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A comunidade da Prainha do Canto Verde, até a década de 90 tinha uma grande precariedade no sistema de saúde, os moradores não tinham assistência médica e desconheciam muitas práticas de higiene e cuidados consigo mesmos e com suas crianças.

Não havia na comunidade saneamento básico, as pessoas utilizavam banheiros de palhas um pouco distante de suas casas e os coliformes fecais eram despejados mesmo no solo sem tratamento algum, também os moradores criavam muitos animais como porcos soltos e isso aumentava os riscos de contaminação da água e de doenças.

Essa falta de práticas de higiene e falta de acompanhamento médico implicavam em doenças nas crianças e nos adultos. Era comum também as pessoas sentirem diarreia por conta da contaminação da água por coliformes fecais.

Apenas duas a gentes de saúde orientavam as famílias e a comunidade tratava suas doenças com plantas medicinais.

O alto índice de mortalidade infantil era imenso na comunidade “Enterrar

crianças era normal já, tinha vezes que morria duas numa semana só” (Geraldinho). A falta

11 Segundo o autor essa música foi composta entre os anos de 1989 e 1990 no início da luta pela terra. Nesta

época, a comunidade não tinha o apoio do judiciário, nem da prefeitura de Beberibe, e muitas vezes os comunitários tiveram que ir contra a própria prefeitura. Zé da Nega é um dos compositores mais conhecidos na comunidade. Seu principal ofício tem sido a pesca e fortalecer a luta comunitária com suas músicas. Sem saber ler e escrever compõe suas músicas e escreve-as na memória e sempre pronto para cantar quando é solicitado pelos prainheiros e visitantes. Música com letras tão singulares retratando perfeitamente de modo artístico o cotidiano, a vida e a historio do Povo do Mar.

de acompanhamento médico para realizar pré-natal, a falta de orientação e as condições difíceis para uma alimentação balanceada para as mães e bebês implicavam na morte de muitas crianças.

Em 1993 um estudo realizado por Marialda Moreira Christoffel onde tinha como objetivo principal caracterizar a situação da saúde materno-infantil da comunidade tendo como público principal as mulheres entre 15 anos e 49 anos de idade (129) crianças levantou os seguintes dados:

Das 113 famílias que habitavam a comunidade naquela época 62% dos habitantes viam a assistência médica como um dos recursos mais importantes e gostariam de receber esse atendimento. 57,5 % das famílias usavam remédios caseiros para tratarem doenças, com o auxílio das agentes de saúde. Os outros 49,6%, se deslocavam até a cidade de Beberibe para terem assistência médica. Grande parte dos entrevistados, 57,5%, disseram possuir na família pessoa que ingeria bebida alcoólica, com um número maior entre os homens (CHRISTOFFEL, 1994, apud GALDINO, 2014).

Os resultados da pesquisa mostraram a precariedade da saúde na comunidade e consequentemente a isso, um índice alarmante de mortalidade infantil. O estudo apontou que 35% das mulheres haviam perdido um, ou mais filhos, e 73,5% com menos de um ano de idade. O resultado aponta que a maioria dessas crianças, uma porcentagem de 73,5%, faleceu por conta de infecção intestinal. Ainda segundo a pesquisa 64,7% das crianças não mamavam o período necessário para uma boa nutrição e paravam de amamentar até o décimo quinto dia de vida (CHRISTOFFEL, 1994, apud GALDINO, 2014).

Naquele tempo morria tanta criança, criança de 5 anos para baixo morria como carrapato na lama, teve ano aí que morreu 40, 50 criança. Mas olha como as crianças eram sustentadas... Eu cansei de ver mulher caçando grossá de manhã para cozinhar e dar de comer as crianças. Muitos eram criados com mingau de cará, cozinhava a fazia aquele pirão bem molinho e dava para as crianças, era assim, sem higiene sem cuidado algum(Geraldinho).

É possível perceber então a forma de alimentação das crianças na fala acima, e por esse motivo havia morte de muitas crianças. A falta de conhecimento, orientação e acesso à médicos aumentavam a gravidade da situação.

A pesquisa acrescentou também que 35,0% dessas crianças tinham um retardo no crescimento, que significava uma desnutrição crônica, aliada a situação de que 91,0% das famílias não tinham sanitários em suas casas e os dejetos eram jogados a céu aberto ou enterrados em “cova rasa” (CHRISTOFFEL, 1994, apud GALDINO, 2014).

