2. GENEL BĠLGĠLER
2.1. YaĢlanma ve Fizyolojik DeğiĢiklikler
2.1.4. Farmodinamik Değerlendirmeler
Diante da guinada à esquerda dos movimentos de libertação na África Negra, a África do Sul, para este jornal, foi vislumbrada enquanto país “estratégico” para a contenção da “influência soviética”, país que oferecia um “modelo de desenvolvimento econômico a ser seguido” naquela região.
No decorrer da década de 1980 foram apontadas, nas páginas d’ OESP, possibilidades de acordos, negociações que colocassem fim aos conflitos na área, em um continente apresentado diariamente como marcado por “mortes”, “ondas de violência”, “atentados”, “massacres” e “golpes de estado”. O fator de desestabilização na região não era atribuído ao governo da África do Sul, mas a influência cubana e soviética.
Este jornal apontou como caminho principal para a negociação entre os países do sul da África, a retirada da URSS da região. Esta, assim, destacada como a principal culpada pelos conflitos no continente e, Gorbatchev, como aquele que traria a “paz” se a abandonasse, deixasse de lado. Um destes posicionamentos foi trazido pelo jornal quando da análise do
livro do jornalista e escritor Fred Bridgland, apontado, em notícia, como autor “do livro mais respeitado que já se escreveu até hoje sobre a guerra civil angolana: Jonas Savimbi - A Key to Africa” 218.
As ações de Jonas Savimbi na liderança da UNITA foram justificadas, utilizando-se dos argumentos do livro, de modo a dar uma suposta “razão” a ele na desestabilização do governo de Angola, pois classificava suas ações como de luta contra a influência soviética em seu país, daí, o caminho para a “paz” estaria com a saída de Gorbatchev da África, tal como proposto. Foram, assim, apontadas a “indignação” de ter que conviver com um regime soviético, segundo o autor do livro que deu base à construção das argumentações. Savimbi teria pedido “ajuda” das potências ocidentais, mas, diante da recusa, “recorreu à África do Sul a dar-lhe o apoio que pudesse” 219, o que buscava justificar, ainda, as ações da África do Sul, nos vizinhos, invalidando, pela omissão, o apartheid e a busca pela hegemonia branca enquanto questões prementes.
Tais argumentações foram acompanhadas pelo processo de racialização dos povos negros africanos, os quais permitiram, segundo OESP, por meio da “amenização” dos efeitos do apartheid, perpetuar o domínio branco e que transferia as responsabilidades pelos “ataques”, “conflitos”, constantemente noticiados no jornal, aos países africanos, de líderes negros, “inábeis” e destacava a suposta “incapacidade” de conduzirem um “processo de paz”, a qual, então, deveria ser conduzido pelos EUA, acompanhado da retirada dos soldados cubanos 220.
OESP se colocou contra as sanções econômicas e se utilizou de mecanismos diversos os quais pudessem invalidá-las, trazê-las enquanto elemento incompatível ou um “retrocesso” para os objetivos de integração econômica mundial. Na tentativa, então, de delinear suas argumentações, acabou por justificar o apartheid e que, consequentemente, davam às propostas de sanções e seu caráter punitivo, características incompatíveis com os supostos “benefícios” que tal sistema havia levado para a região, tal como proposto pelo jornal, nas palavras da escritora Marlene Porto, em artigo intitulado “Racismo. Os dois lados do “apartheid”.221
218 SOLUÇÃO está com Gorbatchev. O Estado de São Paulo, São Paulo, 04 mai.1988. Exterior, p.7. 219 Ibid., p. 03
220 SANTANA, José C. Começa reunião para resolver crise angolana. O Estado de São Paulo, São Paulo, 03 mai. 1988. Exterior, p.07.
221 PORTO, Marlene. Racismo: Os dois lados do “apartheid. O Estado de São Paulo, São Paulo, 12 jan. 1986. Exterior, p.10.
Em suas argumentações vimos, assim, de forma sintetizada, o complexo jogo de oposições e argumentações utilizadas, as quais serviram para a manutenção das estruturas, e as formas como a história, geografia, biologia puderam ser manipuladas para a construção de proposições racistas e perspectivas de promoção da “superação” de um determinado estágio social, modo de ser, estar no meio social e que relegava o elemento cor a um plano secundário, sem no entanto, perdê-lo enquanto principal elemento da estratificação dos grupos.
