as pessoas, porque, como o espaço era maior, os facilitadores tinham possibilidades de propor atividades que envolviam a expressão corporal “isso atrai as pessoas, por que mexe com algo que elas não estão acostumadas [...] aqui, nesse espacinho, é muito difícil de fazer” (PEDRO).
Assim, Pedro, Aline e Thaís relataram de diferentes formas, que vêm refletindo e buscando meios para superar esse entrave. Considerando a riqueza desse assunto, ele será abordado em
Aspectos que favorecem a atuação.
Ainda, em relação à obrigatoriedade, Pedro manifestou que, embora as condicionalidades de frequência de crianças e jovens nos serviços de saúde e na educação regular visem a garantia desses direitos básicos, na prática, esse sentido não é apreendido pela população e pode até gerar outra violação de direitos. Aspecto que ressalta, mais uma vez, a distância entre o desenho da proposta da política de proteção social e aquilo que acontece de fato, no cotidiano de trabalho.
[...] acredita-se [risos] que se a pessoa começar a entender e respeitar as condicionalidades, ela vai conseguir garantir a presença de filho na escola, o acompanhamento das crianças tanto na área da saúde, quanto na educação e... nisso... elas estariam se desenvolvendo, se tornando mais cidadãs, sendo mais protagonistas e tal. Isso é... a gente vê que, na prática mesmo, o que acontece é que a gente consegue acompanhar sim a frequência de criança na escola... mas isso vira até... um motivo para a criança apanhar, às vezes, [risos], “Tá faltando? Tô perdendo o Bolsa Família!”. PEDRO
Thaís pondera sobre essa questão, refletindo que a dificuldade de levar os filhos na escola é um reflexo das condições sociais desfavoráveis das famílias atendidas que ocasionam uma série de dificuldades que outras parcelas da população não enfrentam para proporcionar a frequência regular dos filhos à escola, como pagar uma perua, por exemplo. Além disso, podemos considerar que as condições de ensino de muitas escolas e os métodos utilizados não são atraentes e adequados para as crianças e jovens, que faltam às aulas ou que desistem da formação. Reflexão importante para evitar a culpabilização ou punição dessas pessoas por esse descumprimento. O que é, na verdade, praticado pelo próprio governo com a suspensão do benefício.
É... uma situação que acontece pelo contexto social mesmo das pessoas, porque em outras parcelas da sociedade é mais difícil de ver as pessoas descumprindo... não chega a ser um compromisso com o governo, é um compromisso com ela mesma, com a família dela mesma, a educação e a saúde, não é uma questão assim tão relevante quanto aparece nessas reuniões assim, do filho não querer ir, de não ter como levar. É... tem uma série de dificuldades que essas pessoas tem pra fazer isso que as outras parcelas da população não encontram. Porque podem pagar perua, às vezes, tem mais acesso ao médico pra pegar um atestado. Muita gente não consegue o atestado na UBS ou não consegue se comunicar bem com o diretor da escola pra pedir alguma coisa, algum comprovante, então são algumas dificuldades bem específicas... dessa parcela da população. THAÌS
Além disso, os profissionais depararam-se com situações de pessoas que receberam o benefício durante o prazo estipulado e continuaram em situação de pobreza e não havia outro recurso disponível no CRAS. Conforme mencionado, em uma dessas situações, Pedro sugeriu que a pessoa buscasse outro recurso no território, como em Ongs e mesmo na igreja.
Outra questão que incomoda Luiza, Aline e Pedro em relação aos PTRs é a centralidade que o benefício assume na vida das pessoas. Luiza considera isso como uma alienação.