Essa pesquisa serviu para caracterizar a situação da saúde na comunidade, e assim, como uma alerta de que precisava realizar trabalhos que viessem a contribuir com as demandas da saúde, diminuindo os casos da mortalidade infantil. A pesquisadora sugeriu ideias para que o trabalho fosse iniciado na comunidade:

- Promover e supervisionar a reciclagem das pessoas da comunidade que prestam serviços às famílias, divulgando e orientando sobre as ações básicas materno-infantil; as “curiosas” e rezadeiras;

- Implantar o sistema de notificação de nascimentos e óbitos; - Implantar o sistema de prontuário familiar;

-Diminuir a incidência da desnutrição crônica, incentivando o aleitamento materno no primeiro ano de vida, acompanhando o crescimento e desenvolvimento das crianças até 5 anos de idade;

-Diminuir a incidência das infecções gastrointestinais, promovendo a terapia de reidratação oral das vias respiratórias, orientando as mães quanto à hidratação, vaporização, tapotagem e inalação para a prevenção das infecções graves; orientando sobre a higiene pessoal e dos alimentos; a cloração da água; o destino dos dejetos e do lixo;

-Atingir a meta de 100% dos esquemas básicos de vacinação complementos para as crianças de até 1 ano de idade;

Implantar a atividades de identificação e controle de patologias, tais como o exame de prevenção do colo uterino e o ensino do autoexame das mamas;

-Desenvolver atividades educativas quanto aos direitos reprodutivos, sexualidade, concepção e contracepção, visando evitar gravidez indesejada e a prevenção do aborto;

-Promover atividades de prevenção e controle das doenças sexualmente transmissíveis;

-Promover por meio de consultas médicas e de enfermagem, visitas domiciliares, orientação a grupos de mães, de gestantes adolescentes e de adultos;

-Promover atividades de enfermagem (CHRISTOFFEL, 1994, apud GALDINO, 2014).

Após essas sugestões e capacitações dos agentes de saúde, que na época eram dois, a comunidade passa a olhar mais atenta para a saúde e os agentes de saúde buscam alternativas para mudarem a situação precária.

As mães não tinham um pré-natal, não tinham uma prevenção, não tinha nada... Logo o que eu me encontrei com mulher tendo filho em casa e sem eu poder fazer nada, o que eu podia fazer? Nada. Porque não tinha um carro [...] Mas ninguém nem se falava em hospital. Aqui não tinha médico, não tinha enfermeira, não tinha nada.

Aí quando eu comecei a trabalhar, que as coisas eram muito críticas, aí eu conversei com o Seu René. Aí ele trouxe uma enfermeira pra cá, que ela fez até um trabalho com nós. Aqui ninguém falava de aleitamento materno... as mães não amamentavam... (Maria Mirtes, ex-agente de saúde, 68 anos de idade).

É nesse contexto que as agentes de saúde junto a Associação de Moradores da Prainha do Canto Verde e a ajuda dos Amigos da Prainha do Canto Verde articulado pelo Sr. René Schärer passam a discutir sobre a saúde, tendo em vista o combate à mortalidade infantil e a melhoria da qualidade de vida dos moradores decidindo colocar em prática o projeto de Planejamento Familiar e Aleitamento Materno, abarcando principalmente as sugestões da pesquisadora e enfermeira Marialda Moreira Christoffel.

Ai a gente começou o trabalho pra valer [...] A gente fazia cartaz, fazia reunião, quando começou as doutoras a gente levava. [...] A mães diziam que não tinham como comprar comida para poder dar de mamar as crianças. Então conversei com o Seu René, e ele disse os amigos dele podiam ajudar e disse que a gente ia fazer um projeto de aleitamento materno (Maria Mirtes, ex-agente de saúde, 68 anos de idade).

Neste cenário de preocupação com a saúde surge o Conselho de Saúde da comunidade, um grupo que junto a Associação sentavam para discutir sobre a situação da saúde na comunidade buscando caminhos e alternativas para vencer os desafios apresentados nessa área, o que naquela época não eram poucos.

Então eu chamei as mães, fizemos logo um grupo do conselho pra gente criar mais força e para trabalhar em cima dessa questão. O seu René também foi pra reunião, escutou as mães, aí a gente fez o projeto de Aleitamento Materno, e depois ele nos deu o dinheiro e de quinze em quinze dias a gente ia pra Beberibe comprar as coisas, do que elas precisavam. Foi um projeto que valeu a pena. Foi um trabalho muito árduo, muito difícil, mas nós conseguimos (Maria Mirtes, ex-agente de saúde, 68 anos de idade).

A criação do Conselho de Saúde foi de suma importância nesse momento inicial do trabalho com a saúde da comunidade e este hoje continua tendo um papel muito importante nas discussões que pautam esse assunto no movimento comunitário. O conselho é formado por pessoas da Associação dos Moradores da Prainha do Canto Verde, as agentes de saúde, técnico de enfermagem que trabalham no posto de saúde e por comunitários.

