As representações sobre a pobreza a partir de meado do século XX, tratadas especificamente nas produções acadêmicas, a partir da década de 1960, contribuíram gradativamente para o abandono das noções sobre pobreza, como adjetivo ou apêndice dos problemas nacionais relevantes, presentes nas discussões intelectuais e políticas hegemônicas na virada do século XIX para o século XX, em torno do debate sobre temas relacionados ao clima, a raça, a doença e a fome.
Num contexto marcado por um processo de profundas mudanças no pensamento cientifico e intelectual, caracterizado pela intensificação das especializações universitárias, incremento da tecnocracia estatal e sob a égide do regime militar, as pesquisas acadêmicas no âmbito das ciências sociais priorizaram os estudos referentes às classes e estruturas sociais, nos quais a pobreza e a desigualdade social eram elementos marcantes. Tais estudos tiveram muita força nas décadas de 1960 e 1970, sendo, posteriormente, acompanhados por trabalhos sobre os chamados novos movimentos sociais, entre 1980 e 1990.
Nesse período a pobreza aparece nos discursos dos organismos internacionais, acompanhado por uma nova abordagem da política social no Brasil, principalmente, a partir das discussões travadas no campo da arena política, tendo como atores os mais diversos segmentos da sociedade civil e partidos políticos. Parte desse processo foi analisada por Miceli, em História das Ciências Sociais no Brasil (1989), para quem, os anos de 1960 foram marcados por transições e diferenciações importantes no seio dos grupos mais representativos das ciências sociais no país: Rio de Janeiro e São Paulo.
Os principais expoentes intelectuais da escola sociológica paulista, a partir da terceira geração, estando entre eles os primeiros orientandos de Florestan Fernandes: Octávio Ianni, Maria Sylvia de Carvalho Franco e Fernando Henrique Cardoso, permaneceram indiferenciados política e intelectualmente até sua divisão em dois grupos de leitura de O Capital (Karl Marx). Na vertente teórica, em sua perspectiva clássica, a pobreza aparece como resultado da exploração do homem pelo homem e deveria ser superada
no devir da luta de classes. Assim, com a derrocada do ideário positivista e evolucionista de sociedade, que enfocava questões relativas à inferioridade racial para tratar de problemas de ordem social, política e econômica, este tipo de discurso foi logo substituído, principalmente, após o pós-guerra, pela ascensão das temáticas de cunho marxista. E as interpretações de natureza mais literal (não científica), que teriam predominado nos clássicos do pensamento social, até meados do século XX, abriram espaço para as interpretações propriamente de natureza cientifica.
Florestan Fernandes, em A integração do negro à sociedade de Classes (1964), demonstrou o quanto os temas relativos à raça foram logo assimilados pelas análises de natureza marxista. Para ele, “a sociedade brasileira teria largado o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de reeducar-se e de transformar-se para corresponder aos novos padrões e ideais de homem, criado pelo advento do trabalho livre do regime republicano e do capitalismo” (FERNANDES, 1964, p.5).
Já Octávio Ianni, em seu artigo intitulado “Do escravo ao cidadão” (1967), se propôs a analisar de que forma o trabalhador livre surgiu na sociedade brasileira. Onde, segundo ele:
[...] à medida que a economia de mercado se desenvolveu internamente com a gênese de um setor artesanal e fabril, além da expansão e diferenciação do setor de serviços, instaurou-se mais ampla e profundamente os valores fundamentais da cultura capitalista [...] (IANII, 1967, p. 47).
Ianni, nesse sentido, afirmou que teria se tornado possível e necessário redefinir social e moralmente a concepção sobre o trabalho produtivo, as relações de produção e, em conseqüência, o status jurídico do trabalhador.
A dignificação das atividades braçais ocorreria, nesse sentido, a partir da segunda metade do século XIX, em concomitância com a abolição dos escravos e a imigração europeia, a modernização da cafeicultura e o primeiro surto de criação de unidades fabris no Brasil ocorreram em decorrência do processo ideológico, por meio do qual, se rompeu, ao mesmo tempo, com a contradição entre mercadoria/escravo e com os princípios de igualdade/liberdade, por um lado, e escravidão, por outro (IANNI, 1967).
