3. KADINAYÖNELİK VE AİLE İÇİ ŞİDDETİN TÜRK MEDENİ
3.2. Evlilik Birliğinin Temelinden Sarsılması Sebebiyle Boşanma
Conforme as considerações feitas ao longo deste capítulo, a existência de um grande número de pessoas com direito de participar das decisões políticas torna impraticável a tomadas de decisões coletivas exclusivamente em assembleias e com participação direta dos cidadãos. Dentro do modelo típico da democracia representativa, a eleição de representantes impõe a ideia do mandato livre, ou seja, os representantes decidem, independente de quem e de quantos os elegeram.
Para detalhar os dilemas envolvidos nessa relação, Bobbio (2009) comparou o que foi prometido pela democracia representativa com o que foi realizado efetivamente. Seriam
seis as promessas não cumpridas pela democracia em sua dimensão real. Antes de fazer a exposição dessas dimensões deve-se ressaltar que o próprio autor, ao final, interroga se as promessas poderiam de fato ser cumpridas tendo em vista os obstáculos colocados pelas transformações que moldaram a democracia moderna. Esses desafios e limites foram sintetizados no livro O Futuro da Democracia, 2009 p. 34-45 (1ª. ed. 1984), e serão apresentados a seguir de forma resumida e relativamente livre.
A primeira promessa não cumprida refere-se à centralidade do indivíduo no processo democrático tendo em vista que a democracia nasceu de uma concepção individualista de sociedade. A teoria democrática teria imaginado um Estado sem corpos intermediários, no qual, o indivíduo soberano, em associação com outros indivíduos soberanos, criaria a sociedade política que funcionaria sem intermediação entre os indivíduos e seus representantes. No entanto, aconteceu o oposto, pois, as mais diversas formas de organização civil – o povo dividido em grupos contrapostos e concorrentes – e não os indivíduos é que passaram a ter relevância política. Ao invés de um Estado democrático fundado na soberania popular e característico de uma sociedade homogênea, o que existe – a sociedade real – é uma sociedade pluralista subjacente aos governos democráticos.
A segunda promessa diz respeito à representação política em contraposição à representação de interesses. Nessa última o representante deve ter um mandato vinculado - mandato imperativo - pelo fato de ter a obrigação de buscar a realização dos interesses do representado, mas a representação política funda-se em um princípio contrário que é o mandato livre. No entanto, segundo Bobbio, esse princípio da representação política tem sido frequentemente desconsiderado. Isso acontece tanto em função da existência de grupos, com variados objetivos, tentando identificar seus interesses com os interesses nacionais ou tentando sobrepor seus interesses aos de outros grupos, como em função da disciplina partidária que viola a proibição do mandato imperativo.
A terceira promessa não cumprida seria a derrota do poder oligárquico. A persistência das oligarquias contraria a noção de liberdade entendida como autonomia, princípio inspirador do pensamento democrático. No entanto, a própria democracia contemporânea poderia ser interpretada como uma “renúncia ao princípio da liberdade como autonomia”, pois o poder de decisão é dado aos representantes políticos dos cidadãos. Entretanto, Bobbio ressalva que a presença de elites no poder não transforma a democracia em autocracia. Trata-se daquilo que é evidenciado por meio da definição procedimental de
democracia: em um governo democrático existem várias elites em concorrência pelo voto dos eleitores.
Além de não conseguir se livrar das elites políticas, a democracia também não teria chegado a todos os espaços em que são tomadas decisões que vinculam grupos sociais inteiros. Essa seria a quarta promessa não cumprida. Após a realização do sufrágio universal, condição necessária, mesmo que insuficiente, para a democracia, o processo de democratização da sociedade, que envolve a ampliação dos espaços em que as decisões políticas são tomadas, deveria seguir seu curso, mas isso ainda não teria acontecido. Para Bobbio esse processo não estaria associado à passagem de um formato representativo para uma forma direta de democracia e sim à passagem da democracia política para uma democracia social12. Em linhas gerais, isso significaria o reconhecimento do conjunto de direitos dos cidadãos e a construção de políticas para diminuir as desigualdades sociais, bem como, a ampliação das possibilidades de controle por parte dos cidadãos das ações do governo.
Em outros termos, quando se deseja saber se houve um desenvolvimento da democracia num dado país, o certo é procurar perceber se aumentou não o número dos que têm o direito de participar nas decisões que lhe dizem respeito, mas os espaços nos quais podem exercer esse direito. (BOBBIO, 2009, p. 40).
