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Hoje, com o jornalismo na web, as notícias são produzidas e atualizadas a todo instante, pois os limites de espaço e de tempo são diferenciados do jornalismo impresso. Neste, há a limitação temporal, normalmente com uma edição para cada dia e o número de textos e de informações, do ponto de vista físico, é limitado ao tamanho e à quantidade de páginas do jornal, que, além de notícias, traz outros gêneros jornalísticos, como o editorial, o artigo de opinião etc., e ainda gêneros que não são exclusivos do meio jornalístico, como propagandas.

57 Na internet, o jornalista tem mais espaço para produção dos textos, que podem, inclusive, ser atualizados, com correção e inserção de informações. Por outro lado, notícias passadas podem ser facilmente visualizadas, inclusive, quando se trata de notícias que informam sobre desdobramentos do mesmo fato ou acontecimento, é possível se fazer uma retrospectiva, por meio das notícias anteriores, que, comumente, são disponibilizadas através de links dispostos na mesma página daquela notícia mais recente sobre o fato.

Mielniczuk (2003b) propõe uma nomenclatura para identificar as diferentes etapas de evolução do jornalismo na internet. A autora denomina de jornalismo de primeira, segunda e terceira geração as três etapas que compreendem o surgimento e o desenvolvimento de práticas jornalísticas realizadas na web. Estas não compreendem exatamente etapas que se sucedem perfeitamente ou que sejam excludentes entre si, haja vista que é possível encontrar produções feitas no mesmo período, mas que podem ser enquadradas em diferentes gerações. Segundo Mielniczuk (2003b, p. 31-32), essa classificação está mais relacionada à “trajetória de um conjunto de experiências, e não à evolução individual dos webjornais”.

Assim, a primeira geração é aquela caracterizada pela reprodução de partes de jornais impressos que passavam a ocupar espaço na internet. Dessa forma, o que era chamado de jornal online, na verdade, era a reprodução de matérias do mesmo jornal na sua versão impressa, de modo que a atualização de informações, assim como no jornal impresso, normalmente se dava a cada 24 horas.

Já a segunda geração, conforme Mielniczuk (2003b), surge em decorrência do aperfeiçoamento da estrutura técnica da internet no Brasil, que, por sua vez, já no final da década de 1990, segue a dinâmica mundial. Nesse momento, começam a surgir as primeiras experiências de produção jornalística que explora as características oferecidas pela rede, como a inserção de links, e de e-mail como ferramenta de comunicação entre leitor e jornalista e entre leitores. Porém, a produção tendia à vinculação com empresas jornalísticas, com credibilidade e rentabilidade associadas ainda ao jornal impresso.

A terceira geração, também chamada de fase do webjornalismo, já se configura com a crescente popularização de uso da internet e também com as iniciativas empresariais e editoriais exclusivamente para a web. Nessa etapa, a produção jornalística passa efetivamente

58 a explorar e a aplicar as potencialidades da internet: recursos multimídia com sons e animações; recursos de interatividade, como os chats, enquetes, fóruns de discussões; opções para configuração do produto jornalístico de acordo com o interesse do leitor; e utilização do hipertexto ao longo da narrativa dos fatos (MIELNICZUK, 2003b).

A terceira geração compreende o momento atual do webjornalismo, que se caracteriza, segundo Palácios (2002), por cinco características principais, que são: 1) a multimidialidade/convergência (de diferentes mídias em um mesmo suporte); 2) a interatividade (que acontece a partir de uma série de processos interativos do leitor do jornal na web); 3) a hipertextualidade (possibilidade de conectar/interconectar textos através de links; 4) a customização ou personalização (configuração de produtos jornalísticos de acordo com os interesses e preferências do leitor); e a memória (o acúmulo de informações na web é mais viável técnica e economicamente do que em outras mídias). Mielniczuk (2003b) acrescenta a essas cinco características uma sexta, a instantaneidade ou atualização contínua (pela rapidez na atualização de informações, que também são recebidas em tempo real pelo leitor).

Palácios (2002) considera que algumas dessas características do webjornalismo, como a multimidialidade e a hipertextualidade, não representam aspectos realmente novos, haja vista que muitos já existiam em outras mídias e, no caso da internet, sua utilização representa uma continuidade. Porém, a internet, dada as suas condições, potencializa essas características a partir da sua facilidade de conjugação dos diferentes formatos de mídia, como imagem, som e texto, por exemplo.

