Outra característica central do estilo populista é a apropriação de um discurso, normalmente qualificado como antipolítico, ou seja, como um ataque frontal à ‘classe política’ como um todo, a qual é representada como corrupta e incapaz de atender aos interesses da população (WEYLAND, 1999; CANOVAN, 1999; LEGLER, 2006; ROBERTS, 2003).
Na engenharia da mobilização populista os adversários políticos precisam ser convertidos em inimigos, em “forças” das quais o povo precisa ser defendido. O primeiro candidato a ocupar esse papel foram as “oligarquias rurais”, contra quem as lideranças populistas modernizadoras da primeira metade do século XX dirigiram seu poder de fogo.
Na linha “antiestablishment” do discurso populista a oligarquia rural era a grande inimiga política dos populistas clássicos, pois a construção de uma nova política dependia da contenção de um grupo que, por assim dizer, possuía tendências feudalistas que corroíam o Estado patrimonialista, como afirma Otto Hintze (Apud, LAMOUNIER, 2005:105).
No Brasil, a empreitada getulista iniciada com o Estado Novo teria alterado a própria natureza do poder (LAMOUNIER, 2005), pois o poder, até então era limitado
a trocas pessoais dentro de um círculo oligárquico restrito. O Estado Novo inaugura um processo político no qual a energia vital é o apoio de massas populares `a pessoa do presidente ou o culto à personalidade do chefe (D’ARAÚJO, 2000).
Mas a oligarquia não era a única inimiga política do populismo clássico. Ainda no período do Estado Novo, criticava-se as instituições representativas da democracia liberal – as organizações populares, o sufrágio ampliado, os partidos políticos e outras – e defendia-se um modelo no qual as atividades políticas devessem ser substituídas pelo corporativismo estatal imposto de cima para baixo - trabalhos técnicos em comissões e conselhos de grupos especializados, profissionais ou econômicos (D’ARAÚJO, 2000: 11-12).
Oliveira Viana, considerado nosso principal teórico corporativista, foi defensor de um Estado forte e autoritário, que pudesse ser capaz de implementar um modelo de decisão tripartite, conhecido como “corporativismo estatal”, o qual conciliava organizações sindicais, empresários e Estado. Para este autor, nosso partido era o presidente. Este era o pensamento que liderava as mentes de vários pensadores autoritários brasileiros como Francisco Campos e Azevedo Amaral, os quais, juntamente com o primeiro, compartilhavam a ideia de que “(...) os partidos políticos e a liberdade de organização política deveriam ser substituídos por câmaras e/ou setores da produção organizados e liderados por um Estado fortalecido” (D’ARAÚJO, 2000: 11).
Para os neopopulistas o papel de inimigo principal é ocupado por dois objetos difusos: a “classe política” e “as elites”. O primeiro grupo compreende os representantes no legislativo, o poder judiciário e a burocracia estatal. Como são representados como corruptos e interessados apenas em abusar do poder em benefício privado, precisam ter de alguma forma seus poderes limitados ou submetidos a um
poder Executivo (este sim o representante da vontade de mudança do povo) com poderes extraordinários (WEYLAND, 1999: 387). O segundo grupo, “as elites” tem uma definição geralmente fluida e variável. A vantagem, do ponto de vista dos líderes populistas, de não se oferecer uma definição clara dos ‘inimigos’ e de agrupá-los sob rótulos genéricos é que no exercício do governo os alvos dos ataques podem ser instrumentalizados em função da conjuntura política. Em um determinado momento o inimigo da vez pode ser um empresa privada de comunicação, em outro pode-se precisar dessa mesma empresa como aliada em uma campanha contra empresas multinacionais de algum setor no qual o núcleo dirigente tem interesse.
O discurso dos neopopulistas é, portanto, fortemente antiestablishment e dirigido contra as instituições políticas e sociais que dão sustentação à democracia representativa, incluindo aí os partidos, os sindicatos e outras organizações da sociedade civil. Não estamos, portanto, diante apenas de um discurso ordinário que atribui ao adversário determinados erros ou mesmo a crítica de que são incapazes de executar um determinado programa político, como ocorre em qualquer disputa democrática, mas sim de iniciativas organizadas por lideranças políticas que procuram estabelecer vínculos diretos com o público (LEGLER, 2006: 07). Uma vez que os líderes populistas desejam legitimar o poder com base em sua pessoa, seu discurso normalmente é contrário a qualquer instância política que possa limitar seu poder, fundamentalmente os partidos políticos. Nesse sentido, como afirma Weyland (1999)
(...) After taking office populists have a distant if not adversarial, relationship to parties. Besides weakening opposition parties, they often refuse to join and strengthen the organizations that helped them win power and support their government. (WEYLAND, 1999: 386)
Candidatos neopopulistas, em resumo, se apresentam como “outsiders” ao sistema, “someone who is still not corrupt, and someone who belongs to ‘the people’.
(...) If all the system’s maladies are endemic... then the alternative has to come from ‘outside’ the system” (GILBERT, 2007:09).
Para Roberts (2003), esta “política antipolítica” é a mais destacável de todas as características das lideranças populistas. Em suas palavras:
The most distinctive features of this new leadership are its implacable hostility to the political establishment and an aversion to intermediary institutions that can hold a leader accountable to mass constituencies. (ROBERTS, 2003: 36).
Uma vez identificado os inimigos resta colocar em marcha as engrenagens de sua destruição, e para atingir esse objetivo lideranças neopopulistas lançam mão de mais um recurso estratégico: um discurso polarizador. A meta é manter o público em estado de alerta, produzir continuamente um certo nível de tensão contra os inimigos das mudanças encarnadas na própria figura do líder. Não estamos diante de um exercício simples de manipulação de formas difusas de ressentimento social as quais líderes podem recorrer para reforçar suas imagens diante do público. Analisamos, a seguir, como líderes neopopulistas foram capazes de canalizar, organizar e instrumentalizar politicamente esses sentimentos do público.