A quinta promessa não cumprida seria a de eliminação do poder invisível – o poder que não está sob controle. Bobbio parte da constatação de que a democracia nasceu em uma posição contrária ao poder invisível na medida em que sempre teve como perspectiva um governo empenhado em desenvolver publicamente suas ações; em gerar transparência no exercício do poder13. A publicidade dos atos do governo é importante não apenas porque permite aos cidadãos conhecerem os atos de quem exerce o poder, para terem condições de controlá-los, mas, também, porque a publicidade desses atos seria por si mesma uma forma de controle. No entanto, a visibilidade e o controle do exercício do poder tornaram-se um problema crescente. A necessidade de controle é cada vez maior porque na atualidade os
12 Nos termos apresentados na subseção 1.2 com base nos argumentos de Norberto Bobbio (2000). 13
A fundamentação do princípio é kantiana. Bobbio ilustra seu argumento citando uma passagem do Apêndice de A Paz Perpétua, no qual, Kant enuncia que “todas as ações relativas ao direito de outros homens cuja máxima não é suscetível de se tornar pública são injustas.” (KANT apud BOBBIO, 2000b, p. 42).
detentores de poder dispõem de instrumentos técnicos para “conhecer capilarmente tudo o que fazem os cidadãos”. Por isso, Bobbio faz um alerta:
A velha pergunta que percorre toda a história do pensamento político –
‘Quem custodia os custódios?’ – hoje pode ser repetida com esta fórmula: ‘Quem controla os controladores?’ Se não conseguir encontrar uma resposta
adequada para esta pergunta, a democracia, como advento do governo visível, está perdida. Mais do que uma promessa não cumprida, estaríamos aqui diretamente diante de uma tendência contrária às premissas: a tendência não ao máximo controle do poder por parte dos cidadãos, mas ao máximo controle dos súditos por parte do poder. (BOBBIO, 2009, p. 43).
A sexta promessa que não teria sido cumprida refere-se à educação para a cidadania. Bobbio destaca que essa promessa faz parte de um argumento recorrente no pensamento democrático, segundo o qual, a educação para a democracia é possível por meio do exercício da prática democrática. O autor faz questão de ressaltar que é um aprendizado concomitante à prática democrática e não uma preparação prévia. Se fosse uma preparação anterior à entrada na democracia redundaria no modelo “jacobino”, segundo o qual, viria em primeiro lugar a ditadura revolucionária e, depois, em um segundo tempo, viria o “reino da virtude”. Dessa forma, não existiria preparação para a democracia fora da democracia, pois, para o democrata o reino da virtude seria a própria democracia e a virtude seria o amor pela coisa pública.
Em relação ao fato das promessas não terem sido cumpridas, Bobbio apresenta três obstáculos que interferiram no curso do processo democrático. O primeiro deles é a crescente necessidade de competência técnica para solucionar problemas políticos. Problema diretamente relacionado com as características das sociedades industriais, complexas e de economia de mercado. Bobbio, como outros autores, lembra que tecnocracia e democracia são antitéticas, pois, se o protagonista passa a ser o especialista, o cidadão perde espaço. De forma contrária à democracia, que pressupõe que todos os indivíduos adultos e autônomos possam decidir a respeito de tudo, a tecnocracia implica que apenas os poucos com conhecimento especializado sejam convocados para decidir.
