A segunda dimensão dos objetivos do ensino da evolução biológica está associada às contribuições que o seu aprendizado pode oferecer aos estudantes. Várias são as razões apontadas pelos pesquisadores da área. Smith (2010b) esclarece que as mesmas razões utilizadas em defesa da inserção das discussões acerca da natureza da ciência no ensino, como defendidas por Driver et al. (1996), podem ser utilizadas em favor da relevância do ensino da evolução biológica. Ele cita razões econômicas, utilitárias, democráticas, culturais e morais, relacionadas, à formação de cientistas, à produção de conhecimento e de avanços tecnológicos em prol da sociedade; à compreensão dos aspectos científicos dos objetos e processos vida cotidiana, visando um uso responsável; à formação de cidadãos bem instruídos e críticos capazes de se posicionar adequadamente frente questões tecnocientíficas específicas; à compreensão das relações que a ciência estabelece com a cultura e a compreensão dos valores éticos e morais envolvidos na prática científica. Desta forma, saber ciência e sobre a ciência, bem como saber evolução e sobre a evolução faria parte da alfabetização científica esperada para a educação contemporânea.
Bizzo e El-Hani (2009) também enumeram razões que justificam a importância da aprendizagem da evolução biológica. Para eles, a evolução é considerada a pedra angular das ciências da vida; contribui para a tomada de posição frente a questões relevantes que envolvem o conhecimento biológico; para a compreensão das implicações éticas e morais envolvidas no entendimento de que o ser humano não é especial em relação aos demais seres vivos; para um melhor entendimento sobre a ciência; para uma melhor compreensão da saúde humana; e está diretamente associado à origem da biologia enquanto ciência. A seguir aprofundamos algumas das justificativas apontadas por Smith (2010b) e por Bizzo e El-Hani (2009).
A Evolução Biológica como um elemento central e unificador do Ensino de Biologia
A defesa da importância da evolução biológica para o ensino de biologia fundamenta- se, principalmente, no entendimento da sua importância para a biologia enquanto área do conhecimento. Ela é considerada, por muitos autores, a mais importante teoria da biologia, uma vez que, “vistos sob à luz da evolução, temas aparentemente tão diversos como a paleontologia, a genética, a imunologia e o comportamento animal contribuem para a formação de um corpo articulado de conhecimento” (SADLER, 2005, p. 68). Como esclarecem Tidon e Vieira (2009, p. 1) “os cientistas costumam dizer que a biologia evolutiva é o eixo transversal que percorre todas as áreas das ciências biológicas, atingindo inclusive alguns segmentos das ciências exatas e humanidades”. Silva (2011) entende haver três dimensões relacionadas ao “papel central e unificador” que a evolução exerce na Biologia: a dimensão histórica, associada à importância que a evolução teve para o desenvolvimento das Ciências Biológicas; a dimensão
heurística, associada à relevância da biologia evolutiva para a compreensão dos fenômenos
biológicos e a dimensão prática, relacionada à aplicabilidade da evolução para a sociedade e para a ciência como um todo. Esta última dimensão, pode ser percebida, por exemplo, nas contribuições da biologia evolutiva para a medicina e a saúde humana, a agricultura e o meio ambiente, a economia, a estatística, a matemática e a informática. A autora esclarece ainda que a função unificadora da evolução para a biologia escolar é reflexo, notadamente, da dimensão histórica. Ela defende que a evolução biológica seja utilizada, também, como eixo norteador para a formação do professor de biologia.
No Brasil, os documentos oficiais da educação também defendem o papel central e unificador da evolução biológica no ensino de biologia. De acordo com as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (BRASIL, 2008), o tema evolução da vida apresenta uma
importância central unificadora no ensino de biologia. Assim, mais do que ser um dos seis temas estruturadores do ensino de biologia, como detalhado no PCN+ (BRASIL, 2002), o tema origem e evolução da vida deve orientar a abordagem de todos os demais temas.
