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Etiğin Nesnel ve Evrensel Oluşu

3. BÖLÜM: KIERKEGAARD’IN BENLİK ARAYIŞI VE VAROLUŞ ALANLAR

3.5. Etik Varoluş Alanı ve Toplumsal Benlik

3.5.1. Etiğin Nesnel ve Evrensel Oluşu

Os primeiros enunciados “sobre a natureza social, econômica e política da mutação tecnológica no domínio das comunicações”, em meados da década de 1960, marcam o início do desenvolvimento do leitmotiv da ‘revolução das comunicações’. Entre seus pioneiros estavam Daniel Bell, com suas teses sobre a sociedade pós- industrial, e Zbigniew Brzezinski, com sua sociedade tecnotrônica. Ambos os autores tinham como preocupação “antecipar e preparar o futuro da sociedade surgida da revolução industrial” e, para escapar à problemática exclusiva da mídia, buscaram reposicionar-se no contexto mais amplo do novo sistema tecnológico das comunicações (MATTELART, 1994, p.148).

A ‘sociedade tecnotrônica’ de Brzezinski (1970), conforme referido por Kumar (1997), é uma sociedade cuja forma é determinada pela influência da tecnologia e da eletrônica, em particular no domínio dos computadores e das comunicações. Seu correlato é a ‘cidade global’, que consiste de um novelo de relações interdependentes. Nessa sociedade, a noção de globalidade é central e as comunicações são indicadas como sua causa evidente e imediata. Esse autor fala de uma nova divisão mundial do trabalho, na qual a liberdade de ação das grandes unidades econômicas supranacionais com vocação multinacional é legitimada, apesar de reconhecer tratar-se de uma expansão que dificilmente se conforma com a idéia de soberania.

Por sua vez, Bell (1980)45 coloca o computador como centro da sua concepção, o seu principal símbolo e ‘motor analítico’. Para esse autor, a possibilidade de expansão do ‘conhecimento teórico’ está associada ao desenvolvimento das novas tecnologias de informação e seu uso potencial por todos os setores da sociedade. A “transformação revolucionária da sociedade moderna” (sic) é considerada como

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Embora não se exprima explicitamente em termos de ‘sociedade da informação’, Daniel Bell irá tornar-se o maior expoente dessa perspectiva. A introdução do conceito de sociedade pós-industrial data de fins da década de 1960, quando esse autor, tomando como base as modificações na estrutura de empregos nos EEUU após década de 1950, que apontavam que o setor de serviços havia superado o setor industrial em termos de emprego, considerou que se estaria vivendo uma ‘sociedade pós-industrial’.

resultado dos “novos métodos de acessar, processar e distribuir informação”, o que transforma o conhecimento e a informação em ‘recursos estratégicos’ e agentes transformadores da sociedade pós industrial (Bell, 1980 apud KUMAR, 1997, p.21).

Bell (1978) passa a utilizar o crescimento quantitativo dos ‘empregos ligados ao conhecimento’ em relação ao número de empregos do setor terciário como argumento para evidenciar a emergência de uma sociedade na qual o conhecimento estaria se tornando o elemento chave.

Entretanto, o ‘conhecimento’ ao qual esse autor se refere é um conhecimento que pode ser reproduzido na tecnologia. Dessa forma, ‘conhecimento’ torna-se sinônimo de ‘informatização’, o que vai permitir que se atribua às tecnologias de informação e comunicação a capacidade de serem os ‘agentes de mudança social’, a ‘força motriz’ das transformações sociais. Esse autor vai destacar o aumento de produtividade decorrente dessa inovação tecnológica como a base para uma outra sociedade, atribuindo às tecnologias de informação e comunicação uma autonomia tal que não só as coloca como agentes decisivos de mudança social, como também as situa com agentes alheios ao próprio mundo social sobre o qual atuam. Como Bell (1978) ignora os fatores sócio-econômicos envolvidos na determinação das opções tecnológicas, não lhe interessa a contextualização sócio-histórica do seu advento. Isso lhe permite falar de uma ‘sociedade do conhecimento’ abstrata e aplicável a qualquer realidade social.

Com um discurso apoiado em imagens de forte apelo popular46, a idéia de ‘sociedade da informação’ foi disseminada através de um amplo processo de divulgação na mídia, bem como por meio de best sellers de cunho jornalístico (MATTELART, 1994), como forma de corroborar os progressos obtidos na ‘tecnologia do controle e da comunicação’, denominação que antecedeu a expressão tecnologia da informação.

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Expressões como ‘sociedade da informação’, ‘trabalhador do conhecimento’, ‘máquina inteligente’ e ‘autopista de informação’ estão entre as imagens mais divulgadas para referirem-se à disseminação das novas tecnologias de informação e comunicação.

Evidência da adoção dessa perspectiva tecnológica como premissa para as iniciativas de ‘sociedade da informação’ é a consideração de Fernández-Aballí (1999) ao falar da estratégia regional de informação e informática, para o período 2000-2001, para a América Latina e o Caribe. Entendendo por ‘sociedade da informação’ o ambiente social resultante da apropriação e utilização da informação em grande escala, Fernández-Aballí (1999) vai afirmar que “a introdução imediata na prática social destes novos produtos e serviços está transformando acelerada e definitivamente a forma segundo a qual os seres trabalham, vivem e se relacionam e, portanto, vai modificar de forma permanente a educação, o trabalho, o governo, os serviços públicos, o mercado, as formas de participação cidadã, a organização da sociedade e as relações humanas, entre outras coisas”. E, em seguida, vai apontar os requisitos fundamentais para que os efeitos da ‘era da informação’ tenham conseqüências sociais amplas em qualquer país, como sendo “a implantação de uma infra-estrutura nacional de informação; a operação e manutenção de uma infra-estrutura de redes informáticas; a formação maciça de recursos humanos; a atualização dos profissionais e técnicos do setor da informação” (p.2/3).47

