A definição de carisma adotada pela maioria dos autores que utilizam esse conceito no contexto da política latino-americana tem como base a análise de Weber sobre os três tipos puros de dominação legítima analisados em Economia e Sociedade. Em Weber (1994), o tipo de dominação carismático é legitimado pela crença na santidade, no heroísmo ou na exemplaridade de uma pessoa. Obedece-se ao líder qualificado pelo seu carisma em função de um mecanismo básico: a confiança na pessoa do líder, em seu heroísmo, em suas qualidades pessoais insubstituíveis.
Uma boa descrição contemporânea das características de um líder carismático é feita por Connif (1999), segundo a qual:
[…] populists exhibited charisma – that is, special personal qualities and talents that, in the eyes of their followers, empowered them to defend the interests of the masses and uphold national dignity […]. They exhibited such diverse traits as great intellect, empathy for downtrodden, charity, clairvoyance, strength of character, moral rectitude, stamina and combativeness, the power to build, or saintliness. Qualities such as these set the populists apart from and above the ranks of common politicians (CONNIFF, 1999:05).
Embora nem todas as lideranças populistas sejam capazes de expressar características tão extraordinárias, certamente todas elas compartilham uma quota de qualidades consideradas excepcionais, ou pelo menos, a mais importante de todas para obter e mobilizar o apoio de suas clientelas: a capacidade de se apresentar como locutor dos menos favorecidos, dos destituídos, dos “descamisados” e dos trabalhadores. O carisma se expressa, portanto, na capacidade de fazer com que a população se identifique com a imagem do líder, de forma direta, personalista, e sem a mediação de organizações políticas, e sem levar em conta outros aspectos que nas democracias consolidadas atuam no processo de escolha eleitoral, como a posição política ou as diferenças programáticas dos candidatos. Nesse sentido, populistas são capazes de se apresentarem como “spokesman of the people”, nos termos de Gilbert (2007), “(...) otherwise, the populist leader would be nothing more than a popular leader (GILBERT, 2007:29)”. É nesse sentido que o carisma pode ser considerado como um recurso estratégico adotado por certas lideranças políticas.
É importante matizar que, evidentemente, nem toda liderança carismática é populista (CONNIFF, 1999; GILBERT, 2007). O carisma é um dos recursos que podem ser utilizados pelas lideranças para estabelecer um vínculo personalista com o público. É um recurso muito importante na medida em que a mediação partidária é secundária no processo de mobilização, tornando o apoio da “massa” ao líder bastante volátil. Pode-se dizer que aquilo que fundamenta a força do líder, isto é, o estabelecimento de um vínculo direto com o público, é também fonte de sua
fragilidade política, pois, ao mesmo tempo em que o líder populista pode usufruir de uma alta popularidade em um contexto econômico favorável, é muito provável que em um contexto de crise este apoio venha a ser rapidamente erodido. Algumas lideranças neopopulistas, efetivamente, enfrentaram crises de popularidade na medida em que as expectativas fomentadas no público não foram atingidas, como aconteceu com Alan Garcia, Fernando Collor de Mello e Fujimori. Sem o apoio de organizações para compartilhar tomadas de decisões, as severas crises econômicas e políticas que essas lideranças enfrentaram conduziram a processos de impeachment legislativo (Collor e Fujimori), tentativas de golpe (Carlos Andrés Pérez) ou de afastamento do poder pelo poder Judiciário (Abdalá Bucaram e Carlos Andrés Pérez). É essencialmente nestas circunstâncias marcadas por crises políticas e econômicas que o carisma aparece como um recurso extremamente importante para auxiliar as lideranças políticas a manterem níveis seguros de popularidade.
Líderes populistas optam quase sempre por projetar uma imagem de ‘homem comum’, de ‘pessoa do povo’, o que os qualificaria como os mais capazes para liderar um processo de desenvolvimento econômico mais inclusivo, não importam se pela via da nacionalização e estatização de empresas estrangeiras, ou pela abertura econômica à economia global. Populistas de esquerda e direita são muitas vezes antagônicos em suas políticas econômicas, mas constantemente convergem na forma como apelam aos seus eleitores e clientelas políticas. ‘Regenerar a nação’, combater os ‘interesses de grupos privilegiados’ e acabar com as ‘instituições corruptas’ estão entre os seus bordões preferidos.