Um tema de importância central no ensino de biologia é a origem e evolução da vida. Conceitos relativos a esse assunto são tão importantes que devem compor não apenas um bloco de conteúdos tratados em algumas aulas, mas constituir uma linha orientadora das discussões de todos os outros temas. O tema 6 do PCN+ - origem e evolução da vida - contempla especificamente este assunto, mas é importante assinalar que esse tema deve ser enfocado dentro de outros conteúdos, como a diversidade biológica ou o estudo sobre a identidade e a classificação dos seres vivos, por exemplo. A presença do tema origem e evolução da vida ao longo dos diferentes conteúdos não representa a diluição do tema evolução, mas sim a sua articulação com outros assuntos, como elemento central e unificador no estudo da Biologia (BRASIL, 2008, p. 22).
Apesar do aparente consenso acerca da importância da evolução biológica para a biologia e seu ensino, Moreno (2013) faz um alerta que consideramos pertinente. Ele evidencia o uso acrítico que muitos autores fazem da célebre frase de Dobzhansky (1973, p. 125), “nada
na biologia faz sentido a não ser sob a luz da teoria da evolução”, na tentativa de justificar a importância da evolução biológica para a biologia e o seu ensino. Segundo ele, a frase é reducionista, menospreza o trabalho de biólogos não diretamente vinculados à problemática evolutiva e se transformou em um dogma da biologia, o Dogma Central da Síntese Evolutiva (DCSE) que precisa ser abandonado. Como esclarece o autor, é preciso compreender o contexto no qual esta frase foi dita evitando assim o seu uso acrítico. Concordamos e compreendemos que o seu uso deve se dar com parcimônia, principalmente nos trabalhos que discutem a relação criacionismo e evolução na sala de aula. Nothing in Biology makes sense except in the light of
evolution foi o título de uma conferência dada por Dobzhansky, considerado por muitos um dos
“arquitetos” da síntese evolutiva, em 1970, em um congresso de professores de biologia nos Estados Unidos, e, que, posteriormente, foi publicada em revista especializada no ensino de biologia. Segundo Moreno (2013), Dobzhansky, à época, visava promover a reconciliação entre as deias evolucionistas e criacionistas, frente ao avanço do segundo grupo nos Estados Unidos. Durante a conferência Dobzhansky (1973, p. 127) pronunciou aos professores, “[...] é errado entender a criação e evolução como alternativas mutuamente excludentes. Eu sou um criacionista e um evolucionista. A evolução é o método de criação de Deus ou da Natureza”. Para argumentar contra o DCSE, Moreno (2013) se fundamenta em Mayr, que distingue a biologia em duas áreas: a biologia funcional (relacionada principalmente às causas próximas) e biologia evolutiva (relacionada às causas distantes). O próprio Mayr (2008) discute sobre a
frase de Dobzhansky. Ele entende que ela seria válida para a biologia evolutiva. Neste sentido, concordamos com Moreno (2013) quando diz “a história evolutiva tem importância para a biologia, mas não é tudo o que importa” (MORENO, 2013, p. 273).
A Evolução Biológica, tomadas de decisões e posicionamentos: a formação cidadã
Não é difícil perceber a relação existente entre o acesso ao conhecimento científico e a formação cidadã: parte da linguagem a que estamos expostos na sociedade contemporânea é a linguagem científica. Ao mesmo tempo, o conhecimento produzido pela ciência e o status de autoridade a ela conferido são utilizados, muitas vezes, na validação de algumas decisões econômicas, políticas, culturais e sociais de interesse coletivo. Neste sentido, a ciência detém poder e saber ciência capacita o homem a participar nas tomadas de decisões e posicionamentos em situações que envolvem o conhecimento científico.
De modo geral, argumenta-se que um dos objetivos da educação em ciências é a formação científica dos indivíduos de modo que, por meio da aquisição de vocabulário específico, da compreensão e aplicação dos conceitos científicos no cotidiano (KRASILCHIK; MARANDINO, 2007), o indivíduo esteja apto a “participar na tomada fundamentada de decisões em torno de problemas sociocientíficos e sociotecnológicos” (CAPACHUZ et
al.,2005, p. 17) que lhe são postos pelo mundo.
