5. TÜRK HUKUKUNDA BOŞANMA SEBEPLERİ
5.2.1. Evlilik Birliğinin Temelinden Sarsılması
Os três principais autores adotados para subsidiar o resgate dos fundamentos teóricos da democracia contemporânea, Robert Dahl, Norberto Bobbio e Giovanni Sartori, têm em comum a preocupação com a organização conceitual que deve ser feita para se chegar a uma definição de democracia e com a diferenciação entre democracia ideal e democracia real. Essas duas dimensões costumam ser apresentadas em termos contrapostos como prescritiva/descritiva ou substantiva/formal. Tais autores compreendem a democracia enquanto um processo – processo coletivo para tomada de decisão política – e isso implica considerar, também, que a dimensão real da democracia está diretamente relacionada com os
seus ideais, os quais, independente de serem realizáveis ou não, orientam e realimentam permanentemente a prática democrática. Nesse sentido, não existe democracia descolada de princípios ou fundamentos éticos. Entre os valores fundamentais que justificam a sua existência e que lhe dão substância estão a liberdade individual, a igualdade social, a tolerância e a igualdade política. A contraposição entre ideal e real não se refere, portanto, à democracia direta grega como ideal e à democracia representativa como real. Refere-se ao ideal de realização dos valores fundamentais da democracia e à definição de democracia enquanto processo ou conjunto de regras para a tomada de decisões que possam interessar a toda uma coletividade.
Toda sociedade necessita de tomar decisões que são obrigatórias para todos os seus membros e, em tais circunstâncias, quem decide são os indivíduos, mesmo que organizados em alguma forma de grupo ou por meio dos seus representantes. Além disso, para que decisões sejam tomadas são necessárias regras previamente acordadas. É nesse sentido que Bobbio (2000, 2009), seguindo uma linha de pensamento que passa por Weber, Poper, Kelsen e Schumpeter, afirma que a democracia, enquanto regime contraposto a toda forma autocrática de governo, deve ser compreendida como um conjunto de regras que definem tanto quem está autorizado a tomar decisões de caráter coletivo, como quais os procedimentos que devem ser seguidos para configurar um processo decisório democrático.
Os autores que seguem essa linha de raciocínio, mesmo tendo divergências em relação a algum aspecto do detalhamento do processo democrático, entendem que as regras que constituem um processo democrático são necessárias para pactuar as condições elementares que permitem dizer o que é e o que não é um regime democrático. A esse respeito, afirma Giovani Sartori (1994) que uma definição correta de democracia deve conter o que ela prescreve enquanto ideal e também o que ela descreve em termos de uma realidade.
Neste ponto é importante fazer alguns esclarecimentos sobre a chamada teoria competitiva da democracia, conhecida por enfatizar a democracia procedimental. A síntese formulada por Joseph Schumpeter da democracia enquanto um método para formar governos tornou-se referência tanto para adeptos desse conceito como para os seus fervorosos opositores. No entanto, essa centralidade conferida a Schumpeter e a consistência das suas afirmações sobre a democracia são discutíveis. Esse questionamento é necessário para que se possa ter claro o que está sendo tratado aqui como procedimento ou dimensão real da democracia.
Schumpeter (1986) construiu seu argumento a partir da crítica à teoria democrática do século XVII e XVIII - que ele chama de “teoria clássica” – e ao papel da noção de bem comum que estaria presente em tal teoria. Afirma que os autores desse período consideravam que o objetivo do método democrático, concretizado por meio de eleições (ainda era um sufrágio restrito), seria o de chegar a decisões políticas que realizam o bem comum. Nesse sentido, o povo teria uma opinião racional sobre todas as questões e ao eleger seus representantes seria guiado pela noção de bem comum. Schumpeter discorda dessa lógica porque considera que a existência na sociedade de diferentes compreensões do que pode ser considerado um bem torna impossível a definição de bem comum, pois, mesmo que existisse consenso sobre essa noção, existiriam opiniões divergentes sobre a forma de alcançar esse fim. Afirmava ainda que esta relação entre democracia e bem comum teria outro problema: a expectativa de existência de cidadãos plenamente informados e conscientes da sua opinião. A dificuldade dessa suposição residiria no fato de que isso seria possível apenas em sociedade homogêneas. A “teoria clássica” estaria pressupondo um nível irreal de iniciativa dos cidadãos e ignorando aspectos importantes como a liderança de grupos ou pessoas e a concorrência dos políticos pelo poder.
