Os passos que um indivíduo tem que seguir, para conseguir o atendimento, ilustram melhor as limitações identificadas nas avaliações do Acnur e naquelas que foram matéria do pronunciamento da Corte Constitucional na Súmula T-025. O processo padrão para áreas urbanas, em casos de deslocamento individual, é delineado a seguir.
Para ingressar ao SUR – porta de entrada ao atendimento humanitário e aos programas de estabilização socioeconômica – o chefe de família deve declarar, diante de um funcionário do Ministério Público, as razões pelas quais saiu do seu lugar de origem. A maioria das famílias não declara assim que chega à cidade – somente depois de alguns meses, e graças à informação de familiares, amigos ou de outros deslocados, se aproxima para fazer a declaração e solicitar a inscrição no SUR. Há um grande contingente que prefere guardar o anonimato ou, simplesmente, não são informados sobre os procedimentos para o registro e sobre os direitos que têm como vítimas da violência.
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Segundo o Consejo Superior de la Judicatura, enquanto, no país, se deslocaram 619 mil pessoas entre 2004 e 2006, apenas 37 investigações se iniciaram e 15 pessoas foram condenadas (Balance de la Política de atención a Población Desplazada, 2004-2006, Acnur, p.319).
Uma vez feita a declaração, esta é enviada à Acción Social para análise – baseada na lei 387, de 1997. Caso a resposta seja negativa60, o postulante tem o direito de ampliar a declaração e pedir uma nova avaliação.
Oficialmente, o processo de análise deve demorar 15 dias úteis; no entanto, o acúmulo de declarações faz com que demore, em média, 2 meses. Em situações de extrema vulnerabilidade das famílias (sem lugar para morar, alto número de crianças e idosos, mulheres responsáveis pela família, pessoas com deficiências físicas ou doentes), se oferece ajuda humanitária de emergência até a obtenção da resposta sobre a inclusão no SUR, que consiste em dinheiro para aluguel – ou encaminhamento para um albergue – e uma cesta básica.
Assim que a declaração é aceita, o chefe de família recebe uma carta com a lista dos direitos que a lei outorga em matéria de saúde, educação, assistência psicológica e apoio para estabilização socioeconômica – caso pense em retornar ou se reassentar na cidade de chegada, ou em uma área rural diferente do local de origem. Adicionalmente, recebe uma carta de encaminhamento para a secretaria de educação, a fim de obter vagas na rede de ensino público, e uma carta para receber atendimento no sistema de saúde.
Também é encaminhado para uma ONG dentre as que são conveniadas para oferecer ajuda humanitária. Esta ajuda inclui cesta básica e dinheiro para aluguel por três meses, um kit de cozinha (panelas, pratos e talheres) e um kit de moradia (cobertores e colchonetes), além de assistência psicológica para os membros da família. De maneira geral, o recebimento de cestas básicas e aluguel é imprevisível; portanto, as famílias devem procurar rapidamente outras alternativas para cobrir suas necessidades de alimento e moradia.
A qualidade no atendimento recebido pelas ONGs varia de acordo com fatores como o enfoque de trabalho da equipe, o conhecimento dos profissionais sobre o fenômeno do deslocamento e a infra-estrutura disposta para o atendimento. Uma das questões que mais
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Uma declaração pode ser rejeitada se os fatos que ocasionaram o deslocamento não se relacionam com o conflito armado interno ou as ações contra o DIH por parte dos atores armados. Exemplo comum são os deslocamentos pelo programa governamental de fumigação em áreas de erradicação de coca, por não considerar- se uma ação diretamente relacionada com o conflito, e, sim, com a política antinarcóticos; ou quando se argumentam situações de tipo econômico, embora muitas vezes o conflito termine por afetar os mercados locais e os sistemas de produção das comunidades rurais.
chama a atenção é o fato de que, no processo de terceirização do atendimento, as ajudas não são percebidas pelas pessoas como vindas do governo, o que acentua ainda mais a distância entre população e Estado.
Após as três ajudas, as famílias podem fazer solicitação para a ampliação do auxílio por mais três meses. Os funcionários de Acción Social realizam uma visita à família para avaliar a situação. Atualmente, se concede ampliação do subsídio nos casos de doença terminal do chefe de família, idosos como chefe de família ou famílias com pessoas deficientes dentre seus membros.
A maioria das pessoas se dirige à UAO da cidade de recepção para receber informação e solicitar ajuda. Nas cidades em que esse órgão não existe, se dirigem ao escritório de Acción Social ou à prefeitura.
Nas UAO, ademais dos profissionais de Acción Social, se encontram, recebendo declarações, funcionários do Ministério Público; pessoal dos serviços de saúde realizando programas de prevenção ou resolvendo as dificuldades encontradas no atendimento hospitalar; promotores sociais das prefeituras encaminham para diferentes serviços e programas sociais, entre outros. As UAO distribuem também informação e, em determinadas ocasiões, fazem inscrição em programas de subsídio para moradia, capacitação para o trabalho, emprego temporário, bolsa-família e bolsa-escola, suplemento alimentício para mães gestantes e lactantes, acompanhamento psico-social, entre outros.
Como analisado nas avaliações sobre a política, a oferta de programas para estabilização socioeconômica é reduzida. Dirigida à população deslocada que mora em áreas urbanas, se desenvolve, atualmente, o Programa de Apoyo Económico – PAE –, em parceria com CHF-Internacional (Cooperação dos Estados Unidos) e Acción Social. O PAE é executado por ONGs que prestam assessoria e entregam subsídios para o desenvolvimento de pequenos negócios (mercearias, açougues, varejão, vendas ambulantes, etc.). Alguns destes negócios entram, depois, em programas de micro-créditos, com taxas de juros especiais.
Na área de trabalho, através de parcerias com empresas e indústrias, se oferecem vagas para empregos temporários e permanentes logo após um processo de qualificação e treinamento na área requerida pela empresa. O processo de qualificação é
responsabilidade do Servicio Nacional de Aprendizaje – SENA – em parceria com ONGs que oferecem formação técnica.
Entre as famílias, o tempo transcorrido entre cada parte do processo causa inconformidade: a declaração, a inclusão no SUR, a ajuda humanitária, os subsídios para negócio, etc. e o fato de que os programas resolvem situações pontuais e não dão uma resposta integral, diferenciada e oportuna às necessidades e expectativas de indivíduos e famílias. Assim, além de vulnerados em sua integridade moral e física pelos atores que os expulsaram de seus locais de origem, os deslocados são, também, vulnerados como cidadãos quando o Estado não resolve pronta e eficazmente sua situação nos locais de chegada.