Ressalto a relevância da observação que realizei na cidade de Itumbiara aos 27 dias do mês de junho, durante o 6º Arraiá42, evento que acontece anualmente durante 11 dias consecutivos. Com uma filmadora em mãos, registrei o show da dupla sertaneja João Neto e Frederico, jovens cantores que se enquadram no gênero Sertanejo Universitário. As cenas colhidas durante o show colaboraram para a percepção das relações que os jovens tinham com o Sertanejo Universitário: gestos, comportamentos, atitudes, dança, dentre outras. Tais cenas foram utilizadas na preparação de quatro, das sete entrevistas que realizei.
Os motivos pelos quais as cenas não foram utilizadas em todas as entrevistas estão relacionados à disponibilidade de locais e equipamentos na unidade escolar. Outro fator está relacionado ao fato de alguns estudantes não comparecerem no dia e horário marcado, o que impossibilitou a reserva da sala em outras datas.
Acredito que a fase da preparação contribuiu satisfatoriamente para que os estudantes sentissem liberdade para narrarem suas histórias. Na primeira entrevista, Pedro, ao apreciar o vídeo referente ao Arraiá, relatou que estava presente no show e citou alguns momentos dos quais mais gostou.
Problemas técnicos ocorreram durante a entrevista com Pedro, como a demora para localizar algumas cenas nos arquivos, o que ocasionou longos momentos de silêncio, os quais foram quebrados com comentários informais sobre o show, os cantores e algumas músicas.
3.5.2 A elaboração dos tópicos e a condução das entrevistas
A elaboração dos tópicos foi uma etapa fundamental para o desenvolvimento das entrevistas. Ao iniciá-las, explicava aos participantes qual seria o procedimento e de que se tratavam os tópicos. O adentramento no assunto ocorria de maneira natural, já que os jovens elaboravam suas narrativas sem ter que precisar responder a uma pergunta fechada.
As entrevistas foram gravadas com a utilização de um aparelho celular (função - gravador).
Os tópicos propostos para as entrevistas com os jovens estudantes foram os seguintes:
42
O Arraiá de Itumbiara conta com apresentações de artistas consagrados nacionalmente, além de artistas locais, grupo de quadrilha, barracas com comidas típicas e Casamento Comunitário. <Disponível em http://www.rodeios.net/arraia-de-itumbiara.html>. Acesso em: 02 maio 2011.
―Gostaria que você me contasse como é sua relação com o Sertanejo Universitário‖; ―Sobre seu primeiro contato com essa música, gostaria que você me contasse como foi, onde você estava, se estava com alguém‖; ―Você poderia me contar o que essa música representa na sua vida?‖; ―Como é o seu envolvimento com o Sertanejo Universitário?‖; ―Gostaria que você me contasse como você guarda essas músicas, se você as coleciona‖; O que essa música desperta em você, que faz com que você goste tanto dela?‖; ―Você poderia me contar uma história dos melhores momentos que você teve com essa música, de tal forma que você estivesse vivendo aquele momento de novo?‖
Assim, a partir desses e de outros tópicos, que surgiam no momento das entrevistas, cada jovem respondia a seu modo sobre seu envolvimento com o Sertanejo Universitário. Importante observar que suas respostas iam conduzindo a novos tópicos e se apresentavam como dados relevantes para a investigação.
Destaco a segunda entrevista que realizei no Colégio da Polícia Militar em um banco de madeira próximo a muitas árvores no pátio da escola. Mesmo com a preparação prévia do local da entrevista (o auditório da escola), alguns impedimentos ocorreram naquela tarde. Um dos professores do colégio pediu para utilizar o auditório para ministrar sua aula com uma turma do período vespertino, impossibilitando que eu o utilizasse.
Mas aquele acontecimento nos colocou em uma situação privilegiada: uma bela paisagem serviu de fundo para aquela história.
Mateus, aos 15 anos de idade, possuía uma história que revelava seu gosto pelo Sertanejo Universitário. Ele se sentiu muito à vontade naquele lugar, pois também ali parte dessa história havia sido construída.
Verifiquei que durante as histórias contadas por Mateus e pelos outros jovens estudantes, muitas revelações e sentimentos vieram à tona. Não somente através das palavras, mas nos seus gestos e semblante, as relações construídas com essa música tornaram-se aparentes.
Bauer (1996, p. 7, tradução nossa), ao destacar a fase da narração, elenca alguns princípios:
O entrevistador se abstém de qualquer outro comentário que não seja os sinais não-verbais de escuta, ou seja, um aceno ocasional e o incentivo para continuar a narração. O entrevistador pode fazer notas para realizar perguntas posteriormente43.
43
The interviewer abstains from any comment other than non-verbal signals of attentive listening, i.e. an occasional nodding, and encouragement to continue the narration. The interviewer may take notes for questions later.
Na minha atitude de entrevistadora, deixava que os jovens falassem sem interrompê-los; por vezes balançava a cabeça num ato de incentivo e de proximidade. Quando por algum motivo eles silenciavam, tentando lembrar-se de algum fato em especial, eu os aguardava sem nenhum comentário, e sempre gesticulando com as mãos e com a cabeça solicitava que continuassem suas histórias.
O momento de questionamento foi uma possibilidade de aprofundar em alguns temas mencionados nas histórias, tais como a questão da audição das músicas, o aprendizado do violão, dentre outros.
Na entrevista com a jovem Ana Paula, a estudante falou sobre como ouvia as músicas. Como não havia ficado claro quais eram as suas práticas de audição, formulei uma questão com vistas a sanar as dúvidas que apareceram. Perguntei quais eram os lugares em que ela mais ouvia música sertaneja, se em casa ou com os amigos e os dispositivos que utilizava para ouvir, se o computador ou o Mp3, dentre outros.
Não se trata de fazer uma lista de perguntas e levá-las para a entrevista, mas a fase de questionamento é uma oportunidade que temos para explorar temas importantes para a investigação. Flick sugere os tipos de pergunta a serem formulados nessa fase: ―[...] fazer perguntas do tipo ―como‖, para, então, apenas posteriomente, complementá-las com perguntas do tipo ―por que‖, visando a explicações‖ (FLICK, 2099, p. 166, grifos do autor).
Todas essas experiências que vivi no campo empírico proporcionaram uma real experiência com a pesquisa, sem as quais acredito que não poderia almejar alcançar os objetivos propostos.
3.6 Critérios para o registro e a análise dos dados