Em contraposição a essa teoria, Schumpeter formulou uma concepção mais realista – "minimalista" – do método democrático, e, por isso mesmo, aplicável à realidade política. Não haveria uma função ativa e de imposição das vontades do eleitor aos políticos, pois, o que seria possível é que o povo tenha a oportunidade, por meio das eleições, de aceitar ou recusar aqueles que governam. Em tal definição, que focaliza os procedimentos e não tanto os princípios, o método democrático é compreendido como "um sistema institucional para a tomada de decisões políticas, no qual, o indivíduo adquire o poder de decidir mediante a luta competitiva pelos votos do eleitor" (Schumpeter, 1986, p. 328).
O destaque dado por Schumpeter à competição entre elites e sua definição de democracia com um método colocou sua interpretação em evidência, mas não o transformou no principal teórico da democracia contemporânea. Sua síntese sobre o conceito de democracia lhe confere uma posição amplamente aceita na atualidade, mas parte das suas formulações recebe críticas de vários autores e dentre eles estão Dahl e Sartori. Na avaliação de Dahl a noção de povo, enquanto demos, não foi trabalhada de forma suficiente por Schumpeter. Na vertente schumpeteriana o demos seria uma concepção que varia entre os países democráticos e faria parte de um tipo de norma que cada sociedade concebe como lhe convier. Não interessaria, para quem não faz parte de uma dada sociedade, avaliar o que levaria tal sociedade a adotar normas que excluem certos setores da população, o fundamental
seria que a concepção de povo fosse admitida pela sociedade que a adotou8. Segundo Dahl, que trabalha a noção de povo no sentido de uma cidadania plenamente inclusiva, esse argumento seria inconcebível porque não daria conta de uma questão essencial como a amplitude da inclusão do demos. A ausência desse critério na abordagem schumpeteriana levaria a equívocos como, por exemplo, a compreensão de que a exclusão dos negros, que aconteceu na região Sul dos Estados Unidos não autorizaria pensar que o Sul era antidemocrático. Para Robert Dahl isso significa que a definição de Schumpeter não ofereceria condições ou incentivo para verificar se um dado sistema é democrático ou não. Além disso, estaria deixando na obscuridade um tema essencial para a democracia, a igualdade política. (DAHL, 1992, p. 148,149).
Quanto a Sartori (1994), em sua análise da teoria competitiva, estabelece uma linha de construção teórica que se estenderia de Schumpeter a Dahl (na qual ele se inclui) e que teria em comum uma definição mínima de democracia. Tal definição demarcaria a sua dimensão formal, muitas vezes denominada de democracia eleitoral, e a importância de promover a democracia para além desse grau mínimo9. Em tal análise Sartori procurou apresentar as diferentes contribuições desses autores para teoria democrática. Afirma que o problema enfrentado por Schumpeter seria o de entender o funcionamento da democracia enquanto Dahl teria se ocupado do problema de promover a democracia. Sartori reconhece na obra de Dahl uma preocupação com o aperfeiçoamento da democracia que não é típica da teoria competitiva, por isto afirma: “Dahl começa onde Schumpeter para, isto é, Dahl procura uma difusão e um reforço pluralistas, na sociedade como um todo, da competição entre elites.” (SARTORI, 1994, p. 211).
Acrescentando a tais considerações a diferença entre competência técnica e competência moral e o fato dessa última ser um atributo que não pertence a nenhuma classe particular de cidadãos, pode-se localizar no argumento de Schumpeter uma espécie de captura idealista. Essa incongruência aparece na primeira das condições que ele descreve como necessárias para o êxito do método democrático. As condições são: 1) "material humano" de alta qualidade, que pressupõe a importância de uma classe política tradicional, integralmente dedicada ao ofício e com as necessárias “qualidade e padrões morais”; 2) a delimitação do campo real de decisões políticas; 3) a existência de uma burocracia bem treinada, com sentido
8 SCHUMPETER, 1986, p. 297-299.
9Sartori qualifica esse processo como “promoção da democratização da democracia” e adota como referência o
critério de Dahl, segundo o qual, a democractização da poliarquia ocorre em duas direções que conformam dois eixos: a) liberalização e/ou contestaçã pública; b) inclusão e/ou participação. (SARTORI, 1994, p.214).