A produção jornalística mais atualizada e mais interativa se popularizou por meio dos chamados portais jornalísticos, abordados, primeiramente, pela literatura de Cibercultura, em 1994, por Javier Echeverría, no livro Telépolis. Inicialmente, segundo Barbosa (2002; 2003), nos anos de 1990, nos EUA, temos como precursores dos portais os mecanismos de busca, com a função de localizar e classificar informações. Barbosa afirma que a mudança na configuração dos portais ocorreu pela necessidade de atrair um maior número de internautas. Assim, esses começam a oferecer gratuitamente, através de seus sites, várias categorias, organizadas a partir de seu conteúdo, abrigando documentos e sites em grupos pré-

59 configurados: notícias, esportes, previsão do tempo, turismo, cultura, finanças, serviços de calendário, religião, saúde etc. Para a autora:

o passo seguinte foi a integração de outras funções, como comunidades virtuais e suas listas de discussão, chats em tempo real, possibilidade de personalização dos sítios de busca (My Yahoo!, My Excite, etc.), assim como acesso a conteúdos especializados e comerciais (BARBOSA, 2003, p. 163).

Essa diversificação de informações e funções dos sites, com a inserção das máquinas de busca, trouxe uma nova concepção para os sites, que passaram a ser chamados de portais. O formato de portal, seja em um site jornalístico ou não, é definido por Barbosa (2002) como “publicações desenvolvidas especificamente para o suporte digital” (p. 64), de modo que a produção de conteúdos, de serviços e de entretenimento está organizada em torno do critério de proximidade do leitor/internauta, utilizando-se, para isso, os elementos que caracterizam o jornalismo no ambiente digital.

Barbosa (2003) afirma que a ideia inicial era a de fazer com que o internauta partisse do portal e construísse, a partir dele, os roteiros de ‘leitura’ que desejasse ou ainda o seu próprio hipertexto. Conforme a autora, “o modelo de portal passa a ser o adotado pelos provedores de acesso à internet, constituídos como tal a partir de 1996 com a possibilidade criada pela privatização da Embratel e pela abertura da legislação de provimento de acesso no Brasil” (p. 163). Os portais rapidamente foram se diversificando, atrelados a empresas do setor da informática e da comunicação ou, ainda, com a fusão destas:

eles centraram os respectivos negócios no provimento de acesso e de conteúdos, ou só de conteúdos, serviços e entretenimento diversificados dando ao internauta motivo para ele demorar mais tempo nos [...] sítios. Portal, a partir de então, torna-se um ponto de partida e, preferencialmente, deve ser o lugar de visita e de estada do internauta toda vez que ele ‘entrar’ na rede (BARBOSA, 2003, p. 164).

Assim, esse formato de portal, que oferece aplicações variadas, pode ser adotado por empresas de diferentes fins, adequando-se à estratégia particular de presença digital de cada uma. O jornalismo, que é uma das maiores fontes de geração de audiência e acesso, transforma os portais em transmissores de grandes conteúdos, sendo cada vez mais evidente o crescimento e o uso do formato de jornalismo por meio de portais online.

No caso do Brasil, a adoção e consolidação do modelo de portal por parte de empresas informativas ou de grupos de comunicação tradicionais, que configuram a sua

60 presença digital através de portais, propiciam a diferença de formato para o jornalismo digital, que antes era produzido na web apenas pelas edições online dos mesmos jornais impressos. Os portais proporcionaram um novo formato, contribuindo assim com uma nova categoria para o jornalismo digital, denominado por Barbosa (2003) como jornalismo de portal.

O jornalismo de portal é caracterizado por apresentar “uma dinâmica mais ágil, principalmente pela consolidação do modelo de notícias em tempo real ou tempo quase real” (BARBOSA, 2003, p. 169), conhecidas pelo nome de hard news ou breaking news, assemelhando-se aos “formatos de conteúdos gerados pelos canais de notícias 24 horas das redes de TV a cabo, como CNN, Globo News, Band News” (p. 169). O jornalismo de portal consolida o formato de atualização contínua e em fluxo de notícias, já característico do ambiente digital, e representa de fato uma nova categoria para o jornalismo. Nesse sentido, contribui para a alteração do formato da notícia, que, segundo a autora, começa a se apresentar de um modo mais fragmentado. Barbosa (2003, p. 170) ressalta que o jornalismo de portal ainda se caracteriza por

uma maior utilização de recursos multimídia para a veiculação de conteúdos diversificados; [por] ser alimentado por variadas fontes de informação, como agências de notícias, principalmente, e os sítios parceiros agregando conteúdo específico em determinadas áreas; [e por] trazer uma nova denominação para a compartimentação das informações, no caso “Canais”.