Os documentos oficiais da educação brasileira também defendem a contribuição do acesso ao conhecimento científico para a formação cidadã. Especificamente em relação ao ensino de biologia, as Orientações Curriculares Para o Ensino Médio (BRASIL, 2008) alertam para dois desafios que devem ser enfrentados. O primeiro deles é oferecer condições para que os alunos possam participar dos debates contemporâneos que demandam conhecimento biológico. Nessa direção, o segundo desafio é formar indivíduos com sólido conhecimento da área e com raciocínio crítico para que tenham condições de opinar em debates sobre temas científicos polêmicos relacionados ao conhecimento biológico. A alfabetização científica, compreendida em três dimensões, “aquisição de um vocabulário básico de conceitos científicos, a compreensão da natureza do método científico e a compreensão sobre o impacto da ciência e da tecnologia sobre os indivíduos e a sociedade” (BRASIL, 2008, p. 18), seria o meio através do qual o ensino de Biologia deveria enfrentar esses desafios.
Questões (ou problemas) sociocientíficas (os) são aquelas (es) que “emergem da interface ciência e sociedade, e das questões sociais que envolvem associações conceituais,
processuais ou tecnológicas com a ciência (SADLER, 2005, p. 68). Neste sentido, ter acesso ao conhecimento científico relacionado à evolução biológica contribui para a tomada de decisões em questões sociocientíficas nas quais o conhecimento evolutivo esteja envolvido. Isso acontece, por exemplo, em questões relacionadas à engenharia genética, à agricultura, à medicina e à saúde humana, ao meio ambiente etc. (BIZZO; EL-HANI, 2009).
Um exemplo de como o conhecimento evolutivo contribui para a tomada de posicionamentos frente a questões sociocientíficas específicas, particularmente aquelas relacionadas à engenharia genética, à clonagem e à terapia gênica é dado por Sadler (2005) que realizou um estudo empírico com 30 estudantes de nível superior: 15 estudantes de biologia e 15 estudantes de áreas não correlatas à ciência. De acordo com os resultados, a maior parte dos estudantes de biologia utilizou o arcabouço teórico evolutivo que conheciam para se posicionar frente às situações que lhes foram apresentadas durante a pesquisa, embora alguns estudantes tenham apresentado concepções alternativas sobre a temática, a saber: visão determinista e teleológica do processo evolutivo. Ainda assim, grande parte dos estudantes de biologia levantou preocupações legítimas quanto ao uso da engenharia genética, notadamente da clonagem, relacionando-a a uma possível redução na variabilidade/diversidade genética e a um aumento na propagação de alelos deletérios. O mesmo resultado não foi encontrado entre os estudantes de áreas não científicas. Nenhum desses alunos fez uso da do conhecimento evolutivo para se posicionar frente às questões da engenharia genética que lhes foram colocadas. Desta forma, Sadler entende que a “compreensão e a aceitação da teoria da evolução podem significativamente influenciar o modo como se negocia e se resolve questões sociocientíficas” (SADLER, 2005, p.72). Concordamos com Sadler quando ele argumenta que ambos, compreensão e aceitação, podem favorecer as tomadas de posicionamento frente a questões que envolvam o conhecimento evolutivo, como no caso da clonagem, por exemplo. Entretanto, reiteramos que, para nós, o ensino de evolução deve se comprometer apenas com a compreensão.
