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Paralelamente a este quadro sócio-analítico não podemos deixar de nos reportar ao fenômeno amplo do pluralismo religioso, ainda não suficientemente discutido. Seguiremos aqui a análise proposta por Elias Wolff37, doutor em teologia e muito atento à construção de uma eclesiologia ecumênica.

Sabe-se que o pluralismo é um fenômeno complexo que se manifesta de forma multifacetada e em âmbitos distintos nos meios sócio-cultural, econômico, religioso e eclesial. Suas raízes no meio eclesial estão localizadas nas disputas teológicas, exegéticas, institucionais e até mesmo, espirituais vividas no cristianismo em todas as épocas. As diferentes tendências procuram afirmar sua hegemonia dando origem a uma organização multiforme na compreensão e atualização da missão própria da Igreja de Cristo.

Este fenômeno ganhou consistência com o advento da modernidade e sua visceral oposição às “metanarrativas” e ao chamado pensamento “forte”. A emergência de novas formas institucionais e doutrinais da fé cristã mostra que o evangelho é capaz de fornecer subsídios fiduciais que garantem a compreensão da Igreja para além dos princípios estabelecidos por uma fé pela tradição das igrejas. E mais: a normatividade própria de cada confissão está vinculada ao âmbito da própria tradição. Assim, cada tradição religiosa se sente responsável pela conservação do arcabouço doutrinal, entendendo manter a integridade e pureza do evangelho como verdade que garante a salvação, finalidade que impregna sua teologia, seu culto e sua ética. A extrapolação das próprias tradições quando se quer uma resposta abrangente para todo o mundo cristão que garanta a legitimidade da fé acaba colocando em crise este modelo. O absoluto se torna relativo. O pluralismo não admite qualquer tipo de monopólio e entra em crise a plausibilidade universal que uma tradição eclesial apresenta como segurança da verdade cristã.

Em si mesmo, tal dissenso pode ser legítimo se considerado o fato que a mensagem cristã não possibilita interpretações definitivas pautadas num único referencial hermenêutico. /.../ Contudo, quando o dissenso manifesta

controvérsias doutrinais e de autoridade que acarretam divisões na comunidade cristã, ele é mais do que um posicionamento hermenêutico diferenciado38.

Este pluralismo pode evoluir e não raro evolui, para uma mútua incompreensibilidade das posições sustentadas por indivíduos ou grupos, originando um afastamento progressivo que pode chegar até o enfrentamento. Assim entendido, o pluralismo passa a ser a expressão da nítida divisão na compreensão e aplicação do conteúdo do Evangelho. Apresenta uma imagem incompreensível quando não ilógica perante a mentalidade pós-moderna atraindo paulatinamente o descrédito por se tratar de uma “inutilidade inverossímil”.

Divididas, as diferentes Igrejas correm o risco de apresentarem apenas facetas ou vultos fragmentados de Cristo e do seu evangelho de modo que a diversidade de Igrejas, nesse caso, dificilmente pode ser expressão positiva da pluralidade dos caminhos compreendidos como riquezas doadas pelo Espírito para o encontro com Jesus Cristo39.

Parece que as diferentes tradições se afastaram dos elementos de convergência umas das outras, construindo sua identidade apenas sobre os fatores de distinção. Assim, definiram um patrimônio próprio e não estão abertas a rever seus fundamentos em sua legitimidade e/ou oportunidade.

Acresce a isso, no quadro exposto, a incidência de elementos culturais como o relativismo e o indiferentismo que contribuem para uma percepção negativa do pluralismo religioso especialmente quando tratado pela mídia impressa ou eletrônica.

No pensamento do autor, é urgente uma leitura do pluralismo eclesial que resgate os elementos que indicam a comunhão entre os cristãos a partir do universo plural que se formou nos últimos séculos e no qual estão mergulhados superando os elementos estruturais, rituais ou éticos e avançando para o nível mais radical da mensagem cristã: kerigma, koinonia e charitas. A proposta para uma “eclesiologia ecumênica” é elaborar uma leitura enraizada na própria confissão religiosa que contemple a realidade eclesial situada para além da própria tradição. Em outras

38 WOLFF, Elias. A unidade da Igreja. Ensaio de eclesiologia ecumênica. São Paulo: Paulus, 2007, p. 28. 39 Id. Ibidem, p. 29.

palavras, a verdadeira eclesialidade extrapola a confessionalidade mesmo a de maior duração histórica ou expressão estatística.

Uma atitude inteligente a nosso ver, é constatar que à distância do tempo, as questões semânticas e de linguagem que nos tempos de controvérsia intensa, obscureceram o conteúdo comum da fé e as posições extremistas e unilaterais foram movidas mais por apegos ideológicos do que justificativas teológicas. Se mudou a situação histórica na qual as contendas foram originalmente editadas, mudou também o método e a impostação dos problemas teológicos. A questão a ser respondida é se, de fato, as razões do passado possuem, no presente o mesmo potencial de divisão na igreja. É preciso reavaliar os famosos “pressupostos da separação”. A evolução dos estudos demonstra que o conteúdo comum da fé continuou existindo mesmo quando, durante séculos, as tradições se imaginavam teologicamente divididas.

