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Uma construtora ou incorporadora, ao pensar em um novo empreendimento, na sociedade contemporânea, deve levar em consideração os três pilares da sustentabilidade, expostos no item acima, para que possa realmente intitulá-lo de sustentável.

Nesse esteio, construções sustentáveis podem ser definidas como empreendimentos que adotam uma série de práticas e materiais na preparação, durante a construção, na fase de operação, ou mesmo no momento de sua demolição, com a finalidade de reduzir o impacto ambiental, promover o desenvolvimento econômico e, ainda, contribuir para assegurar níveis elevados de qualidade de vida àqueles que com eles se relacionam de alguma forma124.

Entretanto, o que se tem verificado, em termos práticos, é que o enfoque tem sido polarizado na gestão ambiental desses edifícios. O grau de importância que vem sendo atribuído nos últimos anos à escolha de produtos que consomem menos recursos ambientais na construção civil, além das causas já demonstradas, tais como os cada vez mais comuns desastres ecológicos e os altos índices de impactos à natureza causados pelo setor, tem sido impulsionado também pela chegada de referenciais internacionais de certificação dos edifícios verdes, que se baseiam principalmente em critérios que envolvem a questão ambiental, conforme será apresentado ao longo deste capítulo.

A sustentabilidade ambiental abrange, assim, a dimensão ecológica de uma construção sustentável, consistindo nos prédios ou edifícios verdes (green buildings125), tema principal desta monografia. Vale ressaltar, contudo, que, uma vez que o fim precípuo da proteção ambiental é a qualidade de vida, empreendimentos que se preocupam com o meio

124 Já se ressaltou os vários modos de se alcançar uma construção sustentável em: QUEIROZ, Ana Afif Mateus Sarquis; ARAUJO, Fernanda Castelo Branco. Novos paradigmas da construção civil no século XXI: pela implementação de políticas públicas de incentivo às construções verdes. In. A efetivação do direito de

propriedade para o desenvolvimento sustentável: relatos e proposições. WACHOWICKZ, Marcos; MATIAS, João Luis Nogueira (coord). Florianópolis: Fundação Boiteux, 2010. P. 28-50. CD-ROM.

125 Vanessa da Silva alerta para a diferenciação entre sustainable buildings e green buildings: “freqüentemente utilizada erroneamente em alternância com a expressão Sustainable Building. O termo green refere-se exclusivamente à dimensão ecológica (ou sustentabilidade ambiental) da construção sustentável, que é um conceito mais abrangente, que contempla ainda as dimensões social e econômica.” (SILVA, Vanessa Gomes da.

Metodologias de Avaliação de Desempenho Ambiental de Edifícios: estado atual e discussão metodológica.

Projeto tecnologias para construção habitacional mais sustentável. Projeto Finep 2386/04. São Paulo. 2007, p. 6. Disponível em: <http://www.habitacaosustentavel.pcc.usp.br/pdf/D5_metodologias_de_avaliacao.pdf>. Acesso em 17 mai. 2011).

ambiente acabam por trazer benefícios econômicos e sociais. Segue esse entendimento o conceito trazido pelo Green Building Council Brasil126:

Green building é edificação ou espaço construído que teve na sua concepção,

construção e operação o uso de conceitos e procedimentos reconhecidos de sustentabilidade ambiental, proporcionando benefícios econômicos, na saúde e bem estar das pessoas.

A concepção de uma obra ambientalmente orientada demanda esforço multidisciplinar, envolvendo a colaboração de vários profissionais e empresas, entre eles engenheiros das mais diversas ciências, arquitetos, projetistas e fornecedoras de materiais de construção, que vão atuar em todas as fases da existência de um edifício.

Segundo Clarice Degani e Francisco Cardoso, o ciclo de vida de um edifício contempla cinco etapas: planejamento (estudos de viabilidade física, econômica e financeira, elaboração de projeto e especificações e programação do desenvolvimento das atividades construtivas), implantação (construção propriamente dita), uso (etapa em que o edifício é ocupado por seus usuários), manutenção (fase cuja atividade tem origem na necessidade de manutenção de equipamentos, na correção de falhas ou na modernização do equipamento) e demolição (inutilização do edifício através de um processo de desmonte) 127.

Para explicar as características de uma construção verde, alguns dos pontos mais relevantes serão elencados nos parágrafos seguintes.

De grande importância é a origem dos produtos e insumos comprados para a obra, o que inclui a legalidade do terreno onde o empreendimento será instalado. Segundo o CBCS, para garantir a escolha de empresas fornecedoras alinhadas aos princípios da sustentabilidade, deve-se verificar seis aspectos básicos. São eles: a formalidade da empresa fabricante e fornecedora no CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas), no sítio eletrônico da Receita Federal do Brasil; a licença ambiental do produto; as questões sociais, como a utilização de mão de obra escrava ou infantil; a qualidade e normas técnicas do produto; o perfil de

126 Green Builindg Council Brasil. Guia para uma Obra mais Verde. 2. ed. São Paulo, abr. 2010. Disponível em: <http://www.gbcbrasil.org.br/pt/download/GuiaparaConstrucaoSustentavelGBCB.pdf>. Acesso em: 02 mai. 2011.

