Além do controle exercido pelos PTRs, outro aspecto que deixou Aline em conflito foi a exposição das famílias atendidas nos relatórios a serem elaborados para outros equipamentos socioassistenciais que requisitaram a avaliação das mesmas, como o Conselho Tutelar. Ela compreende que, especialmente essa instituição, julga, diferencia e policia as pessoas.
[...] relatório [...] isso é relatar a visita: “Então a mãe nos acolheu de tal maneira, contou algumas coisas em relação à família” [...] “os cuidados com a criança estavam adequados”. Até me lembro de um caso que falava que a mãe deixava a criança com a fralda muito tempo, ela ficava assada, ou porque as coisas das crianças eram todas bagunçadas na casa, não tinha espaço pra ela dormir e tal. E na visita que a gente fez não mostrava nada daquilo... tava organizada, cheirosa e tal... aí a gente responde assim [...] só não coloco dados muito..., que não interessa [...] acho que a gente tem que responder exatamente aquilo que ele perguntou, a gente não tem que expor mais. Então, se ele me disse alguma coisa até mais... que vai até comprometer a avaliação dele, quem vai ler não vai ter a mesma visão [...] eu sempre fiquei em conflito sobre isso [...] A relação com o Conselho Tutelar é uma relação difícil. [...] não conseguem ter um olhar, que é de pessoa mesmo. Um olhar muito... julga, de fazer diferença, diferencia uma questão ou outra, ou de cobrar como polícia. O Conselho Tutelar é meio polícia [...] uma mulher falou na recepção outro dia “não vai pra lá, senão o Conselho Tutelar te pega”. [risos]. Era o “homem do saco”, agora é o Conselho Tutelar. “O Conselho Tutelar vai pegar, vai prender”, muito ruim. ALINE
Além de estarem suscetíveis a esse olhar, Bianca e Thaís trouxeram outro aspecto que merece reflexão, que chamei de “suscetibilidade do deferimento de recursos ou da inserção em PTRs frente aos aspectos subjetivos do profissional” que atende a pessoa, ou seja, a suscetibilidade diante do fator humano. O que pode ser considerado como uma abertura no funcionamento dos PTRs para situações fundadas em julgamentos, opressões ou no respeito. Essa última ocorre ao considerar a situação da família para além do caráter numérico ou do trabalho “braçal” de preenchimento de cadastro implicado na inserção nos PTRs, o que Thaís chamou de “generosidade”.
Os aspectos subjetivos mencionados, dizem respeito à: disponibilidade ou boa vontade do profissional na inserção da pessoa no programa (o que Thaís chamou de generosidade); empenho no trabalho braçal de preencher o cadastro; confiança em relação as informações socioeconômicas que a pessoa apresenta; bem como uma consideração menos julgadora ou estereotipada e culpabilizatória sobre a situação da pessoa.
[...] a inserção ou não inserção de alguns no benefício vai da sua generosidade (riso). Então acaba sendo meio subjetivo, não tem regras muito certas, fixas [...] também entra na questão da confiança [...] no atendimento, tá abaixo disso, tá acima [da renda], sem ver outras coisas. Algumas pessoas pensam assim: “Ah, essa pessoa tem que trabalhar, tem que fazer” [...] tem muitas coisas desse tipo. E tem gente que tem uma postura mais de oferecer pro outro e de compartilhar [...] muito da experiência da pessoa acaba interferindo no acolhimento. E outras não, “eles que se virem”. Então acho que generosidade entra nesse sentido. [...] Não que você vá burlar ou sair. [...] Você tem que preencher cinco fichas. Se você não tiver com vontade de preencher e a pessoa não trouxer documento, você pode falar: “Volta amanhã”. [...] isso pode demorar mais ou menos tempo, conforme a sua disponibilidade [...] confiança, porque você confia muito no que as pessoas tão falando. [...] Tem gente que fica fazendo investigação: “Ah, mas e isso, mas aquilo?”, tem pessoas que não, não é meu papel ficar investigando a vida da pessoa. THAÍS
No trecho abaixo, Bianca expressa o conflito e as dúvidas diante de uma situação em que precisou resolver se o recurso sancionado da família, mediante aos descumprimentos de
condicionalidades do PBF, seria deferido ou indeferido. Mas, como ela não teve tempo de ler os registros no prontuário da família, acabou deferindo o recurso diante da “desculpa” apresentada por essa, mas depois de ler os registros de sua colega, ficou em dúvida se essa foi mesmo a melhor decisão que poderia ter tomado.
