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O livro “Flight Ways- life and loss at the edge of extinction” escrito por Thom Van Dooren e publicado em 2014, é um livro etnográfico sobre aves e suas relações em tempos de extinções em tempos de Antropoceno, atentando-se às redes de interações nas quais os seres vivos emergem, se mantém no mundo e, eventualmente, morrem ou se extinguem. São histórias contadas em cinco capítulos que relatam a vida de cinco aves diferentes: Albatrozes; Urubus; Pinguins; Grous e Corvos. As histórias desse livro se engajam na literatura de biologia, ecologia e etologia, e também, com entrevistas e conversas com cientistas de vários tipos. Com base nas ciências naturais, o autor convida os leitores a sentirem curiosidade sobre as intimas particularidades desse ‘outro’ que esta desaparecendo.

O autor se esforça em acrescentar o que ele chama de “carne para os ossos dos mortos e moribundos” dando-lhes vitalidade, presença e talvez espessura através das histórias, às mentes e às vidas dos leitores. Somos convidados a conhecer e saber que os albatrozes de patas negras, por exemplo, nidificam em ilhas no meio do Oceano Pacífico há milênios e que seu modo de vida encontra-se hoje conectado temporalmente a existência de resíduos plásticos que se reúnem

abaixo da superfície do oceano e acabam no trato digestivo dessas aves. Ou ainda a conhecer a história dos urubus que limpam a paisagem dos órgãos de humanos e bovinos mortos na Índia, ajudando a prevenir a propagação de organismos patogênicos, como o antraz e e de como esses urubus vem sendo dizimados por conta do uso do diclofenaco, uma droga anti-inflamatória, usada frequentemente por agricultores pobres para prolongar a vida do seu gado, e que é tóxico para os urubus causando sua morte e provocando, consequentemente, um aumentos dessas bactérias, que por sua vez aumentam o numero de cães infestados com elas. O autor mostra que mais de 12 milhões de pessoas pobres são mordidas anualmente por cães na Índia, onde 25.000 a 30.000 mortes por raiva ocorrem a cada ano. Tais exemplos, Van Dooren argumenta, exigem que pensemos em como ''fazer um suporte para alguns mundos possíveis e não outros” (Idem. p. 60).

Essa estratégia do autor, do que ele chama de “contar histórias”, está relacionada a ideia de que, para Van Dooren (2014), ao contar esses tipos de histórias, de modos de vida, essas criaturas começam a ter mais que um nome: “um abstrato nome latino binomial, ou uma longa lista de espécies ameaçadas”, mas um complexo e precioso modo de vida (VAN DOOREN, 2014).

Dessa forma, para o autor, quando as espécies são entendidas com amplas linhagens intergeracionais, entrelaçadas em ricos modelos do “co-tornando-se com” os outros, sua extinção pode ser sentida como uma variedade de formas complexas e elaboradas que deixam de existir. Van Dooren afirma que:

“A extinção nunca é um nítido evento singular, algo que começa, toma lugar e dai é finda e acabada. É mais frequentemente um "maçante" desenrolar lento das formas intimamente emaranhadas de vida que começa muito antes da morte do último indivíduo e continua a propagar a frente muito tempo depois,desenhando nos seres vivos uma variedade de formas diferentes” (VAN DOOREN, 2014 p.5).

Por isso o autor defende a importância das histórias que estão sendo contadas argumentando que histórias são sempre mais que simples descrições. Histórias podem nos conectar a outros seres e coisas em novas formas pois, segundo o autor argumenta, nós vivemos por histórias e elas contribuem inevitavelmente e

poderosamente na formação do nosso mundo compartilhado, Van Dooren (2014) coloca ainda que:

“Este é um entendimento que trabalha contra qualquer forma pura ou simples divisão entre o mundo “real” e o “narrado” (K.). Ao invés disso eu vejo storytelling (narrativa - contar histórias) como um ato dinâmico de historiar o mundo, completamente inseparável da experiência vivida e um contribuinte vital para a emergência do que é”(VAN DOOREN, 2014 p.10).

Histórias, para o autor, são parte do mundo, então elas participam da sua formação trazendo como resultado o fato de que contar histórias tem conseqüências: “uma delas é que somos inevitavelmente levados a novas conexões e com elas novas responsabilidades e obrigações de forma que a extinção não possa ser considerada algo que acontece “lá na natureza” (VAN DOOREN, 2014 p.12). Ao contrário, o livro mostra as diversas formas nas quais humanos - indivíduos, comunidades e espécie - estão implicados na vida e no desaparecimento uns dos ‘outros’.

Segundo o autor essas são relações de co-evolução e dependência ecológica embora haja também muito mais do que a ‘biologia’ no sentido estrito, pois segundo coloca Van Dooren: “é dentro dos envolvimentos multiespécies que o aprendizado e o desenvolvimento ocorrem, e que as práticas sociais e a cultura são formadas” (VAN DOOREN, 2014 p.4) e, assim, prestar atenção no envolvimento das aves desestabiliza o quadro da excepcionalidade humana e levanta novos tipos de questões sobre o que a extinção nos ensina, como ela nos recria e o que exige de nos: “quais tipos de relações humanos-pássaros são possíveis em tempos de extinções?”, questiona o autor.

Flight Ways é um livro atual e insere o autor no campo da interespecificidade. No entanto, seus escritos mais antigos tratam de temas importantes à presente tese, como domesticação de plantas cultivadas (2012). Especificamente em um artigo intitulado “Wild Seed, Domesticated seed. Companion species and the emergence of agriculture”, Van Dooren (2012) propõe repensar as narrativas dominantes da invenção humana da agricultura e da domesticação de plantas cultivadas buscando uma forma de entender as relações humanos-plantas cultivadas na qual todas as partes são colocadas em jogo e mudam por sua interações. O autor argumenta que,

se, por um lado as plantas sofreram modificações ao entrarem em relações derivadas das atividades de agricultura, como aumento de semente com casca mais fina e retenção de sementes em conjuntos terminais, os humanos também foram sendo modificados nessas relações, inclusive fisiologicamente através da ingestão desses novos alimentos, e para isso o autor sita a pesquisadora Helen Leach que afirma que a base do esqueleto e outras características anatômicas podem ser consideradas domesticadas em certo sentido.

Questionando a separação entre selvagem e domesticado Van Dooren (2012) defende que a crença na existência de dois reinos separados, o “natural” e o “humano” é claramente problemática, e o problema estaria em dois pontos: nesta história de ‘reino separado” acabaria sendo apagada a dependência humana da biodiversidade de espécies não cultivadas, que continuam a ser um imput genético vital e, segundo, que este tipo de história coloca em risco toda biodiversidade pelo risco de poluição genética de plantas modificadas geneticamente. O autor sustenta que as interações humanos-cultivares são mais confusas e interessantes do que qualquer divisão entre selvagem e doméstico, ou natural e artificial (VAN DOOREN, 2012 p.25).

Dessa forma. segundo Van Dooren, plantas não são simplesmente comida ou outro fornecedor de material: “Plantas são formas de vida que surgem através de relações que humanos e cultivares fazem juntos, com trabalho, brincadeira, curiosidade e amor. (para nomear alguns fatores) em que todo mundo muda e mundos são feitos” (VAN DOOREN, 2012 p.27).

Benzer Belgeler