Um estilo visual se define pelo uso da forma, da cor, do volume e da disposição dos elementos visuais. Quando não há idéias prévias à pré-produção, a criação do estilo começa com uma leitura atenta do roteiro e do que este descreve sobre a aparência do filme. Enquanto o roteiro técnico é elaborado, o diretor idealiza a parte imagética do filme. Estas idéias são transmitidas ao desenhista de produção, que elabora os primeiros desenhos, considerando as necessidades principais para cada um dos elementos citados por Jussan (2005): cenários, ambientes, ângulos de câmera, objetos etc. Estas necessidades consideram ainda a equipe que estará presente para a realização da gravação. Deve-se lembrar que filmes live action utilizam animação tridimensional e que a recíproca é verdadeira, os filmes de animação 3D fazem uso de imagens registradas ao vivo como referência do movimento que se deseja reproduzir.
Para filmes exclusivamente com imagens em movimento através da aplicação do recurso digital em terceira dimensão, o trabalho desenvolvido pelo desenhista de produção se assemelha ao que é voltado a filmes com cenas ao vivo, pois há demanda de estudo do espaço cênico tal qual no mundo real. Em outras palavras, há uso de dimensões reais (ou proporcionais a esta) para a altura, largura e profundidade. Os cenários, objetos de cena e personagens digitais ocuparão espaço, só que virtual (criado no computador).
Após a indicação do que será preciso fazer em termos visuais para o filme por parte do desenhista de produção, começa o processo criativo de forma mais detalhada. Segundo Roger Von Oech (1988), o processo criativo consiste em desempenhar quatro papéis diferentes; cada qual com um modo específico de pensar. É como se Oech recomendasse que para ter um desempenho altamente criativo o indivíduo precisasse agir da seguinte forma:
• ao precisar de idéias novas diferenciadas, o indivíduo precisa se tornar um explorador e pesquisar até mesmo em lugares que acha que não deve;
• ao converter dados (coletados durante a exploração) em idéias, é preciso estudar todas as possibilidades destas idéias (até mesmo sentidos contrário ao que elas possam possuir), como um artista a desenvolver um assunto;
• ao avaliar as possibilidades de aplicação das idéias, há a necessidade de verificação da real possibilidade de empregá-las de acordo com a necessidade, como um juiz a ponderar sobre cada hipótese disponível;
• e quando for chegado o momento de executar as idéias já selecionadas, usar meios de fazê-las dar certo, como um guerreiro.
A atribuição das características destes quatro diferentes tipos de personalidades (explorador, artista, juiz e guerreiro) apontadas por Oech refere-se às suas atitudes diante das tarefas que lhe são apresentadas: pesquisa; adaptação da idéia com uso da imaginação; questionamento e avaliação; ousadia e determinação. Adequando essas características para a arte de concepção aplicada aos filmes, estas personalidades combinadas têm por objetivo final buscar as melhores, as disponíveis e as possíveis características que formarão o alicerce sobre o qual se apoiará a visão do espectador quando for assistir à narrativa.
Se o diretor ou o diretor de arte percebem que há algum artista com trabalho semelhante ao que é desejado aplicar à narrativa, é realizada uma pesquisa sobre como adaptar o estilo do artista aos aspectos visuais desejados. O uso de um trabalho já existente fornece este alicerce pronto, precisando apenas ser adaptado. Foi o que ocorreu com os artistas Gustaf Tanggren em Pinóquio (Pinocchio – EUA, 1940), com direção de Ben Sharpsteens & Hamilton Luske, e com Tyrus Wong em
FIGURA 3 - Trabalhos dos artistas Gustaf Tanggren e Tyrus Wong para Pinóquio e Bambi respectivamente.
Fonte: DVD Mulan. Buena Vista Home Vídeo.24
Se não há um estilo de referência, a pesquisa concentra-se em todas as imagens (desenhos, pinturas, esculturas, fotos etc.) fornecedoras de informações que sirvam de guia para a criação de outras idéias. Funcionando, assim, como um “mapa” para obtenção de algo ainda por definir. Grandes estúdios costumam ter uma biblioteca com acervo considerável de imagens que podem ser utilizadas como fonte de inspiração para os artistas conceituais.
Com a internet e os serviços de busca, como o website Google Images, fazer uma pesquisa por imagens tornou-se uma tarefa muito mais rápida e econômica – não necessariamente eficiente. Além dos websites de busca, há empresas, com serviços disponíveis na internet, que vendem fotografias e ilustrações, como o Stock Photos. Com serviços como estes, a pesquisa por imagens de referência atingiu um ponto de maior popularidade. Isso se torna ainda mais efetivo quando se observa que os websites que vendem as imagens fornecem uma amostra em baixa resolução (72 DPI)25 das mesmas. Caso as imagens venham a servir apenas como inspiração para obtenção de novos resultados, não se faz necessária as suas compras em alta resolução (acima de 300 DPI).
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Embora as imagens sejam referentes a Pinóquio e Bambi, elas estão disponíveis nos bônus do DVD de Mulan.
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DPI significa dots per inche (pontos por polegada). No caso utilizado no texto, a imagem em baixa resolução possui 72 “pontos” por polegada para ser representada na tela do computador. Os pontos são os pixels (pontos luminosos que podem acender ou apagar na cor que se deseja) que são exibidos pelos monitores dos computadores.
Normalmente, mesmo com as indicações do diretor e com uso de imagens de referência é feita uma sessão de brainstorming26 sobre possibilidades outras de exploração da aparência do filme.
Avaliar e buscar nas imagens de referência aquilo que é útil para o processo de criação é certamente a melhor utilidade que se pode ter durante o processo de desenvolvimento da concepção. Servir como guia no processo criativo não significa plagiar. Um dos motivos de se criar concepções visuais é poder proporcionar novas experiências ao espectador. Muitas vezes, o trabalho do explorador está destinado a seguir caminhos até opostos ao que se pretendia. Afinal, caminhos evitados podem guardar boas surpresas.