No plano das ciências, as sociais se dedicam ao estudo do mundo social e nelas são visíveis subdivisões em campos especializados, tais como sociologia, psicologia, economia, ciência política, administração, antropologia, aspecto pelo qual sobressai a constatação de que a agregação e a associação, assim como a caracterização do que é social no comportamento dos organismos, não são problemas exclusivamente sociológicos. Estas – as ciências sociais - se distinguem da idéia das ciências naturais, cujo conjunto de disciplinas tem por objetivo a compreensão do mundo natural – físico, biológico, etc. e para o quê fazem uso de metodologia científica com o intuito de encontrar padrões nas
201 Elementos de Teoria Geral do Estado, págs. 7/8. 202 Idem, págs. 9 et. seq.
relações de causa e efeito. Dentre aquelas, a sociologia é considerada a mãe de todas as ciências sociais, posto que, surgida no século XIX, a partir dela foram criadas outras áreas do saber social.
Max Weber, que é indicado o responsável pela elevação da Ciência Social ao nível da verdadeira pesquisa e erudição no mundo ocidental, sublinha a Sociologia como a ciência que tem como objeto:
[...] a compreensão interpretativa da ação social de maneira a obter uma explicação de suas causas, de seu curso e dos seus efeitos. Por “ação” – prossegue a lição – se designará toda conduta humana, cujos sujeitos vinculem a esta ação um sentido subjetivo. Tal comportamento pode ser mental ou exterior; poderá consistir de ação ou de omissão no agir. O termo “ação social” será reservado à ação cuja intenção fomentada pelos indivíduos envolvidos se refere à conduta de outros, orientando-se de acordo com ela.203
Augusto Comte, que antes a tomava por física social204, não só cunhou a denominação “sociologia”, em 1839, como também foi um dos principais elaboradores dessa ciência. Alguns consideram-na como ciência humana que se ocupa exclusivamente de observar os fenômenos sociais das sociedades humanas; outros entendem o seu objeto como sendo o estudo de certas associações animais, cuja vida social se apresenta de forma organizada. Por fim, a posição que é mais ampla em relação às anteriores, vez que por ela o estudo sociológico se volta para toda e qualquer forma de aglomeração de seres vivos em que haja padrões de organização e interações sociais, quer do reino vegetal, animal ou humano, razão pela qual, ao que parece, Florestan Fernandes conceituava a sociologia como “a ciência que estuda as interações sociais em
todos os níveis de organização de vida”.
Com efeito, prossegue esse notável sociólogo:
203 Conceitos Básicos de Sociologia.Tradução de Rubens Eduardo Ferreira Frias e Gerald Georges Delaunay. São Paulo: Editora Centauro, 2002, pág. 11.
Mesmo o observador desprevenido pode dar-se conta de que certas atividades de organismos como as formigas, as abelhas, os macacos ou os homens realizam-se mediante a conjugação de esforços e concorrem para a satisfação de necessidades que são tanto individuais, quanto supra- individuais ou coletivas. (...) Nesse sentido, entende-se que a noção de ‘fenômeno social’ se refere a atividades (ou comportamentos) cuja manifestação, generalidade e repetição dependem, indireta ou diretamente, de condições externas ou internas dos organismos: o modo deles coexistirem; as dependências existentes entre eles no que concerne à adaptação ao ambiente natural, à alimentação, à reprodução ou à proteção mútua.205
Toda ciência possui objeto específico, ou seja, que não deve ser confundido com o dos demais. Nesse sentido, toma-se um conjunto de fenômenos a ser estudado por ela, o que autoriza sinalizar que o objeto da sociologia é, grosso modo, o estudo das interações sociais, assim entendidos os fatos que são característicos da vida em grupo e não da vida do indivíduo. Portanto, nesse campo, podem ser destacados, como exemplos de objeto da investigação sociológica, as maneiras de pensar – idéias, valores, ideologia de um grupo social; a concepção de beleza, o valor das profissões, a idéia sobre trabalho, de moral -; as maneiras de agir – os usos e costumes de uma sociedade; o modo de cumprimentar as pessoas, no nosso caso estendendo a mão direita; o modo de cultuar os mortos, que para os ocidentais se dá por meio de flores e, para os orientais, de alimentos; as maneiras de sentir – a exemplo do gosto que sentimos em relação aos alimentos comuns ao nosso povo e repugnância acerca de alguns alimentos muito diferentes.
