2. NIVEAU DE COMPREHENSION: ANALYSE INTERNE
2.2. Coordonnées Narratives
2.2.3. Espace
O corpus de análise da presente pesquisa se estabelece como uma observação acerca dos procedimentos de transposição do texto escrito para o texto falado no teatro.
Para tal análise, acompanhamos a disciplina de Expressão Verbal ministrada pela professora Maria Isabel Setti na sexagenária Escola de Arte Dramática, importante instituição formadora de atores em nosso país, que está situada nas dependências da Cidade Universitária da Universidade de São Paulo.
Ao longo do primeiro semestre de 2014, este pesquisador acompanhou semanalmente a disciplina, gravando todos os exercícios pertinentes ao trabalho técnico vocal do ator.
No entanto, essa primeira parte do processo não constituiu um trabalho efetivo de oralização do texto em que pudéssemos respaldar nosso referencial teórico. A pesquisa para os alunos atores da disciplina, neste momento, encontrava- se no âmbito da voz como matéria expressiva e expansiva no espaço cênico.
Interessa-nos, portanto, discorrer sobre o acompanhamento das aulas a partir do segundo semestre de 2014, em que o texto se estabeleceu como um norte para as experimentações vocais e, sobretudo, como uma provocação aos atores a partir da pergunta “como oralizar um texto no teatro?”.
A professora trouxe para a turma de vinte atores o texto de Bernard Marie- Kòltes, Na solidão dos campos de algodão, obra teatral composta por duas personagens, Dealer e Cliente. Desde o princípio, essa questão não se apresentou como um problema, posto que todos iriam assumir a responsabilidade sobre a oralização do texto. Portanto, metade da turma trabalharia a partir da perspectiva de Dealer e outra metade, a partir da perspectiva do Cliente.
Dessa maneira, por meio de jogos improvisacionais e proposições de cenas trazidas pelos atores, o exercício foi construído. Como não havia compromisso nenhum com a linearidade do fluxo conversacional ou com a sequência lógica da história, percebemos que o exercício se constituiu de forma refratária, ou seja, os atores/personagens contracenavam em sua maioria ao mesmo tempo, criando cenas corais ou a partir de novas proposições de diálogos que poderiam ser compostas por monólogos direcionados à plateia, ou por contracenas em que dois ou mais atores se relacionavam ao mesmo tempo.
Sendo assim, percebemos que uma das características da encenação era criar para o texto novos turnos conversacionais, a partir do encadeamento de fragmentos de falas que se amalgamassem e gerassem sentidos dramáticos.
Outro aspecto relevante do exercício, proposto pela professora, era a ideia de estabelecer a encenação como um jogo improvisacional em que o ator seria responsável por evidenciar todos os procedimentos de criação da cena e, por consequência, teria total liberdade em escolher a melhor forma de oralizar o texto, em busca de uma expressividade que o satisfizesse em relação à sua performance enunciativa.
Logo, o jogo cênico estabelecido no exercício não primava por um espetáculo teatral pronto e acabado, mas sim por uma experiência pedagógica dos atores- alunos da disciplina de Expressão Verbal com a obra. O texto acabava se tornando um pretexto para um exercício de expressividade da fala. A partir da criação de elementos verbais que truncassem o raciocínio linear do diálogo forjado pelo dramaturgo, o aluno-ator poderia desvirtuar a lógica do texto em razão de uma necessidade individual de experimentar uma nova interpretação para o turno que acabara de ser enunciado.
Portanto, de acordo com o jogo proposto, as regras para a busca de uma expressividade satisfatória sobre a própria fala seriam:
a) Toda vez que um ator cometesse alguma falha em sua enunciação, teria o direito de refazê-la, entretanto, para isso, ele deveria sinalizar a retomada de seu turno para a plateia por meio da expressão “de novo” (denominamos nesta pesquisa a expressão “de novo” como um Marcador Conversacional, que indica um procedimento de correção no turno do falante);
b) Cada ator criou uma “fissura” que era recorrente em sua enunciação. Entender-se-á “fissura” como um estranhamento no texto que tinha o objetivo de quebrar a lógica dramática linear proposta pelo dramaturgo. Logo após esse estranhamento, o texto era retomado e o ator o abordava por uma outra perspectiva entonacional e prosódica, mas ainda assim coerente a uma lógica da língua falada8.
8 Temos como hipótese a ser confirmada pelo corpora recolhido que isso que se designou a chamar-se “fissura”
tem como função equivalente, dentro da Análise da Conversação, os Marcadores Conversacionais que denotam aspectos relacionados à correção e paráfrase no turno.
Desse modo, as cenas escolhidas para a análise de nosso corpus denotam um trabalho efetivo dos atores envolvidos com as ferramentas pedagógicas propostas pela professora para o desenvolvimento de um trabalho com a expressividade da fala em cena. Recolhemos ao todo três cenas de momentos distintos do exercício cênico, a primeira cena (CENA 1) foi extraída do último dia de apresentação do exercício com o público, a segunda cena (CENA 2) foi retirada de um ensaio que antecedia o dia de abertura do processo para o público e a última cena analisada (CENA 3) também fez parte do último dia de apresentação do processo para o público.
É importante ressaltar os momentos distintos de seleção das cenas, pois, dessa maneira, evidenciamos a importância do papel da audiência na produção do texto falado pelos atores, já que é função do ator estabelecer uma relação de sentido do que se produz como texto falado em cena com o seu principal interlocutor, a plateia. Em oposição a essa afirmação, é possível observar, na cena que provém de um ensaio, a liberdade da atriz em experienciar diferentes maneiras de produzir o texto falado, como se de fato estivesse exercitando seus mecanismos expressivos sem necessariamente estar preocupada com uma comunicação efetiva com a plateia, seus experimentos com a palavra não seguiam um sentido lógico da fala. Portanto, podemos afirmar que a plateia é o grande norteador do jogo conversacional estabelecido no palco, é por meio das reações advindas da audiência que o ator adequa e melhora seu desempenho oral ao retextualizar a modalidade do texto escrito para a modalidade do texto falado.
Por fim, Na solidão dos campos de algodão foi um experimento apresentado entre os dias 27, 28, 29 e 30 de novembro na sala de ensaio nº 25 da Escola de Arte Dramática, como um exercício de finalização do ano letivo da disciplina de Expressão Verbal da turma 65. O jogo proposto proporcionou para o texto escrito, ao longo dos dias de apresentação, uma inconstância que o subvertia à medida que era oralizado, tornando-o uma obra aberta e polissêmica no que diz respeito à busca por uma expressividade efetiva da palavra enunciada pelo ator.