[...] O que me entristece é quando você vê [...] que o benefício de transferência de renda vira ali a principal motivação dela. Então, você chama a pessoa para o grupo, por exemplo, e ela só vem se o benefício for cancelado, ela só mantém os filhos na escola para o benefício não ser cancelado, então acho que é muita alienação. Atendi uma situação esses dias que a moça é super jovem e ela não quer trabalhar pra não perder o BPC do filho e isso é muito comum, viu? Comecei a trabalhar isso com ela, “Mas, você é tão jovem, como fica isso?”. [...] você vê as expectativas muito reduzidas, muito difícil. LUIZA
É possível compreender que, ao referir-se à juventude, estava subjacente a ideia de que ela ainda “tinha forças para trabalhar” e assim, não precisaria contar com a “ajuda” do governo. Concepção semelhante à apresentada por Castel (2010) na definição de mendigo válido, utilizada na França, na Idade Média aplicada ao indíviduo que era apto para o trabalho e por isso não “merecia” o auxílio socioassistencial. No entanto, não se colocava em discussão a falta de trabalho para todos e muito menos a distribuição desigual de riquezas da nação.
Em relação à centralidade do benefício, Aline afirma que a maioria das pessoas que procuram o CRAS visa receber algum tipo de benefício. Assim, nos atendimentos ela procura trabalhar essa questão com as pessoas discutindo sobre como o recebimento do valor de R$ 80,00 mensais, por exemplo, do programa Renda Cidadã, pode contribuir ou agregar na vida deles. Por outro lado, Pedro indica que, aparentemente, para o Governo o que importa é o número de pessoas na listagem de beneficiários e não o efeito disso na vida das pessoas.
Não sei se isso é uma questão de tempo mesmo, porque a ideia de assistencialismo é ainda muito forte... então, “se você tá recebendo o benefício, ótimo”... já conseguimos, então, não precisamos fazer mais nada [...] A gente está tentando quebrar essa parede. PEDRO
A situação de mentir ou manipular para obter/manter o recebimento do benefício é algo que também perpassa o cotidiano de trabalho dos profissionais nos atendimentos. Pois, além de inserir nos programas de acordo com a avaliação das condições sociais, eles também precisam encerrar o recebimento dos programas que têm um prazo estipulado. Pedro, por exemplo, coloca que além das pessoas com necessidades reais, aparecem no CRAS muitos “aproveitadores que só querem pedir coisas sem necessidade, muitas vezes com carro”. Malu considera que essa situação interfere nas possibilidades de relação com o psicólogo.
No próprio acolhimento ela fala: “tô mentindo, não é nada disso” [...] existe um mito que ela não pode estar casada, não sei da onde, aqui na região existe isso, todo mundo vem e diz: “Ah, meu marido foi embora”, de aliança aqui [risos] [...] ou a pessoa vem e fala toda
história pessoal e aí no final fala: “Então tá bom, vou falar pro meu marido passar aqui pra pegar”. [risos] Então, você fala: “Mas você não falou que seu marido estava preso?”. Muitas falam que o marido tá preso, agora a gente tá pedindo até comprovante. [...] acho que é um artifício que elas encontram pra ir superando a situação. [...] Claro que tem pessoas que se aproveitam. Às vezes você fica com raiva que a pessoa tá mentindo, só que... não é disso que se trata, tem que ver o contexto todo. THAÍS
[...] “há também aqueles casos de pessoas que querem manipular e ficar na dependência dos PTRs”. [sic]. Contou que, uma mulher que recebia o benefício, chorava toda vez que os técnicos do CRAS diziam que iam cortá-lo, pois já havia terminado o prazo. Então, eles acabavam deixando mais um pouco. Até que, um dia, chamaram o marido para conversar. Ele contou que estava trabalhando, que não precisavam mais do dinheiro e que sua esposa usava o benefício para comprar roupas e coisas pra ela, por isso ela chorava. Malu afirmou que é importante, às vezes, chamar outra pessoa da família para entender melhor o que acontece. [trecho retirado do diário de campo em 03/04/12]
Nessa situação, novamente aparece a tensão no acompanhamento existente entre fiscalizar e dar atenção ou cuidar. A finalidade destinada ao dinheiro não é um problema do técnico. No entanto, a questão do uso do benefício é utilizada de modo corrente entre aqueles que se opõem aos PTRs, defendendo que esse só pode ser utilizado para a compra de alimentos, pois o contrário indica que a pessoa “não precisa” do mesmo. Ou seja, esse tipo de ação só é tolerada para atender as pessoas que estão em uma situação de vulnerabilidade extrema, em risco de vida, e não para a promoção da igualdade de condições.