A Evolução Biológica e as reflexões éticas e atitudinais
Vários são os autores que defendem a importância do ensino de evolução argumentando que saber evolução possibilitaria aos alunos reflexões éticas e atitudinais específicas relacionadas ao papel que o homem exerce no mundo. Segundo Bizzo e El-Hani (2009), o entendimento da existência de um vínculo genético/evolutivo para a vida como um todo, por
meio da existência de um ancestral comum, contribui para a formação de uma visão mais integrada e complexa da relação homem-natureza. Desta forma, uma visão mais holística do mundo poderia ser formada em detrimento de uma visão mais antropocêntrica, o que seria particularmente interessante na compreensão de muitos problemas ambientais enfrentados pelo homem. Para Evans (2005), o pensamento evolutivo possibilita uma nova forma de pensar o mundo, pois ele transforma o mundo estático em um mundo dinâmico, no qual toda a vida se relaciona por meio de um ancestral comum. Essa ideia é compartilhada por Catley (2006, p. 781), segundo ele, “o senso de humildade obtido através da valorização do parentesco de toda a vida é um componente extremamente importante para fomentar uma ética administrada para um planeta movendo-se cada vez mais profundamente em direção a um colapso ecológico”. Moreno (2013), em uma outra perspectiva, compreende que o conhecimento evolutivo nos auxilia na problematização da existência de forças sobrenaturais que regeriam o mundo independente da nossa vontade. Assim, segundo o autor, quando compreendemos que somos produtos de um processo natural, não planejado, assumimos outras atitudes frente à nossa existência e dos demais seres vivos. Embora as argumentações dos diferentes autores aos quais recorremos sejam semelhantes, as possíveis reflexões e mudanças atitudinais advindas do entendimento de Moreno (2013) nós parecem mais profundas, podendo conflitar com algumas crenças religiosas.
A Evolução Biológica e a saúde humana
O pensamento evolutivo permeia vários campos da nossa vida. Dentre as razões citadas por Bizzo e El-Hani (2009) para se aprender a evolução biológica no ensino médio está uma melhor compreensão da saúde humana. Poderíamos dizer, recorrendo a um exemplo do cotidiano, que, compreender os mecanismos evolutivos contribuiria para um uso mais responsável dos antibióticos, por exemplo. Entretanto, as contribuições do pensamento evolutivo para uma melhor compreensão e uma abordagem mais adequada da saúde humana vão além desse exemplo corriqueiro. Nesse (2001) esclarece que, nas últimas décadas, o pensamento evolutivo tem sido aplicado à medicina, auxiliando na compreensão do porquê de o nosso corpo não estar bem “projetado” e, portanto, do porquê da existência das doenças. O autor cita alguns exemplos de como o pensamento evolutivo auxilia no entendimento de questões importantes da saúde humana. A evolução poderia esclarecer, por exemplo, o porquê da tendência à obesidade e da dificuldade que temos de perder peso por meio de dietas. Assim,
em períodos remotos, a baixa disponibilidade de alimento teria selecionado mecanismos regulatórios que possibilitaram a nossa sobrevivência em períodos de fome. Dessa forma, a diminuição do metabolismo basal, o acúmulo de reservas em uma refeição após período em jejum, nossas preferências por alimentos mais calóricos, como os ricos em gordura ou açúcar, e pelo sedentarismo poderiam ser explicadas evolutivamente. A evolução também poderia explicar os estados febris, a tosse e a ansiedade, sistemas de defesa do nosso corpo selecionados evolutivamente. A ansiedade, por exemplo, que hoje causa muitos transtornos à saúde humana, em períodos remotos era necessária para que pudéssemos fugir de predadores. Ela estaria associada a um mecanismo de “luta e fuga” importante para a nossa sobrevivência à época. A medicina, numa perspectiva evolutiva, muda a forma como entendemos as doenças. “Ao invés de ver a doença como um defeito em uma máquina anteriormente perfeita, a medicina darwinista nos permite ver o corpo como um produto da seleção natural, cheio de conflitos e vulnerabilidades que muitas vezes levam a doença” (NESSE, 2001, p. 174). Ainda como argumenta o autor, a perspectiva evolucionista da medicina implica mudanças em algumas práticas médicas como aquelas que apenas mascaram respostas do corpo com importantes funções no seu próprio reestabelecimento. Aprender sobre a evolução biológica possibilitaria um melhor entendimento sobre o funcionamento do nosso corpo, do porquê da existência de algumas doenças, de como a medicina pode na auxiliar no tratamento dessas doenças e, particularmente, permitiria o estabelecimento um diálogo mais responsável com o profissional de saúde que nos atende.
1.2 O QUE EVIDENCIAM AS PESQUISAS SOBRE COMPREENSÃO E ACEITAÇÃO DA