Entretanto, mesmo que haja uma relação direta entre a tecnologia teatral e a criação de uma visualidade cênica é importante compreender que a facilidade de se criar imagens, nesta que Rodrigo Duarte considerou a Era das Imagens (2005), não significa uma qualidade desta em termos de símbolo e significado, ao contrário, o excesso de imagens acaba, muitas vezes, por desvalorizar seu uso. Francis Wolf (2005) aponta que apesar das imagens terem o poder de suscitar todas as emoções e paixões humanas, desde as cavernas pré-históricas até as brincadeiras infantis, com a banalização do seu processo de construção atual, elas perderam essa característica. Segundo ele, do século XX em diante as imagens deixaram de ser artísticas perdendo o seu poder de afeto e se tornando pu a reprodução e a izada (2005, p. 43) devido a três acontecimentos: 1) fim da perspectiva e das leis da representação clássica com Cézanne e com o cubismo; 2) o invento da fotografia mudando o conceito de representação; 3) o surgimento da arte abstrata (Kandisnsky, Mondrian e Malevicth) que deixa de ser representativa.
Em fuga à imagem banalizada, o experimento prático da pesquisa tentou observar o resultado da manipulação de uma imagem poética, no sentido da sua característica artística defendida por Wolf. Para isso, a estética criada tenta não ser pura representação de algo,
mas procura deter o poder de suscitar as emoções do homem exigindo assim uma atitude perante a imagem cênica que aponte para algo mais complexo e que esteja mais ligada à sua força do que à sua forma. Contudo, em contraposição as ideias de Francis Wolf, a pesquisa acredita que mesmo a imagem abstrata tem o poder de despertar emoções, mais ainda, num mundo dominado pelas imagens televisivas e digitais como representação do real, aquelas ditas abstratas (ou menos representativas) podem tocar com mais eficácia as paixões humanas de uma forma metafórica e sensitiva.
Na comunicação verbal, ouve-se apenas uma vez aquilo que se diz. Saber escrever oferece maiores oportunidades de controlar os efeitos, e restringe a área de interpretação. O mesmo acontece com a mensagem visual, apesar das diferenças existentes. A complexidade do modo visual não permite a estreita gama de interpretações da linguagem, mas o conhecimento em profundidade dos processos perceptivos que regem a resposta aos estímulos visuais intensifica o controle do significado (DONDIS, 1991, p.49).
É a partir de uma reverberação da sugestão da pesquisadora Donis A. Dondis (1991) de que é possível criar um processo de alfabetização visual de forma a auxiliar na comunicação através da imagem visual que o experimento prático concebe as imagens que foram colocadas no palco. Com isso, existe um respaldo durante o processo em uma pesquisa teórica da análise da imagem como linguagem, de forma que a criação do que é visto no palco, mesmo que às vezes apresente um flerte com o acaso, é o resultado de uma intenção de comunicação através de estímulos visuais. Como Dondis propõe, existem quatro pilares de características da imagem visual que trabalham concomitantemente no que diz respeito à sua comunicação: o conteúdo, a forma, o criador e o receptor. Partindo disso, a pesquisa considera que para se criar uma imagem cênica é fundamental o entendimento de como o cérebro percebe a imagem, visto que anteriormente a criação em si, está a percepção do criador em relação ao mundo que o cerca.
Para compreender tal percepção é necessário um entendimento, ainda que superficial, do modo como a neurologia define essa relação entre o homem e o ambiente a sua volta. Segundo o neurologista português Antonio Damásio (1996), existe um conjunto de sistemas que ordena tanto o raciocínio quanto o sentimento humano, sendo assim, a mente tem a capacidade de criar imagens internas relativas ao meio ambiente e de exibi-las formando
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pensamentos. Tais imagens (que no conceito de Hans Belting seriam aquelas consideradas internas ou mentais) são definidas por Damásio como perceptivas e englobam a relação homem x meio ambiente através da percepção dos sentidos, por exemplo, o som de uma música, o tato em uma mesa gelada, a leitura de um livro, a visualização de uma paisagem, o gosto de um doce. Assim, ver e criar são interdependentes de modo que o ato de ver do artista influencia na sua criação e o ato de ver do receptor influencia no significado da comunicação visual, que por sua vez influencia no ato de criação e assim por diante. Exposto isso, é possível observar que a comunicação visual engloba tanto processos físicos quanto psicológicos e é necessária a junção dos dois para que haja uma eficácia total.