Necessário por em relevo, também, que os fatos sociais são caracterizados por objetividade – são próprios do grupo, portanto, exteriores à consciência dos indivíduos, que só os adquirem para viver em sociedade; coerção – ferramenta através das quais os fatos sociais se impõem aos indivíduos que inconscientemente vão adquirindo o comportamento de seu grupo, quer falando
a mesma língua, quer adotando os mesmos costumes, submetendo-se a sanções premiais ou punitivas, conforme se comportem de acordo ou em desacordo -;
generalidade e diversidade – os fatos sociais são gerais, pois são comuns,
existem em todas as sociedades, mas, ao mesmo tempo, apresentam-se com diferenças entre si, o que pode ser conferido pela língua, recurso comunicativo comum a todos os grupos humanos, embora, é cediço, de conteúdo diverso, de acordo com o grupo, com sua formação e sua história.
Quanto a sua natureza, os fatos sociais podem ser observados por si mesmos, e, segundo sua essência, são naturais – podem ser estudados objetivamente, cientificamente, quer dizer, com Émile Durkheim, devem ser tratados como coisas -; explicam-se sempre por causas sociais – no sentido de que a causa de um fato social será sempre outro fato social, aspecto que, para melhor compreensão, merece ter-se, primeiramente, em função da diferenciação entre causa (tudo aquilo que determina o fenômeno) e condição (tudo o que auxilia ou perturba o efeito); e são interdependentes – não são realidades autônomas, existindo entre eles estreita ligação, apresentando-se como fatos entrosados.
Toda atividade científica, na investigação e demonstração da verdade, faz uso de um conjunto de processos que se denominam métodos. Nas ciências físicas ou naturais é possível a experimentação, ou seja, a observação do comportamento das coisas sob condições mais ou menos artificiais, as quais são cuidadosamente planejadas e aplicadas laboratorialmente. No caso das ciências sociais, no entanto, não se oferece possível ao investigador social isolar o objeto de análise e nele inserir ou sobre ele fazer atuar condições prévia e artificialmente elaboradas para aplicação laboratorial. Demais disso, a mais dificultar a tarefa, no caso da sociologia, que por ora nos interessa de perto, embora os fatos sociais sejam naturais, objetivos, coisas, como lecionava
Durkheim, já o dissemos, o observador, ou seja, o sociólogo, estuda os fatos com os quais tem estreita participação, uma vez que se trata também de um sujeito do grupo, o que não impede, porém, de o mesmo, diante dos fenômenos sociais, se comportar como cientista, fazendo observações objetivas e interpretações isentas. Por outro lado, dada a natureza complexa dos fenômenos sociais, dificultada a elaboração de leis ou de previsões, pode-se dizer que a sociologia científica, em alguns casos até impraticável, consiste em teorias e pesquisas, elementos que se complementam na medida em que as teorias orientam e dirigem as pesquisas, ao passo que estas servem para aumentar a precisão daquelas.
Vários métodos e técnicas científicas auxiliam o trabalho do sociólogo, sem embargo de que ainda se podem criar novos métodos, de acordo com as necessidades e/ou especificidades do fenômeno sob estudo. Vejamos alguns dos métodos e técnicas mais comuns. Método histórico, consistente na busca das raízes de um fenômeno social do passado, com o fito de se descobrir suas origens e antecedentes; método comparativo que, como a própria denominação sugere, se ocupa do estudo de diferentes grupos ou povos, visando identificar eventuais semelhanças existentes em determinadas circunstâncias e condições e também para explicar as diversidades; método estatístico, em que os dados sociológicos são reduzidos a termos quantitativos, baseando-se em amostragens, distribuição de frequência, medidas de variabilidade, estabelecimento de correlações e confecção de gráficos, o que possibilita sejam identificadas a generalizações e significados dos fenômenos sociais, método este formulado por Quetelet206, para o qual é possível aferir sobre a perfeição de uma ciência pela
206 Lambert Adolphe Jacques Quetelet (*Ghent, Flanders, Bélgica, 22 de Fevereiro de 1796 † Bruxelas, Bélgica, 17 de Fevereiro de 1874), foi quem planejou o método estatístico. Doutorou-se pela Universidade de Ghent, Bélgica, em 1819, com uma tese sobre seções cônicas e com isso passou a lecionar Matemática em Bruxelas. Foi para Paris em 1823, onde aprendeu astronomia e teoria da probabilidade com Joseph Fourier e Pierre Laplace. Influenciado pelos mesmos, foi o primeiro teórico a fazer uso da curva normal não apenas como lei dos erros. Sua teoria sobre a consistência numérica dos crimes estimularam discussões e confrontos entre as teses do livre arbítrio e do determinismo social. Trabalhou para o governo do seu país com dados estatísticos,
facilidade com que ela permite o approach207 pelo cálculo208; método do estudo
