3.3. Deneysel ĠĢlem Basamakları
3.3.1. Standart Eğitim Paketi
3.3.1.4. Etkinlik 4: Vücudumuz
Os nomes adotados pelas associações fundadas em Pelotas na última década do século XIX deixam transparecer que havia uma necessidade de defesa dos interesses dos oriundos do cativeiro e seus descendentes, o que se manteve com o surgimento das associações diretamente vinculadas a representação e luta política em torno de causas próprias a parcelas da comunidade negra. Nesse sentido, encontraram-se referências ao
Centro Ethiópico, fundado ainda durante a escravidão, mas que se manteve até 1895 e
ao Clube José do Patrocínio, surgido em 1905 e mantido até 1911. Porém, entre este
segmento, damos destaque ao Centro Ethiópico Monteiro Lopes100, o qual foi criado aos
seis dias do mês de março de 1909 em reação à possibilidade de recusa em dar assento
100 Este Centro não deve ser confundido com o Centro Ethiópico criado ainda durante a escravidão,
ao deputado federal Manuel da Motta Monteiro Lopes em virtude do mesmo ser negro, alcançou importante respaldo entre a comunidade negra pelotense (TAVARES, 2005). Assim, a passagem a seguir sintetiza a criação e destaque conferido a esse centro:
[...] Encontravam-se quatro homens em palestra sobre a política nacional quando veio a baila o nome do Dr. Monteiro Lopes, recém eleito deputado federal, e segundo afirmavam não seria reconhecido pelo fato de ser de cor
negra. O grupo [...] era constituído de José da Silva Santos, Modesto Passos
Barcelos, Balbino Conceição da Silva Santos e o rabiscador destas linhas [Rodolfo Xavier].
Em sinal de protesto, interpretando o desagravo da raça preta no Rio Grande do Sul, foram, na ocasião, redigidos dois telegramas e enviados, um a Câmara dos Deputados e outro para o Senado. [...]. Fez-se um apelo aos ‘homens de cor’ pela ‘A Opinião Pública’, convidando para uma grande reunião, e na noite do dia 6 de março de 1909 na sede da S. R. Flores do Paraíso e suas adjacências compareceram para mais de trezentas pessoas, solidarizando-se com a causa [...]. Aclamados pela Assembléia − presidente e secretário − respectivamente, José da Silva Santos. Por proposta do presidente foi dado o nome à organização que se fundava de ‘Centro Ethiópico Monteiro Lopes’ em defesa de seu patrono (grifo do autor, A
Alvorada, 7/07/1952, p. 1).
A mobilização frente à recusa em dar assento a este deputado, além do fato de o mesmo ser negro, estava em que este sintetizava os anseios de boa parcela dos negros brasileiros se verem representados na constituição de políticas nacionais. O Centro, que teve como um de seus idealizadores Modesto Passos Barcelos, funcionou junto à sede da Associação Recreativa Flores do Paraíso, da qual o referido idealizador era membro. Este projeto dos negros pelotenses teve respaldo não apenas na cidade, mas também em suas adjacências, o que evidencia, a manutenção de uma rede de movimentação em prol dos direitos dos negros, em toda a região sul.
Esta rede de movimentação social foi seguida aqui na percepção conferida por Scherer-Warren, visto ser o resultado de todo um processo articulado ao longo do tempo, mas que então tomou dimensões que extrapolaram uma ou outra associação, aglutinando sujeitos identificados com a causa racial em sua perspectiva política. De acordo com a referida autora “rede de movimento social” enquanto conceito “pressupõe a identificação de sujeitos coletivos em torno de valores, objetivos ou projetos em comum, os quais definem os atores ou situações sistêmicas antagônicas que devem ser combatidas e transformadas” (SCHERER-WARREN, 2006, p.113).
Nesse sentido, evocamos ainda a ideia referente aos espaços de discussão em prol de melhorias sociais a comunidade negra, presente em Arilson Gomes (2008). O autor ofereceu uma interpretação das movimentações dos negros enquanto constituintes
de oásis. Embora o objeto do autor fosse uma rede de movimento social posterior, o movimento frentenegrino e os congressos negros ocorridos entre os anos de 1931-1958, com destaque para os congressos ocorridos em Porto Alegre (RS), o mesmo alertou para a unidade em prol de uma causa comum − o fim do preconceito em diferentes instancias. Enquanto que, os preconceitos foram referenciados como espaços de deserto. Assim, o referido autor destacou:
Esse “oásis” que estamos fazendo referência somente passou a existir em decorrência dos esforços e perseverança dos homens que lutaram por um mundo melhor. Reconhecemos nessa dissertação, como “desertos” o racismo, preconceito e as discriminações sofridas por qualquer ser humano, neste caso, conforme citado anteriormente, mazelas que atingem diretamente a população negra (GOMES, 2008, p. 22).