Porto, em seu artigo inseriu o “homem”, “branco”, “europeu”, no que ela considerava o mais alto grau do patamar “evolutivo”, analisou a história do desenvolvimento social, político, econômico com base em valores eurocêntricos, de modo a constituir o africano a partir da “falta”, negação, como os que “não possuem”, “não tem”, são os povos “sem escrita”, “sem história”, “sem exército”.
Essa escritora lançou seus olhares para o apartheid sul – africano, imbuída da experiência turística que a levou para aquele país e, por meio do qual iniciou suas argumentações, as quais, conforme a concepção de jornalismo expressa nestas páginas, dava- lhe “autoridade” para falar. Partiu, ainda, segundo declarou, de imagens “divulgadas” no Brasil e que lançavam, segundo ela, “preconceitos” em relação à África do Sul, dado a política do apartheid, os quais ela buscava refutar.
Porto esclareceu que esteve na África do Sul apenas por objetivos turísticos, sem mencionar se houve incentivo de algum grupo ou instituição, declarando-se, apenas, motivadas por interesses nas “belezas naturais” da região. Os aspectos geográficos africanos, belezas naturais, fauna, foram as imagens positivas que se sobressaíram nas páginas, trazendo à tona uma África, aquela das belezas selvagens, com possibilidades abertas ao turismo. Esta, também, enquanto uma das estratégias utilizadas pelo governo da África do Sul a fim de apagar a imagem negativa de seu país222, incentivando a propaganda turística nas páginas impressas e, por meio das quais, transmitia-se uma imagem da África, mas sem os africanos.
De início, diante das dificuldades de obtenção do visto, conforme declarou, reafirmou seus “pré – conceitos”, mas, logo, teria visto uma possibilidade, espécie, para ela, de luz no fim do túnel, que colocava a África do Sul enquanto um local “melhor”, do que os países soviéticos:
Quando, há dois anos solicitei à África do Sul um visto comum de turista a fim de conhecer de perto os desertos da Namíbia e do Kalahari, famoso por suas
reservas naturais, o mesmo foi-me quase negado pelo seu então representante em São Paulo que, ao saber que me dedicava à literatura, logo pré – julgou - me como mais uma inimiga de sua Nação, em busca de uma desculpa para espioná-la e denegri-la.
Minha assinatura num formulário em que assegurava meu interesse puramente turístico não convenceu o fiel servidor público, gato escaldado, que exigia uma declaração adicional na qual me comprometeria nada escrever sobre minhas experiências em seu país.
Obviamente que me recusei, posto que meu senso de liberdade sobrepuja de longe minha curiosidade e espírito de aventura. Contudo, diante do impasse criado, o dito senhor reconsiderou sua posição, especialmente após minha argumentação indignada de que nem os países do Leste europeu protegidos pelo “muro da Vergonha” faziam tais exigências. Recebi o visto que, por pouco, mal humorada, quase dispensei223.
Porto trouxe, em seus posicionamentos, os múltiplos mecanismos usados pela embaixada sul – africana para restrições e acesso à África do Sul, seja a partir das dificuldades de obtenção do visto, assinaturas de declarações de comprometimento, censura e o estímulo à propaganda turística, utilizados com o intuito de produzir uma imagem da África do Sul, dissociada do apartheid. Este foi um dos raros momentos em que tais estratégias foram apresentadas pelos jornais, os quais se serviriam, diariamente, dos jornais daquele país como fonte de informação (sobretudo para o caso d’ OESP) e, no caso da FSP, já havia mandado Carlos Lins da Silva aquele país, sem qualquer menção a estas restrições.
Esta escritora, contudo, amenizou tais efeitos e dissimulou essas ações classificando- as, apenas, enquanto zelo de um “fiel servidor” quanto à imagem de seu país. Foi essa a principal estratégia utilizada, neste momento, para desqualificar as sanções econômicas para a África do Sul, ou seja, amenização dos efeitos perversos do racismo naquela sociedade, por meio de um conjunto de argumentos os quais traziam à tona a discussão, mas enquanto algo “banal” diante de algo prioritário.