Dessa maneira, os estudos de orientação marxista, que teriam prevalecido a partir de meado do século XX, nas Ciências Sociais no Brasil, assimilando categorias como raça (antes analisados à luz de pressupostos teóricos tradicionais e reacionários), constituiu uma ruptura com as interpretações passadas de natureza mais literal e de menor rigor teórico e metodológico. Para Guimarães (1999), tais estudos foram consensos teóricos nesse período, sobretudo, em vista de três dimensões: a) a da sociologia econômica que culminou com as analises de dependência; b) a da sociologia política, debruçada sobre estudos referentes ao patrimonialismo, clientelismo, populismo e democracia e c) a dos estudos de formação das classes sociais no Brasil.
Ainda segundo o autor, teria existido no começo dos anos de 1960, certo consenso de que, a partir da ruptura que os anos de 1930 significaram na estrutura de classes, ocorreriam profundas mudanças sociais e políticas no Brasil. Daí a proliferação de estudos sociológicos sobre a classe operária brasileira. Contudo, com o golpe militar/civil de 1964 e a instituição do AI5, em 1968, ficou clara a impossibilidade de uma ação coletiva por parte da classe proletária, num futuro imediato.
Já no decorrer dos anos de 1970, no contexto da resistência democrática à ditadura militar, os estudos sobre a formação da classe trabalhadora teriam ressurgido sob o signo do novo sindicalismo. Neste contexto, a pobreza começou a emergir num contexto de extrema viabilização do processo democrático. Daí a força que os estudos sobre os novos movimentos sociais, novas lideranças sindicais e novas formas de participação imprimiram no pensamento sociológico brasileiro.
Para Sorj (1995), com o surgimento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), emerge uma nova exegese marxista. No contexto de derrota dos movimentos sociais revolucionários, a CEBRAP teria encontrado um vácuo ideológico, assumindo-se como parte importante da oposição democrática vigente. Segundo ele, a herança da CEBRAP se traduz na assimilação de que o Brasil era, nas décadas de 1970 e 1980, um país capitalista dinâmico com uma sociedade em pleno processo de modernização. Dessa forma, o fator social teria se transformado de fontes de sociopatologias,
entraves ao desenvolvimento e outras negatividades e carências, em berço de toda positividade: movimentos sociais, sindicalismo e sociedade civil.
Embora as análises de classe produzidas nos anos de 1970 reproduzissem antigos diagnósticos e interpretações, os atores coletivos (governo, classes e estamentos) começavam a despontar como novos sujeitos da história. Assim, os anos de 1970 teriam significado para as Ciências Sociais, os anos das grandes ilusões, no que diz respeito à proclamada certeza de que o país chegaria à modernização e que a consolidação do regime capitalista desembocaria na ideia de que o crescimento econômico, por si só, resolveria todos os males da sociedade, sendo esse processo completado com o pleno desenvolvimento das estruturas da democracia política.
Já no campo dos estudos sobre campesinato, os anos de 1960 e 1970 foram marcados pelo dialogo com a teoria marxista sobre a renda da terra e com as teorias sociológicas sobre as classes sociais.
Na introdução do livro O vapor do diabo: o trabalho dos operários do açúcar (1978), José Sérgio Leite Lopes situa sua perspectiva de pensamento de forma bem diferenciada, tanto no contexto dos estudos sobre a classe operária brasileira quanto no contexto das monografias antropológicas tradicionais. Ao escrevê-lo, o autor teria conseguido superar o antagonismo entre estrutura e experiência que persistira até então. O que se encontrava em discussão até então era, sobretudo, a possibilidade de utilização da teoria marxista de uma forma mais flexível, com a construção de novas variantes e aberturas de novos caminhos. O que fez com que Lopes desponta-se a partir da análise sobre as variações internas dentro de uma mesma classe social.
Tal proposta foi, de súbito, amplamente desenvolvida pelos estudos de campesinato realizados no Museu Nacional e influenciou as pesquisas que surgiram, por conseguinte, sobre classes populares, violência, cidadania e movimentos sociais.
