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4- ESER SAHİPLİĞİ ve HAKLARI
Recordamos que a hipótese desta pesquisa era verificar quais seriam as principais prospectivas teológico-pastorais da Igreja para orientar a vivência do matrimônio cristão, diante da instável e complexa realidade contemporânea. Tal hipótese foi subdividida em outras três secundárias, originando os capítulos que desenvolvemos no decorrer desta reflexão.
No primeiro capítulo analisamos criticamente a realidade contemporânea, a partir de quatro princípios pré-estabelecidos, a saber – olhar a realidade a partir de Jesus Cristo, na Igreja (princípio teológico); olhar a realidade com a devida humildade (princípio eclesial); contar com a valiosa ajuda das ciências naturais (princípio científico); nunca deixar de buscar o conhecimento por inteiro (princípio filosófico) – mostrando como esta pode interferir no modo de ser e pensar das pessoas, especialmente no interior da vida matrimonial e familiar, requerendo da Igreja, em sua missão evangelizadora, respostas aos novos anseios emergentes. Quanto à realidade contemporânea investigamos cinco cenários, enfatizando a influência destes na vida matrimonial e familiar. Estes foram: cenário cultural; cenário do fenômeno da globalização; cenário sociopolítico; cenário eclesial e cenário familiar.
Independente do tipo de análise que fizemos da realidade contemporânea, cremos que os princípios que estabelecemos podem servir de instrumental para a realização de outras investigações. Eles muito colaboraram conosco em nossa empresa. Quanto ao resultado de cada cenário que investigamos, nos contentamos, neste momento, de acenar de modo panorâmico, com a complexidade e a dinamicidade que os constituem. Pretender enumerar o resultado de todos os seus dados seria desnecessário e redundante. Apesar disso, constatamos que fenômenos como a mudança de época e a globalização perpassam transversalmente todos os cenários, causando profundas mudanças, ao ponto de destituir os paradigmas sólidos de uma época, abrindo espaço para o surgimento de uma nova. Tais fenômenos causaram muitas interrogações e angústia no espírito humano.
Assim, olharmos a realidade hodierna, à luz de Cristo, pode significar fazer dos critérios da “lógica” de Deus, os critérios de nossa “lógica”. Seria contarmos com o misterioso auxílio de sua graça no discernimento dos sinais dos tempos atuais. Seria deixarmos que os critérios da fé iluminassem nossa razão, sem a cancelar. Seria olhar a realidade com fé, sem medo de sermos vencidos por ela. Seria termos a firme esperança de que nada está perdido, já que, “a esperança não decepciona, pois o amor de Deus foi
derramando em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Seria fazer da caridade o motor que nos move na direção da busca da renovação das estruturas de morte, uma estrutura de vida. Seria olhar para além das aparências e descobrirmos as primeiras causas daquilo que vemos. É neste cenário de pessoas que caminham segundo o seu bel- prazer, entregues aos seus juízos subjetivos, nem sempre bons, às vezes indiferentes com Deus, que devemos procurar habitar. A descoberta e o convencimento interior de que Jesus Cristo caminha conosco, muito próximo de nós, será a companhia agradável a nos preceder, acompanhar e permanecer na realidade que investigamos. Diante da instável e complexa figura deste mundo, recordamos que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13,8), que vive em comunhão com o Pai e Espírito Santo, e misteriosamente permanece conosco até a consumação dos séculos (Mt 28,20).
Vimos ainda que conhecer o mundo em que estamos é um desafio inevitável para a Igreja. Ela tem consciência das dificuldades inerentes a isto. E ainda sabe que este complexo mosaico causa angústia e sofrimento em muitos homens e mulheres por se sentirem quase que impotentes diante de tão rápidas e incompreensíveis transformações. Estes esperam um alento daquela que é Mãe e Mestra. Por outro lado, a Igreja reconhece que sozinha ela não tem condições de superar o desafio que lhe é apresentado. Conhecer com clareza e precisão a realidade hodierna é uma missão não muito fácil. Assim, reconhecendo, assumindo e respeitando os seus limites, ela conta com o auxilio das diversas ciências afins a este objetivo a ser cumprido. Sem se deixar confundir e vencer pelos diversos cenários desafiadores do seu tempo, à luz do Espírito do Senhor e com a colaboração da luz natural da razão, a Igreja se esforça para oferecer a todos uma palavra de esperança e alento em meio às turbulências contemporâneas. Num ambiente onde as sombras parecem sobressair à luz, ela quer ser luz para os povos. Assim, fé e razão – teologia e ciência não se contradizem, mas se completam. A humildade é a virtude que deve nortear a postura eclesial diante da realidade hodierna.