Ela, assim, dissimulou atitude do “servidor” enquanto estratégia de manipulação, considerando-a, apenas, como “zelo” individual de alguém diante da imagem de seu país, um patriota, uma atuação a partir da qual ela reconstruía a imagem do governo branco e sua ação “civilizatória”, conforme defendeu posteriormente neste artigo.
Seguiu, então, amenizando as críticas e os efeitos do apartheid na região, apontou as facilidades de acesso aquele país enquanto algo promissor, e que, para ela, parecia ser mal aproveitada, de modo a lançar, então, algumas perspectivas ao Brasil, enquanto maiores possibilidades de mercado. A realidade, assim, para chegar àquela região era bem fácil, oposta das resoluções votadas na ONU para a restrição do intercâmbio comercial:
As oito horas que separam o Brasil da África do Sul, por via aérea, além dos vários voos semanais à disposição do interessado, logo provaram que, do ponto de vista de custos e facilidades, esse passeio é realmente interessante.
Apesar do farto e rico material de propaganda turística distribuído pela SAA (South African Airways) e Satour (Companhia Estatal de Turismo da África do Sul), mais os relatos de alguns amigos maravilhados com essa mesma viagem, o incidente do visto me deixara um sabor amargo. O alerta de um amigo zairense e o discutido Apartheid me tornaram menos neutra perante a experiência que estava prestes a viver.
Os bairros chineses e indianos, com seus respectivos templos e comércios característicos, provam que, até então, foi “cada macaco no seu galho” e o branco, lá, figura no papel de dirigente de orquestra224.
Constantes voos marcavam a facilidade de acesso, bem como as atuantes companhias aéreas, tal como trazido por Porto. Ou seja, nada de boicotes ou restrições, de modo que ela buscou destacar as facilidades de acesso à África do Sul, quanto aos “custos”, “facilidades”. Foi por meio dessa experiência turística, da fala de um sul africano e da História, que Porto se utilizou para projetar uma África do Sul, para ela, “melhor”, diferente daqueles constituídos como “outros” países africanos, classificada como “industrialmente próspera e rica”, dado, segundo ela, os “benefícios” e “sacrifícios” (ou fardo) do “homem branco” na região, de modo a amenizar, justificar e projetar o apartheid, e ir de encontro a qualquer possibilidade de retaliação. Seu artigo surgiu, assim, como uma resposta às críticas sofridas por este governo naquele momento.
Os argumentos utilizados por ela apontavam para um discurso “civilizatório” que via o “branco” como carregado por um hipotético “fardo”, tendo que levar o “progresso” e o desenvolvimento para regiões apontadas como “bárbaras”, “primitivas”, “avessas ao progresso”, segundo OESP.
Porto se utilizou, novamente, das palavras dos sul – africanos enquanto aqueles que, para ela, poderiam expressar “objetivamente” as condições do país. Este mecanismo, comumente, tende a buscar a própria população negra para invalidar, por meio de seus posicionamentos, o racismo, sem atentar que uma de suas lógicas de funcionamento é, justamente, permitir que alguns indivíduos ultrapassem determinadas esferas, a ele destinadas, apropriam-se do discurso “civilizador”, o que tende a perpetuar o racismo:
Um dia, enquanto abastecia o carro num posto, fui surpreendida com a curiosidade de um atendente negro, interessado em minha opinião de estrangeiro sobre o seu país. Após receber orgulhoso meus elogios quanto às suas belezas
naturais, questionou-me sobre a razão da hostilidade, no exterior, para com a África do Sul. Falei-lhe sobre a política do apartheid e ouvi a seguinte observação irritada:
- “É propaganda dos comunistas. Eu sou negro, tenho trabalho, carro, casa, sustento minha família e não preciso pedir emprego em Moçambique ou Angola”225. Para ele, a imagem que o exterior tinha de seu país era “propaganda comunista”, argumento, assim, utilizado pelo jornal para validar um posicionamento que já era, diariamente, construído nas notícias. Os aspectos apontados como válidos e que pareceram importar eram as supostas “condições de vida”, ou possibilidades de “superação”, as quais deram a este atendente, “trabalho”, “carro”, “casa”, “sustento” da família, de modo a propor uma condição social determinada rumo a uma possibilidade de integração do social.
