A atual representação dos sons fricativos não é exatamente a mesma que foi proposta por Gonçalves Viana na Ortografia Nacional (1904), como mostra os exemplos no quadro a seguir:
Grafias propostas por
Gonçalves Viana Representação atual
ficso fixo
Valores da letra X esame exame
aussílio auxílio
Valor da letra Ç çapato sapato
Valor da letra –S- Brazil Brasil Valor da letra S- mezquita mesquita
Valor da letra Z alférez alferes Valores das letras
G e J Fonolojia fonologia
Quadro 5 – representação dos sons fricativos proposta por Gonçalves Viana (1904) em comparação com a notação gráfica atual desses sons.
Fonte – autoria própria.
Para o foneticista, a representação dos sons fricativos deveria estar mais voltada para uma representação sônica do que para a etimológica. Porém, essa perspectiva não foi aceita pela Comissão, como comenta Maria Filomena Gonçalves (2003, p.756-757), ela diz:
Em nome da história da língua, [...] a Comissão conservou, pelo contrário, a distinção entre <se, si> e <ce, ci> iniciais, <ç> e <ss> mediais, e <s> e <z> intervocálicos; pelo mesmo motivo, manteve a distinção entre <x> e <ch>. Estes preceitos apoiam-se em explicações de ordem histórica, designadamente o facto de <ce, ci, ç ou -z> serem oriundos de <ci, ti> latinos ou SS arábicos, de <s, ss> derivarem de <s, ss> latinos, de <z> corresponder a <z, ce, ci> latinos ou zz arábicos (p.31). Também a distinção entre <x> e
<ch> se funda na respectiva origem: um correspondendo ao <x> latino ou arábico, o outro decorre da palatalização dos grupos latinos <cl, fl, pl>. Além disso, mantém-se também a distinção entre <ge,i> e <je,i>.
Deste modo, é possível notar que nem todas as ideias de Gonçalves Viana foram aplicadas no texto oficial da reforma. Na Ortografia Nacional (1904), ele pontua cinco itens que foram modificados pela Comissão. Destes cinco, três se referem à representação de sons fricativos.
O foneticista faz comentários a respeito desses assuntos no Vocabulário Ortográfico aprovado para a reforma:
A Comissão nomeada por portaria de 15 de fevereiro deste anno não se conformou no seu parecer com todos os preceitos formulados na Ortografia Nacional a que obedeceu este Vocabulário. Essas diverjéncias, de pequena importância e que pouco ou nada influem no sistema geral da Reforma ortográfica intentada pelo autor, e não diminuem a utilidade do Vocabulário como livro de consulta, são as seguintes, que é necessário ter em consideração, principalmente para a busca de qualquer vocábulo ou forma.
a) Conservou o h inicial etimolójico, e portanto é por esta letra, e não pela vogal seguinte, como os vocábulos estão inscritos no Vocabulário, que eles terão de ser ortografados.
b) Manteve o x os seus valores actuais, ao passo que no Vocabulário, como na Ortografia Nacional, êle é substituído por cs, ss, s, conforme a sua pronúncia no dialecto literário, e apenas é empregado com o seu valor de inicial, e o de (e)is, no prefixo ex.
c) Conservou ge, gi etimolójicos, mesmo no meio das palavras, onde o Vocabulário empregou je, ji.
d) Substituiu por s o z final etimolójico dos vocábulos e nomes próprios em que a sílaba predominante não é a última; ex. alferes, Rodrigues, e não alférez, Rodríguez, eliminando, portanto, o acento gráfico; mas conserva o z quando a sílaba final é predominante, como em vez, altivez. Substituíu também por s o z final da sílaba, como em mezquita, que se escreverá mesquita.
e) Substituiu pelo acento circunflecso o agudo, nas vogais nasais; ex. ânsia,
ausência, vergôntea, ou antes de consoante nasal, como ânimo, quando sejam
fechadas. Semelhantemente, acentua com o circunflecso, e não com o agudo, como se faz no Vocabulário, o ditongo final em, ens, dos polissílabos em que é predominante, como em armazêm, armazêns, vintêm, vintêns, contêm, contêns, do verbo conter.
A estas pequenas alterações terá portanto de atender quem quiser seguir pontualmente a ortografia oficial, ao utilizar-se do Vocabulário, no qual sempre é acusada a etimolójia de cada palavra ou forma, quando dela dependa a sua correcta escrita (VIANA, 1909b: XXXI-XXXII).
Com essas correções da Comissão na proposta original de Gonçalves Viana, a representação dos sons fricativos foi firmada em 1911, ficando inalterada até a atualidade58. Apesar de a Ortografia Nacional (1904) não ter sido aproveitada completamente na primeira reforma ortográfica, deve-se considerar que Gonçalves Viana é verdadeiramente digno de respeito e admiração. Não foi à toa que os trabalhos produzidos por ele foram levados em conta nessa primeira reforma e com poucos ajustes.
Algumas das alterações feitas ao trabalho do referido autor para viabilizar a reforma dizem respeito à representação dos sons fricativos. Assim, a Comissão de Reforma regularizou o uso de S em vez de Z intervocálico (Brasil e não Brazil); Ç inicial (sapato e não çapato); manteve o S final em oxítonas (português e não portuguêz); regularizou os valores de X (fixo e não ficso; auxílio e não aussílio, etc.); conservou GE e GI etimológicos, mesmo em meio de palavra (fonologia e não fonolojia), etc. Com isso, a primeira reforma ortográfica ficou direcionada mais para a tradição do que para uma inovação no sentido sônico.
O foneticista e filólogo teve que equilibrar sua proposta de reforma ortográfica entre os usos tradicionais (etimológicos) e as inovações (sônicas) que pôde fazer. Com essas orientações, Gonçalves Viana acabou permanecendo vinculado a uma tradição que entendia a ortografia como a escrita normativa e correta das palavras, tendo em vista que fixar grafias era a maior preocupação na Ortografia Nacional (1904), com o objetivo final de estabelecer uma única norma para toda a nação portuguesa.
Contudo, essa perspectiva poderia ser ampliada considerando o papel da ortografia para os sistemas de escrita, sua natureza, funções e usos. Isso ajudaria muito na compreensão do tipo de relação que a ortografia tem com a fonologia e principalmente do tipo de relação que a ortografia tem com a variação linguística, que sempre tem sido pouco discutida nos trabalhos sobre ortografia. Seria útil ainda para o ensino básico da escrita no processo de alfabetização. E, certamente, seria interessante para as reflexões acerca de futuras reformas ortográficas.
58 Em 29 de novembro de 1920 a portaria no. 2533 alterou algumas disposições da reforma de 1911, mas a
representação dos sons fricativos foi mantida. Em 1940, a Academia das Ciências de Lisboa publica o
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, com base na reforma de 1911, na portaria de 1920 e no acordo de 1931, segundo Ivo Castro (1987).
Notamos que há um fato curioso nas bases desse Vocabulário de 1940, que, apesar de manter a representação dos sons fricativos da portaria no. 2533, de 1920, traz a palavra dança escrita da seguinte forma: dansa, no terceiro parágrafo.
Em 1945 o governo português aprova o Acordo Ortográfico, pelo decreto-lei no. 35 228, sem alterações na representação dos sons fricativos.