Não é mais uma tarefa simples afirmar hoje razões teológicas suficientemente consistentes para manter o afastamento mútuo. Afirma o autor: “Assim, a superação desse estado exige que as razões particulares das tradições eclesiásticas não sejam o fator determinante das relações intereclesiais. O determinante é o Evangelho. Esse tem força unitiva”40.

Pelo viés sociológico, compreende-se o pluralismo religioso, numa leitura superficial, como expressão direta do largo pluralismo cultural que vive a sociedade. Assim como as diversas culturas expressam legitimamente a diversidade do universo humano nas diferentes sociedades também as diferentes igrejas seriam legítimas expressões decorrentes do universo cristão. Entendemos, contudo, que as razões do pluralismo sócio-cultural explicam, mas não justificam satisfatóriamente o pluralismo eclesial, porque a natureza deste embora tenha elementos de natureza social, é sobretudo, doutrinal. E uma confissão religiosa tem elementos de transcendência social, razão porque exerce uma influência maior do que a cultura, na vida das pessoas. No interior do pluralismo eclesial existe um conflito de fundo mais intenso do que o existente no interior do pluralismo cultural. Pode-se entender isso atentando à maneira como cada igreja justifica doutrinalmente sua existência e na defesa apaixonada dessas posições entendendo que nessa afirmação extrema

está expresso um profundo zelo à pureza e integridade do evangelho. Estão em jogo, além das variáveis sociais, os fatores intelectuais, afetivos e religiosos. Neste último, incluem-se aqueles da esfera puramente espiritual ou “axiológica” (foro interno), onde são tomadas as decisões e dados os assentimentos nem sempre puramente racionais. Somados, são suficientes para justificar a complexidade da proposição levantada ao início do parágrafo.

A partir do momento em que concordarmos com E. Wolff que “a divisão total das Igrejas é uma impossibilidade ontológica” 41 poderemos admitir que há vantagens a serem exploradas no pluralismo religioso. Um modo de ser igreja é construído na relação com outros modos de ser igreja, pois nenhuma identidade eclesial se constrói isoladamente. Assim, concluímos que a originalidade da igreja não está na unidade, mas na pluralidade, conforme sua configuração trinitária e a multiforme manifestação da graça que nela atua. Aqui notamos uma clara influência do teólogo reformado Oscar Cullmann, cujas investigações no campo da teologia bíblica são amplamente conhecidas. No primeiro capítulo da obra “L’unité par la

diversité”, chega a afirmar que “as tentativas de uniformidade eclesial são um

pecado contra o Espírito Santo”42. Ele não defende o desaparecimento das

diversidades eclesiásticas nem a fusão de todas as Igrejas. Crê, pelo contrário, que cada Igreja deve conservar os dons que a configuram em sua própria identidade. A Igreja una repousa sobre a diversidade e o desenvolvimento de carismas oferecidos pelo Espírito Santo. Assim cada Igreja dá forma histórica à Igreja Una. A unidade é a meta, o fim buscado como perfeição do testemunho da vida cristã e eclesial. Na identidade mais profunda da igreja a unidade e a pluralidade são intrinsecamente correlatas e, portanto, indissociáveis. Até aqui tratamos de tradições cristãs.

O pluralismo religioso, sabemos, supera a esfera cristã, no sentido de que, tradições religiosas de outra gênese passaram a interagir com as religiões oriundas do núcleo judaico-cristão.

A existência do pluralismo religioso, e, portanto, do diálogo entre os diversos sujeitos em determinado contexto, vai depender de dois critérios: a flexibilidade e a dialogicidade existentes no interior do campo das tradições fiduciais.

41 WOLFF, Elias. A unidade da Igreja. Ensaio de eclesiologia ecumênica. São Paulo: Paulus, 2007, p. 39. 42 CULMANN, Oscar. L’unitè par la diversité. 3. ed. Paris: Gallimard, 1993, p. 53. [Tradução nossa].

Flexibilidade é a capacidade que uma religião tem de movimentar-se no campo religioso, atendendo às diversas expectativas dos que buscam responder às suas inquietações de ordem religiosa.

Dialogicidade é definida como sendo o potencial de uma religião em dialogar com as mudanças mais gerais em curso na sociedade, sobretudo aquelas que afetam o campo religioso, e em incorporar elementos de outras expressões religiosas num processo de mixagem religiosa. Mais adiante em nossa dissertação abordaremos o fenômeno do “hibridismo”. No parecer de Wagner Sanchez,

[...] enquanto a expressão flexibilidade da religião refere-se à relação da religião com as expectativas dos sujeitos que aderem a uma concepção religiosa de mundo, a dialogicidade refere-se à relação da mesma com outros atores religiosos e com a sociedade inclusiva43.

