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3.4. Veri Toplama Araçları

3.4.1. Aile Değerlendirme Ölçeği

A presente seção objetiva expor determinadas características da pronúncia das fricativas coronais da Região Norte de Portugal. Essa região conservou realizações fonéticas e fonológicas consideradas históricas98 por remontarem a tempos passados da língua. Para esse estudo, recorreu-se à descrição dialetal simplificada de Luís F. Lindley Cintra em sua

Nova proposta de classificação dos dialectos galego-portugueses99, como referência para se chegar às realizações atuais de sons fricativos, sobretudo, os que foram filmados em 2008 e 2009 para essa pesquisa.

A classificação dialetal de Portugal tem sido feita por grandes nomes como José Leite de Vasconcelos, que fez uma primeira classificação baseada na divisão de Portugal em províncias, sendo assim, mais geográfica do que linguística (CINTRA, 2006). Essa primeira classificação foi publicada, inicialmente, sob o título Mappa dialectologico do continente

português (1897)100, depois reproduzido na Esquisse d’une dialectologie portugaise

(1901)101

Outro trabalho de grande destaque na área é o Mapa dos dialectos e falares de

Portugal Continental (1961)102 de Manuel de Paiva Boléo e Maria Helena Santos Silva. A proposta desses estudiosos visava a um estudo dialetal de Portugal mais amplo e com uma grande expectativa de instaurar a geografia linguística em universidades portuguesas, como comenta Manuel de Paiva Boléo nos seus Estudos dos dialectos e falares portugueses

(1942).

A respeito da proposta de Paiva Boléo, Lindley Cintra (2006, p. 6) diz que esta “assenta em factos linguísticos, principalmente, fonéticos, que, apresentados numa certa e possível hierarquização, permitiram talvez um mais claro agrupamento das variedades”. Também faz uma descrição bem detalhada e rica, sobretudo nas características fonéticas, o que acabou por dificultar a delimitação dos falares de cada região.

Em função dessa dificuldade, Lindley Cintra busca simplificar a divisão dialetal ao redefinir as características dos falares das regiões menores para regiões maiores, o que



98 Silva Neto em Ensaios de Filologia Portuguêsa (1956) comenta o conservadorismo da Região Norte de

Portugal dizendo “Ainda hoje, a linguagem regional mostra-se conservadora” (SILVA NETO, 1956, p.19).

99 "NOVA PROPOSTA DE CLASSIFICAÇÃO DOS DIALECTOS GALEGO - PORTUGUESES" in Boletim

de Filologia, Lisboa, Centro de Estudos Filológicos, 22, 1971, pp. 81-116.

100 Lisboa, Guillard, Aillaud, 1897.

101 Paris-Lisboa, Aillaud, 1901, 2ª ed., com aditamentos e correções do autor, preparada por Maria Adelaide

Valle Cintra, Lisboa, Centro de Estudos Filológicos, 1907).

possibilita fazer uma melhor distinção dialetal de cada região103. Essas distinções serão mostradas a seguir. Além disso, ele discute ainda os limites das regiões dialetais, as características dos falares do galego-português continental, o método utilizado para coletar e descrever dados, enfim, faz um trabalho bastante cuidadoso e crítico.

Assim, Lindley Cintra busca refinar conhecimentos dialetais que o precederam contribuindo para a área com a sua Nova Proposta de Classificação dos dialetos galego-

portugueses (1971) 104. Esse trabalho tem sido uma grande referência utilizada na atualidade para ilustrar falares de Portugal, como faz menção Maria Helena Mira Mateus em sua

Gramática da Língua Portuguesa (2003), entre outros trabalhos da estudiosa.

Quanto à classificação geral dos dialetos portugueses feitos pelo referido autor, dois fatos curiosos para essa classificação merecem ser comentados: a) que a distinção entre os dialetos é feita, principalmente, a partir dos sons fricativos e b) essa classificação segue a ideia de pronúncia culta e popular, que são reconhecidas entre os falantes cultos, conforme comenta Lindley Cintra (2006, p.6),

Esta classificação parece ser apoiada pelo sentimento dos falantes comuns do português padrão europeu, isto é, dos que seguem a NORMA ou conjunto de usos linguísticos das classes cultas da região Lisboa-Coimbra, e que distinguirão pela fala um natural de Galiza, um homem do Norte e um homem do Sul.

Nessa perspectiva histórica e tradicional para o reconhecimento dos falares portugueses — também destacada em Gonçalves Viana (1904) — Cintra classifica os dialetos da faixa ocidental da Península Ibérica em três grandes grupos:

1 - Dialetos galegos;

2 - Dialetos portugueses setentrionais; 3 - Dialetos portugueses centro-meridionais.

Eles se diferenciam por traços fonéticos que estão descritos a seguir:



103 A partir do mapeamento dialetal feito por Paiva Boléo e Maria Helena Santos Silva, Lidley Cintra percebeu

que muitas características dialetais de pequenas regiões coincidiam com outras e isso dificultava a delimitação de áreas dialetais menores. Até hoje é possível notar a presença de características dialetais, que historicamente são peculiares a uma determinada região, mas aparecem em outras regiões. Por exemplo, as fricativas ápicoalveolares são típicas da cidade de Guarda, no norte de Portugal, mas aparecem em outras cidades e aldeias.