[...] fiz um atendimento de condicionalidade há quinze dias atrás e, ontem, quando fui ler o relatório desse atendimento pensei, “nossa! hoje eu faria isso diferente”. É a mesma pessoa, não mudou a situação dela. Mas, hoje minha intervenção seria outra. Aí percebo que essas nuanças [...] acho que por ser mais subjetivo é mais difícil explicar. [...] no dia do atendimento eu... deferi o recurso. Considerando o atendimento, a situação dela, o que eu
consegui no CadCRAS20. [...] que está ficando cada vez maior. [...] acho que não li tudo o
que tinha, fui ler ele depois e pensei “não, eu podia indeferir sim”. BIANCA
Nos relatórios que estavam no prontuário da família, Bianca encontrou o registro de que: a mulher era descompromissada, a organização e limpeza da casa não eram adequados, ela não colocava sugestões dos técnicos em prática, dentre outros. Nesse sentido, embora Aline tenha expressado seu receio diante do olhar do Conselho Tutelar que julga, conforme explicitado, pode-se dizer que ele também está presentificado no CRAS.
[...] porque ela já tinha um histórico de outras vindas aqui e sempre apresentando motivos muito frágeis para as faltas de criança na escola. [...] nos relatórios, que ela era bem descompromissada, outra colega já fez visita na casa dela por duas vezes fazendo observações de casa, de organização, de limpeza, de rotina diária e ofereceu sugestões sobre o que ela poderia fazer para aumentar a renda dela [...] nada disso ela conseguiu colocar em prática. [...] Pra quem não tem uma organização que consiga manter uma casa, uma rotina, uma alimentação em ordem, isso é muito difícil. [levar os seis filhos na escola] Mas, também, fico pensando assim, a única coisa que a gente pode fazer é [...] considerar o que a família está te falando. [...] se a gente não considerar pelo menos isso a gente vai considerar o quê? [...] Mas, é confuso né? [...] a gente poderia ser mais maleável [...] pois, isso é um equipamento de escuta e se a gente não tentar com a família que ela se comprometa com alguma coisa, a gente vai fazer o quê? BIANCA
Na situação descrita, estava em questão a (in)capacidade da mulher atendida de levar os filhos para a escola, contrapartida obrigatória, conforme estipulado pelo MDS, para a pessoa receber o benefício do Programa Bolsa Família. O governo suspende, bloqueia o benefício daquelas que não conseguem cumprir as condicionalidades e, as considera em situação de maior risco e prioritárias para o acompanhamento do CRAS, que deve incluí-las em grupos socioeducativos. No entanto, apenas algumas são convidadas a participar dos poucos grupos. Além disso, todas precisam ir até o CRAS para justificar seu descumprimento e solicitar que o técnico elabore um recurso via sistema que libera o pagamento do benefício. O que implica em certo poder e responsabilidade para
20 Caderno do CRAS. É o registro de todas as ações efetuadas pelo CRAS com a família, bem como a percepção dos
o profissional e, ao mesmo tempo, o deixa confuso esse tipo de atribuição. O que o psicólogo vai considerar para deferir ou indeferir? O discurso da pessoa atendida? Os relatórios que estavam no CadCRAs? O psicólogo precisa fazer com que a “pessoa se comprometa com alguma coisa”, como expressou Bianca? Até que ponto isso distorce o tipo de vínculo estabelecido com as pessoas atendidas?
Ainda, na observação de campo, acompanhei três visitas domiciliares realizadas por Bianca, nas quais foi possível notar que, por mais que ela procurasse ser atenciosa, tranquila e firme na interação com as pessoas, elas sentiam-se constrangidas com a nossa presença.
