5. İkinci Meşrutiyet Dönemi Adli Teşkilatı
1.3. Erzurum Şehrinde Sosyal ve Kültürel Hayata Dair Tespitler
A regulação do exercício profissional ancora-se, sobretudo, na associação de dispositivos legais e normas morais, condizentes com as especificidades de cada profissão, exigindo por parte de quem a exerce, uma reflexão contínua, para um agir ético, em sua prática cotidiana.
Na enfermagem, o Sistema Cofen/Conselhos Regionais foi instituído por lei, tendo por princípio fiscalizar o cumprimento dos dispositivos legais, a conduta profissional dos enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, as condições dos serviços de saúde e, principalmente, a assistência prestada aos usuários. Representa, na prática, um conselho de ética, na observância dos princípios morais, em defesa da vida.
Vàzquez (2010, p. 33) ressalta a contribuição da ética como ciência da moral e esclarece sobre sua relação com a teoria do direito. Para o autor, “[...] as duas disciplinas estudam o comportamento do homem como comportamento normativo [...]” No campo do direito, as normas são impostas (maneira coercitiva), enquanto que, na moral, elas são obrigatórias mas não impostas coercitivamente.
O autor defende a ideia de que o alicerce da ética é a moral como sistema de regulação das relações entre os indivíduos. Define ética como “[...] ciência do comportamento moral dos homens em sociedade [...]” e moral “[...] conjunto de normas, aceitas livre e conscientemente, que regulam o comportamento individual e social dos homens”. Trata-se da relação entre a ciência e seu objeto de estudo, ou seja, entre o teórico-ético e o prático-moral (VÀZQUEZ, 2010, p. 23 e 63).
Acrescenta o autor, que:
A ética nos diz o que é a norma moral, mas não postula ou não estabelece normas; estuda um tipo de conduta normativa, mas não é o teórico da moral, e sim o homem real que estabelece determinadas regras de comportamento [...]. A moral satisfaz a necessidade social de regulamentar de certa maneira as ações dos indivíduos numa dada comunidade. [...] cabe a ética examinar as condições de possibilidade da moral e, neste sentido, pode ser útil à própria moral. (VÁZQUEZ, 2010, p. 103-104).
Com base nessa referência conceitual, pode-se deduzir que, na enfermagem, a formação ética perpassa por todas as vivências relacionais da
assistência, gerência, pesquisa e organização política da profissão e, dessa forma, é premente a observância de normas morais. Trata-se de um trabalho diário com pessoas, um compromisso assumido com o indivíduo, família e comunidade, em defesa de uma assistência livre de riscos e danos e acessível a toda a população. Nessa perspectiva, o valor da vida humana é, portanto, mais que suficiente para justificar a relevância de um órgão regulador.
A moral e o direito possuem características comuns e diferenças fundamentais. São semelhantes por regular as relações humanas; pela necessidade de cumprimento das normas; pelo objetivo de garantir uma ordem social e pelo caráter histórico. São diferentes quanto à exigência de uma convicção íntima dos indivíduos para adesão aos princípios morais e a “exterioridade do direito”; as normas morais não são codificadas oficialmente e não exigem a coação estatal. Quanto ao alcance, o direito regulamenta as relações humanas mais vitais para o Estado e/ou sociedade, enquanto a moral atua em todos os espaços de convivência humana (VÀZQUEZ, 2010, p. 97-99).
Vàzquez (2010, p. 98) define direito como “[...] um organismo estatal capaz de impor a observância da norma jurídica ou de obrigar o sujeito a comportar-se de certa maneira [...]”. O progresso nas relações humanas que se busca será a substituição voluntária de uma imposição jurídica por uma moral.
O progresso moral pode ser medido e analisado pela ampliação da esfera moral; pela elevação do caráter livre e consciente dos indivíduos e grupos sociais e pela articulação dos interesses coletivos e pessoais (VÀZQUEZ, 2010).
Em sua obra de reflexão filosófica e ética, Fourez (1995) recomenda o debate ético sobre as ações humanas, incluindo as intenções e seus efeitos concretos, analisados por métodos científicos. Defende a influência da ciência no direcionamento de dilemas de ordem social, política e ética.