Calei-me e parti, meditando sobre sua simplicidade pragmática, mas, afinal, será possível que pessoas possam se contentar em viver mesmo que, economicamente bem, sujeitos a discriminações político-sociais? Contudo, esse episódio é absolutamente verídico e a impressão causada por onde quer que passasse sugeria uma tranquilidade e harmonia como raramente vi em outros lugares 226 . Estes aspectos não poderiam ser sobrepujados, segundo o texto, por práticas “racistas”, estas, assim, amenizadas, secundarizadas, diante dos supostos “benefícios levados pelos brancos” e Porto traçava, assim, os argumentos para validar a resposta à pergunta que ela mesma fizera. Ou seja, para ela e o grupo o qual representava era possível “viver bem” em uma sociedade com “discriminações políticos – sociais”. O racismo, então, por trás do termo “discriminações políticos – sociais”, camuflado e com seus efeitos abrandados, classificado como “apenas” uma dentre as inúmeras “fraquezas do ser humano”.
Passado, então, já duas situações evidentes as quais marcavam o apartheid, amenizadas, porém, neste artigo, em seus efeitos, Porto notou que a segregação nos bairros era evidente, ou seja, o apartheid, de fato, era uma prática, mas era preciso explicá-lo, compreendê-lo e não condená-lo, segundo seus argumentos. Esse posicionamento, assumido por Porto, permitiu-nos vislumbrar de que forma se valem aqueles que almejam a manutenção do sistema racista.
Em “Racismo: Os dois lados do “apartheid”, o apartheid foi justificado enquanto prática que havia levado para a África do Sul elementos, entendidos pela escritora como pertencentes ao “progresso” e à “civilização”, em detrimento da organização anterior, entendida, para ela, como marcada pela “barbárie” e “primitivismo”.
225 PORTO, 1986, p.10. 226 Ibid., p. 10.
“Harmonia” e “tranquilidade nos bairros” foram as situações que ela destacou presenciar. O que, contudo, não apresentou foi que as situações descritas faziam parte da própria lógica da segregação, da censura, dos altos índices de disparidades nos bairros, tendo em vista os grupos que lá habitavam. O que Porto viu foi a efetivação do sistema do apartheid naqueles bairros, para os brancos, não as condições de vida da maioria negra e das reservas para onde eram levados obrigatoriamente, suas condições de trabalhos, políticas salariais, e que permitiam a alguns ultrapassarem, momentaneamente, as fronteiras, tais como o atendente do posto.
Porto buscou a história da região, a fim de explicar o que qualificou como, “apenas”, um “comportamento político retrógrado” do governo branco, o qual era impossível aceitar, segundo ela, nos anos 1980, mas “justificáveis” dadas as “raízes históricas”. A História, assim, para ela, foi utilizada enquanto entidade “objetiva”, “rumo ao progresso”, e que justificava as ações do governo branco:
Todos sabemos que a população da África do Sul é composta de 21 milhões de negros de várias etnias, quatro milhões de mestiços e hindus e somente cinco milhões de brancos, na maioria descendentes do pequeno grupo que lá desembarcou em 1652, portanto, apenas 152 anos após a chegada de Cabral ao Brasil.
Naquela época, a população autóctone, concentrava-se nas regiões mais quentes do Norte, naturalmente avessa aos ventos frios do Atlântico que dão à província do Cabo um clima quase europeu (a Cidade do Cabo fica à altura de Porto Alegre). Eles também evitavam as grandes extensões desérticas como a Namíbia, onde não há como sobreviver numa economia primitiva.
Consequentemente, apesar das pequenas guerras escaramuças e confrontos com algumas tribos belicosas no início do século XIX, pelo menos na província do Cabo, mais rica em terras férteis, a colonização foi tranquila, tendo sido mais árdua à medida que os colonizadores avançavam em direção ao norte227.
Porto classificou e hierarquizou dois tipos distintos de economia: a industrial e de mercado, para ela, entendida como a ideal, e a “primitiva, “autóctone”, a qual, segundo seu ponto de vista, deveria ser superada. Ignorou a história dos grupos africanos e do intenso processo de desapropriação e escravização a que foram submetidos após os séculos XVII e XVIII, sobretudo228.