de dever e espírito corporativo; 4) “autocontrole democrático” que implica o respeito às regras do jogo democrático; 5) tolerância com opiniões divergentes (Schumpeter, 1986, p. 352-359). Dessa forma, a seleção, pela via eleitoral, daqueles que estão dispostos a assumir a carreira política dependeria da existência de uma camada social que dê a tais pessoas a formação necessária e de uma “vocação predestinada”. Independente do que caracteriza essas duas condições, elas parecem fazer parte de um conjunto idealizado de circunstâncias que culminam em um tipo negativo de elitismo, ou seja, na ideia de que existiria um grupo ou camada social que estaria sempre à frente em termos dos valores ou de idoneidade moral, sobretudo, se comparada aos “populares”. Novamente o ideal do homem justo é misturado à prática democrática. Parece que quando os desafios da dimensão real da democracia são evidenciados, em qualquer que seja a época, retorna a ilusão de que ela poderia ser assegurada por cidadãos especialmente virtuosos. É possível considerar que o método democrático estruturado por Schumpeter ficou reduzido a um método de triagem de homens virtuosos. No entanto, é exatamente o ceticismo em relação a esse tipo de ideia que levou os teóricos da democracia, apresentados ao longo deste capítulo, a se preocuparem com os limites do exercício do poder e com as regras do jogo democrático.
As diversas questões apresentadas acima são suficientes para afirmar que as considerações de Schumpeter não sustentam o edifício da democracia, elas apenas fazem coro com as ideias de um conjunto de autores preocupados com o que caracteriza o mínimo necessário para compor o conceito de democracia. Sem dúvida essa é um preocupação essencial, afinal, é o ponto de partida para a constituição de um regime democrático e para o desafio permanente de aperfeiçoamento das instituições políticas da democracia.
Voltando às dimensões da democracia, resta lembrar que Bobbio apresenta duas razões fundamentais para a oposição entre democracia ideal e democracia real. A primeira estaria relacionada com a aspiração de liberdade e igualdade. Partindo da constatação de que os seres humanos não nascem, pelo menos em sua grande maioria, nem livres nem iguais, Bobbio faz a seguinte síntese do problema:
A liberdade e a igualdade não são um ponto de partida, mas sim um ponto de chegada. A democracia pode ser considerada um processo, lento mas irrefreável, no sentido da aproximação dessa meta. Mas a meta é na sua plenitude inatingível, por uma razão intrínseca aos dois princípios mesmos da liberdade e da igualdade. Esses dois princípios são entre si, em última instância, quando levados às suas extremas consequências, incompatíveis. (BOBBIO, 2000, p. 422).
A segunda razão estaria relacionada com o reconhecimento da autonomia de cada indivíduo como o fundamento ético da democracia. Trata-se aqui do indivíduo racional e capaz de avaliar as consequências imediatas e futuras das suas ações. Da mesma forma que Dahl e Sartori, Bobbio compreende que a principal justificativa da defesa da democracia como a melhor forma de governo é o pressuposto de que o “indivíduo singular, o indivíduo como pessoa moral e racional, é o melhor juiz do seu próprio interesse.” (BOBBIO, 2000, p. 424). Não obstante, como esse homem racional é um ideal-limite a democracia também é um ideal-limite, por isso, esta segunda razão da oposição entre democracia ideal e democracia real envolve a seguinte constatação:
Deixando de lado a consideração de que se todos os homens fossem racionais não haveria nem mesmo a necessidade de um governo, e mesmo nos limitando à racionalidade puramente instrumental, falta à grande maioria dos indivíduos os conhecimentos necessários para construir um juízo pessoal e fundamentado diante das decisões que se deve tomar. (...) Em suma, muitos não estão em condições de saber. Muitos acreditam saber, e não sabem. (BOBBIO, 2000, p. 425).
Essa compreensão do contraste entre ideal e real é fundamental para a definição da democracia que se tornou de domínio comum ou hegemônica: a democracia enquanto uma via, um método ou um processo para a tomada de decisão coletiva. Em torno dessa definição aglutina-se o pensamente de Robert Dahl e Norberto Bobbio, entre outros. São autores fundamentais para a explicitação dos critérios normativos, das regras e das instituições que serão descritas a seguir.