Diante da complexidade que constitui o mundo em que estamos, diante da rapidez com que tudo acontece, diante da instabilidade de direção das pessoas, parece ser mais prudente afirmar que nossas análises não poderiam esgotar todos os elementos que se entrelaçam no meio onde nos encontramos. A exatidão de resultado, com clareza e precisão, alcançando uma verdade absoluta e incontestável, parece estar acima dos nossos limites, mesmo quando a Igreja recorre ao uso das ciências na investigação do mundo atual. Aqui reafirmamos o que dissemos anteriormente, a devida atitude de humildade da Igreja na sua análise sobre a realidade hodierna deve se tornar um paradigma para as investigações das várias ciências. O esforço de todos pode colaborar para melhor compreensão da totalidade, mesmo que não a
esgotemos completamente. Devemos buscá-la sempre. Isto parece um paradoxo que não abandonou o homem durante toda a sua existência, isto é, o seu desejo pelo conhecimento do todo/do inteiro e a dificuldade de alcançá-lo.
Além da necessária colaboração entre fé e razão, vimos que não podemos prescindir da relação entre ciência natural e metafísica. A busca do saber particular não pode se fechar ao horizonte da totalidade do ser. Ciência natural e Teologia, ciência natural e metafísica, são saberes que não podem ser desvinculados, se de fato desejamos compreender mais profundamente a realidade em que vivemos. Desta maneira, consideramos que a filosofia podia colaborar conosco na compreensão da instável e complexa realidade hodierna. Platão foi o exemplo disso. O mundo é maior do que aquilo que vemos e sabemos do mundo. Não podemos nos iludir e reduzir o ser do mundo àquilo que vemos e sabemos dele. O mundo que está dentro de nós é menor do que aquele que nos rodeia e nos transcende. Nossa representação dele não será jamais condizente com a totalidade do seu ser real. Aquilo que é imanente a nós é uma dimensão do mundo. Além da sua dimensão física temos a metafísica. Possuir um conhecimento de causa de toda a realidade é algo grande demais diante da pequenez de nosso ser. Não obstante isso, carregamos implícito, no mais íntimo de nós, o desejo de síntese e o potencial de realizá-la. Qual será a sua abrangência, depende da aplicação de cada um e da devida humildade de contar com a ajuda alheia para este fim. Não caiamos na mediocridade de nos contentarmos com o pouco que conseguimos. Busquemos o melhor. Vimos que a busca do melhor para nós é uma experiência espaço-temporal específica. O dinamismo temporal é algo fascinante. Não podemos nos perder nele. Presente, passado e futuro são inseparáveis. Esta é uma nova dimensão de síntese que temos que realizar. A riqueza epistemológica é cumulativa. O que conhecemos ontem pode nos orientar hoje e abrir nosso horizonte para o amanhã. O acréscimo desta riqueza enriquece nossa visão cosmológica hodierna. O tesouro a ser explorado é sempre mais precioso do que aquilo que já temos. Assim, a busca constante de penetrarmos em suas profundezas (na realidade), a busca do todo deverá sempre nos atrair.
Já no segundo capítulo apresentamos as notas fundamentais do matrimônio cristão, baseando-nos na fundamentação bíblico-teológica deste.
Partindo da Sagrada Escritura, analisamos os textos Gn 1,26-28.31a; 2,4b-7.18-24, Mt 19,1-9 e Ef 5,2a.21-33 referentes ao tema em questão. Vimos, entre tantos outros elementos, que Deus, desde o princípio, tinha no seu coração o desígnio de criar o homem e a mulher, como a sua imagem e semelhança, e apresentar-lhes o matrimônio como um caminho natural para a realização deles. O matrimônio foi, desde então, naturalmente querido e instituído por
Deus. Este constitui uma realidade de Direito Natural, não dependendo do arbítrio humano, de circunstâncias culturais para a sua validade. Devido ao pecado ter entrado no mundo (cf. Gn 3) e provocado a queda do primeiro casal, endurecendo o coração de toda a humanidade, porque todos pecaram (cf. Rm 5,12), o divórcio foi autorizado por Moisés (cf. Dt 24,1) mas Jesus, por sua vez, ratificou o desígnio originário de Deus quanto ao matrimônio (Mt 19, 8) requerendo um amor único e indivisível entre marido e mulher por toda a vida. E é justamente a esta bondade originária que alçamos voo, fazendo prevalecer o desígnio primeiro do Criador. Para deixar um símbolo ou uma parábola perfeita que norteasse a vida matrimonial dos seus discípulos/missionários, o próprio Jesus realizou em sua íntima união de amor com a Igreja, o Grande Mistério (Ef 5,32) da nossa salvação. Marido e mulher devem compreender que esta sublime relação é o alicerce onde se deve erguer a vida matrimonial e familiar deles. A família se torna o espaço vital e privilegiado onde um deve amar o outro até as ultimas consequências. Nesta não deve existir espaço para o machismo nem para o feminismo, mas sim para uma paternidade e maternidade responsáveis. Aquele que pretende ser o maior, seja o servo do outro. Cada um procure fazer a experiência de assumir para si os mesmos sentimentos de Jesus Cristo (Fl 2,5). A suprema regra de vida é a do amor incondicional, aquele que leva a pessoa a doar tudo de si, em vista do bem do outro.