Na proliferação de novos estudos sobre a população brasileira, nos moldes introduzidos pelos estudos de campesinato, o “pobre”, enquanto objeto específico de análise apareceu, sobretudo, nos estudos sobre violência. Seguindo essa linha de reflexão, a pesquisa de Zaluar (1985), resultante de seu trabalho de campo na Cidade de Deus, periferia do Rio de Janeiro, buscou
encontrar um viés analítico adequado para seus dados de campo, nas teorias sociais referentes aos pobres. De início recusou-se a definir por renda familiar ou tipo de ocupação, pois “esta seria a classificação objetiva”, segundo ela, imposta pela dimensão exterior, que apenas imprime uma noção estatística. Tal como acontece na literatura economicista tecnocrata vigente.
A autora então buscou analisar as representações tradicionais sobre a pobreza na produção intelectual brasileira, destacando que os pobres jamais ocuparam o lugar de renovação ou de transformação nestes estudos, ao contrário, sobre eles, “caiu grande parte da culpa pela ausência de mudanças significativas e pela consequente estagnação política e econômica” (ZALUAR, 1985, p. 35) vivenciada em nosso país. A autora teria identificado que tais percepções negativas e mesmo pejorativas sobre os pobres, nos trabalhos produzidos sobre a cultura da pobreza ou sobre a ausência de uma consciência de classe nas camadas populares urbanas, tendiam a concluir que a pobreza era o principal obstáculo para uma ação coletiva e autônoma na sociedade brasileira.
A grande contribuição da autora, no entanto, reside em sua preocupação em trazer para a academia a percepção do pobre sobre se mesmo, sobre sua condição econômica e suas dificuldades sociais cotidianas. Dialogando com um modelo interpretativo que manteve muito de sua força nos anos de 1980, Zaluar chega ao diálogo com o tema das classes sociais.
A crença de que a pobreza como projeto de vida, garantiria a salvação eterna, como era pregado pelos dogmas cristão, parece ter sido substituído na mentalidade da população pobre da Cidade de Deus pela certeza de que ela era uma privação na terra [...]. Não mais guiados por uma definição de pobreza na qual os pobres aparecem como a possibilidade de redenção dos ricos através da caridade, nem os pobres como detentores dos valores morais e espirituais do universo, tal como existiu no Brasil rural até algumas décadas atrás, aos pobres resta pensar a privação sem os disfarces e as belas vestimentas espirituais de então [...] a própria existência do rico é um sinal da injustiça (ZALUAR, 1985, p. 119-129).
Num período marcado pelo pensamento de que a distribuição de riqueza e o trabalho significariam uma extensão dos direitos tradicionais dos trabalhadores pobres à proteção paternalista dos ricos, Zaluar teria identificado que, se os trabalhadores pobres não eram percebidos como classe social, no
sentido marxista clássico, isto não impedia de lhes atribuir à categorização de que se tratava de uma classe em formação.
Numa reflexão mais profunda desse quadro social a autora também veria atualizada a perspectiva da redistribuição de renda, que, ao invés da concepção de que esta seria em função do crescimento econômico, passaria agora a ser pensada como ação do Estado. Na verdade, o Estado é que passaria a ser visto como o principal responsável pela situação de pobreza em que se encontrava a maior parte da população brasileira.
Outro aspecto que chama a atenção sobre os estudos relativos à pobreza, nesse período, é a concentração de análises sobre esse assunto nas searas acadêmicas mais ligadas à área da economia do que propriamente sociológica ou antropológica. Outra vertente igualmente importante de reflexão sobre a pobreza na década de 1970 a 1980 está ligada aos estudos sobre direitos humanos, ou, melhor dizendo, terceira leva de direitos, que compreender uma dimensão que vai além dos direitos civis e sociais.
Zaluar (1999) também observou que, embora tivessem abandonado completamente o modelo marxista dicotômico de sociedade, que opunha classe oprimida pelo Estado ou classe contra classe, diversos intelectuais se incorporariam a movimentos em defesa da cidadania na década de 1980, tendo como bandeira de luta um modelo de construção da nação, na qual deveriam incluir tanto a população pobre rural quanto urbana.