227 Ibid., p. 10.
228 Povos os quais tinham, no século XVI, o uso da terra enquanto bem comum, alguns dominavam a “tecnologia da produção de ferro e de cobre, agricultores cultivadores de cereais e criadores de gado”, com a possibilidade de coexistência de diversos tipos de economia, a maioria de origem bantos, divididos em várias etnias, entre os quais os Xhosas e os Zulus. As guerras, caracterizadas por Porto enquanto “pequenas escaramuças”, foram marcadas pela utilização de armas de fogo, avanços e desapropriações das terras, ondas migratórias de modo a pressionar outros povos, políticas de povoamentos para imigrantes brancos, “alemães, huguenotes franceses e soldados holandeses” Ver: VISENTINI; RIBEIRO, 2010, p. 19 - 25.
Traçou, assim, Marlene Porto, um percurso o qual conduzia a história da população branca que aportou na região sul da África a um modelo econômico supostamente ideal e que teria como ápice, para ela, um país “industrialmente rico” e integrado no sistema – mundo:
A bem da verdade ,é preciso que se veja o reverso dessa medalha, mesmo se nos sentimos ultrajados com seu lado negativo. Não foi do nada que surgiu essa nação agriculturalmente e industrialmente rica, nem foi num passe de mágica que se construiu uma rede ferroviária que cobre praticamente toda a extensão produtiva dessa terra pontilhada de silos para que o povo nunca padeça de fome. Não é irrisório o fato de que a tecnologia sul – africana, hoje entre as mais avançadas do Ocidente, forneça importantes subsídios a países do Terceiro Mundo, como o Brasil, que importou via Engesa e outras entidades seu know how militar e de engenharia. Infelizmente, não é por razões humanísticas que certos órgãos e países financiam algumas tribos ao sul de Angola para a tomada da árida e desértica Namíbia (região do tamanho do Mato Groso com apenas 1milhão de habitantes), mas sim, a cobiça pelo maior depósito de minérios do mundo, ali situado.
Enfim o verdadeiro mal desse homem branco, provinciano, ordeiro e religioso, que há mais de 400 anos aportou no Sul da África, é o de ter permanecido enclausurado em sua cultura, fermentado no próprio suco que o fez crescer, transformando-se num monstro pelos parâmetros políticos – sociais da atualidade229. Ao mesmo tempo em que produziu o jogo de oposições para a construção de suas argumentações vimos a ênfase nos aspectos, supostamente intrínsecos da população branca, enquanto “ordeiro”, “religioso”, de modo a associar história e geografia para a construção de argumentos racistas, aliado, ainda, ao jogo de omissões e oposições, a partir dos quais foram caracterizados os povos negros africanos.
Porto produziu dois grupos opostos de europeus em seu suposto “fardo colonizador”, de caráter extremamente essencialistas: os “de origem holandesa”, “religiosos”, “não possuíam a expansividade, comunicabilidade e maleabilidade latino”, e estes últimos, constituídos como opostos, o que nos revelaram a percepção de uma essência cultural que justificava o racismo, da mesma forma, como, no Brasil, a democracia racial era explicada a partir de uma suposta “essência latina”, algo, então, ligada a uma concepção específica de cultura, esta vista como fixa, avessa ao reformismo, dos quais parecia impossível a reversão.
Logo, então, vemos, neste jornal, os argumentos essencializantes a partir dos quais a cultura foi entendida enquanto um determinado tipo de tecnologia, religião, instituições, de modo a servir de justificativa para a perpetuação do racismo.
Quanto às aproximações entre Brasil e África do Sul, para as relações raciais, destacou ainda:
Não nos esqueçamos que todo o país em que existe uma população multirracial, vive situações discriminatórias, apesar das existentes leis condenatórias. Que o digam os negros brasileiros, apesar da Lei Afonso Arinos. Os sul – africanos apenas institucionalizaram uma das inúmeras fraquezas do ser humano230 .
Ao caracterizar o anglo – saxão e o latino ela já havia destacado o racismo enquanto prática “natural”, de uma “cultura”, esta entendida como estática e essencialista e enquanto