Num segundo momento discorremos em torno à fundamentação teológica do matrimônio. Vimos que esta instituição possui a sua naturalidade, como também, foi elevada por Jesus Cristo à condição de Sacramento, se anular os elementos essenciais que se encontravam na natureza deste. Quando falamos de naturalidade do matrimônio, compreendíamos as notas ou os valores que se inserem no âmbito da natureza humana estabelecida por Deus. Deus, ao criar o homem e a mulher como ápice de toda a obra que fizera, e, simultaneamente, criar o próprio matrimônio, inscreveu originariamente no coração deles as normas que deveriam nortear o pacto conjugal. Tais normas consistiam no bem dos cônjuges e a procriação da prole e a sua consequente e necessária educação. E essas notas devem ser seguidas por todos, pelo fato de serem humanos, prescindindo de credo, cultura ou condição social. É como uma base natural, onde se apoia e torna possível a convivência familiar fundada no matrimônio entre um homem e uma mulher. Ambos sentem-se impelidos de buscarem o bem um do outro e de se tornarem colaboradores do Deus Criador, quando, com liberdade e responsabilidade concebem a vida humana, transmitindo a imagem e semelhança divina ao novo ser que nasce. Neste ato os pais prolongam para a posteridade o seu próprio ser. Após contemplarem-se nos filhos, os pais se empenham na arte de educá-los, a fim de instruí-los para conviverem pacífica e harmoniosamente na sociedade humana,
porém, cada um, pessoalmente, deve assumir o compromisso de direcionar e realizar a sua própria existência.
Em seguida, vimos que aqueles que o Senhor chamou para se unirem, por um consentimento entre si, pelo sacramento do matrimônio, e desta forma, estarem unidos a Ele, constituindo assim, a família, segundo o desígnio originário de Deus, são convocados a experimentar no quotidiano de suas vidas a lógica do amor incondicional do Divino Esposo pela Esposa Igreja. O amor conjugal, único e indissolúvel, deve tornar-se sinal sacramental daquele amor que levou o Filho de Deus a dar a sua vida na cruz pela redenção da humanidade, abrindo para esta, com a sua gloriosa ressurreição, as portas da eternidade. Tal amor deve ser fecundo e aberto para a geração dos filhos, como dons e coroa que Deus proporciona aos esposos e, consequentemente, para uma reta educação dos mesmos. Deus, que chamou marido e mulher para este fim, não deixa de ajudá-los pela graça santificante inerente ao próprio sacramento, pela Eucaristia e pela vida espiritual que ambos devem cultivar. A espiritualidade pascal deve tornar-se a espiritualidade conjugal e familiar. Portanto, a Igreja deve ficar atenta aos casais que dela se aproximam e a toda a família, ou melhor, ela deve se aproximar de todos eles, sendo sensível às suas alegrias e esperanças e seus sofrimentos e desilusões. A atitude do Bom Pastor (cf. Jo 10,10), como aquele que dá a sua vida pelas ovelhas, deve nortear toda a ação evangelizadora em nossos dias com relação ao matrimônio e à família.
No terceiro capítulo, tínhamos por objetivo detectar as principais prospectivas teológico-pastorais da Igreja para orientar a vivência do matrimônio cristão, diante da instável e complexa realidade contemporânea, com base no que apresentamos nos dois capítulos anteriores.
Enumeramos três prospectivas para a Igreja nesta sua missão.
A primeira tratava da necessidade de aprofundar a partir da fides et ratio a compreensão eclesial acerca da realidade do matrimônio e da família. Vimos que não é possível mais prescindir da valiosa colaboração da razão para a fé, e nem deixar de iluminar com esta luz a realidade onde nos encontramos. A Igreja deve ter a devida humildade de colher os benefícios das ciências afins no campo do matrimônio e da família. Os princípios da razão não anulam os da fé e vice-versa. Muitos desvalores causam, em nossos dias, grandes dificuldades para toda a família. Cremos que este cenário não tem a capacidade de destruir a beleza dos verdadeiros valores que proporcionam felicidade e estabilidade para todos nesta instituição sagrada. Propusemos a necessidade de aprofundar nos cursos de Filosofia e Teologia a temática da vida matrimonial e familiar, abrindo a possibilidade de termos bons
Pastores e fiéis Leigos bem formados, para colaborarem no acompanhamento de nossas famílias.