O esforço teórico de tais autores, além de permitir compreender os desafios inerentes à tentativa de realizar os princípios que caracterizam a democracia, torna instigante a verificação da presença de tais fundamentos nas regras do jogo democrático. Nos termos de Bobbio são os “universais processuais” da democracia. Na elaboração de Dahl são os critérios de um processo democrático e as instituições necessárias para a sua realização. Juntos estabelecem condições mínimas a partir das quais pode-se avaliar se um determinado regime político ou um processo decisório é democrático ou não. A fim de facilitar a percepção da semelhança entre os critérios explicitados pelos dois autores, eles foram agrupados no quadro abaixo.
Norberto Bobbio Robert Dahl
Universais processuais Critérios de um processo democrático
1. Todos os cidadãos que tenham alcançado a maioridade etária sem distinção de raça, religião, condição econômica, sexo, devem gozar de direitos políticos, isto é, cada um deles deve gozar do direito de expressar sua própria opinião ou de escolher quem a expresse por ele. 2. O voto de todos os cidadãos deve ter igual peso. 3. Todos aqueles que gozam dos direitos políticos devem ser livres para poder votar segundo sua própria opinião formada, ao máximo possível, livremente, isto é, em uma livre disputa entre grupos políticos organizados em concorrência entre si.
4. Devem ser livres também no sentido de que devem ser colocados em condições de escolher entre diferentes soluções, isto é, entre partidos que tenham programas distintos e alternativos.
5. Nenhuma decisão tomada por maioria deve limitar os direitos da minoria, particularmente o direito de se tornar por sua vez maioria em igualdade de condições.
6. Seja para as eleições, seja para as decisões coletivas, deve valer a regra da maioria numérica, no sentido de que será considerado eleito o candidato ou será considerada válida a decisão que obtiver o maior número de votos.
I- Participação efetiva: em todo processo de adoção de decisões obrigatórias os cidadãos devem ter oportunidades apropriadas para expressar suas preferências e para incorporar temas no programa de ação.
II- Igualdade de voto na etapa decisória: deve-se garantir a todos os cidadãos oportunidades iguais para expressar sua opção.
III- Compreensão esclarecida: para orientar-se sobre os fins e os meios, sobre os próprios interesses, sobre as conseqüências de uma política pública e sobre os demais interesses em jogo, cada cidadão precisa ter oportunidade e condições para compreender tais questões.
IV- Controle final da agenda: implica aceitar que o demos é o melhor juiz dos seus próprios interesses. Não significa que o demos esteja em condições de decidir sobre todas as questões, mas que ele possa decidir sobre quais questões requerem decisões obrigatórias; entre as que requerem, quais o demos pode se encarregar de resolver e quais implicarão a delegação da sua autoridade.
V- Inclusão: exige definir, respeitando o que está presumido nos critérios anteriores, quais as pessoas têm o direito legítimo de serem incluídas no demos. Implica discutir se é justo que uma pessoa que esteja excluída do demos tenha que obedecer as decisões obrigatórias tomadas por este demos, seja diretamente ou por seus representantes. VI- Direitos fundamentais: cada critério que caracteriza uma democracia ideal indica um direito que é uma parte necessária de um sistema democrático ideal.
QUADRO 1 - Princípios que caracterizam um processo decisório democrático Fonte: BOBBIO, 2000, p.427; DAHL, 1992, p. 268; DAHL, 2006, p. 9, 10.
O dois autores reconhecem que, no mundo real, nenhum sistema haverá de satisfazer plenamente tais princípios, mas eles constituem uma referência fundamental na medida em que traduzem os ideais modernos da democracia. Especificam um conjunto de condições a serem observadas para se afirmar que existe igualdade política. Sendo assim, como torná-los realizáveis? Esta pergunta faz a passagem da dimensão ideal, presente nos princípios - pré-condições da democracia - para a dimensão real, que se realiza por meio das instituições políticas, as quais devem ser permeadas pelos princípios e direitos apresentados acima. Dada a força dessa relação, uma parte das instituições apresentadas por Dahl são exatamente um conjunto de direitos, de liberdades e de garantias de oportunidades
fundamentais para o cidadão. Esse aspecto será retomado no item 1.5, no qual, a democracia poliárquica será detalhada.