Entre as cidades que mantiveram associações formais de apoio a posse de Monteiro Lopes e que estiveram diretamente ligadas à movimentação social que começou a irradiar-se a partir do Centro Ethiópico Monteiro Lopes em Pelotas, encontravam-se Rio Grande (Clube Monteiro Lopes), Bagé (Centro Monteiro Lopes) e Santa Maria (também intitulado Centro Monteiro Lopes). A Análise realizada por Viviani Tavares (2005) alertou ainda para o fato de que a irradiação efetiva proporcionada pelo Centro
Ethiópico Monteiro Lopes em Pelotas, não se restringiu as cidades da zona sul,
ultrapassando as fronteiras nacionais, com repercussão no Uruguai. O centro pretendia- se não apenas de mobilização política, mas enquanto espaço de convivência aos seus membros, visto tentar manter em sua sede uma biblioteca própria. Depois de idas e vindas de processos comuns às eleições da República Velha, o deputado foi finalmente empossado em abril do mesmo ano. Em janeiro do ano de 1910 o então deputado esteve na cidade de Pelotas como forma de agradecimento ao empenho em prol de sua posse (TAVARES, 2005).
As motivações dos negros pelotenses em dar apoio à posse de Monteiro Lopes, parecem ter alcançado resultados, ou no mínimo, o deputado identificava-se com a causa. Conforme podemos perceber em carta enviada pelo mesmo, ao redator do jornal
A Alvorada e um dos idealizadores do centro, Rodolfo Xavier, cerca de um ano após a
mobilização pelotense e transcrita nas páginas do referido jornal sob o título “Carta de Monteiro Lopes para Rodolfo”. Embora seja longa a transcrevemos:
“Camara dos Deputados – Rio 2 de maio de 1910. Meu caro Rodolpho.
Recebi tua cartinha acompanhada do teu jornal “A Alvorada”, um valente periódico que serve de grito de tua alma indignada, e que vale pelo brado de alerta.
Canta-se bem o evangelho de minha missa para a defesa da pátria, que nada mais é do que Republica, isenta e limpa de preconceito de raças.
A Republica é nossa porque ela é o resultado do 13 de Maio e quem fez o 13 de Maio foi o genial José do Patrocínio.
Porque pretendem nos excluir da grande comunhão nacional, nós que temos honrado a nossa bandeira defendendo com galhardia e denodo a integridade da nação?!
Infelizmente meu caro amigo, na nossa terra há ainda quem tenha ideia, de imaginar que pó de arroz ilude a natureza.
Sabe o que é isso? Falta de instrução...
È por esta razão que bendirei sempre o nome de Augusto do Benemérito presidente do Rio Grande do Sul, Dr. Barbosa, que corajosamente fez admitir em Pelotas e na cidade do Rio Grande dois meninos de cor preta, em estabelecimento de educação superior.
É que o velho republicano que governa atualmente esse glorioso estado (minha terra adotiva) entende que país só é grande pela instrução de seus filhos.
Procura incutir no ânimo dos nossos irmãos ai, o amor e a dedicação ao Dr. Barbosa, lembrando á todos, que foi ele quem quebrou o preconceito de não se admitir meninos de cor preta nos ginásios do Rio Grande do Sul.
Para mim a gratidão e um sol de justiça.
É preciso que os sucessores d’este grande republicano lhe imitem este exemplo.
Aceita os meus cumprimentos e transmite os abraços de fraternidade aos velhos dedicados companheiros.
Monteiro Lopes” (A Alvorada, 6/03/1932, p. 1).
O episódio envolvendo a posse do deputado federal foi elucidativo a fim de compreendermos não apenas o associativismo negro em Pelotas, mas também, e principalmente as formas que conduziam a manifestação de uma identidade negra. Identidade esta fruto de uma época e que assim, adotava características peculiares. Nesse sentido destacamos a invocação do termo “etiópico”, seguido por “homens de cor” e “cor preta“, como sinônimos do atualmente invocado como o generalizante “negros”. Estas características e os adjetivos empregados faziam referência a um momento especifico da movimentação negra nacionalmente. De acordo com Domingues (2007) A primeira fase, centrada entre os anos de 1889-1937, caracterizou-se pela ideologia nacionalista, alinhados às forças de direita, enquanto posição política; auto- identificando-se enquanto homens de cor, pretos, patrícios e/ou Etiópicos. Pregava-se o afastamento da cultura de origem em relação com a cultura negra, em direção à
mestiçagem, e tendo como data de comemoração o Treze de Maio101.
