A vulnerabilidade institucional das ações relacionadas ao Programa Cresce Feliz pôde ser observada em decorrência de problemas relacionados a sua estrutura, processo e resultados.
Considerando a estrutura, observou-se a falta de padronização, por parte da equipe do Programa no nível central, quanto à classificação do recém-nascido de risco; a ausência de cópia do Programa e de suas atualizações nas unidades; a não identificação das crianças de risco pelos profissionais das unidades; a falha de informação sobre as crianças de risco, quando da transferência para outra unidade de saúde; a falta de prioridade aos recém-nascidos de risco, para consulta médica e de enfermagem; a não realização de grupos de gestantes e de recém-nascidos, assim como a pequena participação dos médicos e dos enfermeiros nessas ações; a carência de atividades de vigilância do risco pelas unidades de saúde; as falhas na convocação dos recém-nascidos de risco faltosos e a falta de locais adequados para realização do acolhimento a eles, assim como de salas de vacinas apropriadas.
A análise de processo evidenciou a falta de seguimento do protocolo de atendimento ao recém-nascido de risco pelas unidades de atenção básica quanto à vacinação e calendário de consultas; à carência de atividades de educação em saúde;àsfalhas de anotações nos prontuários, em função de letra ilegível, dados incompletos ou ausência de registro de
informações fundamentais para acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantis; à ausência de envolvimento dos profissionais com o Programa; às falhas no atendimento em consulta médica e de enfermagem; à falta de capacitação dos profissionais envolvidos com o cuidado à criança na atenção básica e à carência de profissionais de nível médio para atuarem no Programa eàs irregularidades na efetivação de visitas domiciliares quanto à freqüência e época de realização.
A partir da interpretação dos discursos maternos, pode-se apontar como pontos de vulnerabilidade do Programa a rigidez da rotina assistencial relacionada ao estabelecimento de dia específico para agendamento de consultas e horários para atendimentos; o descrédito em relação à capacidade técnica dos profissionais e quanto à resolubilidade dos serviços; as dificuldades no relacionamento interpessoal usuário e profissional; a supervalorização do profissional médico e das especialidades e dos serviços terciários em detrimento do atendimento básico e o desconhecimento do Programa por parte das mães.
Considerando-se todas essas questões, sugere-se para melhoria do Programa Crescer Feliz:
x Resgatar na Secretaria Municipal de Saúde cópia da primeira versão do Programa Crescer Feliz e, a partir dela, documentar todas as reestruturações propostas;
x Evidenciar a importância do Programa, ressaltando-se o que está sendo preconizado pelo Ministério da Saúde para atenção ao recém-nascido de risco;
x Estabelecer protocolo de atendimento ao recém-nascido de risco a ser seguido por todas as unidades de atenção básica do município de Botucatu, respeitando o princípio da eqüidade, de forma a garantir constante vigilância sobre essas crianças;
x Garantir a todas as unidades recursos físicos e materiais para atendimento ao recém- nascido de risco;
x Tornar efetiva a identificação dos prontuários das crianças do Programa;
x Sensibilizar os profissionais das unidades básicas em relação à importância do desenvolvimento de atividades em grupo de educação em saúde;
x Avaliar permanentemente as atividades desenvolvidas no Programa, incluindo as anotações no prontuário, de forma a coibir a ausência ou insuficiência de registro;
x Desenvolver atividades de educação permanente com todos os profissionais para que realizem o atendimento ao recém-nascido de risco de forma adequada;
x Priorizar efetivamente as visitas domiciliares até o 10º dia de vida a todos os recém- nascidos de risco;
x Integrar o Programa Crescer Feliz com outros programas de saúde do município, especialmente o de Atenção Pré-natal;
x Incentivar as unidades de saúde a tornarem efetivos os programas de planejamento familiar, de forma a diminuir os casos de gestação indesejada;
x Intensificar as atividades de vacinação infantil;
x Matricular nas unidades básicas de saúde todos os recém-nascidos nela atendidos, mesmo que apenas para vacinação, de forma a facilitar o monitoramento de crianças não vacinadas ou faltosas;
x Incentivar o acompanhamento de puericultura no município, não somente por meio de atendimentos eventuais, onde o enfoque é a cura da doença instalada, mas também valorizando a promoção da saúde;
x Desenvolver atividades de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno em todas as unidades básicas, seguindo recomendações do Ministério da Saúde;
x Realizar campanhas para divulgação deste Programa voltadas à população, inclusive divulgando lema: “Nascer e viver bem em Botucatu”;
x Divulgar os resultados desta pesquisa em todas as unidades básicas de saúde do município, como estratégia de sensibilização sobre a importância do Programa.
Em síntese, a abordagem construída a partir da noção de vulnerabilidade reconhece a necessidade de obediência aos princípios do SUS para se produzir modificações importantes na saúde da população estudada. Nesse sentido, a hierarquização, universalidade, descentralização, regionalização, controle social, equidade, acesso e integralidade da atenção são princípios fundamentais que o Programa Cresce Feliz deve seguir. Logo, fortalecer o processo de trabalho fundado na complexa integração de ações individuais e coletivas,
curativas e preventivas, de pronto-atendimento e programática, articuladas em um sistema de cuidados em níveis progressivos de atuação. Desse modo, certamente, ampliam-se as possibilidades de cuidado e criam-se maiores condições para o atendimento das necessidades das crianças, visando à promoção de sua saúde.
8. REFERÊNCIAS
1. Brasil. Ministério da Saúde. Situação da Infância Brasileira. Caderno Brasil. Brasília;