4.3 Etkinlik Planı Uygulanması ve Yorumlanması
4.3.2 Etkinlik 2: Zabderfilio
Os defensores da ciência pura e os adeptos da ciência aplicada interagiam com a sociedade sob diversas formas. Os intelectuais ligados à ciência pura achavam
fundamental a divulgação do conhecimento científico. A exposição deste tipo de saber deveria se caracterizar por uma linguagem simples, que permitisse a compreensão dos fundamentos da ciência por todos. Em muitos momentos, este processo é definido como vulgarização científica. No olhar de Miguel Ozório de Almeida (1931):
Os resultados podem muitas vezes ser isolados, expostos de um modo sufficientemente claro, em palavras simples de uma linguagem muito próxima da linguagem quotidiana. Além disso, é indispensável distinguir aqui o trabalho do homem de sciencia que porfia por descobrir factos novos, do esforço relativamente pequeno daquelle que apenas quer comprehender o essencial de um phenomeno (p.234).
Um dos intelectuais que mais se destacou nesta atividade foi exatamente o autor acima citado. Por meio de textos de sua autoria, é possível apreender os parâmetros da militância pela vulgarização do conhecimento científico. Um dos primeiros aspectos que se destaca no discurso destes homens de ciência é que sua fala se dirigia ao país, pois tais pensadores clamavam que o Brasil não poderia deixar de investir na formação de uma mentalidade exclusivamente amparada na razão: Acho-me cada vez mais
convencido da necessidade urgente de fazer desenvolver no Brasil a cultura intensa da Sciência (OZORIO DE ALMEIDA, 1925, p.5).
Na década de 1920, os sócios da ABC dedicavam parte do seu tempo à realização de palestras abertas ao público, que eram amplamente divulgadas em jornais:
Na próxima quinta-feira terá início o curso do professor Tobias Moscoso em três conferências sobre o thema “Theorias do crescimento que se realizarão no anphitheatro de Physica da Escola Polythecnica às 20 ½ horas.
Este curso, como todos os demais promovidos pela secção de ensino technico e superior da ABE sob a presidência do professor F.Labouriau será franqueado ao publico, podendo ser freqüentado pelas pessoas interessadas independentemente de qualquer formalidade (Jornal do Brasil, 01/08/1926, p.6)
É possível notar que, a teor do texto expresso do próprio anúncio, não havia qualquer exigência para a frequência à palestra. Não era necessária qualquer formação específica ou qualquer tipo comprovação de escolaridade, mas apenas o interesse da pessoa pelo tema. Transparece a intenção dos organizadores de tornar o evento acessível ao grande público. Por isso, não havia qualquer burocracia, tais como cadastros, convites antecipados ou formalidades análogas.
As conferências versavam sobre os mais variados assuntos. Independentemente da complexidade do tema havia a preocupação com a utilização de uma linguagem acessível. O principal objetivo destas palestras era incentivar o pensamento autônomo de sua platéia. A comunicação oral conseguia superar algumas barreiras impostas à causa como, por exemplo, a dificuldade em publicar livros e o alto custo da edição, óbices estes lembrados por Miguel Ozorio de Almeida (1925), já no prefácio de
Homens e coisas de sciencias: Os livros do gênero deste, que os Snrs Monteiro Lobato & Cia., em um momento de pouca reflexão e muita generosidade resolveram editar, são muito raros entre nós... (p.5). Muitas destas conferências eram publicadas na íntegra
em jornais e revistas.
Os textos publicados são documentos capazes de nos fornecer indícios sobre a dinâmica destas palestras. Nesse sentido, é possível perceber que elas eram longas. Em geral, iniciavam com um histórico detalhado do objeto: as primeiras discussões, passando por várias etapas até chegar às questões mais recentes. A partir disso, seguindo o método cientifico, explanavam diversas hipóteses para a evolução dos estudos. Quando publicados, o que não era raro, os textos eram ilustrados para auxiliar a compreensão das questões mais complexas.