101 Já a segunda fase manteria a ideologia nacionalista, encarando o problema enfrentado pelos negros
Nesse sentido a transcrição anterior evidencia o alinhamento com as forças de direita, em função de seu apoio a medidas repressivas ao preconceito no meio mais caro aos identificados com o elevamento moral dos negros, ou seja, a educação, através do apoio do deputado federal ao então presidente do Rio Grande do Sul e incentivo a que todos o apoiassem. Destacamos ainda o invólucro que por anos, cobriu a data do 13 de Maio, enquanto demonstração da derrocada do sistema monárquico. Porém, a passagem transcrita, criticava as medidas pró-mestiçagem e branqueamento, ao referir-se aos negros que se utilizavam do pó de arroz como negação de sua cor, isso era, segundo o escritor da missiva, uma demonstração da falta de instrução de seus co-irmãos. Esta negação coloca-se, a nosso ver, enquanto característica principal da manifestação de uma identidade negra, que valorizava a cor dos negros e buscava uma positivação deslocando a critica para o efetivamente considerado importante, ou seja, a busca pela instrução102.
Estas características foram encontradas e acionadas em momentos específicos, conforme pontua(re)mos ao longo do trabalho. Porém, foi possível destacar a abrangência que o próprio termo “Monteiro Lopes” passou a ter, visto serem comuns expressões como a raça de Monteiro Lopes, em referência aos negros. Acionavam-se
assim características que assinalavam, uma positivação da identidade103. Não evocavam
o período anterior, ou seja, a escravidão, provavelmente devido à carga pejorativa e de
em relação com a cultura negra existiria uma ambigüidade latente, pregando por vezes o afastamento da cultura de origem, em direção à mestiçagem, mas, também reverenciando alguns termos como samba/capoeira/religião afro e teriam como data de comemoração o Treze de Maio. A terceira fase (1976- 2000) seria internacionalista, o problema do negro seria diaspórico, busca-se então estabelecer uma conexão entre o problema do negro nos EUA e na África (afrocentrismo); auto-identificando-se enquanto negro e/ou afro-brasileiro. Posicionavam-se contra a mestiçagem e em defesa da cultura negra, surgindo nesse contexto o 20 de novembro como data de comemoração no qual Zumbi aparece como herói nacional, tendo-se ainda a explosão da imprensa negra. Informações obtidas no mini-curso ministrado por Petrônio Domingues e José Antonio dos Santos, intitulado “O negro no pós-Abolição: organização e luta”, entre os dias 15 e 20 de julho de 2007 no XXIV Simpósio Nacional de História. Uma análise do mesmo assunto pode ser obtida em DOMINGUES (2007).
102 Nesse sentido destacamos ainda, que a carta foi transcrita em 1932, ano em que começa a se articular a
campanha pró-educação, desenvolvida pela Frente Negra Pelotense, da qual o jornal A Alvorada foi o porta-voz. Abordaremos essa campanha no próximo capítulo.
103 Esta expressão, enquanto acionadora da identidade negra positiva, pode ser encontrada mesmo após a
manutenção do Centro, como por exemplo, em uma carta enviada por um também deputado, o classista Carlos Santos, em 1932 ao jornal A Alvorada na qual consta a seguinte passagem “Bailes – são os faróis majestosos conduzindo a mocidade da estrada recurvada do progresso moral e material da raça de Monteiro Lopes, e a mocidade dança esquecida de que é, muitas vezes, na coragem louca dos tangos e das valsas, é no Jazz – mania com os pés os louros dourados que, si não estivessem espalhados pelo chão formariam a grinalda belíssima que deveria cingir a fronte brônzea do negro glorificando-o pela sua altivez, elevando-o pela grandeza de seu valor moral“ (A Alvorada, 5/05/1932, p. 2). Encontramos ainda a presença da expressão Monteiro Lopes em um time de futebol, o qual provavelmente possuía jogadores negros, visto o encontrarmos em atividades junto à Liga de Futebol Independente José do Patrocínio, intitulado Sport Club Monteiro Lopes, o qual, segundo LONER (2008, p. 260), teria funcionado entre os anos de 1913 e 1927.
preconceito ainda vivenciada em grande medida, mas buscavam, através de exemplos que traziam consigo não apenas o estigma da cor, mas principalmente a demonstração de que aos negros era possível ascender às posições reconhecidas positivamente frente à sociedade em geral. Assim, buscavam incutir valores considerados por eles positivos a comunidade de seus irmãos de cor, isto ficou evidente ao atentarmos para o fato de que a carta de Monteiro Lopes foi transcrita novamente na edição de seis de março do ano de 1932, ou seja, passadas mais de duas décadas do acontecido, esperava-se que o
ocorrido incutisse valores positivos na comunidade negra pelotense104.