Além disso, essa possibilidade de mentir existe, porque, em relação ao Programa Bolsa Família, o MDS19 institui em 2006 um cadastro baseado na autodeclaração. Ou seja, as informações prestadas pela pessoa são as utilizadas para a realização do cadastro. Uma medida contrária à comprovação vexatória de pobreza para o acesso aos benefícios e recursos ofertados pela política.
Assim, para a realização do Cadastro Único, recomenda-se a apresentação de documentos de registro (RG, Certidões, Declaração Escolar) e de endereço. Sendo que, as informações referentes a trabalho, renda, despesas, composição familiar, cor dos integrantes, características do domicílio, dentre outras, são registradas de acordo com a declaração da pessoa (BRASIL, 2009). Dessa forma, existe a possibilidade da família omitir e/ou distorcer as informações na realização do cadastro para obter o benefício, baseando-se, às vezes, nas experiências de outras pessoas que os conseguiram ou não.
Essas circunstâncias são difíceis tanto para o psicólogo, quanto para a família, pois os comportamentos e atitudes para sua obtenção ou manutenção e a tarefa de fiscalização de condições materiais, interferem na qualidade da interação entre os profissionais e as famílias. As pessoas podem mentir, os profissionais podem ficar com raiva. Como eles precisam verificar as condições socioeconômicas da pessoa para suspender, manter ou conceder o benefício, isso pode interferir no
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diálogo, na qualidade do vínculo, nas experiências de amizade e na abertura para novas maneiras de olhar para as situações; aspectos relatados por eles como sendo os resultados que procuram atingir no trabalho com as famílias.
Ainda em relação aos Programas de Transferência de Renda, Bianca e Thaís expressaram que alguns aspectos sobre o funcionamento dos programas não lhe são claros. Esse aspecto dificulta as explicações que elas precisam oferecer para a população perante as dúvidas suscitadas em outros termos, como por exemplo, sob a ótica do merecimento. É importante considerar que Thaís é a técnica mais recente no CRAS e, por esse motivo, pode apresentar mais dúvidas sobre os critérios e o funcionamento dos programas.
Quando eu começo a conversar com a pessoa, começa a ficar nebuloso [...] Por que ela tem o direito a esse benefício ou por que outra não tem o direito? Então, por exemplo, por que ela não tem o Bolsa Família? Não é claro pra todo mundo que algumas pessoas estão dentro dos critérios e outras não. Às vezes parece uma injustiça. Ou a pessoa pensa: “Poxa, eu que trabalho, eu que faço um monte de coisa? Por que que eu não posso ganhar? Ela nem trabalha, ela não faz nada e ele recebe!”. Várias questões desse tipo aparecem, e fica uma confusão entendeu? THAIS
O termo “ganhar” o benefício, revela a ideia subjacente de que esse é um prêmio e distribuído injustamente às pessoas pobres, pois aqueles que se esforçam trabalhando para se sustentar não o recebem, em detrimento dos demais. No entanto, a questão é a falta de clareza sobre os critérios de concessão do benefício, conforme explicitou Thaís. Pois, em todos os PTRs o que determina a contemplação é a renda per capta. Por exemplo, o PBF beneficia os que possuem renda
per capta de até R$ 140,00. Por isso, aqueles que trabalham e possuem uma renda maior, não são
beneficiados.
5.6.5 O caráter impositivo e punitivo de certas práticas dirigidas à população no campo