No Brasil, como afirma Fausto (2006) foi Getúlio Vargas quem inaugurou as presidências carismáticas, pois até então, segundo este autor,
os presidentes que se sucederam ao longo da Primeira República podiam prescindir desse atributo, aqui definido em sentido mais amplo, como forma peculiar de poder baseada na capacidade real ou imaginária de um líder que cria uma relação direta, maior ou menor, com seus liderados (FAUSTO, 2006: 121) .
Fausto salienta que o carisma, embora, esteja associado a lideranças de regimes totalitários, tornou-se um recurso de poder fundamental em regimes democráticos por duas razões fundamentais: pela existência de uma cultura política que valoriza lideranças que se enquadram em um estilo heróico e salvador das camadas mais carentes e, também, porque a sociedade de massas combinou-se à emergência de uma “sociedade de espetáculo” (utilizando os termos do autor), constituindo um cenário propício ao surgimento de figuras políticas performáticas.
Embora o tipo físico de Getúlio Vargas não tivesse nada de excepcional, o presidente foi transformado pela propaganda em “nosso querido baixinho (…) um verdadeiro gigante pela força de vontade e pelas realizações” (FAUSTO, 2006: 123). Seu sorriso também foi tematizado, chegando a tornar-se título de um livro encomendado pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) para ser distribuído nas escolas: “O Sorriso do Presidente Vargas”. Pode-se dizer que esta característica performática do presidente simbolizava o estado de espírito nacional pretendido pelo grupo político de Vargas: gerar um otimismo generalizado com os rumos do desenvolvimento do país. E como um “populista autêntico”, o conteúdo de seu discurso era acentuadamente voltado à população mais carente, essencialmente aos trabalhadores – referência pouco comum nos discursos presidenciais anteriores a 1930, como lembra Fausto (Idem: ibidem).
Na Argentina, o maior líder populista de sua história e, talvez, um dos líderes populistas mais originais da América Latina, Juan Domingo Perón, é considerado por
alguns autores um político imbuído de um carisma genuíno. Como afirma Horowitz (1999),
Perón made intense personal appeals to unions. His charisma gave his actions a decided impact. In speaking to unions, he stressed their importance to him. ‘I come to the house of the railroaders as if it were my own. I profess a profound gratitude to them, because I’m convinced that many of the successes of the Secretariat… are due precisely to the railroad workers’. He also suggested that he was almost one of them, since he was an honorary president of the largest rail union. Perón attempted to show that he cared about the workers. (HOROWITZ ,1999: 31):
Assim como os antigos presidentes populistas, lideranças neopopulistas, em maior ou menor escala, também se utilizam de uma estratégia carismática para estabelecer um vínculo direto com seus seguidores. Para alguns analistas, neste aspecto, o presidente Hugo Chávez expressaria um tipo extremo de apelo carismático, quase de caráter messiânico e religioso, pois tem recorrido crescentemente em suas campanhas políticas a apelos de transcendência da economia capitalista e da democracia representativa. O estilo de Chávez tem mesmo servido como um modelo para as estratégias de campanha e mobilização seguida por outros líderes neopopulistas da região. Além dos exemplos mais óbvios de Morales e Correa, vale lembrar a campanha bem sucedida do Cel. Lúcio Gutierrez à Presidência do Equador em 2003.
O que os políticos neopopulistas tem em comum e o que os distingue de outros políticos tradicionais não é, no entanto, o fato de disputarem o voto dos eleitores e de governarem buscando maximizar o apoio popular, mas sim o fato de executarem essas tarefas ordinárias da vida política valendo-se de mecanismos de dominação que, em alguma medida, procuram retirar do eleitor a sua capacidade de avaliação crítica dos motivos que o levaram a aderir a um determinado projeto político. Adere-se ao herói da luta contra a ‘reação’, ao ‘redentor da pobreza’, ao que
‘luta contra o imperialismo’. É neste processo de adesão a um projeto político específico que o carisma do líder mostra-se como uma qualidade capaz de preencher os atributos que foram subtraídos da comunidade política: a visão crítica e a capacidade de avaliação e de contestação. Mas carisma não é o único elemento distintivo do estilo político neopopulista, a visão antipolítica e a capacidade de polarização também compõem o seu núcleo-duro como veremos a seguir.