Desde o início da década de 1980, prognosticava-se que o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação iria permitir a combinação de satélites, televisão, telefone, cabos de fibra ótica e microcomputadores que, unificados, seriam o indicativo de uma ‘economia realmente global’, posto que juntariam o mundo em um

“sistema unificado de conhecimento” (sic) (NAISBITT, 1984). Argumentos como

esse permitiram também o advento dos discursos acerca da eliminação das hierarquias típicas de organizações centralizadas da era industrial e sua substituição por estruturas em redes de organizações e comunicações, cujo resultado seria a “formação espontânea, igualitária e natural de grupos de pessoas de mentes semelhantes” (sic) (idem). Alguns autores, como Stonier (1983), foram ainda mais além e argumentaram que, ao difundir informação por toda a sociedade, a ‘sociedade da informação’ iria promover a democracia ao tornar as pessoas “mais alertas e cultas” (sic). Outros, como

47 Conforme se verá adiante, estes requisitos estão presentes, de forma generalizada, nas inúmeras iniciativas de construção de ‘sociedade da informação’ propostas.

Masuda (1985), citado por Kumar (1997), referiram-se, inclusive, a uma sociedade sem classes, “isenta de um poder dominante” (sic) e organizada em torno de comunidades voluntárias, anunciando o advento de uma democracia participativa e de sistemas de administração local feitos pelos cidadãos.48

Como se vê, o discurso da ‘sociedade da informação’, sempre apontando para uma ‘tecno-utopia’, fala de mudanças profundas em toda a sociedade, não se restringindo às modificações na estrutura tecno-econômica. A ‘sociedade da informação’ é colocada como a inauguração de mudanças no nível mais profundo da sociedade, capaz de transformar a fonte da criação de riqueza e de modificar os fatores determinantes da produção.

Entretanto, afirmativas tão caras a autores como Bell (1980) e Toffler (1981) de que se esteja estabelecendo um novo princípio de sociedade ou de que se esteja diante do advento de uma ‘terceira onda’ da evolução social têm sido contestadas com argumentos de que as tecnologias de informação e comunicação tão somente aceleraram processos que, em numerosas áreas, já haviam sido iniciados, facilitando estratégias de administração de empresas, promovendo, em muitas profissões, a mudança da natureza do trabalho e ensejando o desenvolvimento de novas tendências em relação ao lazer e ao consumo (KUMAR, 1997). Como pondera esse autor, ainda que estejam ocorrendo significativas mudanças no caráter da organização industrial e na natureza do trabalho, como conseqüência da nova divisão internacional do trabalho e do capitalismo em escala mundial, as mudanças identificadas não significam que o advento das tecnologias de informação e comunicação tenha alterado os princípios fundamentais do capitalismo.

A idéia de ‘sociedade da informação’ reflete a pretensão de se estar diante de uma ‘nova’ sociedade em substituição à sociedade do industrialismo clássico. Como destaca Kumar (1997), essa idéia ajusta-se à tradição liberal e progressista do

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A despeito do caráter fantasioso destes prognósticos, sua função ideológica é real, até mesmo porque, como destacado por Kumar (1997), o advento das novas tecnologias de informação e comunicação fez do cotidiano - que oferece os elementos para a apreensão da realidade pelas pessoas - o alvo de inúmeras e bruscas mudanças.

pensamento ocidental na medida em que mantém a fé no iluminismo, na racionalidade e no progresso. Como argumenta o autor, a aceleração no suprimento e uso de bens de informação – a ‘revolução da informação’ – não equivale ao advento de uma ‘nova’ sociedade. Ao contrário, uma de suas maiores conseqüências é a de prover as sociedades industriais de meios para que possam fazer mais, e em maior extensão, o que já vinham fazendo.

Nesse sentido, a emergência dessa ‘sociedade da informação’ ocorre paripassu com a aceleração do processo de incorporação de atividades até então não mercantis ao mercado de bens e serviços. Essa mudança vai se dar fortemente no âmbito do ‘lazer e da cultura, que se tornam cada vez mais mercantis. O trabalho é ainda mais industrializado e submetido a estratégias fordistas e tayloristas de mecanização, rotinização e racionalização. A educação, os meios eletrônicos de divulgação e as artes, tanto quanto a saúde, a seguridade social, a polícia e os serviços penitenciários, vão ser alvo desse processo de mercantilização. “Em todos os espaços do ‘mundo da vida’, o capitalismo descobriu o material necessário para transformar tudo em novas mercadorias e em consumismo” (KUMAR, 1997, p.201).

A casa, como ‘espaço da vida’, vai se tornar um alvo claro para a expansão das tecnologias de informação e comunicação, especialmente nos setores do lazer e entretenimento. “A transformação do consumo (...) segue também a conhecida lógica do capitalismo, isto é, está interessada em incluir um número sempre maior de áreas da vida social e cultural em seu campo de atividades e na racionalidade do mercado” (KUMAR, 1997, p.165). Para esse autor, “do ponto de vista da tecnologia da informação, distinções entre escritório e lar, entre trabalho e ócio são, em grande parte, secundárias. Na verdade a TI49 trabalha para torná-las irrelevantes” (p.42).

A esse movimento de comercialização em todos os setores da sociedade Kumar (1997) vai denominar de “individualismo de mercado, ou econômico”. As desigualdades sociais existentes são mantidas e ampliadas. Abre-se um novo hiato de informação entre produtores e usuários da nova tecnologia e os seus clientes passivos,

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compradores e consumidores, que são os cidadãos comuns, os trabalhadores semi- especializados e, também, os países periféricos.