Já a segunda prospectiva tratava da necessidade de uma sincera conversão pastoral, passando de uma mera pastoral de conservação a uma pastoral autenticamente missionária. Motivada pela V Conferência do CELAM, ocorrida em Aparecida em 2007, a Igreja do Brasil assumiu o compromisso de entrar neste processo de conversão pastoral, como expressou nas suas Diretrizes 2011-2015. Não podemos mais ficar esperando que as pessoas nos procurem. Temos a urgente necessidade de sair do nosso comodismo e ir ao encontro de tantas pessoas e famílias que sofrem, muitas vezes, solitariamente, esperando ajuda. Não dá para ficarmos indiferentes diante da angústia de tanta gente. Precisamos deixar transparecer em nossa vida cristã a beleza do espírito missionário inerente em nossa mais íntima identidade de batizados. Não somos missionários por opção, mas por natureza. Permanecermos na comodidade é trairmos algo essencial em nós. Este espírito deve perpassar todas as nossas atitudes eclesiais, animando-nos por dentro. A comodidade deve dar lugar para a proximidade com os nossos irmãos e irmãs.
A terceira e ultima prospectiva era a necessidade de fortalecer e inovar uma Pastoral Familiar missionária. Na verdade, procuramos implantar o espírito missionário, descrito anteriormente nesta Pastoral. Seguimos, em linhas gerais, a intuição que teve o Beato João Paulo II na Familiaris Consortio, quanto à estrutura da Pastoral Familiar. O horizonte que ela pode ocupar diz respeito a toda a existência humana. Desde a concepção até a morte natural de uma pessoa, a Igreja, através desta pastoral, pode se fazer presente na vida desta e de sua família, manifestando o infinito amor de Jesus Cristo, o Bom Pastor da Humanidade. Hoje, muito mais que em outros tempos, as pessoas carecem de serem acompanhadas de perto. Temos que lançar raízes profundas no coração e na consciência destas, raízes estas que tenham a sua fonte no Evangelho. É necessário tornar-nos mais sensíveis à situação concreta das pessoas e das famílias. Acompanhar os pais quando da noticia da gravidez, e durante todo o período de gestação, na educação da criança que nasce, na iniciação cristã, na juventude, no namoro, na preparação para o casamento e após este, são desafios que a Igreja possui irremediavelmente. Tal solicitude pastoral pode ser desempenhada através da Pastoral Familiar e outras Pastorais e Movimentos afins. Somos convocados a cuidar também das pessoas e famílias que se encontram em situações especiais, especialmente os casais em segunda união. Tal desafio é urgente, pois, infelizmente, tem aumentado bastante o número de casais nesta situação. Além do ambiente eclesial, toda a sociedade constitui um espaço que
pode ser ocupado por nós, em vista do bem das pessoas e das famílias. Nisto consistem as dimensões intra e extra eclesiais do processo missionário que devemos empreender.
Enfim, ao concluirmos este longo e árduo percurso de pesquisa, temos consciência da imensa beleza e riqueza que envolvem a vida matrimonial e familiar, como também os inúmeros desafios para a Igreja em acompanhar e orientar cuidadosamente todos os membros que lhe são confiados. O matrimônio cristão não está fora de moda. Com o Beato João Paulo II temos que acreditar que o futuro da humanidade passa pela família347. Sendo assim, vale a pena todo o nosso esforço para valorizar esta sagrada instituição, fundada no sacramento do matrimônio e querida por Deus desde o princípio. Como Igreja, temos que zelar, da melhor maneira, na valorização, promoção e realização das exigências da família. É um longo caminho a ser percorrido. O espírito missionário deve nos impulsionar nesta direção. Vamos sair de nosso costumeiro comodismo e ir ao encontro de tantas pessoas que precisam da nossa ajuda. Mesmo que os operários sejam poucos e a messe grande, peçamos ao Senhor da messe que nos socorra, a fim de cumprirmos bem aquilo que se espera de nós (cf. Lc 10,1-2). Como vimos no decorrer desta pesquisa, o espaço que podemos ocupar no horizonte existencial da vida matrimonial e familiar é enorme. Acreditemos no valor sagrado do matrimônio cristão e da família. Lancemo-nos nesta empresa sem medo. Somos somente colaboradores. O protagonista de tudo é o próprio Deus. Confiemos Nele. Mesmo que não consigamos fazer tudo o que devíamos, como servos inúteis (cf. Lc 17,7-10), façamos o que nos é possível. Contemos com a força do Espírito de Deus e a sempre intercessão da Virgem Maria.
REFERÊNCIAS