127 DEGANI, Clarice Menezes; CARDOSO, Francisco Ferreira. A sustentabilidade ao longo do ciclo de vida

de edifícios: a importância da etapa de projeto arquitetônico. Disponível em:

responsabilidade socioambiental da empresa; identificar a presença de propaganda enganosa128.

Além disso, deve-se atentar para: a disponibilidade de recursos ambientais locais, a fim de diminuir os gastos com transporte e aproveitar as condições geoclimáticas do lugar; a quantidade de energia e água utilizadas, buscando-se o máximo de eficiência e o mínimo de desperdício desses bens; as condições de trabalho e higiene do ambiente ocupacional, respeitando-se as normas que regulamentam o assunto; a gestão dos resíduos produzidos, introduzindo-se coleta seletiva de lixo; o conforto ambiental da obra129; bem como a evolução das práticas que levam à sustentabilidade no decorrer do tempo130.

O Guia da Caixa Econômica Federal de Sustentabilidade Ambiental131 resume os critérios mais relevantes para uma construção sustentável:

Ao se projetar uma habitação, é necessário aproveitar ao máximo as condições bioclimáticas e geográficas locais, estimular o uso de construções de baixo impacto ambiental, garantir a existência de áreas permeáveis e arborizadas, adotar técnicas e sistemas que propiciem o uso eficiente de água e energia, bem como realizar a adequada gestão de resíduos. A habitação também deve ser duradoura e adaptar-se às necessidades atuais e futuras dos usuários, criando um ambiente interior saudável e proporcionando saúde e bem-estar aos moradores.

Percebe-se, assim, quão variadas são as possibilidades de medidas a serem adotadas sob o pressuposto ambiental, de modo que o conceito de construção verde não se pode apoiar num conjunto estanque e inflexível de métodos, tecnologias e materiais. No

128 Conselho Brasileiro de Construção Sustentável. Seis Passos para a Seleção de Insumos e Fornecedores

com Critérios de Sustentabilidade. Versão 2.0. Disponível em: <http://www.cbcs.org.br/selecaoem6passos/index.php?NO_LAYOUT=true>. Acesso em: 03 mai. 2011. 129 Conforme Adriana Brito, Maria Akutsu, Fulvio Vittorino e Marcelo Aquilino: “deve-se produzir uma edificação econômica e ambientalmente correta, com a premissa de que ela seja confortável. De nada vale o edifício ser produzido com baixo consumo de água e energia durante a sua operação, ou mesmo com baixa geração de resíduos durante a fase da obra se, se ela for desconfortável para seus ocupantes, os quais estarão em seu interior, muitas vezes por décadas.” (BRITO, Adriana; AKUTSU, Maria; VITTORINO, Fulvio; AQUILINO, Marcelo. Sustentabilidade e Conforto Ambiental em Edificações. In: Revista Téchne, São Paulo, n. 162. p. 62- 65, set. 2010. p. 62.

130 Fabíola Hilgenberg, sob a doutrina de V. G. SILVA (2007), afirma que “a definição de um edifício sustentável é relacionada sempre comparativamente às práticas correntes. O desempenho ambiental de um edifício sustentável de 2010 deve ser muito melhor do que o de um edifício sustentável da década de 1990. Portanto, os conceitos de edifício sustentável estão sempre em evolução”. (SILVA, V. G. Indicadores de sustentabilidade de edifícios: estado da arte e desafios para desenvolvimento no Brasil. Ambiente Construído. Porto Alegre, v. 7, n. 1. 2007. p. 47-66. apud HILGENBERG, Fabíola Brenner. Sistemas de certificação

ambiental para edifícios. Estudo de caso: Aqua. Dissertação (Mestrado em Construção Civil) - Universidade

Federal do Paraná, Curitiba, 2010. p. 35)

131 JOHN, Vanderley Moacyr; PRADO, Racine Tadeu Araújo (coord.). Boas práticas para habitação mais sustentável. São Paulo: Páginas & Letras, 2010. prefácio. Disponível em: http://downloads.caixa.gov.br/_arquivos/desenvolvimento_urbano/gestao_ambiental/Guia_Selo_Casa_Azul_CA IXA.pdf. Acesso em: 15 mai. 2011

entanto, é essencial que de fato sejam pesquisadas e utilizadas técnicas em prol da sustentabilidade, e que estas resultem numa maior eficácia ambiental do empreendimento.

A fim de objetivar o conceito de construções verdes e assim facilitar a concepção e o reconhecimento de edificações ambientalmente sustentáveis, organismos nacionais e internacionais tem desenvolvido métodos de avaliação do desempenho ambiental de edifícios como um todo, ou quanto a um aspecto de considerável relevância para sua eficiência ambiental132. Os empreedimentos que se submetem a essas análises, se cumprirem satisfatoriamente os padrões estabelecidos, podem receber certificados ou etiquetas ambientais, assunto que será tratado de maneira pormenorizada a seguir.

Benzer Belgeler