Ao refletirmos sobre ensino, convém destacarmos algumas questões propostas por Geraldi (1985, p. 42): “para que ensinamos o que ensinamos?” e “para que as crianças aprendem o que aprendem?” Segundo o autor, a resposta à primeira pergunta e, consequentemente, à segunda, também envolve uma concepção de linguagem e uma postura quanto à educação. Aponta, generalizando, três concepções possíveis: a) linguagem enquanto expressão do pensamento; b) linguagem enquanto instrumento de comunicação; e c) linguagem enquanto forma de interação. A tais concepções correspondem, grosso modo, as três grandes correntes dos estudos linguísticos: a) a gramática tradicional; b) o estruturalismo e o transformacionalismo; e c) a linguística da enunciação. Ainda segundo o autor, a terceira concepção de linguagem “implicará numa postura educacional diferenciada, uma vez que situa a linguagem como o lugar de constituição de relações sociais, onde os falantes se tornam sujeitos” (1985, p. 43).
Impõe-se-nos, por conseguinte, a necessidade de refletir sobre as práticas de ensino vivenciadas na escola, que não têm alcançado, de forma geral e sistemática, as metas almejadas no que diz respeito à capacitação dos alunos para as práticas sociais reais, situações em que os diversos usos da língua, em todas as suas variações, modalidades e gêneros, influenciam o grau de interação entre os membros da sociedade. Em outras palavras, “a língua só tem existência no jogo que se joga na sociedade, na interlocução, e é no interior de seu funcionamento que se pode procurar estabelecer as regras de tal jogo” (Geraldi, 1985, p. 43).
Cabe-nos considerar, então, que ensinar a ler e a escrever na escola implica considerar todas as condições concretas de seu funcionamento, para além dos conhecimentos de natureza
teórica e prática a respeito dos usos da língua e da linguagem. Os sujeitos sociais desempenham papéis que, históricos que são, transformam-se e modificam-se na dinâmica da própria transformação histórica da sociedade. Pensemos, hipoteticamente, em dois contextos:
1. A escola é seletiva, funciona sob um rigoroso sistema de reprovação que impede o avanço, para as séries subsequentes, dos alunos que não memorizam e reproduzem os conhecimentos transmitidos pelos professores. O local é limpo, austero, formal. Na sala de aula, o professor é autoridade absoluta. É respeitado e temido. Falar é um direito exclusivamente dele e daqueles a quem ele concede a palavra, normalmente para repetir a lição aprendida. Os alunos permanecem em silêncio, em absoluta ordem, realizando seus deveres. Estudam e memorizam as lições para serem aprovados nos exames. Se descumprem alguma regra, podem ser severamente punidos, podendo chegar a sofrer agressões verbais e até físicas. Em casa, os pais concordam com as punições imputadas aos filhos que desrespeitam as normas escolares ou, se não concordam, não ousam questionar a autoridade dos professores. E também há aqueles que acrescentarão outros castigos aos filhos “rebeldes”. Há um forte sentimento de hierarquia na sociedade. Ditadura. Censura nos meios de comunicação. Qualquer forma de protesto é violenta ou veladamente reprimida. Os alunos que passam por este sistema formam a “elite” intelectual, enquanto uma multidão de evadidos, prematuramente destituídos de seu direito à educação, abandonam a escola e ajudam a preservar a sua qualidade e excelência.