São três os pressupostos necessários para a possibilidade de um diálogo inter-religioso: a) a quebra do monopólio religioso; b) a existência de várias cosmovisões; c) a relativização das certezas. Estes três pressupostos requerem a afirmação da igualdade entre os participantes do cenário em questão. Isso não quer dizer que cada um tenha que abandonar suas convicções já engendradas pelas respectivas tradições religiosas. Aqui encontramos um dilema a superar: a absolutização das convicções pessoais ou a sua relativização. Estudioso do assunto, Hans Küng propõe uma alternativa. Para ele, a afirmação de que uma religião é verdadeira não significa negar a verdade presente em outras religiões. De modo textual, “... esta verdadeira religião – o cristianismo – para mim e para os outros cristãos, não exclui a verdade de outras religiões, mas as valoriza de modo positivo”44.

A alternativa proposta por Küng consiste, portanto em afirmar que uma tradição religiosa pode ser verdadeira para mim e que, ao mesmo tempo, posso reconhecer a legitimidade de outras visões religiosas usando outros critérios sem cair em contradições. Três são os critérios apontados por ele na mesma obra já citada:

43 SANCHEZ, Wagner Lopes. Pluralismo religioso: as religiões no mundo atual São Paulo: Paulinas.

2005, p. 107.

1) Critério ético geral: o humano. É um critério externo que consiste em estabelecer aquilo que possibilita que o ser humano seja de fato humano; 2) Critério religioso geral. É um critério interno que se refere à autenticidade

ou canonicidade de uma religião.

3) Critério especificamente cristão. Uma religião tanto mais é verdadeira ou boa quanto melhor reflete a “mens” de Jesus Cristo. Outro critério interno. O mesmo autor reconhece a fragilidade dos dois últimos critérios no que se refere às grandes e antigas religiões (hinduísmo, budismo, etc) que relativizam a tradição escrita ou não apresentam parâmetros comparativos com o evangelho. A esse respeito se posiciona Lopes Sanchez:

[...] penso que o primeiro critério é aquele que tem mais pertinência e possibilita um diálogo mais amplo com os diversos sujeitos religiosos. Hoje, mais do que nunca, é necessário resgatar a centralidade do humano na sociedade. [...] A um só tempo, trata-se de anunciar o humano como critério ético fundamental para a compreensão da vida e denunciar todas as situações que se opõem a esse critério e que levam ao dilaceramento da humanidade45.

Por aqui percebemos que uma das vias de trânsito para esta questão se encontra no nível de convivência que vai além da simples tolerância: envolve discursos e ações que levam ao reconhecimento efetivo da legitimidade das várias religiões, tendo como referência última a vida humana.

Em outro extremo da reflexão, isto é, no âmbito do cristianismo e suas múltiplas manifestações, surge como pista de solução para a questão da diversidade religiosa a sugestão da mudança de referenciais de análise. A teologia das religiões tem procurado, ao menos em suas posições mais avançadas, transitar de uma posição cristocentrista para uma outra, dita teocentrista. Procuremos nos explicar. O conceito “pluralismo” nasce juntamente com essa concepção de trânsito e afirma a validade das muitas “vias” ou “figuras salvíficas” que conduzem a Deus, em vez da “única mediação universal e constitutiva” que se apresenta na pessoa de Jesus Cristo. Nessa perspectiva, as diferentes religiões

45 SANCHEZ, Wagner Lopes. Pluralismo religioso: as religiões no mundo atual São Paulo: Paulinas,

são caminhos variados e igualmente legítimos que conduzem a Deus e, por isso, tem a mesma validade. O argumento que fundamenta tal posição provém de Jacques Dupuis (1923-2004) polêmico teólogo jesuíta belga, missionário na Índia, cuja obra afirma que a teologia das religiões só é autenticamente católica, inclusiva e universal quando integra as diferentes experiências religiosas. Em uma de suas obras propõe o seguinte:

Se o cristianismo procura, sinceramente, um diálogo com as outras tradições religiosas /... / deve, antes de tudo, renunciar a qualquer pretensão de unicidade para a pessoa e a obra de Jesus Cristo enquanto elemento constitutivo universal da salvação46.

Por dedução, percebemos que o grande empecilho que se coloca no caminho do diálogo com as demais religiões é a questão cristológica. Se a centralidade de Deus possibilita um diálogo melhor e mais amplo com as outras tradições, traz problemas quando relativiza o significado universal da pessoa e da obra salvífica de Cristo.

Um vislumbre de solução pode estar naquilo que propõe declaradamente o escritor Roger Haight:

O próprio testemunho de Jesus nos Evangelhos, requer que se espere que Deus atue na vida dos seres humanos sem uma pluralidade de formas exteriores a Jesus e à esfera cristã [...] o cristão deve considerar que Deus acerca-se de todos os seres humanos através da Graça47.

Assim, afirmar a centralidade de Jesus e sua normatividade para o cristianismo não exclui a possibilidade de reconhecer a presenca salvífica de Deus nas outras religiões. O paradigma teocentrista, oferece se apresentado desta maneira, um nítido potencial de contribuição nesta desafiante questão anexa ao mundo pós-moderno.

46 DUPUIS, J. Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso. São Paulo: Paulinas, 1999, p. 260. 47 HAIGHT, Roger. Jesus, símbolo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 472.

Belgede Resim sanatında estetik değer (sayfa 33-36)

Benzer Belgeler