de caso, empregado no estudo de um grupo, comunidade, instituição ou
indivíduo que seja representativo de muitos outros, para investigação e análise de todos os fatos que influenciam o caso, examinando-se todos os pontos de vista - para análise desses casos empregam-se técnicas diferenciadas, como entrevistas, questionários, tabelas, biografias, documentos, observação de campo, etc. -; método tipológico, criado pelo celebrado sociólogo alemão Max Weber, se aproxima do método comparativo, posto que também compara fenômenos sociais complexos, com a diferença de que aqui o pesquisador elabora modelos ou tipos ideais, construído por meio de destaque dos aspectos essenciais, das linhas mestras definidoras dos fenômenos escolhidos, desprezando-se pormenores dos mesmos (estado racional burocrático, dominação carismática, capitalismo moderno, são categorias ideais criadas por Max Weber para estudo das sociedades); método funcionalista, mais interpretativo que investigativo, esse método supõe toda sociedade composta por partes interrelacionadas e interdependentes, cada qual cumprindo uma função necessária à vida social, compreendendo-as – as partes – melhor segundo a função que desempenham no todo ou, por outras palavras, conforme as necessidades que satisfaçam.
geográficos e metereológicos. Em 1835 Quetelet publicou “Sur l´homme et le developpement de ses facultés,
essai d´une physique sociale” (Sobre o homem e o desenvolvimento de suas faculdades; ensaio de uma física
social – t.l.a.), em que apresentava a sua concepção do homem médio como o valor central das medidas de características humanas que são agrupadas de acordo com a curva normal. A medida de obesidade usada internacionalmente é o índice de Quetelet, também conhecido como IMC (Índice de Massa Corporal) ou BMI (Body Mass Index), sob a equação Peso em quilogramas ÷ Altura em metros. Se o índice for superior a 30, a pessoa é oficialmente considerada obesa.
(Suma biográfica colhida na Internet http//www.pucrs.br/famat/staweb/.../Quetelet.htm em 15/03/2010, 01h37m).
207 Approach: s. aproximação; acesso; via de acesso; maneira de tratar ou de abordar ou de encarar (assunto); método usado para lidar com algo ou realizar algo; introdução; (no pl.) tentativas de aproximação / vt. Aproximar-se de; abordar; aproximar, trazer (mais) para perto / vi. Aproximar-se, avizinhar-se (fig. com to) aproximar-se de, assemelhar-se a (in Novo Dicionário Folhas Webster´s Inglês/Português Português/Inglês, op. cit., pág. 16, verbete: “approach”).
208 Cf. Nicholas S. Timasheff, Teoria Sociológica. Tradução de Antonio Bulhões. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1971, págs. 64/65.
Augusto Comte com base na física, dividia a sociologia em: estática, em que seriam estudados os fatos relativos às ordens, como família, instituições sociais, etc., e dinâmica, que estudaria os fatos ligados ao desenvolvimento (mudanças sociais, guerras, etc.). Durkheim, por sua vez, tomando a ciência da biologia em comparação, dividia a sociologia em: morfologia social, voltada para o estudo da estrutura material da sociedade, como, por exemplo, a densidade populacional, a distribuição dos grupos que a compõem, etc.;
fisiologia social, dedicada às funções da vida social, como a religiosa, política,
econômica, daí que se subdividiu em sociologia religiosa, sociologia moral, sociologia jurídica, sociologia educacional, sociologia estética, etc.; sociologia
geral, que seria a parte filosófica ou teórica da ciência a tratar dos problemas
teóricos que exijam unificação, síntese.
Hoje, no entanto, amadurecida, a ciência da sociologia toma essa classificação apenas como valor histórico e divide o seu campo em seis disciplinas básicas, a saber: sociologia sistemática, que estuda os elementos básicos e universais dos sistemas sociais e o modo como se relacionam – noções de ação, interação, relação, processos sociais, grupos, instituições, etc.;
sociologia descritiva, voltada para a investigação de fenômenos sociais nas suas
manifestações concretas, nas condições reais em que operam, como, por exemplo, o estudo da cooperação na sociedade atual; sociologia comparada, que quer identificar como os fenômenos sociais variam na história das diversas sociedades e épocas, mais especificamente para neles vislumbrar semelhanças e distinções, e também a evolução da formas sociais de vida, a exemplo do estudo da família através dos tempos; sociologia diferencial, através da qual se procura estudar as características particulares de cada sociedade, de cada sistema, focalizando a individualidade de determinado povo; sociologia aplicada, que estuda as intervenções racionais sobre as condições sociais de existência, como a racionalização do trabalho em uma empresa; sociologia geral ou teórica,
disciplina de síntese – porque sistematiza os conhecimentos sociológicos - e de crítica, vez que traz indagação permanente sobre a validade lógica dos conhecimentos sociológicos.
