Para identificar e analisar como as categorias de poder e resistência se revelaram no processo de reformulação curricular do Curso de Licenciatura em História da Ufac, realizada com base na legislação vigente sobre a formação inicial de professores, foi necessário realizarmos uma revisão bibliográfica alusiva à questão.
Na lição de Minayo (1999, p. 53), “podemos dizer que a pesquisa bibliográfica coloca frente a frente os desejos do pesquisador e os autores envolvidos em seu horizonte de interesse”. Para alcançarmos esse propósito, alguns passos foram importantes nesse processo de coleta de dados.
O primeiro passo consistiu na definição das categorias de análise a priori, conforme descrito.
Fiorentini e Lorenzato asseveram que, no processo de categorização, existem princípios que o pesquisador deve considerar, quais sejam:
[...] o conjunto das categorias deve estar relacionado a uma idéia ou conceito central capaz de abranger todas as categorias. [...] é altamente desejável que essas categorias sejam disjuntas, isto é, mutuamente exclusivas, de modo que cada elemento esteja relacionado com apenas uma categoria. Por fim, as categorias estabelecidas devem abranger todas as informações obtidas. (FIORENTINI; LORENZATO, 2006, p. 134)
Consideramos, em princípio, as seguintes categorias como apropriadas para o levantamento bibliográfico:
• Poder; • Resistência; • Licenciatura; e
• Licenciatura em História.
Ainda de acordo com Fiorentini e Lorenzato (2006, p. 135), um processo de construção de boas categorias de análise depende, em grande parte, do conhecimento teórico do pesquisador e de sua capacidade de perceber a existência de relações ou de regularidades.
Foram envidados todos os esforços para identificar as relações e as regularidades entre as categorias eleitas e, então, passamos a nos preocupar com a definição do marco temporal para a revisão bibliográfica.
Definimos o recorte de nosso estudo como o período de 2002-2008, justificando-se o início com 2002 por ser o ano em que foi aprovada a Resolução
CNE/MEC no 01/2002, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica. Logo em seguida, ocorreu a aprovação da Resolução CNE/MEC no 02/2002, que instituiu a duração e carga horária dos cursos de Licenciatura, de graduação plena, de Formação de Professores da Educação Básica em nível superior.
O término do marco temporal em 2008 justifica-se pelo fato de ser o ano de encerramento da possibilidade de levantamento bibliográfico, disponível no banco de teses da Capes. Portanto, embora nas demais fontes o marco pudesse estender-se, decidimos por tomar esse ano como limite para o levantamento de dados.
No que alude à escolha das fontes para a revisão bibliográfica, é oportuno esclarecer que recorremos a uma literatura voltada para a área de Educação, com base em textos acadêmicos contidos em teses, anais dos Grupos de Trabalho – GTs 8, 11 e 12 – da Anped e nas Revistas Currículo sem Fronteiras, Cadernos de
Pesquisa e Educação & Sociedade.
O levantamento bibliográfico foi realizado mediante acesso à internet, ou seja, por meio de busca nos sites das revistas especializadas e do banco de dados da Capes tendo por norte a seleção de trabalhos envolvendo as categorias previamente eleitas.
Durante o levantamento, ao utilizarmos o termo Licenciatura como descritor, um conjunto de trabalhos correlatos emergiram, a saber: formação inicial de professores, formação de professores, formação docente, formação de profissionais da Educação. Com essas palavras, surgiram outras relacionadas à temática, o que exigiu uma filtragem das fontes.
Nos Anais da Anped foram encontrados 79 trabalhos sobre Licenciatura; destes, descartamos 56, por tratarem do estado da arte, do desenvolvimento profissional, de memória, trajetórias, vozes e olhares de alguns sujeitos sobre cursos de Licenciatura e das metodologias de ensino não específicas à Licenciatura em História.
relacionarem com o objeto de estudo desta tese: a reforma curricular do Curso de Licenciatura em História da Ufac e sua relação com as políticas que norteiam essa formação com base nas reações dos sujeitos da reformulação a essa política.
Selecionamos, então, trabalhos sobre Licenciaturas que se relacionavam com as Políticas Públicas, Curriculares e de Avaliação para esses cursos, como por exemplo, aqueles que tratavam do lugar da pesquisa e do papel da Prática e do Estágio Supervisionado na formação de professores.