2. A escola é para todos, mas agora não basta que seja para todos, é preciso assegurar- lhes, além do acesso, a permanência na escola. Para garantir o direito universal à educação, algumas redes de ensino adotam um sistema de progressão continuada, em consonância com as contribuições da pesquisa educacional e acadêmica que atesta a necessidade de respeitar diferentes ritmos de aprendizagem. A intenção é legítima e fundamentada. As condições para implementá-la, no entanto, não são propícias, apesar de vivermos finalmente numa sociedade democrática. Os alunos podem falar, questionar, expressar seus sentimentos, dúvidas, aspirações. Os professores dialogam, mediam, são parceiros mais experientes. Alguns têm mais dificuldades do que outros para se adaptarem às mudanças. Precisam voltar a estudar, mas nem sempre isso ajuda muito. Há uma produção e veiculação vertiginosa de novos conhecimentos. Os alunos também dispõem de meios quase ilimitados de se colocarem a par das informações. E alguns – ou quase todos – são muito mais atraentes do que a escola. O problema é que nem sempre o conhecimento valorizado pela escola coincide com aquele auferido pelos alunos por outros meios. Logo, os alunos vão mal. Os alunos questionam os professores. A mídia questiona os professores. A sociedade questiona os professores. Os
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próprios professores se questionam. Mas continuam na sua missão, das mais variadas formas, algumas positivas, outras negativas. A escola é suja, as punições são inexistentes ou ineficazes, as pessoas – professores e alunos – se agridem mutuamente, verbal e fisicamente. Os alunos jogam, ouvem música, falam ao celular, depredam o mobiliário. Os pais – ou “responsáveis”, porque há inúmeras configurações familiares – precisam trabalhar muito, nem sempre se fazem presentes na vida escolar dos filhos, seja na escola ou fora dela. As avaliações mostram que os alunos não aprendem e a escola pública é acusada pela má qualidade do ensino que oferece.
As duas situações apresentadas são praticamente caricaturais, extremos que representam configurações sociais, culturais e familiares muito divergentes. Felizmente, não chegam nem perto de esgotar a infinidade de contextos singulares vivenciados tanto em uma época quanto em outra. Se nos arriscamos a uma ilustração tão dicotômica quanto grosseira é somente pela intenção de evidenciar que a sociedade muda profundamente, e com ela também a tecnologia, o conhecimento, os valores, os papéis exercidos pelos sujeitos. Evidentemente, o ensino e a aprendizagem não são exceções. As concepções de leitura e escrita também foram objeto de significativas transformações e a reflexão a que nos propomos remete ao entorno que conforma uma das metas da educação escolar: o que é, como é e para quê serve ensinar a ler e a escrever, nesse contexto de tantas e profundas mudanças?
Marcushi (2001, p. 35) lembra que
A língua, seja na sua modalidade falada ou escrita, reflete, em boa medida, a organização da
sociedade. Isso porque a própria língua mantém complexas relações com as representações e as
formações sociais. Não se trata de um espelhamento, mas de uma funcionalidade em geral mais visível na fala. É por isso que podemos encontrar muitos correlatos entre variação sociolinguística e variação sociocultural. Análises interessantes sob este aspecto são as oferecidas por Duranti (1997) em sua obra sobre antropologia linguística, ao frisar que a língua é uma parte da cultura, mas uma parte tão decisiva que a cultura se molda na língua. No entanto, seria equivocado ver uma homologia entre língua e cultura, pois conhecer uma não equivale a conhecer a outra.
Nesse sentido, queremos situar o ensino e a aprendizagem da língua materna no contexto concreto em que se realizam na escola, com alunos e professores reais. Partimos, assim como Marcuschi (2001, p. 42),
... da noção de funcionamento da língua como fruto também das condições de produção, ou seja, da atividade de produtores/receptores de textos situados em contextos reais e submetidos a decisões que seguem estratégias nem sempre dependentes apenas do que se convencionou chamar de sistema linguístico.
Logo, não concebemos a língua como sistema, tomada como constructo abstrato, teórico e homogêneo. Também é de Marcuschi (2001, p. 43) a definição que traduz a concepção de língua que queremos adotar neste trabalho:
Com isso, toda vez que emprego a palavra língua não me refiro a um sistema de regras determinado, abstrato, regular e homogêneo, nem a relações linguísticas imanentes. Ao contrário, minha definição de língua pressupõe um fenômeno heterogêneo (com múltiplas formas de manifestação), histórico e social (fruto de práticas sociais e históricas),
indeterminado sob o ponto de vista semântico e sintático (submetido às condições de
produção) e que se manifesta em situações de uso concretas como texto e discurso. Portanto,
heterogeneidade e indeterminação acham-se na base da concepção de língua aqui pressuposta.
[grifos do autor]
Uma vez definida a concepção de língua e de linguagem que norteia este trabalho, perguntamo-nos o que fundamenta algumas afirmações, comumente proferidas por professores que observamos em nossa pesquisa e em nossa prática profissional, do tipo: “o aluno lê bem, mas não entende nada do que lê”; “o aluno sabe escrever, faz cópias e até ditados, mas mal produz duas ou três linhas”? O que se entende por saber ler e saber escrever?