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Conforme foi visto no primeiro capítulo, o foco da governança global aumentou significativamente, passando a incluir diversos atores, instituições, redes, regimes e mecanismos que exercitam as funções regulatórias ou distributivas tendo impactos transacionais.

Segundo Andrew D. Mitchell e Elizabeth Sheargold (2009), a OMC evoluiu paralelo às mudanças de como a governança global é ordenada. Assim, apesar de a OMC ser uma OI intergovernamental, o seu processo de tomada de decisões, administração e aplicação de medidas perpassa por uma série de atores estatais e mesmo não estatais, dentro de uma variedade de mecanismos, que não se conformam em uma noção tradicional de governança. Por isso, o debate de governança global passou a discutir os mecanismos de accountability como forma de garantia de legitimidade dentro desta perspectiva de mudança, estando a OMC no centro do debate tanto de legitimidade como de accountability.

As demandas por accountability partem, principalmente, de dois setores, dos países em desenvolvimento, ávidos por manter uma maior influencia na organização com vistas a terem consideradas as suas agendas e, a sociedade civil, em especial as ONGs, que demandam um canal que possa manter os rumos da organização atrelados ao interesse público global (CHARNOVITZ, 2004).

É importante destacar que, apesar de ser uma organização internacional formal, estabelecida pelos Estados Membros e com personalidade jurídica internacional, a OMC não pode ser confundida como um ator que atua na prestação de um serviço específico. Pelo contrário, a OMC, por ter sido estabelecida para funcionar como um mecanismo de governança do comércio global, atua, na visão de Marc Williams (2011, p. 108), em três papeis diferentes: primeiro, como fórum para a liberalização do comércio, contando com o

Trade Policy Review Body, ou em português, Órgão de Revisão de Políticas Comerciais (TPRB) e os comitês especializados, no exercício da vigilância do cumprimento das regras estabelecidas; segundo, como o framework legal do comércio internacional, tendo como base o Single Undertaking, e; terceiro como um centro de resolução de disputas comerciais, através do Órgão de Solução de Controvérsias (OSC).

De forma mais ampla, através do trabalho dos professores Richard Stewart e Michelle Ratton Sanchez Badin (2009), é possível denotar que, sob a perspectiva da teoria do DAG, existem pelo menos três dimensões de atuação da OMC como uma organização da governança global: uma dimensão vertical, que faz uma leitura da relação entre a OMC e a administração doméstica dos seus membros; uma dimensão horizontal que se verifica pelo reconhecimento por parte da OMC de padrões emanados por outros órgãos globais, e; uma dimensão interna da OMC constituída pelos três braços decisórios da organização, o legislativo, o administrativo e o judiciário (STEWART; SANCHEZ BADIN, 2009, p. 3).

A dimensão vertical está descrita como o papel que a OMC vem desempenhando no sentido de impor requerimentos extensivos do DAG de transparência, participação, motivação e revisão na tomada de decisão pelos órgãos administrativos internos dos membros (STEWART; SANCHEZ BADIN, 2009, p. 3-12). Tal papel tem o fim de garantir um tratamento equânime dos agentes econômicos privados nacionais e estrangeiros e evitar o protecionismo disfarçado e, desta forma, existe um empenho, previsto no art. X do GATT 1947, que basicamente aplica as diretrizes do rule of law na regulação comercial internacional. (STEWART; SANCHEZ BADIN, 2009, p. 12-14). Em curtas palavras, a dimensão vertical analisa a forma que a OMC centraliza a uniformização de padrões regulatórios comerciais internacionais através dos seus vários comitês, com relação aos Estados Membros, atuando como um canal de incremento da transparência.

A dimensão horizontal é definida através de uma extensa rede de interações com outras Organizações Internacionais. Esta relação assume uma significância especial com relação aos acordos sobre a Aplicação de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias (SPS) e sobre Barreiras Técnicas ao Comércio (TBT), uma vez que a OMC baseia os padrões regulatórios domésticos em função de relevantes padrões internacionais, prevenindo assim os padrões domésticos de serem confrontados (STEWART; SANCHEZ BADIN, 2009, p. 3). No caso do SPS tal relação fica mais palpável, uma vez que no anexo A do acordo está institucionalizada a adoção de padrões providos pelas “três irmãs” (Codex Alimentarius, Escritório Internacional de Epizootias, e Convenção Internacional sobre Proteção Vegetal). Resumidamente, a OMC toma emprestada a expertise de alguns órgãos globais em especificas áreas de regulação. Ao

mesmo tempo, tais agências internacionais podem fortalecer determinadas provas levadas aos painéis e Órgão de Apelação da OMC.

Ultimamente, tem-se a dimensão interna da OMC, que está estruturada em três componentes decisórios, o legislativo, o judiciário e o administrativo. O legislativo é caracterizado pelo processo de regulação do comércio internacional por meio das Conferências Ministeriais, pela qual se procura atingir o consenso entre todos os membros na formulação de novas regras de comércio internacional. O braço judiciário da OMC é representado pelo Órgão de Solução de Controvérsias, responsável pela resolução de conflitos comerciais entre os países sendo, desta forma, o único órgão adjudicatório capacitado para interpretar as normas da OMC. O componente administrativo é percebido pela atuação diária do Diretor-Geral e do Secretariado, dos comitês especializados em cada acordo comercial e também pelo Órgão de Revisão de Políticas Comerciais. Em sua exposição, os autores arguem que os arranjos de governança para cada componente tem uma dinâmica interna em relação aos membros da OMC e uma externa quanto a outros órgãos globais e atores não estatais (STEWART; SANCHEZ BADIN, 2009, p. 3).

Nesta linha de pensamento, é possível vislumbrar a OMC tanto com uma arena de produção de regras, como uma organização que exerce um papel semelhante a uma agência administrativa internacional, onde os membros, no papel de constituintes, deram à OMC a competência para gerir as regras criadas em seu âmbito (CHARNOVITZ, 2004, p. 16-21).

Assim, as suas práticas e regras são inicialmente baseadas em princípios do direito administrativo aplicado ao plano global. Porém, uma vez que as regras estabelecidas em seu âmbito perpassam a esfera internacional, e atingem a legislação doméstica de vários países, e concorrentemente a vida das pessoas, responder a pergunta de se a OMC é accountable, perpassa por definir para quem esta deve ser accountable e, de que forma ela está, ou não, sendo accountable.