104 Boletim de Filologia, 22, 81-116, Lisboa, 1971 (ou Estudos de Dialectologia portuguesa, Lisboa, Sá de

1) Dialetos galegos:

Características: não existem as sibilantes sonoras /z/ nem /਌/: rosa articula-se com a mesma sibilante [ৢ] ou [s] (surda) de passo; fazer, com a mesma sibilante [] ou [s] (surda) de caça. Não existe também a fricativa palatal sonora //, grafada em português com j ou g (antes de e ou i). Em galego só há a fricativa [] surda do português enxada.

2) Dialetos portugueses setentrionais:

Características: existe a sibilante ápico-alveolar [ৢ], idêntica à do castelhano setentrional e padrão, em palavras como seis, passo. A ela corresponde a sonora [z] de rosa.

Em alguns dialetos mais conservadores coexistem com estas sibilantes as predorsodentais [s]105 (em cinco, caça) e [z] (em fazer), que, noutros dialetos, com elas se fundiram, provocando a igualdade da sibilante de cinco e caça com a que aparece em seis e passo, ou seja [ৢ], bem como a da de fazer com a que se ouve em rosa, isto é [਌].

3) Dialetos portugueses centro-meridionais:

Características: só aparecem as sibilantes predorso-dentais que caracterizam a língua padrão: a) a surda [s], tanto em seis e passo como em cinco e caça; b) a sonora [z], tanto em rosa como em fazer.

O mapa a seguir ilustra essa classificação:

      

105 Essa realização também pode ser descrita como [6], como Ivo Castro (1991) tem mostrado e as gravações



Mapa 1: Mapa dialetal proposto por Lindley Cintra em sua Nova Proposta de Classificação dos

dialetos galego-portugueses (1971).

Lindley Cintra (1971; 2006) aponta ainda outros traços importantes em que a referida distinção dialetal se fundamenta, sem que, no entanto, as suas fronteiras coincidam perfeitamente com as características indicadas anteriormente no mapa:

a) a pronúncia como [b] ou [ȕ] do v gráfico (emitido como labiodental na pronúncia padrão e na centro-meridional) na maior parte dos dialetos portugueses setentrionais e na totalidade dos dialetos galegos: binho, abó por vinho, avó;

b) a pronúncia como africada palatal [t] do ch da grafia (emitido como fricativa []) na pronúncia padrão e em quase todos os dialetos centro-meridionais) na maior parte dos dialetos portugueses setentrionais e na totalidade dos dialetos galegos: tchave, atchar, por chave, achar;

c) a monotongação ou não monotongação dos ditongos [ow] e [ej]: a pronúncia [o] e [e] desses ditongos (por exemplo: ôru por ouro, ferrêro por ferreiro) caracteriza os dialetos portugueses centro-meridionais e, no caso de [o], a pronúncia padrão, perante os dialetos portugueses setentrionais e os dialetos galegos.

De acordo com Cintra (1971; 2006) essa classificação panorâmica dos dialetos da faixa ocidental da Península Ibérica não exclui outras características fonéticas peculiares que afastam muito vincadamente os dialetos nelas falados e todos os outros do mesmo grupo. Além disso, há outras características linguísticas que ajudam a diferenciar esses dialetos como as morfológicas, as sintáticas, as semânticas, as lexicais, etc.

As diferenças culturais também são bem expressivas, por exemplo, enquanto a Região Norte de Portugal é mais rural, a Região Sul é mais urbana.

Nesse sentido, é importante destacar o fato de se conhecer diferentes Regiões de Portugal (mesmo que em pouco tempo), bem como interagir com pessoas das cidades e das aldeias, trabalhadores dos campos e das áreas urbanas. Ter um contato com a vida social que acontece nos locais destacados no presente estudo ajuda muitíssimo uma pesquisa com descrições dialetais e históricas da língua portuguesa.

Dados culturais podem corroborar hipóteses106, a presença do pesquisador no local investigado o projeta na realidade social da língua que ali se expressa. Também não há



106 Por exemplo, costuma-se dizer que a fala da Região Norte de Portugal é mais conservadora, bem como seu

modo de vida. De fato, o contato da pesquisadora do presente trabalho com os costumes populares e o modo de vida menos agitado dessa região pôde confirmar isso. Ainda hoje é possível ver os campos de plantação das oliveiras e das videiras, em que, mulheres e homens trabalham para o sustento familiar e o isolamento deles em

absolutamente nenhum aparelho de captação de som que seja mais eficiente do que ouvido humano, capaz de processar as mais sutis diferenças sonoras, conforme comenta Cagliari (2007).

Particularmente, na Região Norte de Portugal, foi possível notar fatos sincrônicos que têm características fonéticas parecidas com as descrições diacrônicas que vão desde o latim, passando pelo português arcaico e por descrições presentes nas primeiras gramáticas e tratados de ortografia da língua portuguesa até a atualidade.

Contudo, não é possível ter absoluta certeza de que o dado sincrônico é o mesmo dado diacrônico. Hoje, com as gravações, temos uma prova concreta da realização de sons fricativos, que podem não ser idênticos a outros momentos passados da língua. Ora, a língua é um fato social, e a sociedade vive uma dinâmica de mudança constante que se reflete na língua. Há, ainda, outros fatores externos, como o contato com povos de outras culturas, acontecimentos econômicos e políticos que influenciam o modo de vida da população e suas manifestações linguísticas.

A par dessas reflexões, passa-se agora à descrição sincrônica de sons fricativos coronais a partir de gravações feitas na Região Norte de Portugal.