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ETKİN BİR RİSK YÖNETİMİ İÇİN KRİTİK BAŞARI FAKTÖRLERİ

Belgede Kamu İç Kontrol Rehberi (sayfa 32-37)

farmácia resolveu pegar carona com os Arara que desciam o rio até Altamira. Na embarcação também estava Motjibi, Agente Indígena de Saúde, que deveria ocupar o cargo, mas que teve que ir resolver questões referentes à Norte Energia. A enfermeira deixou no nosso encargo, meu e da Carol, para dar os remédios controlados para certos pacientes, tal como estava prescrito. Sem saber lidar com a situação, acabamos concordando, mas dissemos que não iríamos fazer nada além disso, por não termos experiência para os tratamentos. No entanto, alguns apareciam lá, de manhã e de tarde, tal como estão habituados, pedindo certos remédios. Dissemos que não podíamos dar, que não sabíamos e que era proibido fazer isso. Aos poucos foram parando de aparecer, desistindo de insistir. Entretanto, outros seguiram o costume de ir na farmácia nos horários costumeiros, principalmente os mais velhos. Perguntando o que queriam, diziam: “espiá”, e às vezes falavam que estavam passeando, e lá se encontravam com outros e ficavam batendo papo. Aparecia também, frequentemente, pessoas machucadas, com cortes ou com pancadas e pediam pomadas, dizendo já o nome, e de tanto insistir, acabávamos liberando. Também queriam fio dental, pasta de dente, sabonete para problemas na pele, shampoo, para caspas, e etc. Assumimos a responsabilidade de dar tais coisas, tal como nos alertou a enfermeira, mas não dávamos remédios mais fortes.

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Também tivemos que assumir o rádio, informando como estavam as coisas e pedindo insistentemente para que o Dsei enviasse o quanto antes alguém para atender à aldeia, que parecia cada vez mais aparecer gente doente.

Diante da crise, comecei a ver algo inusitado na aldeia: as pessoas começaram a aparecer pintadas. O motivo expresso no corpo, era claramente o da onça, dois traços no tronco, com pingos de um lado e do outro feito com jenipapo, que se via em quase todas as crianças, nos adulto e nos velhos principalmente, apesar de até alguns jovens terem aderido à pintura em tal momento. Vendo as fotos dos Xikrin da minha orientadora e também da Camila, (companheira de pesquisa) sempre tinha muita gente pintada, assim como nas fotos da Xanda de Biase, que fez pesquisa com os Assurini, também companheira do OEEI. Perguntava-me por que os Arara não se pintavam mais. A ocasião me mostrou que a questão estava errada, eu deveria querer entender o que os fazem se pintarem, e tudo leva a perceber que vem com a necessidade. Disseram-me que pinta para parecer com onça, para confundir espírito mal. Antigamente não tinha pintura, foi a irmã de Tagatji (beija-flor), uma Deusa, quem deu para ajudar os Arara, disse E´ggoi, em português, para mim. Além disso, como explica Teixeira-Pinto:

“Por evidenciar o destino escatológico de suas partes, toda pintura posta sobre os corpos é como o próprio índice dos múltiplos destinos de cada indivíduo (que não é, portanto, indiviso), e também o laço de união que liga o futuro de cada ser humano vivo com o presente daqueles que já morreram e foram transformados pela divindade. Por isso, pintam-se os corpos como forma de revocar a identidade essencial dos vivos com os seres que, esquecidos de sua origem pelas transformações que sofreram, agora os ameaçam.” (1997, 165)

Seja para se confundir com as onças e/ou para “revocar a identidade essencial dos vivos” com os seres que morreram que agora os ameaçam, quais os efeitos que a farmácia e os remédios proporcionam? Parece que com a disponibilidade da farmácia e dos remédios, os Arara não buscam sempre o xamã para o tratamento da doença, a farmácia aparece com mais eficácia, perdendo-se nisso a relação da causa e efeito da doença? Não, o que a ausência da farmácia demonstrou é que a ligação à causa das doenças (espíritos maléficos, feitiçaria) ainda existe, o que continua causando doença é a presença de “corpos invasores”. Os remédios da farmácia estão tratando à gripe, à malária, e tantas outras coisas que às vezes os xamãs conseguem e não conseguem tratar, mas quem propaga o contágio dessas doenças são espíritos maléficos e feiticeiros, logo, a doença é

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apenas a expressão da ação externa de um outro. Ou seja, apesar de estarem usando uma tecnologia nova para o tratamento e a proteção, que às vezes é mais eficiente do que as pinturas corporais, ainda assim a doença está ligada ao modo como percebem o mundo.

Apesar de saber que os remédios e a farmácia são incorporados e ressignificados pela ordem simbólica Arara e não geram tantos transtornos nessa esfera, o que se passa no corpo com a ingestão prolongada e viciada dessas substâncias? Que outros efeitos acontecem com a ingestão e incorporação dos remédios na vida Arara?

Parece ser claro que a indústria farmacêutica trata os sintomas imediatos das doenças, deixando a pessoa “bem” com o consumo do remédio, que é criado a partir da relação de diferença de composição de um corpo saudável (normal) e um corpo vil (anormal), estipulado socialmente. No entanto, alguém com dor de cabeça que tomou apenas uma aspirina, tende a manifestar novamente os sintomas, já que apenas remediou o problema, criando um ciclo vicioso entre o doente e o remédio, necessitando sempre do aporte externo, afastando o doente da causa. E o que seria a causa da doença? Para os Arara, é fruto da ação de um agente externo, feiticeiro ou espírito maléfico, é a predação a vitalidade. Apesar de o sistema xamânico não deixar de existir, a farmácia e os remédios substituem sempre que possível o tratamento xamânico, criando uma ausência do seu papel de “curador” – sobrando mais sua potência para a feitiçaria. E quem toma o remédio vai se entupindo com as substância viciantes dos remédios.

