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Considerando o interesse dos atores que geram o deslocamento, na riqueza atual ou futura de algumas regiões do país, a população internamente deslocada não tem outra característica comum do que o fato circunstancial de ser morador de uma área de conflito armado e ter sido obrigado a sair. Assim, tal como destacado por Meertens (1999), os deslocados se caracterizam por sua heterogeneidade, e o status compartilhado como “deslocados” não se deriva de nenhuma característica comum, como poderia ser a religião, etnia ou a filiação política – tal como acontece em conflitos internos de outros lugares do mundo.

No entanto, pode-se dizer que a população deslocada está composta, em sua maioria, por camponeses pobres, pessoas dedicadas à lavoura – embora também se encontrem, em menor proporção, pessoas dedicadas a atividades urbanas, como pequenos comerciantes, professores, funcionários públicos, etc.. Alguns deles foram colonos que, durante sua vida, vivenciaram, várias vezes, a experiência da migração forçada.

“Temos sofrido deslocamentos desde 1948. Primeiro, minha família saiu do [departamento do] Vale para Caldas. Depois, de Caldas pra cá [El Castillo – Meta}. Levantamos uma lavoura, mas, desde 1985, começaram a matar companheiros. Assassinaram a Maria Mercedes Méndez, a Prefeita, que vivia só para trabalhar com as comunidades organizadas e não organizadas. O William Ocampo, prefeito eleito que recebeu o cargo; depois, nos caminhos, começaram a pegar as pessoas e a desaparecer com elas. Hoje, continuamos pobres e deslocados, mas continuamos” (Depoimento de homem idoso, reportagem “Retorno campesino al Alto Ariari”, El Espectador, semana de 25 de junho-1 de julho de 2006, pág.7A).

Além da origem camponesa dos deslocados, os dados mostram uma alta proporção de pessoas pertencentes a minorias étnicas – principalmente afro-colombianos e indígenas – além de um grande número de crianças e mulheres. Segundo análise de Henao (2004), baseado em dados Codhes, 4 de cada 10 pessoas deslocadas correspondem a grupos indígenas ou afro-colombianos, sendo que, em 2002, 33% do total de deslocados eram afro- colombianos e 5%, indígenas (Henao, 2004, p.1).

Em termos populacionais, 45% das pessoas deslocadas correspondem a crianças entre 0 e 14 anos e 49%, a mulheres – a proporção de mulheres entre 15 e 64 anos é de 52% (Conferencia Episcopal de Colombia, 2005a, p.14).

Em termos gerais, segundo Codhes48, em 20 anos (1985 a 2005), 3.721.000 pessoas se deslocaram, sendo quase 3 milhões na última década (barras em rosa na Figura 7), período que coincide com a exacerbação do conflito armado. Deste número, só 1.800.000 têm se registrado no Sistema Único de Registro – SUR49 –, a fim de serem beneficiários dos programas governamentais orientados a atender à população deslocada50.

0 100000 200000 300000 400000 500000 N úm e ro de p e s s oa s A no 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Número de pesso as deslo cadas 27000 36000 59000 105000 116000 77000 110000 64000 45000 73000 88000 181000 257000 308000298000 313000 342000 412000 207000287000 316000

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21

Figura 7. Comportamento do deslocamento na Colômbia. 1985-2005.

Fonte: Codhes, Sistema de Información sobre Desplazamiento Forzado y Derechos Humanos – Sisdhes

www.codhes.org/info/grafico-tendencias.htm; acesso realizado em 18/07/2007.

A respeito dos geradores de deslocamento, segundo dados da Conferencia Episcopal Colombiana, coletados nas Igrejas e escritórios de Pastoral Social do país, a guerrilha aparece em 42,9% dos casos como causadora de expulsão, seguida por 28,7% de “outros atores”, entre os quais estão delinqüência comum, narcotraficantes, esmeraldeiros,

48

Dados obtidos em www.codhes.org/infor/grafico-tendencias.htm, acesso realizado em 18/09/2007.

49

Dado acumulado de população deslocada desde 1995 até 30 de abril de 2006, em http://www.acnur.org/crisis/colombia/desplazamiento.htm, acesso realizado em 18/07/2007.

50

As diferenças entre os dados oficias do SUR, Codhes, Comité Internacional de la Cruz Roja – CICR – e Conferencia Episcopal, surgem, principalmente, da fonte e dos métodos estatísticos utilizados. Assim, o Sistema

de Información sobre Desplazamiento Forzado y Derechos Humanos – Sisdhes – de Codhes parte da

triangulação de diversas fontes secundárias de informação: o CICR dos atendimentos humanitários oferecidos; o RUT (nome da personagem bíblica) da Conferencia Episcopal, dos dados obtidos através da aplicação de um questionário nas igrejas e nas pastorais sociais do país, e o SUR daquelas pessoas que se aproximam para declarar sua situação ante os organismos do Ministério Público, com o fim de receber atendimento do Estado. Recentemente, o Acnur, em relatório mundial de 2006, calculou em 3 milhões o número de deslocados na Colômbia, analisando os dados existentes no país a partir de diferentes fontes.

vizinhos, milícias e atores armados desconhecidos. Posteriormente, aparecem os paramilitares, em 27,3% das ocasiões, e o exército e a polícia, com 1.1% (Conferencia Episcopal de Colombia, 2005a, p.14). Embora os atores armados sejam “os geradores visíveis do deslocamento”, atrás deles se escondem agroempresários, fazendeiros, narcotraficantes, empresas multinacionais que, como apontado acima, apresentam interesses diversos sobre as terras ou potencial dos territórios pertencentes às comunidades expulsas.

A difusa relação entre conflito e interesses econômicos como geradores de deslocamento é ainda mais evidente se comparados os dados da dinâmica do conflito – tratados no item 2.3.1 deste capítulo – com os do deslocamento de Codhes apresentados na figura 7. Neste confronto de informações, observamos que há uma relação direta entre conflito e deslocamento nos períodos em que a linha amarela e as barras coincidem, o que corresponde aos anos de 1990, 1991, 1996, 1997 e 2000.

Nos anos de 1992, 1993, 1998 e 1999, podemos arriscar duas hipóteses que julgamos não serem excludentes: a existência de “outros geradores” de deslocamento, relacionados talvez às pressões de fazendeiros, narcotraficantes ou investimentos estrangeiros para desalojar terras; e o impacto diferencial das ações militares dos grupos armados. Nos dois primeiros anos, as pressões pelo desalojamento foram avaliadas pelas pessoas como “suportáveis” – o que contribuiu para que mais famílias conseguissem permanecer nas regiões; porém, nos dois últimos (1998 e 1999), o embate foi tamanho, que provocou a saída em massa de um maior número de pessoas.

0 500 1000 1500 2000 2500 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 Ano m e ro d e a ç õ e s 0 50000 100000 150000 200000 250000 300000 350000 N ú m er o d e p ess o a s violações ao DIH ações bélicas

Numero de pessoas deslocadas

Figura 8. Comparativo da dinâmica do conflito armado (ações bélicas e violações ao DIH) e

comportamento do deslocamento na Colômbia. 1990-2000.

Fonte: González et al, (2003) p.100, baseado em dados do Sistema de Información Georeferenciada – SIG –,

Cinep – Justicia y Paz.

Codhes, Sistema de Información sobre Desplazamiento Forzado y Derechos Humanos – Sisdhes www.codhes.org/info/grafico-tendencias.htm; acesso realizado em 18/07/2007.

Benzer Belgeler