Vemos que os portais de notícia agregam uma série de “atrativos” para o internauta, com recursos que vão além da leitura sobre fatos ou acontecimentos recentes, mas também curiosidades e especificidades que despertam a atenção, e terminam por fazer com que o internauta passe mais tempo navegando na web, a partir do que é oferecido pelo portal. As notícias que são publicadas nos portais seguem um procedimento diferente do que acontece no jornal impresso ou ainda na TV, conforme Barbosa (2003), elas buscam anunciar fatos e eventos no instante em que ocorrem. Assim, as informações muitas vezes são dadas pouco a pouco, em formato de “pílulas”, e são complementadas na medida em que são obtidas mais informações ou mais detalhes.

A publicação imediata da informação, antes da obtenção de mais detalhes, também é devida à concorrência entre os portais jornalísticos, onde é muito importante informar primeiro. Os textos são atualizados e complementados, mas, ainda, novas notícias podem ser

61 publicadas como desdobramentos de uma primeira, podendo gerar uma série de notícias sobre desdobramentos de um mesmo evento, já que o volume de notícias publicadas no portal também é muito importante na concorrência desses na disputa por internautas.

Nesse sentido, várias notícias sobre um mesmo fato ou acontecimento vão sendo acumuladas, podendo, no final, gerar uma série de informações, como numa grande narrativa, e continuarem disponíveis no portal para o leitor. Em um portal jornalístico nacional, como o G1.com, há uma variedade de notícias sendo publicadas e atualizadas a todo momento. Mesmo assim, se o leitor quiser pesquisar sobre notícias passadas de um caso específico, pode fazer uma busca no site, e encontrará todas as informações publicadas sobre o caso no portal organizadas cronologicamente. Isso exemplifica o que, em outras palavras, considera Palácios (2003), quando afirma:

da mesma forma que a “quebra dos limites físicos” na web possibilita a utilização de um espaço praticamente ilimitado para disponibilização de material noticioso, sob os mais variados formatos (multi)midiáticos, abre-se a possibilidade de disponibilização online de toda informação anteriormente produzida e armazenada, através da criação de arquivos digitais, como sistemas sofisticados de indexação e recuperação da informação. (p. 25)

Surge, de fato, uma grade de informação disponível para o internauta, por a web disponibilizar um espaço aparentemente “infinito”, para a disponibilização de material noticioso dos mais diferentes formatos (multi)midiáticos, que é, inclusive, armazenada para uma possível recuperação de informações. Mas, juntamente com ela, surge o risco de que essa grande rede de informações seja mais quantitativa do que qualitativa. Hoje, “qualquer evento” pode virar notícia, haja vista que, na disputa por internautas, os portais precisam se alimentar de novas informações a todo instante.

Nesse sentido, podemos observar ainda um outro lado da produção de notícias pelos portais jornalísticos. Barbosa (2003) chama atenção para a questão da fragmentação excessiva dos textos, devido a essa necessidade de publicar o maior número de notícias. Para dar a impressão de que muitas notícias são publicadas a todo instante, as matérias chegam a ser divididas, para parecerem independentes, sendo construídas para dar a impressão de que são publicadas no momento em que acontecem os fatos, o que nem sempre corresponde à verdade.

62 É inegável a mudança entre os diferentes tipos de suporte para a prática do jornalismo. Barbosa (2003, p. 171) destaca algumas características que, segundo a autora, distinguem o “jornalismo de portal” das outras práticas jornalísticas:

 Por causa do espaço ilimitado da web, a memória é facilitada no sentido de que os textos são publicados de forma cumulativa, possibilitando a recuperação de um texto;  A atualização contínua dos textos permite uma navegação mais rápida e instantânea;  Com a hipertextualidade é possível estabelecer a ligação através de links a matérias ou

outros textos relacionados, possibilitando que o leitor se aprofunde sobre determinado fato ou acontecimento noticiado;

 Há uma maior interatividade entre o que é publicado e o internauta, que também participa da produção dos conteúdos;

 E, por fim, a disponibilização de material multimídia, como áudio de entrevistas, gráficos, simulações ou vídeos.