Massarani e Castro (2010) destacam que cientistas europeus e americanos também investiam no processo de vulgarização científica. Marie Curie e Langevin, físicos franceses que visitaram a ABC na década de 1920, defendiam a educação voltada para o desenvolvimento da ciência pura, com o incentivo a duas iniciativas: a elaboração de livros didáticos e de vulgarização científica e a utilização do rádio e do cinema para a transmissão desse conteúdo.
Desde a década de 1910, é perceptível o esforço de intelectuais brasileiros dedicados à ciência pura para a produção de livros didáticos. Os autores se sentiam motivados pelo fato de nossos compêndios, editados no exterior, pouco se adequarem à realidade do nosso ensino. Outros combatiam a linguagem pouco didática, que não colaborava com a difusão da ciência em nossas escolas. Como exemplo desse tipo de iniciativa, - podem ser citadas As ideais fundamentais da matemática (1929), de Amoroso Costa e Geographia do Brasil (1913), de Delgado de Carvalho.
Amoroso Costa foi aluno de engenharia da Escola Polytechnica do Rio de Janeiro. Estudou astronomia, matemática e geometria, tendo se destacado pela criação de um conhecimento original nestas áreas. Tendo sido um dos sócios fundadores da SBC, atuou como diretor da Seção de Ciências Matemáticas da ABC a partir de 1923.
O magistério, que, por sua capacidade de transformadora, sempre esteve entre as suas preocupações, era pautado por uma grande preocupação que consistia no caráter utilitarista do nosso ensino: Ensinar, é alguma cousa mais do que repetir compêndios
ou fornecer aos moços preceitos profissionaes, o que importa sobretudo é modelar-lhes harmoniosamente a intelligencia e a sensibilidade, abrir-lhes os olhos para cousas superiores. Assim como outros intelectuais de sua geração, defendia que a produção do
conhecimento fosse estimulada pelos nossos professores
Foi assim que elle expoz, deante de auditório sempre numeroso e attento , as theorias geraes da analyse moderna, as ideas fundamentaes das geometrias não euclideanas e a theoria da relatividade. A elevação dos themas punha-o acima da categoria de um vulgarisador de sciencia. Suas prelecções não consistiam em divulgar o pensamento alheio. Eram dissertações originaes em que elle, a seu próprio modo, lapidava os postulados, coloria as demonstrações e concatenava as theorias, reunindo tudo numa synthese perfeita de clareza e harmonia (Annaes da Academia Brasileira de Ciências, 1929, p.43).
Apesar da já citada dificuldade para publicação de livros, saíram do prelo A
vulgarisação do saber (1931) e Homens de coisas e de Sciencias (1925), de autoria de
Miguel Ozório de Almeida, e Rondonia (1917) e Seixos Rolados (1927), elaborados por Roquette-Pinto.
A defesa da vulgarização do saber científico era alvo de muitas críticas. Os defensores da ciência aplicada duvidavam da eficiência deste tipo de campanha no processo de transformação da sociedade. Um exemplo é a perspectiva dos sanitaristas. Em geral, estes intelectuais achavam que, diante dos males que assombravam o país, retratado por Miguel Pereira como um grande hospital, era praticamente impossível para o povo apreender qualquer tipo de conhecimento.
Belisário Penna, Arthur Neiva e outros sanitaristas faziam campanhas de conscientização sobre a importância da higiene e os males do alcoolismo. Para estes intelectuais, o gabinete de ciências deveria estar associado à aplicação prática e imediata do saber científico. Diante das estatísticas sobre as endemias rurais, mostrando que o amarelão atacava 70% da população, que 40% dela era vítima da malária, e que a doença de Chagas atingia 15% da população rural, a ação do cientista deveria estar voltada à fabricação de vacinas e de remédios para combater o amarelão e doença de chagas, males que assombravam a população. Para os homens de ciência aplicada, o povo não dispunha de condições físicas para desenvolver o espírito científico e, por isso, tais cientistas acreditavam que, além do trabalho de conscientização, a vida fosse
regulamentada da maneira mais abrangente possível. No olhar destes intelectuais, determinadas práticas, como tomar banho diariamente, andar calçado e lavar as mãos, deveriam estar previstas em lei.
