O livro The Mushroom at the End of the World, escrito por Anna Lowenhaupt Tsing e publicado em 2015 “segue o cogumelo” Matsutake para contar suas histórias perante as ruínas capitalistas ou seja, histórias de formas de viver e sobreviver em tempos de ambientes precários (Tsing 2015b). Ao seguir e etnografar fungos, e não um grupo de pessoas em um lugar específico, a autora procura seguir as conexões
globais, caminhando por florestas dos Estados Unidos, do Japão e da China, construindo uma forma aberta e múltipla para entender os modos de vida e relações que emergem junto com a vida desse cogumelo.
Seu ponto de partida é o capitalismo e seus processos de alienação que transformam os seres humanos e não humanos em recursos com a ideologia de progresso que “obscurece as sobrevivências colaborativas” (Idem p.19). Criticando o excepcionalismo humano Tsing (2015b) procura mostrar também, através de conceitos como “assembleia”, “encontro” e “contaminação”. que o capitalismo deixa lacunas abertas, nas quais o novo pode emergir.
Tsing (2015n) explica que o conceito de assembleia tem sido usado, muitas vezes, principalmente na biologia e na ecologia, como sinônimo de comunidades biológicas e, outras vezes, como um conjunto de organismos sociais objetivando uma atividade em grupo, ou, ainda, referindo-se a um grupo de especies coocorrentes. Para Tsing (2015b), os ecologistas usam assembleia para evitar a conotação fixa e delimitada que o termo comunidade pode assumir. Segundo essa autora, assembleias não apenas reúnem formas de vida: elas a fazem, pois são reuniões abertas de seres vivos “onde alguns frustram – ou comem – os outros, alguns trabalham junto para fazer a vida possível, enquanto outros apenas encontram-se no mesmo lugar” (Idem., p. 22).
Tsing (2015a), ao nos convidar a imaginar uma natureza humana que se transformou historicamente com variadas teias de dependência entre espécies, uma “natureza humana como uma relação entre espécies” (TSING, 2015a, p. 184), chama a atenção para que nem espécie nem organismo são as melhores unidades para o conceito de assembleia que ela propõe. Segundo a autora, os seres vivos fundam suas identidades em encontros nessas assembleias e, por isso, não é possível escrever seus contornos em unidades preexistentes. Em vez disso, ela sugere que se atente para os encontros, os ”modos de ser”, e como esses encontros “contaminam”. Nas palavras da autora:
“Somos contaminados por nossos encontros: eles mudam quem somos assim como fazemos caminhos para os outros. A contaminação muda projetos de fazer o mundo, mundos mútuos - e novas direções - podem
surgir. Todo mundo carrega um histórico de contaminação; pureza não é opção. Um valor em manter a precariedade em mente é que nos faz lembrar que mudar com as circunstâncias é uma forma de sobrevivência“ (TSING, 2015b. P 27).
Perceber as ‘contaminações’ causadas pelos encontros nas assembleias, segundo Tsing (2015c) coloca, é interessante porque “as assembleias não podem se esconder do capital e do Estado; elas são locais para ver como política e economia funcionam” (Idem p. 23). O interessante, segundo a autora, se torna prestar atenção aos ritmos temporais e escalas dos diferentes modos de vida que se reúnem nas assembleias, percebendo os padrões de coordenações não intencionais que se desenvolvem, o que seria fazer em termos metodológicos, como a autora chama, em um artigo anterior, uma ‘descrição crítica’ (Critical Description) (TSING, 2013).
Realizar uma descrição crítica é o caminho proposto pela autora para aprender sobre como os seres humanos e outras espécies exercem seus modos de vida através das redes de relações sociais. Tsing (2013; 2015c) sugere três caminhos possíveis que seriam basicamente uma intersecção da etnografia com a história natural. Porém ao propor como método abordagens da História Natural, Tsing (2013) aponta para os questionamentos usais de Cientistas Sociais que normalmente utilizam como método conversarem com pessoas como forma de aprendizado e que passam a questionar: “Mas se nos não podemos falar diretamente com nosso material, como podemos aprender sobre a vida social das plantas e dos fungos?” (TSING, 2013 p.31).
Para isso, a autora aponta a necessidade de, primeiramente, atentar-se as assembleias e suas formas (TSING, 2013), ou seja, sintonizar-se ao tempo como uma maneira de identificar a capacidade de respostas, e as coordenações tanto de humanos como não-humanos. Coordenação é definida como as intra-ações do “material”, ou seja, como aquilo que transforma e cria os modos de existência, em meio a encontros com ‘o outro’, em mundos comuns (TSING; GAN no prelo; BARAD’S, apud KIRKSEY, 2015 p. 78). As coordenações nos permitem observar
ações e emergências sem a necessidade de comunicação intencional ou clareza mútua entre os participantes.
Outra etapa seria reintroduzir a paisagem na análise. Nessa etapa, ao invés de abstrair as relações que normalmente se analisa ao estudar humano-não humano, a autora (TSING, 2013) sugere estudar a concretude dessas relações, ou seja, seus contornos geográficos e históricos que lhes conferem uma composição e caráter particular.
Tsing coloca que:
“Aqui nós iremos enfrentar os desafios da descrição crítica. planos humanos são importante, mas não podemos apenas seguir os planos humanos; humanos são um dos muitos agentes históricos. Todas as trajetórias variadas que fazem impactos sobre a paisagem são relevante, humanos e de outra formas. Juntos, estes fazemos polirítmos(polyrhythms) da paisagem, isto é, a sua promulgação de múltiplas histórias conjugadas” (TSING 2013 p.34).
Aprender sobre encontros nas assembleias, os ritmos e coordenações desses encontros, e como estes formam paisagens seria um aprendizado complementado através da observação direta, e nesse sentido Tsing (2013) coloca que o trabalho de biologia de campo, por exemplo, não é tão diferente do que a etnografia faz: envolve prestar atenção e descrever as relações sociais que o analista encontra. O desafio é apreciar o dinamismo do mundo ‘mais que humano’ sem representar fatos que falam por si e sem cair no positivismo ou tentativa de explicar um mundo real único, verdadeiro e traduzível somente pelo cientista.
Dessa forma Tsing (2015c) desafia definições limitadas de 'anthropos' insistindo que, a fim de compreender "ser humano", antropólogos precisam expandir seus olhares para incluir as relações mais-que-humanas (TSING, 2014), não reproduzindo as miopias da divisão não-humano x humano que continuam a estruturar a academia (TSING, 2012, 2014). Como coloca a autora:
“O excepcionalismo humano nos cega. A ciência herdou das grandes religiões monoteístas narrativas sobre a superioridade humana. Essas histórias alimentam pressupostos sobre a autonomia humana e levantam questões relacionadas ao controle, ao impacto humano e à natureza, ao invés de instigar questões sobre a interdependência das espécies. Uma das muitas limitações dessa herança é que ela nos fez imaginar as práticas de
ser uma espécie (humana) como se fossem mantidas autonomamente e, assim, constantes na cultura e na história” (TSING, 2015a p. 184)
Tsing aponta a necessidade de dar vozes a diferentes outros, bem como a diferentes disciplinas de conhecimento, pessoas que ocupam lugares diferentes e estilos de vida diferentes no planeta, e de outras espécies não-humanas para “temperar o excesso de confiança da Anthropos e as tendências homogeneizantes do Capitalocene” (TSING, 2015b).