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Apesar de caracterizar-se como uma teoria transdisciplinar37, segundo Fairclough

(2010), a ACD é centrada na linguagem – entendendo a linguagem como o primeiro e

mais importante tipo de prática social, mesmo que não seja o único. De acordo com o autor (2004, p. 2, tradução livre):

[...] a linguagem é uma parte irredutível da vida social, está dialeticamente interconectada com outros elementos da mesma, portanto, a análise e pesquisa social sempre devem levar em conta a linguagem. [...]. Isso significa que um jeito produtivo de fazer pesquisa social é através do foco na linguagem, usando formas de análise discursiva. Não se trata de reduzir vida social a linguagem, supondo que tudo é discurso – não. Ao contrário, esta é uma estratégia analítica entre muitas outras, e frequentemente faz sentido usar a análise do discurso junto com outras formas de análise, por exemplo etnografia ou tipos de análises institucionais.38

Dessa maneira, a análise linguística ocupa um papel central dentro da proposta teórica, muito embora seu teor seja variável de acordo com cada perspectiva, cada pesquisador e, é claro, cada objetivo de análise. Na visão faircloughiana de ACD, a análise da língua e de seus componentes em diferentes níveis (fonéticos, fonológicos, morfológicos, sintáticos, semânticos etc.) é uma prioridade e deve constituir a base da interpretação social que será feita. É a partir dessa determinação que Fairclough articula a ACD com o funcionalismo, de modo a coadunar sua proposta discursiva com os

37 De acordo com Fairclough (2010), a transdisciplinaridade está ligada ao ofuscamento das fronteiras entre as

disciplinas, pois, em ACD, a análise não se limita ao texto – embora esta seja uma etapa metodológica primordial e indispensável –, na medida em que devem ser examinadas as relações dialéticas entre os discursos e as práticas sociais e entre os discursos e os recursos semióticos.

38No original: “[...] language is an irreducible part of social life, dialectically interconnected with other elements of social life, so that social analysis and research always has to take account of language. [...]. This means that one productive way of doing social research is through a focus on language, using some form of discourse analysis. This is not a matter of reducing social life to language, saying that everything is discourse – it isn’t. Rather, it’s one analytical strategy amongst many, and it often makes sense to use discourse analysis in conjunction with other forms of analysis, for instance ethnography or forms of institutional analysis”.

parâmetros da Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) de Halliday.39 Ressaltamos a explicação dada por Gonçalves Segundo (2012, p. 206) acerca do assunto:

[...] o foco da ACD reside justamente na investigação de como elementos do sistema linguístico funcionam para a representação de eventos, para a construção de relações sociais e para a estruturação, confirmação e contestação de hegemonias no discurso. Trata-se de um modelo teórico-analítico que se preocupa com a relação dialética entre língua e sociedade. Por conseguinte, coaduna-se a uma perspectiva funcionalista da linguagem, uma vez que esta postula que a língua possui funções externas ao sistema e que essas mesmas funções são as responsáveis pela organização interna do sistema linguístico. Mesmo buscando um olhar atento aos elementos linguísticos de níveis da palavra e da oração, o texto configura-se como a unidade básica de análise da ACD. Ele é o

resultado das ações dos falantes/escritores e ouvintes/leitores situados socialmente – com

grau relativo de escolha –, sempre inseridos em estruturas de poder e dominação. Consequentemente, as relações entre os participantes nos processos de distribuição, produção, interpretação e consumo dos textos são, geralmente, desiguais. Os significados que emergem dos textos, por sua vez, resultam da interação entre os falantes/escritores e leitores/ouvintes com os textos, o que faz os signos linguísticos serem resultado de processos sociais, consistindo, ao contrário do que preconizou Saussure (2006 [1916]), em conjunções motivadas entre formas e conceitos, e não em conjuntos arbitrários de formas e significados.

Ainda no que diz respeito ao papel do texto dentro da teoria, Wodak (2004, p. 224) pontua:

Nos últimos tempos, o termo ACD tem sido usado, mais especificamente, para referir-se à abordagem linguística crítica adotada por pesquisadores que consideram a unidade mais ampla do texto como a unidade comunicativa básica. Essas pesquisas se voltam especificamente para os discursos institucional, político, de gênero social, e da mídia (no sentido mais amplo), que materializam relações mais ou menos explícitas de luta e conflito. O conceito de discurso, por sua vez, configura-se como uma noção ampla cujo significado já esteve em disputa por diferentes correntes teóricas. Cabe ressaltar aqui, portanto, as características que melhor o definem tendo em vista a perspectiva da ACD. Essas características foram elencadas por Adriana Bolívar (2003) e estão sintetizadas a seguir:

O discurso é social. Nenhum discurso se cria no vazio. As palavras e os significados se constroem na/pela interação social, dependem dos grupos, dos lugares e dos propósitos pelos quais entram em uso. Todo discurso emerge em um

39 A descrição detalhada dessa vertente de estudos linguísticos será feita apropriadamente em um tópico posterior deste capítulo.

contexto social determinado e é regulado pelas convenções sociais que regem os tipos de interação em uma dada cultura.

O discurso é conhecimento. O discurso se relaciona com o modo como as pessoas percebem e interpretam o mundo à sua volta. É um dos processos cognitivos que interferem na construção e na compreensão dos significados. Também pelo discurso é possível perceber a maneira como as representações de mundo são construídas, reforçadas ou rechaçadas por meio da linguagem em contextos particulares.

O discurso é história. Os significados dos discursos só podem ser interpretados levando em conta a dimensão temporal. É na história que o pensamento e o conhecimento tomam forma e variam conforme as mudanças sociais, políticas e culturais. É somente dentro de uma dimensão histórica que podemos entender as relações interdiscursivas e intertextuais que se estabelecem pela interação social em diferentes épocas.

O discurso é diálogo. A fala e a escrita são atos sociais: fala-se, escreve-se e lê- se para alguém. Um discurso sempre responde a outro; ele nunca é homogêneo, pois é atravessado por diferentes vozes, que respondem umas às outras e que têm relações desiguais de controle e acesso ao discurso.

O discurso, portanto, é um processo abstrato, que não pode ser analisado diretamente. Ele emerge de um contexto sócio-histórico-cultural e resulta em um texto. O dever do analista é investigar esse texto, que revelará padrões relacionados aos modos de agir, de ser e de representar. É por meio desses padrões, geralmente invisíveis, que se chega ao discurso. O analista deve indicar tais padrões, torná-los visíveis ao leitor, evidenciando o discurso presente nos textos.

Benzer Belgeler