É preciso considerar que as características elencadas acima, com base em Barbosa (2003), apresentam o “jornalismo de portal” a partir de uma visão entusiasta, que não problematiza o novo formato de jornalismo. As vezes, vemos o jornalismo da web sendo tratado como se os recursos oferecidos pela internet fossem suficientes para suprir possíveis carências existentes anteriormente. Porém, embora existam muitos avanços nessas práticas comunicativas, possibilitados pelos recursos oferecidos pela internet, há uma sobrecarga de informações divulgadas, que interfere sobremaneira na qualidade da produção textual noticiosa. Por outro lado, há a possibilidade de inter-relacionar ainda mais ao jornalismo as práticas de compra e venda de produtos e serviços.

Hoje, o que é divulgado, em grandes portais jornalísticos nacionais, como G1.com e R7.com, que são provenientes de grandes redes de televisão, está diretamente relacionado à programação da TV. Logo, no caso do G1.com, é possível assistir no portal às reportagens dos telejornais, bem como “se manter informado” sobre os conteúdos do restante da programação da TV, que aparentemente não está diretamente relacionada ao jornalismo, como telenovelas e outros programas de entretenimento.

63 Através do portal, o internauta ainda pode ter acesso a conteúdos que são exclusivos para assinantes, não disponibilizados abertamente na web, bem como adquirir produtos que aparecem ou são usados pelos profissionais nos programas da TV, como vestimentas, calçados e acessórios, numa grande rede de venda de serviços e produtos que captam a atenção do internauta para uma gama diversificada e sofisticada de atrativos. Nesse caso, o internauta não é atraído apenas pelo jornalismo, mas por outras formas de entretenimento, que estimula, dentre outros, o consumo de produtos e de serviços.

Mesmo com conteúdos diversificados, conforme observa Barbosa (2003), o jornalismo é apresentado como a peça-chave dos portais. Incluindo uma série de outros atrativos, o jornalismo continua sendo o destaque das páginas principais. Os demais atrativos podem ser acessados em outras páginas, cujos links ou ícones ou ainda imagens podem aparecer na página principal, porém, secundariamente, às informações de caráter jornalístico. Vemos, todavia, esse modo de organização dos portais como estratégico, já que o internauta acaba tendo acesso a outros conteúdos, fora do âmbito jornalístico, mas é atraído inicialmente por este.

Na Figura 5, vemos uma página, na qual é dado destaque ao jornalismo, inclusive o

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Figura 5: Página inicial de portal jornalístico nacional

Fonte: http://g1.globo.com/ (Acesso em 11 de setembro de 2013).

Porém, é possível visualizar a presença de propagandas, principalmente na lateral direita da página, e uma barra superior que dá acesso a outros conteúdos, como notícias exclusivas sobre esporte e, ainda, entretenimento e vídeos. Os links da barra superior podem levar o internauta a outros sites, como o Globo.com, que dá acesso a parte do conteúdo da TV Globo e a opções de compra de produtos da “Globo Marcas”, todos vinculados ao mesmo grupo empresarial.

Em todo caso, os portais proporcionaram uma mudança na produção jornalística que, como vimos, incorporou-se das muitas possibilidades oferecidas pelo suporte da web, para atingir o objetivo, que é comum das grandes mídias, de atrair um público numeroso e

65 diversificado. Atualmente, vemos que, apesar de diversificados, os portais jornalísticos apresentam um formato mais ou menos padronizado, inclusive em suas publicações. Uma notícia publicada em um portal de notícia é comumente “aproveitada” por outros portais, que se apropriam livremente do texto, fazem algumas modificações (ou não) e o publicam também, às vezes, informando a fonte original.

Nesse cenário, a webnotícia termina por apresentar características próprias, considerando que o processo de construção do texto é diretamente relacionado ao lugar de circulação deste, que, nesse caso, é a web. Dessa forma, uma característica importante da webnotícia, e que está diretamente relacionada ao trabalho desenvolvido nessa tese, é a relação entre a webnotícia e seu(s) texto(s)-fonte. Como o espaço na internet é, aparentemente, ilimitado, o texto-base no qual a notícia se fundamenta, muitas vezes, é disponibilizado no próprio portal jornalístico, para visualização e leitura do internauta. Resta- nos, todavia, dentre outros, entender o que a presença do texto-fonte significa para o funcionamento retórico da webnotícia, já que, teoricamente, o que é dito no texto-fonte de alguma forma também é dito na notícia.

Na seção 2.4, revisitamos as contribuições de Van Dijk (1990 [1988]), e discutimos sobre o processamento dos textos-fonte na notícia.

Benzer Belgeler