Capítulo I: Em busca de nós mesmos
Muitos ainda especulam se o mundo realmente existe. Para nós esta questão é um contra-senso, porque sem esta existência o homem não seria existência. Seria, também, um contra-senso pensar no homem como um simples resultado de forças e processos cósmicos. Só o homem dá sentido às coisas. Há uma prioridade da subjetividade sobre as coisas, pois elas só têm sentido para o homem. Ele é, pois, o único ser que explica o próprio ser. (Maria Luiza Silva Teles 209)210
O sentido das coisas, especialmente daquelas que nos dizem respeito diretamente, como, por exemplo: Quem somos? Qual é a nossa origem? Por que vivemos assim? Como devemos nos comportar? são inquietações que sempre estiveram presentes em nossos espíritos, e as respostas são buscadas porque é da natureza humana não se conter na imediatidade da sobrevivência como o fazem os demais tipos animais.
209 Maria Luiza Silva Teles, nascida em Belo Horizonte/MG, é educadora e jornalista. Tem, também, formação
em pedagogia, inglês e posgraduação em Psicologia e Sociologia, tendo sido, por vários anos, professora de Psicologia da Educação na Unimontes. É autoras de várias obras em psicologia, sociologia, educação, literatura infantojuvenil, teologia, romance e poesia. Reside em Salvador/BA, em cujo Estado promove palestras, cursos e oficinas literárias. Além de escritora é ainda tradutora
O homem, sendo um animal diferente, só ele tem consciência de si próprio e da realidade; só ele pode fazer reflexão sobre isto; só ele tem a capacidade de agir sobre si mesmo, transformando-se, e sobre a realidade exterior, transformando-a através da cultura e da mudança das circunstâncias.211
Entender o significado último da existência humana, as relações dos homens entre si e com o trabalho, como forma de compreender o mundo natural que nos acomoda é, portanto, o desafio que se nos impõe e a isso se propõem, desde sempre, a imaginação e a racionalidade.
Portanto, antes de mais nada, segue-se um pouco de história, não só com o ensejo de nos ambientarmos no tema da sociologia, mas também com o escopo de provocar uma revisitação aos fatos que cercaram ao longo de todo o tempo o processo de construção do saber humano, o que será suficientemente atendido mesmo a partir de uma (re)visão panorâmica. Com efeito, não é despiciendo rememorar os antecedentes históricos que fizeram eclodir ou, ao menos, contribuíram para a eclosão das ciências humanas.
Basta ver, para conforto dessa afirmação, que a teórica política alemã Hannah Arendt, que rejeitava ser designada filósofa, utilizou o segundo capítulo do seu livro intitulado Entre o Passado e o Futuro212 para ocupar-se da
conceituação de história, o que fez confrontando antigo e moderno, e anotando, já de logo, como Heródoto213 em Guerras Pérsicas, a pretensão de imortalidade do homem. No item 1 do supracitado capítulo 2, em que se debruça sobre História e Natureza, a autora adiciona a seguinte nota e rodapé:
211 Vida: Maria Luiza Silveira Teles, in op. cit., pág. 11.
212 Entre o Passado e o Futuro (Título original em inglês Between Past and Future). Tradução de Mauro W. Barbosa. São Paulo: Editora Perspectiva, 6ª edição, 2009.
213 Heródoto foi cognominado por Cícero como pater historiae, vez que inaugurou a História Ocidental, da qual
Heródoto, o primeiro historiador, não dispunha ainda de uma palavra para designar a História. Ele utilizou o termo istoreín, mas não no sentido de ‘narrativa histórica’. Assim como eidénai, conhecer, o vocábulo istoría deriva de id-, ver, e ístor significa originalmente ‘testemunha ocular’, e posteriormente aquele que examina testemunhas e obtém a verdade através da indagação. Portanto, istoreín possui um duplo significado: testemunhar e indagar.214