Nesse levantamento consideramos que, embora componham um conjunto razoável de trabalhos, outras investigações que analisassem as reações dos sujeitos do currículo às políticas públicas de formação de professores para a educação básica seriam necessárias para o aprofundamento do estudo.
Em uma segunda etapa, realizamos novo levantamento bibliográfico em revistas educacionais eletrônicas, ou seja, nos sites das revistas Cadernos de
Pesquisa e Educação & Sociedade e no banco de dados da Capes.
Durante o levantamento das categorias nessas fontes, ao utilizarmos o termo Licenciatura como descritor, novamente um conjunto de trabalhos correlatos emergiu: formação inicial de professores, formação de professores e formação docente. Com essas palavras, surgiram outras que se relacionavam com a temática, o que exigiu uma filtragem daqueles trabalhos que, de fato, pudessem contribuir com a pesquisa.
Para estabelecer conexões entre os problemas comuns a todas as licenciaturas e aos específicos à Licenciatura em História, estendemos a revisão bibliográfica para a Licenciatura em História e, posteriormente, ao Ensino de História.
Proceder à revisão bibliográfica sobre o Ensino de História foi uma decisão tomada por entendermos que Cursos de Licenciatura em História têm por função prioritária a formação profissional de professores para esse campo, carecendo, portanto, de análise das principais questões que envolvem o ensino dessa área na atualidade.
O levantamento indicou, também, a necessidade de uma revisão bibliográfica que flagrasse os impactos normativos trazidos pela legislação no reordenamento dos cursos de Licenciatura, oferecidos por universidades brasileiras, atentando para as especificidades desses cursos na Ufac.
Em paralelo, recorremos ao levantamento de produções apresentadas nos Grupos de Trabalho da Anped (GT 11 – Política de Educação Superior e GT 12 – Currículo) que indicassem pistas dos impactos das políticas curriculares do MEC para a formação de professores na reformulação do currículo do Curso de Licenciatura em História da Ufac.
Nesse movimento, localizamos no site da Anped, no GT 11 e GT 12, 41 trabalhos sobre a temática das Reformas do Estado, da universidade e dos currículos acadêmicos. No entanto, apesar de a temática ser recorrente, ela é recente e apresenta contornos ainda muito indefinidos. Conta com referências políticas, teóricas e conceituais muito diversas, em especial os trabalhos apresentados no GT 12 – Currículo. Ainda assim, foi possível contar com trabalhos que apresentavam elaborações sugestivas e estimulantes para uma reflexão critica com perspectivas desafiadoras de apontar movimentos de resistência à ideologia que subjaz a essas reformas.
No tocante à revisão bibliográfica sobre Licenciatura, identificamos que a produção acadêmica concernente à temática no período pesquisado foi menor do que a bibliográfica produzida sobre formação de professores. É provável que isso ocorra porque, embora Licenciatura e formação de professores estejam intimamente relacionadas, a formação de professores é uma temática mais abrangente.
No entanto, alguém que opte por uma formação por meio de um Curso de Licenciatura receberá, ao final, uma licença para o exercício profissional docente na Educação Básica, concedida pelo Ministério da Educação, por meio de instituições de Ensino Superior credenciadas.
A licença é concedida apenas a profissionais que realizem cursos cujos projetos pedagógicos tenham sido elaborados em conformidade com o
estabelecido nas Resoluções CNE/CP nos 01/2002 e 02/2002 do Conselho Nacional de Educação (BRASIL, 2002a; 2002b).
O Quadro 1.1 traz uma síntese dos trabalhos encontrados no levantamento bibliográfico realizado e que constam em vários quadros dos apêndices.
Quadro 1.1 – Levantamento de trabalhos sobre Licenciatura por fonte e ano
FONTES/ ANO
ANPED CAPES REVISTAS
Currículo sem Fronteiras Cadernos de Pesquisa Educação & Sociedade 2002 5 1 – – 2 2003 15 4 – – 1 2004 5 – – – – 2005 28 2 1 – – 2006 10 4 – – 2 2007 5 4 – 2 1 2008 11 7 3 – 2 TOTAL 79 22 4 2 8
Fonte: Levantamento bibliográfico realizado pela autora.
Os resultados qualitativos do levantamento bibliográfico serão apresentados no corpo dos capítulos seguintes, na medida em que forem incorporados às nossas análises.