O segundo obstáculo decorrente das transformações da democracia e diretamente relacionado com a tecnocracia seria a expansão do aparato burocrático. A burocracia estatal, independente da sua necessidade e importância, teria tornado-se um aparato de poder. Sendo hierarquicamente organizado do vértice à base, funciona de forma diametralmente oposta à
democracia que é um poder sustentado pela base – os cidadãos escolhem quem toma as decisões políticas – e que tem seu fluxo direcionado da base para o vértice. Bobbio destaca a relação histórica entre burocracia e Estado democrático quando afirma que os Estados que se tornaram democráticos se tornaram também mais burocráticos. Essa consideração é muito importante porque expõe com clareza e simplicidade o engodo do Estado mínimo. A amplitude dessa discussão e a atualidade do problema podem ser vislumbrados na seguinte passagem de texto:
... hoje o desmantelamento do Estado de serviços - Estado este que exigiu um aparato burocrático até agora jamais conhecido – esconde o propósito, não digo de desmantelar, mas de reduzir a limites bem circunscritos o poder democrático. Que democratização e burocratização caminham no mesmo passo é algo evidente, como de resto havia já observado Max Weber. Quando os proprietários eram os únicos que tinham direito de voto, era natural que pedissem ao poder público o exercício de apenas uma função primária: a proteção da propriedade. Daqui nasceu a doutrina do Estado limitado (...) A partir do momento que o voto foi estendido aos analfabetos tornou-se inevitável que estes pedissem ao Estado a instituição de escolas gratuitas; com isso o Estado teve que arcar com um ônus desconhecido pelo Estado das oligarquias tradicionais e da primeira oligarquia burguesa. Quando o direito de voto foi estendido também aos não proprietários, aos que tinham como propriedade tão-somente a força de trabalho, a consequência foi que se começou a exigir do Estado a proteção contra o desemprego e, pouco a pouco, seguros sociais contra doenças e a velhice, providências em favor da maternidade, casas a preços populares, etc. Assim aconteceu que o Estado de serviços, o Estado social, foi, agrade ou não, a resposta a uma demanda vinda de baixo, a uma demanda democrática no sentido pleno da palavra (BOBBIO, 2009, p. 47,48).
Quanto ao terceiro obstáculo para a realização da democracia ideal, estaria relacionado a um problema que costuma ser denominado de “ingovernabilidade” da democracia. Guardaria estreita relação com os objetivos do Estado social porque diria respeito às crescentes demandas oriundas de uma sociedade civil emancipada do sistema político. Nesse sentido, as liberdades civis - liberdade de imprensa, de reunião e de associação - que são pré-condições para a democracia, tornaram-se, também, um meio para os cidadãos apresentarem suas demandas aos governantes. Como a quantidade e a velocidade das demandas são crescentes, independente do grau de eficiência do sistema político, torna-se muito difícil atendê-las. Isso geraria uma sobrecarga que imporia escolhas difíceis e que sempre deixariam algum segmento insatisfeito. Além disso, a situação seria agravada pela lentidão decorrente da complexidade inerente aos procedimentos de tomada de decisão em um sistema político democrático.
Em resumo, os obstáculos gerariam, ao mesmo tempo, lentidão e invisibilidade de tal forma que, quando a questão da sobrecarga de demanda se coloca, pode ficar difícil discernir entre complexidade, ineficiência e estratégia política. A solução desses diversos problemas envolve posicionamentos políticos tanto em termos do papel do Estado como em relação às estratégias governamentais. No entanto, tais obstáculos costumam ser evidenciados apenas para intensificar o discurso em prol da redução do papel do Estado ou do suposto esgotamento da democracia representativa.
As questões levantadas nos três obstáculos apresentados acima dizem respeito ao que Robert Dahl (1992) classifica como o lado sombrio do governo representativo: os cidadãos concedem imensa autoridade arbitrária para a tomada de decisões altamente relevantes, mas não delegam tal autoridade apenas aos representantes eleitos, pois, por decorrência, a autoridade é delegada também a burocratas, funcionários públicos, juízes e organizações internacionais.
Mesmo que as instituições da democracia contemporânea possibilitem, em alguma medida, a influência dos cidadãos sobre as decisões do governo, ao estabelecer regras que permitem também a negociação entre as elites políticas e burocráticas, ainda que a negociação ocorra dentro dos limites impostos pelas instituições, o processo democrático é afetado negativamente porque essas elites possuem muito discernimento e o controle popular geralmente não é vigoroso. Então, mesmo que as elites não sejam despóticas e que as eleições obriguem os políticos a prestarem atenção nos assuntos de interesse popular, isso não altera o fato de elas serem muito mais poderosas do que o cidadão comum (Dahl, 2001, p. 128, 129).