O trecho abaixo se refere à visita realizada a casa de uma mulher, que chamarei de Silvia. Nessa casa moravam: Silvia, seu companheiro, seu filho de treze anos e sua filha de seis anos. Na ocasião, o casal havia perdido recentemente a guarda de seu filho recém-nascido que ficou internado no hospital por ter sido acometido por problemas respiratórios. Mas, segundo Bianca, como a família não conseguia “se organizar” para visitá-lo, e a casa na qual residiam tinha problemas de mofo e de ferrugem, eles acabaram perdendo a guarda da criança. Nessa situação, O CRAS ofereceu o auxílio transporte para as visitas, mas mesmo assim, “não deu certo”. No entanto, o CRAS continua acompanhando a família, a fim de oferecer outros benefícios para as melhorias na habitação.
[Silvia] apareceu no portão, acompanhada de um homem. [...] Parece ter ficado assustada. Disse que estava lavando roupa, desculpando-se e secando as mãos úmidas na blusa toda molhada [...] disse-nos que estava bem nervosa, e trêmula, nos convidou para sentar no sofá velho. Bianca parecia bem amistosa, perguntando onde estavam as crianças e solicitou que Silvia se sentasse ao lado dela no sofá. No entanto, ela respondeu dizendo que não queria sentar, pois estava nervosa e preferia ficar em pé. [Trecho retirado do diário de campo em 30/05/2012]
Já, em outra situação, quando todos os membros da família estavam na sala, após Bianca ter perguntado sobre as situações relacionadas ao trabalho, à saúde, à habitação e à escolaridade de todos, de modo amistoso e descontraído, porém firme, o padrasto reclamou dizendo que o jovem não ia à escola. Bianca acabou intervindo na situação, associando o fato de não ir à escola com o de ser preso pela polícia:
Bianca orientou o garoto a andar com documentação, pois a polícia costuma parar os jovens para revista e se em uma situação dessas, ele tiver sem a mesma, pode vir a apanhar. Reforçou que ele precisa ir para a escola para ter um futuro melhor, que ficar zanzando à toa não iria ajudá-lo nisso. Para ele ver com quem anda e o que quer pra ele. O garoto estava cabisbaixo, parecia chateado e triste durante toda a conversa. [Trecho retirado do diário de campo em 30/05/2012]
No último exemplo, em uma casa com uma mulher, duas filhas adolescentes e um filho portador de deficiência mental, o benefício do Programa Bolsa Família foi cortado porque as meninas faltavam muito à escola. Na conversa elas explicaram que não conseguiam acordar, porque o irmão chorava muito de madrugada.
A psicóloga solicitou que as duas meninas participassem da conversa. Ambas sentaram-se nas cadeiras [...] procurou compreender qual era a dificuldade das meninas em frequentar a escola. Perguntou se gostavam da mesma [...] explicou à elas que o irmão tinha sérios problemas de saúde, que [...] infelizmente, elas precisavam entender, aceitar isso e colaborar com a mãe. [...] por conta das faltas, o benefício estava suspenso e poderia ser cancelado. Perguntou se elas sabiam o quanto este dinheiro era importante e que elas poderiam prejudicar a família, com a perda deste, pelas faltas [...] disse que tinha uma proposta melhor para elas e explicou sobre o programa Ação Jovem. [Trecho retirado do diário de campo em 30/05/2012]
Diante dessas narrativas, o trabalho da Assistência Social parece reduzido a impor comportamentos/obrigações, fiscalizar seu cumprimento, verificar a organização doméstica concreta e relacional, avaliar a situação socioeconômica das pessoas para selecionar os que têm critério ou não, bem como as justificativas das famílias ou “pedidos de desculpas”, para a continuidade do recebimento do benefício. Uma relação aparentemente brutal, hierárquica, controladora e impositiva, a partir da qual pode-se fomentar qualquer relação, menos a que propicia a autonomia. Assim, como está inserido nesse campo, o psicólogo pode acabar reproduzindo esse caráter inerente em suas práticas.
A partir da descrição destas situações estruturais e dinâmicas que limitam, distorcem, emperram, solapam as ações voltadas para a promoção social dos sujeitos, coloca-se em questão a efetividade dessas propostas.