Hoje, é comum numa aldeia indígena uma farmácia, e existe essa necessidade, há doenças que mesmo os xamãs mais experientes não conseguem curar. Mas para além da necessidade, as aldeia são também espaço de expansão e escoamento da indústria farmacêutica, onde a maior parte dos medicamentos que estão quase vencidos vão parar. O Estado agora cobre os custos do que a indústria farmacêutica privada iria perder, dando esse vicioso problema para quem está mais “afastado” de sua importância: os índios, e imagino que também tantas outras populações que fogem das “holofotes” de sua importância.

Longe de um atendimento mais especializado que possa buscar entender o que vem gerando problemas que fazem os índios consumirem tantos remédios – pude ver que os Arara consomem muito remédio, cada vez mais, como também ouvi outros

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antropólogos e conhecidos que moraram numa aldeia dizerem desse consumo excessivo de remédio pelos indígenas. Não é um problema particular Arara, e também ainda não aparece muito bem como um problema para os Arara – mas eu deveria deixar de tratar de tal assunto? Consumindo remédio, os tratamentos à base de banhos de ervas, de infusões e ervas para inalação, e outras formas tradicionais de cura, são mais frequentemente substituídas pela ingestão de pílulas – é mais fácil, dizem, apesar de às vezes ainda recorrerem a esses tratamentos “tradicionais”. Um não nega o outro, mas a facilidade é a primeira opção, que tende a se repetir com a eficácia do procedimento. Assim, as técnicas de cura vão sendo substituídas, mas de um modo geral, como fica a cosmologia?

Quando os Arara pegam uma doença “incurável”, que nem mesmo os remédios dos karei resolvem, usam o amiantjibyly. Um remédio do mato que fazem com certa batatinha que só dá em certas épocas e locais. É remédio que tem espírito, que é preciso de muito cuidado para usar, necessitando de jejuns e isolamento para a cura, ou então a pessoa pode morrer, dizem. É um modo de se curar qualquer doença, que antigamente e ainda hoje é dado para que as crianças que têm muitos pesadelos parem de sonhar, de modo a pararem de acordar à noite com medo e ficarem sem dormir. Dizem que é remédio que tem espírito protetor e auxilia se usado de modo correto, ou o efeito é para o “mal”, deixando a pessoa confusa se usado incorretamente. Durante a noite, é o momento que mais aparecem tjarupa´gmo, espíritos de parentes mortos com saudade e perdidos. O xamã tem o papel de os afastar, não só conversando com eles, como também dispondo plantas que têm cheiro “ruim” para esses seres, que os afasta, o que caracteriza a faculdade das sensações para tais, e até mesmo de um corpo, já que estão em busca da “vitalidade” das pessoas.

“A pessoa está composta não apenas pelo corpo físico, que em suas diferentes partes dentro de si carrega virtualmente os seres em que será transformado, mas também pelos processos de aquisição e acumulação de certas substâncias que são vitais para sua produção e reprodução. (...) cada indivíduo é uma combinação das substâncias daqueles que o geram ou o alimentam ao ventre (...), e das substâncias que vai adquirido em vida, formando as partes ‘moles’ ou ‘úmidas’ do corpo”. (Teixeira-Pinto, 1997, 158-159)

Tal como a constituição do cosmo, o corpo Arara é constituído pela violência, a predação, que tem forma nos jaguares e tjarypa´gmo, como também pelos pande´gmo, que indica a uma ancestralidade Arara, dos quais se conta que um sujeito descobriu e

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roubou o fogo da lontra, que pois asas nos pássaros devido a atitudes egoístas, e fez outras artimanhas com características sobre-humanas.

Tal cosmologia persiste, histórias e acontecimentos com a presença desses seres são recorrentes ainda. As crianças ainda recebem tratamento com amiantjibyly, apesar de disso saber apenas pelas crianças. Diferente da precaução que têm com seus tratamentos, o remédio do karei se consome como se não houvesse problema, visto os imediatos efeitos sobre o corpo. Persiste o problema da incorporação dos remédios sem saber bem os riscos que estão ingerindo junto, criando um corpo preso ao problema que torna a aparecer eternamente e a ser remediado com o excremento da indústria farmacêutica.

Mesmo que os remédios da farmácia substituam com frequência modos “tradicionais” de tratamento, tendo em vista a eficácia diferencial frente as diferentes doenças, os Arara continuam se protegendo contra espíritos maléficos, usando das plantas do mato que homens e mulheres conhecem para afastar seres indesejáveis, assim como ainda é comum usarem do auxílio de uma planta que “tem espírito” para afastar os pesadelos. Para isso, há prescrições e cuidados específicos pelos quais as crianças pequenas têm que passar – tratando-se de algo parecido com uma iniciação xamânica, apesar de dizerem que não se forma mais xamã hoje em dia. Tudo parece demonstrar que apesar dos meios de cura para certas doenças, o sistema xamânico continua em vigor, em transformação.

Belgede Kamu İç Kontrol Rehberi (sayfa 32-37)