Para o autor, o debate ético não se inicia com a discussão de princípios e valores, mas a respeito das pessoas que sofrem e não progridem em torno de ideias fixas, e sim de conceitos historicamente construídos (FOUREZ, 1995).
O estudo da ética, seguindo o direcionamento proposto pelo ator, busca a superação de uma visão idealista que considera a moral resultante de ideias eternas tornando-se uma norma para a ação. A “ética histórica” promove o debate e análise mais aprofundada das relações sociais, encorajando os indivíduos a assumir os
riscos de suas escolhas, fortalecendo o comprometimento com o futuro (FOUREZ, 1995, p. 263).
Considera-se adequado o debate ético proposto pelos autores, quando se pretende estudar a história da fiscalização do exercício profissional da enfermagem mediante seus dispositivos éticos e legais. O caráter histórico-social do homem e, consequentemente, da moral, viabiliza a reflexão sobre as relações sociais, identificando a existência ou não do progresso da moral.
Vázquez (2010, p. 52) acrescenta que para “a construção de uma nova moral, verdadeiramente humana implica em uma mudança de atitude diante do trabalho, o desenvolvimento do espírito coletivista, eliminação do espírito de posse, do individualismo [...] considerando sempre o homem como fim e não como meio”.
Com base nas concepções de Vázques e Fourez acerca da ética e da moral, é possível apreender não somente a importância dos dispositivos legais no encaminhamento do processo de fiscalização, mas, igualmente, os limites da própria legislação.
Da mesma forma, a contribuição de Freire (2011a) é, sobremaneira, relevante ao tratar da força da educação, no processo de transformação do ser humano, na possibilidade constante, de um novo vir a ser.
Para o autor,
a condição humana fundante da educação é precisamente a inconclusão de nosso ser histórico de que nos tornamos conscientes. Nada que diga respeito ao ser humano, à possibilidade de seu aperfeiçoamento físico e moral [...] pode passar despercebido pelo educador (FREIRE, 2011a, p. 143-144).
Acrescenta, ainda, ao discorrer acerca da idealização da prática educativa: entende “como um exercício constante em favor da produção e do desenvolvimento da autonomia de educadores e educandos”. E arremata: “Como prática estritamente humana jamais pude entender a educação como uma experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos por uma espécie de ditadura racionalista” (FREIRE, 2011a, p. 145-146).
E, reportando-se a pedagogia da esperança, Freire, não quer dizer que ela sozinha possa transformar o mundo, mas defende que: “prescindir da esperança que se funda também na verdade como na qualidade ética da luta é negar a ela um dos seus suportes fundamentais”. (FREIRE, 2011b, p. 15).
Concebendo a ideia de que a conduta ética implica, necessariamente, no ato de fazer escolhas, admite-se, naturalmente, a existência de uma convicção íntima. De conformidade com Morin (2011), a ética nunca está pronta, não é um bem que se possa ser proprietário. Ela deve regenerar-se permanentemente. O que não se regenera, degenera, degrada-se.
Assim sendo, o processo educativo deve ser uma construção contínua que começa na escola e se estende por toda a vida. Nessa trajetória, o trabalho do Conselho, por meio de sua unidade de fiscalização, defendendo uma concepção pedagógica, pode contribuir para a formação de uma consciência crítica, no fortalecimento de uma conduta ética.
Nessa perspectiva, a consolidação da concepção pedagógica, no processo de fiscalização, valoriza o ser humano e potencializa as pessoas para realizar melhor e de forma mais consciente, suas escolhas, no exercício profissional.
Para Morin (2011), reportando-se aos sete saberes necessários à educação do futuro, entre esses aponta que “ensinar a condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o ensino”. (MORIN, 2011, p. 15).
Desse modo, tratando-se de uma profissão que lida, sobretudo, com pessoas, como a enfermagem, o respeito ao ser humano deve constituir o princípio fundamental da prática cotidiana, não podendo, portanto, prescindir da ética.