Já em 1984, Octávio Ianni escreve “Diversidades raciais e questão nacional”, onde afirma que “a revolução burguesa não resolvera o problema racial e criara novas contradições sociais [...] como as de classes” (IANNI, 1987, p. 356). Passada a esperança de que a revolução burguesa fosse sucedida por uma revolução das classes dominadas, parece ter se aberto um espaço nas análises para o retorno de um povo brasileiro com diferentes cores, culturas e identidades regionais. “Em muitos casos, o camponês é também negro, mulato, índio ou caboclo. [...] As várias classes sociais reúnem inclusive as reivindicações de cunho racial, cultural e regional” 28.
28 IANNI, 1987, passim.
Com o início do processo de redemocratização do país e com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio (PNAD), de 1976 e do Censo de 1980, os estudos sobre relações raciais teriam sido retomados, como demonstra Hasenbalg (1996):
Os resultados das pesquisas mais recentes são de estarrecer os que ainda acreditam na neutralidade do critério racial em matéria de apropriação das oportunidades sociais. Eles demonstram que negros e mestiços [...] estão expostos a desvantagens cumulativas ao longo das fases do ciclo da vida individual, e que essas desvantagens são transmitidas de uma geração para outra (HASENBALG, 1996, p. 239).
Apesar do ressurgimento da discussão em torno das questões raciais, esta retomada não teve tanta força quanto tivera na virada do século XIX para o século XX. Pode-se até dizer que a naturalização referente ao negro cativo, substituídas teórica, metodológica e politicamente pela noção de classe social, chegaria ao final do século XX transmutada na categoria pobreza.
Para Telles (2001), que analisou os debates sobre a pobreza na virada dos anos 1980 para os 1990, a questão social passou a ser “problematizada por referência aos dilemas e impasses da construção democrática de um país recém-saído de um longo período de governos militares” (TELLES, 2001, p. 7). E, no contexto da elaboração de uma nova constituição e de uma cidadania ampliada, debatia-se no país políticas públicas eficazes no combate à pobreza, seguindo uma orientação no sentido de uma sociedade mais justa e igualitária. Ainda com relação à década de 1970, período este em que havia uma certeza cega de que o problema da pobreza seria resolvido com a redemocratização do país, daí a vasta produção acadêmica sobre os novos movimentos sociais, viu-se, neste mesmo período, também a emergência de outras perspectivas analíticas, sendo uma dela de orientação mais economicista, debruçada sobre os temas do emprego, desemprego, mercado informal e mensuração da pobreza, mediante métodos estatísticos, sob a égide do discurso do novo liberalismo, onde a temática do desenvolvimento teria sido hegemônica.
Em tal discurso o mundo era visto de forma dividida entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, estando estes últimos, em situação de empobrecimento, devendo, portanto, superar seus problemas
econômicos e sociais seguindo as regras do modelo capitalista de desenvolvimento. Já o outro discurso apoiava-se, como já foi dito, na pauta dos direitos humanos, onde a vulnerabilidade social vivida por muitos seria, antes de tudo, uma questão de violação dos direitos humanos, a começar pelos princípios básicos: o direito à vida, previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que estaria comprometido em decorrência da situação de pobreza e miséria que assola a humanidade.
Nascimento (2000), num artigo intitulado ”Dos excluídos necessários aos excluídos desnecessários”, faz uma demarcação na literatura brasileira sobre a temática da questão social, onde estabelece uma ordem de discussão que teria sido marcada até os anos 1970, por reflexões sobre desigualdade social; na década de 1980, por estudos sobre pobreza propriamente dita, e, na passagem para os anos 1990, por estudos sobre exclusão social (NASCIMENTO, 2000, 76).
Todavia, tal linearidade merece algumas ressalvas. Apesar de não se constatar tão nitidamente os desdobramentos das discussões em torno da questão social, pelo menos, não da forma descrita pelo autor, já que tais questões ao invés de se sucederem, se sobrepõem durante este período, isto, não necessariamente significa dizer que a reflexão de Nascimento não constitua uma valorosa contribuição para o entendimento das representações sobre as questões sociais na sociedade brasileira, a partir do pós-guerra.
