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Assim como suas terras, os prainheir@s estiveram sempre na mira da imobiliária que tinha como principal objetivo tomar a terra dos nativos e assim usava de muitas estratégias para intimidar os moradores. As artimanhas eram grandes e feriam de modo muito direto a dignidade dos prainheir@s.

Em 1985 ocorre o primeiro episódio que exigiu dos moradores estratégias bem pensadas e analisadas para conseguirem vencer o obstáculo. Nessa época, o então prefeito de Beberibe Eduardo Queiroz dava apoio a imobiliária Henrique Jorge, e desta forma, negava o direitos dos nativos sobre sua terra, usando também de artimanhas para afrontar os moradores.

O mesmo, em parceria com a imobiliária resolveu cercar com tijolos a casa de uma senhora na comunidade, alegando que no mesmo espaço seria a construção de um posto de saúde, no entanto, os próprios moradores já haviam decidido que o posto de saúde seria em outro local. Assim, os comunitários perceberam que isso seria uma tentativa de enfraquecer a luta pela terra e decidiram enfrentar como se vê na fala seguinte:

Nós sentamos com o advogado André e pensamos no que fazer. [...] queríamos derrubar a cerca, mas nós era adulto e se caso fosse para justiça, como a gente era de maior, podia ser preso. Então, junto com o André, a comunidade decidiu que o bom era que fosse as crianças da escola, porque aí elas eram de menos e não corria o risco de ser presas. Aí foram derrubar o alicerce, era uma menina lá derrubando e foi derrubada tudinho, mostrando que a gente também era forte e as crianças também. (Chico Rosa, pescador, 65 anos de idade).

Como visto, as estratégias eram regidas pelas reflexões que geravam saberes e ações possibilitando um enfretamento não aleatório, mas consciente e amadurecido dos moradores. Esse fato, assim como tantos outros ocorridos na comunidade se traduziu igualmente em forma de arte, na seguinte letra da música de autoria do compositor Valtécio veja:

Eu vinha da areia vermelha

Encontrei uma mulher triste a chorar Era triste ver a coitada

A casa laçada não podia morar Que administração danada Que administração errada Que ninguém assumiu Não sei se foi o prefeito Ou o nego Til

Outro episódio de investimento da imobiliária para amedrontar os moradores acontece em 3 de novembro de 1992 quando a comunidade estava construindo uma creche para as crianças que moravam ao norte da Prainha. Vários capangas à mando do Henrique Jorge, agem no meio da noite derrubando a creche que estava destinada para o ensino das crianças. Após, foi aberto um inquérito na Polícia Civil, mas o caso não deu em nada e o dono da imobiliária declara a imprensa que nada tinha a ver com o caso, ainda acrescentando a inverdade de que teria presenteado a comunidade com 30 hectares de terra há 5 anos.

Os especuladores usam de variados métodos para passar uma imagem ao seu redor, a sua classe de que são pessoas bondosas que sempre chegam com o intuito de ajudar as comunidades que eles desejam oprimir.

Figura 23 – Casa queimada: o signo da violência da especulação imobiliária.

Fonte: Arquivo da Associação de Moradores

As agressões continuam, e em 1995 a mandado mais uma vez da imobiliária, capangas queimam 2 casas de palhas e destroem o alicerce de mais 2 moradias, também ameaçam outra família com uma mulher gestante prometendo voltar caso eles resolvam reconstruir as casas. Neste conflito, mais uma vez a comunidade organizada entra para pensar maneiras de enfrentar essa situação, e através da Associação de Moradores os comunitários em mutirão reconstroem as casas dos nativos.

Outro fato histórico que mostra a coragem e braveza das comunidades organizadas se deu em 2003, quando a comunidade foi cercada com estacas de cimento e arame farpado, mesmo denunciando a irregularidade à prefeitura municipal e ao DERT (Departamento Edificações Rodovias e Transportes) - já que a cerca se dava em maior parte na estrada- a imobiliária não parou e continuou o processo. Alguns moradores haviam especulado se conseguiam no período da noite derrubar a cerca, porém não obtiveram sucesso na ideia, pois a imobiliária havia contratado vários vigias, inclusive pessoas da comunidade.

Nós fomos várias vezes ver se dava pra nós derrubar de noite, só que sempre tinha gente lá, ele colocou vigia, aí não dava pra gente derrubar. Aí foi quando tava acontecendo uma reunião lá no centro, aí depois nós fomos no morro e decidimos derrubar, e muita gente ajudou, os índios, o pessoal de outras comunidade que também tava aqui, se juntou todo mundo e foi lá.

Derrubamos de repente, uns com foice, facão, e os índios fazendo roda cantando,

dando força... menina foi um momento bonito de muita força. (Falas de Chico Rosa e Dona Veinha).

Figura 24 - Pintura de um dos artistas da comunidade: José Maria (Dedé) representando o momento que a comunidade junto com lideranças de outros locais derruba a cerca construída pela imobiliária em volta de Canto Verde em 10 de fevereiro de 2001.

Fonte: Márcia Lima

As estratégias da luta permeavam a articulação para a derrubada da cerca, como diz Beto, presidente da Associação dos Moradores na época:

Nós primeiro pensamos nas estratégias de enfrentamento, tínhamos que ser cuidadosos. Vimos que tinha que imobilizar o telefone para não ter risco de ninguém se comunicar passando informações do que estava acontecendo, também fizemos barreira no alto da estrada para não deixar ninguém acessar de carro a comunidade naquele momento.

Em outro momento a comunidade se organiza para derrubar a cerca de uma pessoa não moradora que compra terras e constrói uma casa, porém nesse tempo os moradores já haviam criado suas regras de preservação do território, e uma dessas era a proibição da venda e consequentemente compra de casas ou terrenos. Deste modo, não aceitando a atitude do comprador, os prainheir@s em mutirão derrubam a noite a cerca e fazem uma fogueira em comemoração a suas próprias forças e coragem.

Como se percebe, as atitudes de agressão estão o tempo todo em afronta com organização comunitária, em meio a esses complexos momentos vivenciados dentro da própria comunidade, a análise e reflexão para as tomadas de decisão são sempre muito relevantes, a experiência e os saberes de estratégias são cruciais para que as ações surtam efeitos positivos na organização. A música comunidade Pai- D’ égua de Zé da Nega, vem relatar o fazer coletivo em meio à luta, nas angústias e vitórias. Cantemos:

Comunidade Pai- D’égua

Comunidade Pai- D’égua

Eu ainda não tinha visto não, não, não Comunidade na luta enfrenta guerra E na luta da terra não perdeu uma questão Mas quando estou perto da comunidade Eu sinto a força chegar perto de mim

Então eu digo vamos dar as nossas mãos Unir nossos corações, comunidade é assim, (2x)

Tem gente que vai ao juiz, vai com o seu sorriso louco Vai cheio de sabedoria, só para calar a nossa boca, Não cala não, não cala não.

Mas quando estou zangado, que eu me sinto preocupado Meto a cabeça no mundo, viro avesso acidade

E pode vir juiz e prefeito,

Mas não derruba a nossa comunidade Derruba não, derruba não

Compositor: Zé da Nega11

Benzer Belgeler