O projeto de Aleitamento Materno que durou 5 anos, mudou o rumo de vidas na comunidade, as famílias reduziram o número de filhos e a mortalidade infantil baixou para zero como mostra na tabela:

Figura 25 – Sobre a mortalidade infantil da Prainha do Canto Verde de 1993 a 2003

Fonte: (GALDINHO, 2014).

Como é perceptível na tabela, de fato, a mortalidade infantil zerou na comunidade, este resultado foi uma grande vitória para a saúde comunitária, e os ensinamentos aprendidos nesse período repercutem até hoje:

A vitória que nós agentes de saúde tivemos e a comunidade foi de não morrer mais nenhuma criança de infecção intestinal até hoje. Isso foi um trabalho tão bem aplicado, tão bem feito e bem aplicado que as mães não tiraram da cabeça até hoje. Foi um trabalho que foi de mãe pra filha, e pra neto foi passando assim (Maria Mirtes, ex-agente de saúde, 68 anos de idade).

Também nesse contexto a Prefeitura Municipal de Beberibe, com a parceria da Associação de Moradores constroem o Posto de Saúde e Casa de Parto para atendimento à comunidade. O prédio serviu a comunidade só até o ano de 2008, em seguida foi enterrado pelas dunas móveis e o local de atendimento dos comunitários passou a ser numa casa alugada, onde até o momento continua, ainda não se tem previsão de quando um outro posto de saúde será construído. Apesar das dificuldades de espaço, a comunidade continua tendo assistência médica e de enfermagem uma vez por semana que fazem o acompanhamento dos hipertensos, das grávidas antes e após o parto, realizam as vacinas entre outros serviços básicos de saúde. A comunidade é divida em três áreas para assistências das agentes de saúde, no entanto há mais de 1 ano a comunidade dispõe de apenas duas agentes para o acompanhamento das famílias em domicílio. Os casos mais complexos e exames são, geralmente, realizados na cidade de Beberibe.

E a comunidade não parou por aí, em paralelo com o projeto de aleitamento materno e com as discussões sobre a poluição da água, a forma errada de descartar o lixo, entre outros problemas que a comunidade enfrentava. Fez com que se colocasse o problema

do que seria um o processo de conscientização da comunidade. Essa palavra que Freire (1992) utilizava de modo dialógico. Retiremos da moldura história esse aspecto relacional dos trabalhos de “mudar a vida em comum”.

As agentes de saúde realizaram campanhas para que os moradores pudessem criar seus porcos amarrados, pois os mesmos se criavam soltos e assim, o ambiente ficava propício para muitas doenças, como bichos de pé, entre outras, e os mais afetados eram as crianças.

Também com a parceria da escola e da Associação de Moradores foi realizada muitas atividades de conscientização no cuidado com o lixo, tendo vista levar os moradores a adotar atitudes que viessem a extinguir os lixos jogados nas dunas, lagoas, ruas e pudessem separar o lixo não orgânico para que o carro pudesse pegar e a utilização do lixo orgânico como adubo para as plantas e vitamina para a terra.

Nesse contexto a comunidade adota o trabalho de coleta de lixo nas casas, realizado duas vezes por semana pelo carro da Associação de Moradores, o lixo que vivia a céu aberto era colocado em um palanque propício para os mesmos construídos pela associação.

Esse trabalho ajudou muito na diminuição dos lixos jogados a céu aberto, na diminuição da contaminação da água, bem como deixou a comunidade mais limpa e bonita.

Depois de algum tempo, o palanque não mais conseguia abarcar a quantidade de lixo e sua estrutura já não garantia mais a segurança dos mesmos, assim, a comunidade com a Associação de Moradores construiu um galpão para que o lixo fosse mais bem armazenado. Atualmente a comunidade tem voltado a enfrentar e discutir problemas com o lixo, alguns moradores não estão realizando o armazenamento do lixo de modo ideal, voltaram a realizar queimadas com o lixo orgânico e a jogar o mesmo em céu aberto. Os caminhos para as soluções não são fáceis e rápidas, porém parece que nasce novamente a demanda sobre a questão da conscientização dos cuidados com o lixo.

A vitória que nós agentes de saúde tivemos e a comunidade foi de não morrer mais nenhuma criança de infecção intestinal até hoje. Isso foi um trabalho tão bem aplicado, tão bem feito e bem aplicado que as mães não tiraram da cabeça até hoje. Foi um trabalho que foi de mãe pra filha, e pra neto foi passando assim.

Vimos, então: um trajeto institucional pode, se dialogar com os sujeitos que fazem o lugar, transformar-se em um trabalho, vamos nomeá-lo, de “chamada à ancestralidade para o exercício da memória; uma memória crítica, que escolhe o que lembrar e o que esquecer, dentro do signo da resistência”. Na luta pela vida da infância em Canto Verde, isso se tornou de um potencial pedagógico singular.

Benzer Belgeler