As viagens pelo interior do país caracterizaram a ação dos intelectuais ligados à ciência aplicada. Com o objetivo de realizar levantamentos sobre as condições sanitárias e sócioeconômicas das regiões cruzadas pelo Rio São Francisco e de outras áreas do nordeste e do centro-oeste, as expedições os levaram a um Brasil ainda desconhecido, possibilitando o contato com povos que viviam praticamente isolados, e a realização de análises inéditas. São exemplos dessa empreitada os estudos de saneamento da Amazônia coordenados por Oswaldo Cruz e Afrânio Peixoto, e as obras da Inspetoria contra as secas, chefiadas por Arrojado Lisboa. A importância deste contato direto com as populações mais carentes e distantes da capital foi destacada por Belisário Pena:
Dizem que sou caixeiro-viajante! Sou! Sou caixeiro viajante da higiene! Caixeiro- viajante da saúde! Orando a analfabetos e homens cultos; ao povo e aos políticos; a governados e governantes; nas fazendas e nas cidades; no norte e no sul – ensinando seu evangelho: Botina, necatorina e latrina (NAVA, 1983)
Em comum, os homens de ciência pura e os de ciência aplicada utilizaram a tecnologia recém desenvolvida do rádio e do cinema para a divulgação do conhecimento. Schvarzman (2008) lembra que, em todo o mundo ocidental, a intelectualidade ficara fascinada pela cinematografia, devido às suas potencialidades técnicas de documentação e reprodução de conhecimento, assim como pelo caráter didático das imagens. No Brasil desde 1910, Roquette-Pinto organizara a primeira filmoteca no Museu Nacional. Utilizando as coleções científicas da Pathé, e posteriormente, os filmes do Major Reis para a Comissão Rondon, anunciava o intuito de tirar a ciência do domínio exclusivista dos sábios para entregá-la ao povo. Miguel Ozório de Almeida (1925) revela seu deslumbramento por esse recurso técnico:
A photographia instantânea dos corpos vivos em movimento revelou atitudes absurdas, á primeira vista incompatíveis com o bom senso. A cinematographia mostrou , porem serem essas atitudes perfeitamente harmoniosas e necessárias; ella as ligou ás attitudes que precedem e as seguem. A arte de escrever ainda não chegou á perfeição da cinematographia, fundindo em series coherentes os elementos destacados do pensamaento (p.8).
Venâncio Filho que, a partir de meados da década de 1920, investiu em parceria com Jonathas Serrano no cinema educativo, destaca o cinematografia e a radiofonia como maravilhas advindas da ciência em prol de um método mais eficiente na transmissão do conhecimento:
A physica, com o seu progresso vertiginoso dos últimos tempos, pode contribuir com três das suas descoberta para transformação da Escola, a Escola não de amanhã, mas de logo mais, porque deve ser muito mais próxima. São elles: radiotelephone, o megascopio ou mirroscopio e o cinema para creanças. O primeiro, na sua extrema simplicidade inicial, construído para cada qual, enquanto se não resolver o problema do alto-fallante, há de constituir um factor individual, mas no seu deslumbramento estonteador, abre um novo mundo de possibilidades. (Radio, n24, p.38).
Ainda que divergissem em muitos aspectos, tanto os homens de ciência pura como os de ciência aplicada usavam a autoridade do saber com a intenção de impor ao senso comum uma direção, que é uma nação amparada nos valores da ciência. Neste paradigma,- ao povo só restava reconhecer a superioridade intelectual destes sujeitos, que se consideram como os únicos capazes de apontar o caminho para a construção de um país melhor.