A fotografia foi o grande marco tecnológico na mudança da capacidade de ver da era moderna, pois é a partir dela que a palavra deixa de ser o elemento central do qual os fatores visuais são apenas apoio e ve passou a significar o p ee de (DONDIS, 1991, p.13) tornando-se um ato comunicativo. Na teoria da comunicação existe uma divisão bem definida entre o que é informação e o que é comunicação, onde a primeira seria tudo aquilo que se vê enquanto a segunda é algo mais profundo que só acontece quando há uma relação de troca. Transpondo para a criação da imagem visual, por mais perfeita que seja a reprodução de algo ela não é sinônimo de uma expressão visual, é apenas uma informação. A expressão visual engloba necessariamente uma comunicação entre o criador e o receptor, trazendo à tona o fato de que cada receptor traz em sua interpretação conhecimentos prévios do mundo. Com isso, por mais que o caráter universal da imagem muitas vezes acabe por delimitar os procedimentos das tentativas de se criar um mote de alfabetização visual como uma linguagem definida, as teorias que definem a influência na percepção da imagem através da escolha de sua forma e conteúdo podem proporcionar ao criador o mínimo de controle sobre o seu processo e as suas intenções.
Para compor a sua teoria de alfabetização visual, Donis Dondis parte do princípio de que por mais que toda comunicação passe por uma subjetividade, o conhecimento dela como linguagem também tem um lado racional gerando essa possibilidade de controle. Assim, analisando a linguagem visual pela junção da sua teoria com o seu processo é possível chegar a esse controle. Fazendo um paralelo com a escrita, se para ser considerado verbalmente alfabetizado é preciso que se conheçam os elementos da escrita, na linguagem
visual é necessário o conhecimento da estrutura desse tipo de expressão para sua compreensão. Com isso, a autora define uma metodologia capaz de transformar o indivíduo em visualmente alfabetizado e propõe uma sintaxe da linguagem visual com uma estrutura caracterizada por três níveis: 1) sistemas de símbolos; 2) experiência direta com o objeto, onde se confia e aprende-se com aquilo que os olhos vêem; 3) mensagem visual pura que é a visão do todo em relação às partes.
Não desmerecendo os dois primeiros itens, a definição de uma estética para o experimento prático dialogou mais diretamente com o conceito da mensagem visual pura, principalmente no que diz respeito à composição das formas e cores do quadro do palco como um todo. No entanto, algumas vezes os símbolos e a experiência direta com o objeto se camuflaram sob esse olhar do todo. Seguindo o que é proposto por Dondis na sua teoria, o aprofundamento da visão do todo em relação às partes do experimento se apóia no princípio da Gestalt, no qual o individual e particular fazem parte de um conjunto maior que também pode ser olhado como algo independente, mas que ao se modificar o particular se modifica necessariamente o geral.
Qualquer acontecimento visual é uma forma com conteúdo, mas o conteúdo é extremamente influenciado pela importância das partes constitutivas, como a cor, o tom, a textura, a dimensão, a proporção e suas relações compositivas com o significado (DONDIS, 1991, p.22).
Essa influência das partes na concepção final aparece claramente na composição videográfica realizadas no experimento da imagem das personagens de Caliban, Próspero e Ariel, extraídas da peça de Shakespeare. Como se verá mais detalhadamente no decorrer desse relato, a criação estética dessas figuras partiu de símbolos simples de cor e forma que se transformaram em um conjunto complexo onde algumas vezes essas primeiras definições passam despercebidas, embora ainda se encontrem na imagem final. O que o processo deixa claro é que por mais que ao se trabalhar no âmbito do símbolo e do representativo o significado apareça mais claramente, mesmo nas expressões abstratas é possível a criação de uma sintaxe feita através de um contato direto com as emoções e os sentimentos que atuam no inconsciente sem passar pelo consciente.
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Transpondo a teoria de Donis Dondis para a realidade do teatro é necessária a compreensão não apenas do conjunto formado pela cor, tom, textura, dimensão, proporção e forma das imagens apresentadas em cena, mas também a relação entre cenário, iluminação, figurino, ator, vídeo e som, pensando cada um deles como parte do todo que é o quadro final visto no palco. Partindo disso, fica claro que o conhecimento da técnica usada é um dos elementos chaves para a criação da linguagem visual cênica, é ele que possibilita a ligação entre a intenção e o resultado, visto que é durante o processo de criação da imagem que se tem um maior domínio da sua comunicação, mesmo que na percepção final outras variáveis entrem em jogo mudando o significado original como é o caso da influência cultural do espectador.