Dahl aprofunda essa discussão ao analisar os limites técnicos e morais da tecnocracia. Começa pela crítica a toda forma de pensamento que defende o argumento da superioridade de algumas pessoas ou de alguém para tomar decisões políticas. Considera, ainda, que nenhuma decisão em termos de políticas públicas é exclusivamente técnica, pois, envolve em alguma medida juízo moral. Estas afirmações evidenciam sua preocupação com uma possível crença na existência de pessoas virtuosas e particularmente talhadas para a vida pública. Esse tipo de atitude, que teria uma raiz platônica (a suposição de existência de uma classe particular de tutores que seriam mais preparados para governar devido à superioridade em termos de conhecimento e de capacidade para realizar julgamento moral), poderia ser reproduzida nas atividades burocráticas que concentram decisões sobre políticas públicas. Para se referir a esse tipo de problema Dahl utiliza a expressão “risco da tutelagem” por parte das elites de políticas públicas. Conclui o autor que o juízo sobre um tipo qualquer de política
depende tanto da compreensão moral como do conhecimento técnico. Mas além de afirmar que não existe justificativa para considerar que os tecnocratas tenham melhores condições de fazer juízo moral, ele afirma que poderiam, ao contrário, estar em piores condições para esse tipo de julgamento porque possuiriam, pelo menos, três deficiências irremediáveis em um mundo cada vez mais complexo: 1) o fato da especialização ser em si mesma um limite, pois o especialista é sempre especialista em alguma coisa específica e exatamente por isso desconhece as outras coisas; 2) o fato de no mundo atual nenhuma arte ou ciência reunir em si mesma uma compreensão moral e instrumental suficiente para a formulação inteligente de políticas públicas; 3) a constatação de que em diversos temas os juízos instrumentais dependem de fundamentos que não são simplesmente técnicos, científicos ou mesmo rigorosos na medida em que refletem juízo comum sobre o mundo como, por exemplo, a compreensão de que o mundo é de certo jeito e não de outro; que tem a tendência de funcionar de certa forma e não de outra. Ou seja, existiria um juízo ontológico, um saber sem rigor compartilhado pelas pessoas e que deveria ser levado em consideração14. Além disso, o mundo real escaparia, sempre, dos limites que as regras definidas pelos indivíduos estabelecem (DAHL, 1992, p. 87,88).
Fica evidente que a estrutura burocrática confronta com a lógica democrática por três grandes razões: a necessidade de um saber especializado; a tendência de concentração de poder e a pouca visibilidade das ações governamentais. Devem ser somados a tais problemas os atuais desafios dos Estados democráticos devido às interferências de decisões de caráter supranacional, ou seja, entra novamente em cena a tecnocracia.
Dahl considera que na atualidade as fronteiras de um país não são muito mais demarcadas do que as fronteiras das decisões políticas que afetam os interesses dos cidadãos. Por isso, a vida econômica de um país, bem como o meio ambiente e a segurança nacional, entre outros temas, dependem cada vez mais de atores e ações que estão fora dos seus limites. Sendo assim, de forma similar ao que aconteceu na segunda transformação histórica da democracia, estaria acontecendo uma ampliação da escala na medida em que muitas decisões são tomadas em nível mundial. Da mesma forma que o surgimento do Estado nacional reduziu a capacidade dos habitantes exercerem controle sobre questões de vital interesse frente ao governo local e, principalmente, nas esferas nacionais, a proliferação de atividades e decisões de ordem transnacional restringe, ainda mais, o controle das decisões pelos cidadãos.
14
Dahl considera que a experiência com as armas nucleares ilustram a importância desse argumento porque traduzem o sentido comum contido na conclusão de que “os tecnocratas devem ser governados e não governantes.” (DAHL, 1992, p. 89).
Tais decisões muitas vezes são tomadas por meio de delegação de poder, por parte do governo nacional, a especialistas ou a funcionários desconhecidos dos cidadãos. (Dahl, 1992, p.382).
A ampliação do papel dos especialistas – autoridade delegada – tem uma dimensão inevitável porque faz parte de um amplo esforço do governo democrático moderno para adaptar a democracia à crescente complexidade das políticas públicas. Entretanto, o afastamento das “elites técnicas” do juízo da população além de impedir a transparência das ações públicas, cria condições para que tais elites se atenham mais aos próprios interesses. Portanto, o aperfeiçoamento das instituições democráticas depende de esforços, teóricos e práticos, para tentar reduzir o fosso que separa a população da elite da política pública (Dahl, 1993, p. 399-405).
O reforço da tutelagem por parte da burocracia seria o grande risco dessa ampliação de escala da democracia, destaca Dahl. Por isso, a ampliação das possibilidades de participação política dos cidadãos torna-se muito importante. A ampliação dos controles democráticos por parte dos cidadãos poderia contribuir para que a vida política fosse tratada de forma mais compatível com a lógica que norteia o processo decisório democrático.