No que concerne à visão sobre pobreza, Nascimento assinala que, no pós-guerra, a pobreza teria sido percebida como atributo do mundo rural e os pobres simbolizados na literatura por personagens como Jeca Tatu, consagrados no cinema, na interpretação do ator Mazzaropi (NASCIMENTO, 2000, p. 58). Nas décadas de 1960 e 1970, teria havido o predomínio da visão do pobre como malandro que não gostava de trabalhar. E nos anos de 1980 e 1990, o pobre teria passado a ser percebido pela sociedade como uma ameaça, portador de uma periculosidade descomedida.
Agora o pobre é representado como um bandido em potencial. Suas imagens são, sobretudo, as dos moradores de rua e, entre estes, os pivetes, que cheiram cola e roubam os transeuntes nas praças e ruas das grandes cidades. Sua figura mais ilustrativa é a do bandido urbano, individuo geralmente escuro e nordestino. Pobre e bandido
juntam-se, numa única imagem, para produzir o novo excluído (NASCIMENTO, 2000, p. 80-81).
Nascimento diz que foi, sobretudo, com o processo de desenvolvimento do país que se produziu um novo tipo de exclusão social, formado por grupos sociais considerados desnecessários economicamente, incômodos politicamente e perigosos socialmente.
Contudo, é na virada da década de 1980 para 1990, que a pobreza viria ocupar o centro dos debates políticos nacionais. Contexto marcado por profundas tensões nas relações entre Estado e sociedade civil, sobretudo, em decorrência da questão da luta por direitos sociais e o crescente desejo de vê- los materializados em políticas públicas de combate à pobreza e desigualdade social. Processo altamente conflituoso por se desenvolver num cenário de emergência dos movimentos sociais desejosos por fazer prevalecer seus direitos por justiça e igualdade social, em meio aos avanços das perspectivas neoliberais, nos países em via de desenvolvimento na América Latina.
Carvalho (2008) revela-nos que o Brasil, nos últimos 25/30 anos, vivencia uma confluência contraditória de processos de “redemocratização” e processos de ajuste ao sistema do capital, que se redefinem nos termos da chamada “mundialização” (CARVALHO, 2008). Onde
[...] existe uma distinção entre a forma de funcionamento do capitalismo no século XIX, até os anos de 1970, e aquela em vigor nas duas últimas décadas do século XX, adentrando o século XXI. Têm-se duas configurações especificas da chamada civilização do capital, com distintos padrões de acumulação (CARVALHO, 2008, p. 16).
Neste contexto de mundialização do capital predominou “uma lógica essencialmente assimétrica e excludente, com expressões próprias nos diferentes territórios, sob a hierarquia do capital” (CARVALHO, 2008, p. 17). Uma nova ordem do capital, que gestou formas de dominação mais abstratas, impessoais, e perversamente sutis.
Formas de dominação social que se impõem sobre todas as “personas” do capital – capitalistas, detentoras dos meios de produção, ou seja, das condições de trabalho, e trabalhadores, proprietários da força de
trabalho [...]. É uma força que faz sentir seu poder, em toda a sociedade definindo modos de vida e formas de sociabilidade (CARVALHO, 2008, p. 17).
Constitui uma forma de dominação social (simbólica) que se materializa, sobretudo, na “extrema vulnerabilidade do trabalho, nas crescentes taxas de desemprego estrutural e no quadro de instabilidade e de insegurança social, em um contexto marcado pela precarização do trabalho” (CARVALHO, 2008). Tal estado de insegurança se expressa, segunda a autora, na reprodução de vastos contingentes populacionais que vivenciam as consequências do processo de precarização do trabalho, submetendo homens e mulheres a processos de exclusão do sistema de produção, somando-se aos que já se encontram à margem do sistema, por serem considerados supérfluos até mesmo para vender a sua força de trabalho ou inaptos às exigências do mercado. Onde, diante desse cenário, viu-se um generalizado agravamento dos índices de pobreza e desigualdade não só no Brasil, como em muitos países da América Latina.